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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Conto: Arembepe

 


AREMBEPE


Ela deixou suas pegadas na areia escura da praia deserta. Abraçada pela brisa do mar, que salpicava sua pele com a maresia, sentiu uma enorme liberdade borbulhar em seu coração. Desconectada, tinha apenas o céu azul, imenso e rabiscado por algumas poucas nuvens, como tela para contemplar. Nenhum recado de whatsapp ou email para responder, apenas a areia da praia, o mar, o céu, os coqueiros, a companhia da amiga. Pancetti se encantaria com a vivacidade das cores e retrataria de forma magistral em uma de suas telas, pensou.

A cabeça ainda girava com ideias para projetos e iniciativas, mas apaziguava estas inquietações, deixando o sol lhe acariciar a pele e espantar a tez cor de escritório paulistano. Não havia ninguém ao redor. Tudo deserto a perder de vista. Caminhou pela praia sem rumo, sem medir os passos, sem contar calorias ou ritmo, apenas caminhou e deixou que as ondas beijassem seus pés. A água morna massageava aqueles pés cansados. Ah, como era bom andar descalça, sem compromisso, sem horário, sem metas ou horários a cumprir!, pensou e deixou-se inundar pela calma e tranquilidade do lugar.

Os óculos de sol filtravam a luz que se projetava nos olhos âmbar. O azul ficava mais vivo por detrás das lentes. O verde estava mais intenso e a claridade era domada. Deitou-se sobre a canga e apenas deixou o tempo passar. Fechou os olhos, tirou os óculos e respirou profundamente. A alegria tomava-lhe o corpo e atiçava a alma. Se tivesse encomendado um dia para iniciar as férias, não teria pensado em algo tão perfeito e belo. A vida tem destas surpresas e agradeceu por estar ali, viva e contemplando toda aquela beleza. Talvez o que lhe faltava era exatamente a coragem para fugir do agito e mergulhar no silêncio de Arembepe.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pegadas no riacho






Caminhava nas águas geladas do riacho sombreado, deixando que os seixos massageassem seus pés. O calor intenso era interrompido quando levava a mão até a água e jogava um pouco sobre o rosto e o corpo. Havia uma sinfonia de pássaros, insetos, folhas e galhos a balançar com o vento quente do verão que pouco refrescava. Aquele concerto da natureza, gratuito, mas tão despercebido por muitos, era o que precisava para apaziguar a alma. Sempre que podia, fugia para aquele recanto, afastado da civilização, onde o céu era de um azul profundo, onde a terra era vibrante e o verde das árvores retorcidas tinha se desbotado ao longo da estação.

Parou por um instante e olhou fixamente para fundo do riacho. A água lhe acariciava os joelhos. As pegadas trilhadas pela água não deixavam rastro. As pedras repousavam no leito do riacho, adormecidas por anos, silenciosas, até que fossem despertadas por uma intrusa. Pensou em levar algumas consigo, mas desistiu. A harmonia era tanta que temeu desequilibrar tudo que a cercava. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se ouvir o cantar da natureza. Ergueu os olhos para o alto, um céu sem nuvens ou qualquer traço de cor que não fosse matizes de azul, e agradeceu pela dor, pelas lágrimas, pela alegria do momento, pela vida que ainda lhe restava.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Abraço do silêncio





Ainda me causas sorrisos espontâneos em momentos de final de dia, de silêncio terno e confortante. A raiva deve ter partido, não tendo encontrado morada duradoura no meu ser, apesar de um esforço enorme em transformá-la em esquecimento definitivo. Deve ter sido afugentada pelas palavras guardadas e ditas em voz alta quando estou só. Tua voz, tua entonação, teu carinho, teus suspiros. Não sou bom imitador, mas consigo reproduzir teu jeito, teu sorriso de canto de boca em meio à fumaça, tuas mudanças de assunto repentinas que pareciam testar se eu prestava atenção em cada palavra. Eu sempre prestei atenção em ti! Quando estava contigo e quando estava distante fisicamente, sempre cuidei, zelei, rezei e pensei em ti.


