| foto por @rbueloni |
TARDE DE MARÇO
O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada
trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão
paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou
uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de
entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde
Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de
tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.
O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve,
quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa,
típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito
soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia
e a cada dia se convencia mais de sua certeza.
Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora
portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia
pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de
quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao
redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles
deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia.
Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem
celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo
daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo
viço.
Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os
últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e
avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma
sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação.
Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não
tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade
seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam
algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à
deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.
Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um
bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele
vinho do Porto após o jantar. Bjs”.