Curioso como os detalhes que permanecem, remanescem como pequenos brilhantes guardados numa caixinha de joias, como se fossem lágrimas de alegria que se transmudaram em pequenas pedras preciosas. Gozado como o coração é um bicho teimoso, danado, mesmo quando a cabeça é tomada pela labuta diária, pelas preocupações da rotina, o coração vem e expulsa o racional deixando o silêncio do final do dia com gosto de beijo, com jeito de abraço, com cheiro de lavanda. Gozado como a memória é gentil nestas horas e espanta qualquer cisco de indiferença. Nunca consegui ficar indiferente a ti. E continuo sem ficar. O tempo, ah, o tempo pode ajudar, mas suspeito que serei acometido de muitos abraços do silêncio, de beijos ternos da memória e agraciado com sorrisos que só eu entendo e que são só meus. Só meus.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Epígrafe - XVII




"Não tenha medo da solidão. Sempre que esta o afligir, valha-se de um bom livro, a um canto, em silêncio. Verá que passou a ter a solidão acompanhada, com a qual a vida sempre se enriquece."

(Josué Montello. Diário do Entardecer. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 247)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sonoridade



"O 'o', que ela pronunciava surpreendentemente como um 'u', a sonoridade clara, estranhamente abafada do ê e o macio chiado no final soaram-lhe como uma melodia que, para ele, perdurou mais tempo do que na realidade, uma melodia que ele simplesmente adoraria ter escutado durante todo o resto do dia."
(Pascal Mercier. O Trem Noturno para Lisboa. 3a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2009, p.15)

Feche os olhos e escute. A sonoridade da voz, com seu timbre próprio, com a entonação peculiar, com um sotaque. Nos tempos em que o telefone não denunciava quem estava do outro lado da linha, éramos tomados de alegria ao ouvir do outro lado da linha uma voz conhecida. A alegria ressoava e era denunciada pela entonação. O rádio ainda nos convida a fazer este exercício auditivo, a imaginar a pessoa que é titular daquela voz.

A sonoridade da voz é o ponto de partida, a faísca, que altera o ritmo do batimento cardíaco, que arrepia, que nos emociona. A música, como trilha sonora de um filme, ou de um momento especial, marcam de forma indelével a memória do filme da vida de cada um.

Prendi-me a este trecho inicial de O Trem Noturno para Lisboa que ecoou ao longo de minha leitura. Este post estava em fase de gestação, até que ontem, ao ler a notícia da morte do Lombardi, o famoso locutor dos programas do Silvio Santos que nunca mostrava o rosto. Sua identidade era a voz. Assim como Cid Moreira, Jânio Quadros, Paulo Maluf e tantos outros que nos marcaram pela sua voz.

A voz, como na obra de Pascal Mercier, pode romper barreiras e derrubar muros. Certa vez um amigo narrava-me que havia deixado de odiar o jeito de falar dos cariocas. Surpreso com esta revelação, pois era um bairrista convicto, perguntei-lhe o que havia acontecido. Ele, com um brilho nos olhos, dissera-me que uma carioca da gema havia encantado-o com sua voz. Ouvira a voz, antes de contemplar seus olhos, e aquela voz o arrebatara de forma a mudar radicalmente sua visão do sotaque carioca.

Uma voz, uma música, um som. Uma palavra dita com ternura e carinho. Um conselho sussurrado em segredo. A audição nos presenteia com todos estes mimos. A voz amiga mata a saudade e impulsiona a novos sonhos e voos. A sonoridade nos lembra constantemente que não estamos sós.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Signs

A qualidade de um filme não está no tempo de sua duração, mas na mensagem que é transmitida ao público.

Signs é um curta dirigido por Patrick Hughes, diretor australiano, e foi concebido como um comercial. Um filme genial que poderia gerar um longo post sobre a solidão, sobre como um olhar poder mudar uma vida, sobre como sentimentos modificam a rotina mais entediante, e por aí vai. Todos temas já tratados e discutidos neste blog, quer em comentários de livros, quer em posts independentes.

Signs dura 12 minutos e capta a atenção, emociona, toca e faz sorrir.


A dica original é do caderno de TV do Estadão de ontem (22 de março de 2009). O vídeo pode ser assistido pelo link, que o levará diretamente ao site do diretor.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Crônica: Voz no silêncio

(Pôr do sol em Punta Del Este)


VOZ NO SILÊNCIO

- Eu gosto do final de tarde – ela disse com uma voz hesitante, como se tateasse um quarto escuro e não pudesse ver as coisas ao seu redor, como se aquelas palavras fossem a senha para deixar vazar o que tinha dentro de si e que ganhava coragem para falar-lhe. – Você não gosta? – emendou a pergunta retórica, enquanto seus dedos brincavam com o isqueiro sobre a mesa e o olhar baixo, desviando dos olhos de Roberto.

- Eu gosto sim. – respondeu sem firmeza, esperando ansioso o que viria a seguir.

- Fico com um sentido de vitória quando chego ao final do dia, como um corredor que vê a linha de chegada, estende os braços no ar e é tomado de um sentimento de missão cumprida. Mais um dia! Não que encare isto de forma negativa, mas é um sinal de sobrevivência, de luta constante. O pôr do sol me traz um sentimento de alívio, que me inunda. Um sentimento de serenidade que aumenta com o cair da noite, com a escuridão e o silêncio que vem com o avançar das horas, quando a cidade parece adormecer e o menor ruído é facilmente notado.

E continuou sua fala observando o olhar atento de Roberto na tentativa de descobrir o que se passava naquela cabeça, na tentativa de ouvir sua voz no silêncio dos pensamentos.

- Gozado que não me sinto sozinha. Não temo os momentos solitários, que são quase diários. Tenho prazer nesta solidão aparente que permite ficar a sós comigo mesmo, a me ouvir.

- Mas como assim, aparente? – perguntou, inquieto e um pouco incomodado pelo discurso solitário que se descortinava diante dele, como se ela declarasse que não havia espaço para ele na vida dela.

- Aparente porque preencho estes momentos com pensamentos deliciosos, com boas memórias e lembranças, com música, com leituras...ou simplesmente fico olhando o céu e a noite, à procura de estrelas escondidas no céu claro da cidade.

Ela fitou-o e sorriu. Um sorriso maroto acompanhado de um olhar que lia seus pensamentos. Com o dedo indicador, tocou-lhe a ponta do nariz.

- Eu sei o que você está pensando seu bobo! Estes momentos são muito melhores quando você está comigo! Não se preocupe. Posso parecer estar só, mas muitas vezes tenho você no pensamento. – e o sorriso fácil tomou-lhe o rosto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Solidão Dissipada





"O destino costuma estar na curva de uma esquina." (p. 188)


"Mas os anos passaram em paz. Quanto mais vazio está, mais rápido o tempo passa. As vidas sem significado passam ao largo como trens que não param na estação." (p. 354)


(A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón.)


Vazio. Desprezo. Esquecimento. Todos estes sentimentos poderiam descrever a solidão, sem, porém, captar toda a sua dor. A solidão é árida como um deserto, fria como uma paisagem gelada, invisível como o ar. A solidão é um punhal que se aprofunda na carne a cada movimento, a cada dia, a cada gesto. A solidão transforma o silêncio em algo ensurdecedor, como se a música mais odiosa estivesse ligada no mais alto volume. A solidão definha, amarfanha, corrói todo o ser.


O vazio trazido pela solidão leva a um caminhar sem rumo. Passamos a ser passageiros sentados num banco do ônibus indiferentes à paisagem que nos rodeia e entregues ao destino que o condutor nos traça. O ponto final da jornada pode chegar quando o ônibus pára; ou podemos despertar do transe ao olhar para fora da janela do veículo e captar um brilho. Uma luz que emana de um olhar de um transeunte, de alguém que ao acaso encontra-se na curva de uma esquina. O destino nos arrebata e fulmina de morte a solidão.


O campo árido, regado pela chuva, rejuvenesce e brotam os primeiros sorrisos que dissipam a solidão. Drummond, com toda sua lucidez de interpretar a vida e os sentimentos, escreveu:


"Onde não há jardim, as flores nascem de um
Secreto investimento em formas improváveis
."


Formas improváveis trazidas pelo destino. Um sorriso. Um pingo de luz notado num olhar sincero. Uma palavra carinhosa. Um simples cumprimento que nos valoriza, que nos revela que somos notados e importantes. Um sotaque aparentemente irritante se transforma em música para os ouvidos. Música que mexe com alma. Voz que mexe com o coração. Palavras que seduzem. Risos que inebriam, contagiam, que se multiplicam em dias, meses, anos...momentos inesquecíveis, rememorados nas horas de escuridão e aflição.


A solidão se dissipou. Tudo obra mágica de alguém que estendeu a mão e conduziu-me para fora do ônibus. Tudo obra de um coração precioso, de uma alma iluminada, de uma semeadora de sorrisos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Introspecção, de Vinicius de Moraes


 

INSTROSPECÇÃO

 
 

Nuvens lentas passavam

Quando eu olhei o céu.

Eu senti na minha alma a dor do céu

Que nunca poderá ser sempre calmo.

 
 

Quando eu olhei a árvore perdida

Não vi ninhos nem pássaros.

Eu senti na minha alma a dor da árvore

Esgalhada e sozinha

Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

 
 

Quando eu olhei minha alma

Vi a treva.

Eu senti no céu e na árvore perdida

A dor da treva que vive na minha alma.

 
 

(As Coisas do Alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 39)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Crônica: Sem Vento

O tempo parecia parar. O ronco dos carros parecia silenciar. O sol da tarde de outono não esquentava e iniciava o recolhimento por detrás do horizonte, mais cedo dos que nos longos dias de verão. Era um sábado. O livro, que repousava sobre suas mãos, era percorrido sem que as palavras fizessem algum sentido, ou que se atentasse para o drama dos personagens. Só lhe interessava o seu drama. O livro era mera distração para deixar o tempo caminhar no seu ritmo peculiar.

Tudo estava igual, mas diferente. Um senso de estranheza arrebatou-lhe, como se olhasse a realidade de fora, do alto, como se ele não pertencesse a esta realidade. Sentiu-se um hóspede dentro de sua própria casa, um alienígena num planeta distante. Teve vontade de fugir, de sair correndo, sem rumo. Teve vontade de gritar qualquer coisa, pois estava mudo. Teve vontade de chorar, de se esconder.

O sol se pôs e ele não acendeu o abajur na mesa lateral. Deixou a penumbra invadir a sala. Falta de luz que se harmonizou com o seu interior. O veleiro havia arriado as velas. Não havia vento. Estava à deriva há alguns dias, mas só hoje percebera sua imobilidade. Absorto na rotina, não notara que a vida passava, mas o barco não se movia. Não havia vento. Ou melhor, não havia rumo traçado, nem objetivo a ser perseguido. Esquecera-se da rota e deixou-se perder na espera.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Crônica: Ampulheta



AMPULHETA


Descalço, o chão ainda quente com o calor do dia, atravessou a sala semi-iluminada, afastou a grande porta de correr, que mais parecia uma enorme janela, e saiu para o deck de madeira que dava acesso ao gramado frontal da casa, que por sua vez esticava-se até a areia da pequena praia privada. Bem, deveria ser pública, mas só se chegava à praia depois de passar pela portaria do condomínio e caminhar por cerca de dois quilômetros de subidas e descidas.

Roberto acendeu um cigarro, enquanto a leve brisa da noite roçava seu rosto e a ondas do mar davam a música de fundo, quebrando o silêncio da solidão. O céu recoberto de pontos brilhantes, numa noite clara, porém sem lua. A maresia trazia consigo um ar indigesto. O aroma lhe incomodou e tossiu, como se estivesse nauseado, uma tosse intensa, longa, alta. Ninguém o ouviu, pois todos já haviam adormecido. Estava sem sono. Talvez fosse o cigarro que lhe causava aquela náusea; talvez a discussão com a mãe; talvez a sensação de que a aparente solidez de sua vida começara a ruir. Grãos de areia escorrendo silenciosamente como se seus dias fossem uma ampulheta.

Tragou novamente o cigarro e soltou a fumaça numa longa baforada para o alto. Gostava de fumar e isto irritava profundamente sua mulher. Estava pouco preocupado com o que a irritava de uns tempos para cá. Sentiu-se egoísta com este pensamento, mas era verdade. Tinha que ser sincero consigo mesmo, recomendara um amigo psicanlista. É preciso perder o medo da verdade e de dar nome às coisas. Chega de devaneios e de juízos parciais, Roberto. O obstáculo a ser vencido porém, não era dar nome às coisas, mas sim externá-las, dizê-las em alto e bom som. A mulher não o ouvia, ou fingia não ouvir. E Roberto tinha medo de falar.

Durante toda sua vida, ouvira dizer que a comunicação é o segredo da longevidade de todo casamento e de todo o relacionamento. O amor vence as barreiras linguísticas e ataca corações, ainda que os seres não falem o mesmo idioma. O amor ataca sem aviso, sorrateiro, invade lentamente o ser, e domina-o, estrangulando-o, anestesiando-o, desnorteando-o. Quando se dá conta, o coração já sequestrou a razão e esta, coitada, se vê perdida num canto da vida, no aguardo de que o coração bobeie e a razão retome as rédeas da montaria.

No início conversavam longamente, sem tempo, sem relógio, sobre tudo. Perdiam-se com as conversas. Temas variados, nunca entediados, sempre com sorrisos, beijos e carícias, longos abraços. Aquelas tardes na rede do sítio, tardes sem pressa, tardes para simplesmente ficar juntos. Dilemas, discussões, entreveros eram superados com bom senso, sorrisos e um sendo convencido pelo outro a mudar de posição. Claro que não concordavam com tudo, mas sempre algum deles cedia e tudo acabava bem, com um longo beijo na boca e um sorriso renovado.

“Jamais durmam sem resolver uma briga!”. Ouvira o conselho no curso de noivos na Igreja de São Gabriel. Não se lembrava de muita coisa daquele curso, apenas deste conselho. E seguiam-no à risca. Até que algo estremeceu e o conselho perdeu seu vigor. Roberto parecia cansado de ceder, de atenuar as coisas, de abrir mão do que pensava e achava. As implicâncias aumentavam, com coisas banais e outras relevantes. Tentara falar. Em vão. Novamente, conversaram. E a resposta, foi desanimadora. Parecia que dialogavam em dois idiomas completamente diferentes, ou melhor, não dialogavam. Eram monólogos, discursos lançados ao vento, sem ouvintes, sem platéia e sem que o teor fosse compreendido. Por vezes, Roberto tinha vontade de rir. Tudo era muito estranho, cômico até, pois não se entendiam. As brigas eram mais frequentes. As discussões constantes e a paz evaporara, assim como a fumaça do cigarro. E voltara a fumar sob o pretexto de que estava estressado no escritório e com bloqueio para escrever. A verdade ele sabia. O cigarro tinha a função de irritá-la. Ou talvez afastá-la, forçá-la a tomar coragem e decidir por ele. Ela encararia a verdade que ele temia e se recusava a trazer à tona.

O plano passou a ser este. Roberto agiria de forma proposital para que ela tomasse a iniciativa, para que ela provocasse uma briga final, para que ela desse um basta ao relacionamento, para que ela ficasse na situação de vencedora diante de um fracassado. O cigarro era um primeiro passo. Roberto pensou em esticar mais as viagens a trabalho, talvez numa viagem de sexta-feira, voltaria somente no sábado. Precisava de uma estratégia e de um plano. Acendeu outro cigarro e com o olhar nas estrelas, iniciou a planejar uma forma de romper com a mulher sem que tivesse que se desgastar. “Doce ilusão”, pensou consigo mesmo.” Já estou desgastado. Já estou drenado, agora só me falta a coragem.”


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Trechos de silêncio




"(...) Não, é um triste light. Depois, segue-se uma pausa. Para que reparemos como o silêncio é algo realmente genial. Todos têm o silêncio à sua disposição, mas apenas os artistas sabem usá-lo bem, ou tão bem. Mozart, neste caso, o faz como um quieto milagre de perfeição. Uma pausa como esta primeira, em 'Fantasia', depois daquela introdução vaga, serve para nos dar a consciência de como o vazio é repleto do divino. Sete segundos, de puro nada, e começa de novo a melodia, desta vez de forma mais delicada.(...)"


(Fernanda Young, Tudo que você não soube. Rio de Janeiro : Ediouro, 2007, p. 49)




O silêncio tornou-se um bem estranho, escasso na vida moderna, e talvez por isso, muito precioso. Invariavelmente, volto para casa dirigindo no silêncio. Não ligo o rádio. Vou ouvindo ou 'conversando' com meus pensamentos. Pensamentos silenciosos que talvez só eu ouça, que talvez não sejam sentidos - ou talvez sejam 'ouvidos' à distância -, mas que transportam-me para longe. Abstraio o trânsito, o cansaço, as contrariedades do dia.



O silêncio faz-me flutuar, leva-me a locais distantes, a imaginar rostos e sorrisos, a sonhar, a apreciar a beleza oculta da cidade. E é sempre um perceptível que este aparente vazio "é repleto do divino." Rejuvenesço nestes momentos que são energizadores.


Final de tarde é momento de refúgio. É momento de silenciar, de dedicar tempo ao que vale a pena. Recuso-me a atender o celular ou o telefone do escritório. Desfruto do silêncio, mas que jamais é solitário. Insipiro-me no silêncio e escrevo. Alguns textos para o blog, outros textos pessoais. E sei que o silêncio dá frutos, como a semente lançada na terra. Frutos, por vezes, invisíveis, mas sempre alegres e formosos. Frutos que ganham forma de palavras e o silêncio ganha vida.


Silêncio que nutre a alma de bons sentimentos e que dá coragem para compartilhar os bons sentimentos. Silêncio que é rico e iluminador. Silêncio que permite refletir e compreender um pouco deste mistério que é a vida. Silêncio - o seu - que convida-me a te entender, a me preocupar, a estar do seu lado.


sábado, 3 de novembro de 2007

Vinicius de Moraes : Revolta

REVOLTA

Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada.

Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.

De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 65)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Crônica: Quadro desbotado

(Edvard Munch - Melancolia)



QUADRO DESBOTADO



Recostado no batente da porta, no quarto escuro, deixou-se perder nos pensamentos, sozinho, deliciando-se com o silêncio. Ele não queria voltar à sala e dar seqüência a mais uma discussão com Mariana no final do dia. Esta era uma das razões que tanto ansiava pelo domingo à noite, pelo fim do descanso semanal. Nas noites que antecediam o começo da semana, dormia mal, um sono irrequieto, ansioso para retornar ao trabalho e fugir do ambiente pesado. A crise se agravara e mesmo tentando ser divertido, mesmo tentando minimizar os problemas, sucumbia. Suas forças estavam sendo exauridas por todas aquelas situações, algumas banais, outras mais sérias, mas nada que não pudesse ser contornado.

Desfalecia diante da insistência de Mariana em perpetuar conversas que não levavam a lugar nenhum, que não apresentavam soluções ou propostas de melhoria no relacionamento. Discutiam a relação quase todas as noites, e isto o esgotava, drenava lentamente a seiva da alegria. Talvez abordasse tudo de forma muito profissional, seca, mas era o jeito dele. A filha começara a notar o ambiente tenso e conflituoso que se instalara naquela casa, que aos poucos deixava de ser um lar acolhedor e passara a ser apenas uma residência, um local onde pessoas moravam, comiam e dormiam. O afeto foi evaporando. Pedro fugia dos carinhos, fugia das tentativas de enlace das mãos. Não conseguia ser duplo: ouvir silenciosamente as agressões e agir como se nada estivesse acontecendo. Deixava-se ficar longe, ausente, evitando ao máximo o conflito. Seus esforços caiam na vala comum da mesmice e tudo era em vão. Quando tentava ser invisível era notado, e quando queria – ou precisava – ser notado, passava despercebido.


As cores vivas da vida haviam desbotado, perderam a vibração que contagiava e alegrava aquela casa, como um quadro velho, empoeirado, jogado num canto escuro de um depósito de museu.


sábado, 14 de julho de 2007

Crônica: Distância



Depois de alguns dias de férias, Roberto sentia-se fisicamente descansado, recuperado dos meses de trabalho, das horas em claro, das reuniões entediantes, dos relatórios, planilhas e telefonemas. Algo ainda o incomodava. Ele não conseguia importar aquele clima de alegria externa que permeava todos ao seu redor naquele hotel de praia do nordeste. Todos bronzeados, animados, sorrindo, cantando, comendo e bebendo. Felizes - ou ao menos assim se mostravam - com sorrisos largos, como se estivessem em pleno carnaval e aqueles dias fossem durar o resto de suas vidas.


Roberto percebera um abismo entre o clima exterior de alegria e o vazio interior. Enquanto tudo parecia colorido para os outros, para ele, tudo era cinza, em vários tons, mas sempre cinza. Deixara de se encantar por coisas que o alegravam, que o empolgavam. Os carinhos e palavras da mulher eram tratados como se estivesse despachando numa reunião com seus funcionários; as brincadeiras dos filhos arrancavam-lhe um sorrisinho, tímido, amarelo, superficial; o sol, a praia, o céu, os coqueiros e todo aquele cenário não o faziam suspirar. Sentia-se um alienígena, ausente. Sim, ausente. Era esta a descrição que Roberto procurava. Encontrava-se ausente, mas ausente por quê? Não sabia a resposta.


Deu-se conta, que num determinado momento de sua vida, não se lembrava quando, nem onde, nem a razão deste momento ter aparecido, seu coração bateu mais devagar. O olhar carinhoso e eletrizante da esposa murchara. A beleza do rosto se tornara desfocada. O silêncio passou a reinar nos jantares. Teria sido ele o culpado por todo este vazio que agora ampliava seus domínios e corroía todo o seu interior? Era bem capaz de ser ele o culpado por tudo isto. Sem perceber, fechou-se em si mesmo e expulsou todos de sua vida. Deixou todos de fora de seus pensamentos, de suas vitórias, de suas angústias e de suas derrotas. Lutou solitariamente e agora estava só. Abandonado, porém com todos ao seu redor.


Roberto saiu para caminhar na praia, depois do jantar, sob a lua e a brisa da noite. Solitário, como andava nos últimos anos. "Meu Deus, como deixei que tudo isto acontecesse?"- perguntou-se em voz alta. Estava perplexo, mas finalmente havia entendido a razão de seu vazio. Sabia o que tinha que fazer e vencer a inércia iria ser difícil ou até insuperável. Precisava reconstruir a ponte que ele mesmo havia implodido e tentar. Tentar e recomeçar, como tudo na vida.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Crônica: Só, na noite.


As crianças adormeceram e ele saiu do quarto silenciosamente. O silêncio reinava na casa. Havia uma paz de início de noite, sem ruídos. Estava sozinho pela primeira vez desde que os filhos nasceram. Marina havia viajado a trabalho e ausentava-se num dia de semana à noite.




Sentiu uma profunda liberdade, algo que não havia sentido há anos. Caminhou até a varanda e ficou a admirar a noite, degustando aqueles momentos de solidão, sozinho. O sentimento que mais temia, o sentimento que o levou a casar-se com Marina, agora era nutrido e enchia-o de satisfação. Não tinha que ficar conversando com ninguém. Podia conversar com seus pensamentos, conversar consigo mesmo, sem interrupções, sem brigas, sem discussões. Estava só em um ambiente que lhe era familiar. Tudo aquilo era novo, pois já estivera só em viagens, em quartos de hotel, caminhando no meio da rua ou num almoço. Algo de diferente havia naquela situação. Quando viajava, era um forasteiro, agora era um nativo no seu habitat natural. Estava tranquilo e sereno. Surpreendeu-se ao sentir-se confortável com a solidão.

O que mais temia na vida era ficar só, mas agora ansiava por momentos como este. Pensamentos confusos, sentimentos inexplicados rondavam sua cabeça. Não ficou admirado com o fato de não sentir ciúmes da mulher, de não querer saber onde estava ou com quem estava. Estava bem consigo mesmo, e isto era o que importava. Algo de sublime possuía sua alma, algo que não conseguia descrever ou entender. Afastou a lógica e a racionalidade e simplesmente degustou aquelas horas na noite adentro. Só, na noite.

sábado, 19 de maio de 2007

Crônica: Prisma



Pedro retornou ao hotel extenuado. Esperara por ela mais de 2 horas e nada. Nem uma ligação sequer, nem um recado. Nada. Seu orgulho não permitiu que ele ligasse. Seria orgulho ou seria um senso de derrota, um sentimento de rebaixamento, de fazer pouco caso de si mesmo? Tudo estava muito confuso, seus pensamentos obnubilados por aquelas horas sentado no bar no centro de Curitiba. Simplesmente esperando. Estava desconfortável no bar, envergonhado, ansioso, mas havia pressentido algo de ruim. Algo de negativo. Parecia que todos olhavam para ele e que todos sabiam que aquele homem havia levado um belíssimo “cano” de alguém. Em certo momento saberiam que ele esperava uma mulher, mas hoje poderia ser outro homem. Pedro não tinha traços efeminados e não levantaria qualquer suspeita. O burburinho deixava-lhe passar quase que despercebido, porém sentia-se como diante de um canhão de luz, como se estivesse sozinho no palco e tivesse esquecido o texto por completo.

Abriu a porta do quarto, escancarou a da varanda e debruçou-se sobre o parapeito. Suspirou lentamente. Uma certeza tomou-lhe a alma: era o fim. Seu coração chorava lágrimas profundas e apertava-lhe o peito. Soluçava num pranto que lavava-lhe a alma. A intuição que sentira naquela manhã, antes da viagem, agora se confirmava. Temia confrontá-la e viu-se agindo como Bentinho diante do suposto adultério de Capitu. Qual Dom Casmurro, Pedro iria decidir por si próprio. Iria fugir.

As lágrimas aos poucos secaram e não se ouviam mais seus soluços, nem seus gemidos. Pedro era covarde e desistia fácil. Não acreditava em si mesmo, apoucava-se, fabricava mentalmente uma visão acerca de si mesmo que não cabia na realidade. Era algo fantasioso, onde era visto como um ser desinteressante, sem valor, despido de qualquer encanto ou beleza física ou moral. Via-se no espelho como um ser amorfo, sem nenhum tempero. Um homem insoso. Esta forma de se ver lhe paralisava, quase que lhe trazendo um constante pânico de lidar com determinadas situações. E abrir-se com Luciana era uma delas. Tinha medo.

Simples assim: tinha medo! O mantra do temor ressoava internamente e o medo se agigantava. O racional transformava uma simples ligação telefônica em algo imenso, impossível, um obstáculo intransponível. Luciana não queria encontrar-se com ele. Pedro insistiu. Ela foi reticente, mas disse que tentaria. Com grande esforço, Pedro havia insistido. Seria uma despedida e quem sabe até culminaria com um beijo que poderia reacender uma chama apagada no interior de Luciana. Agora o fracasso lhe caía sobre os ombros e devastava-lhe a pouca auto-estima.

Abriu uma garrafinha de uísque que estava sobre o frigobar do quarto de hotel e atirou-se no sofá. Refestelado, tomeu um gole de uísque e disse:

- Eu hei de te esquecer, mas não precisavas ser assim...não precisava ser cruel comigo.

Enxugou as lágrimas que restavam e ligou a televisão em busca de algo para lhe distrair até que caísse no sono.