| Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro
incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que
prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se
ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e
extremamente enriquecedor. Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de
maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida
pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela
Rothko. A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada
por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte
no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras
surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró,
Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros. Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção
octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é
permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do
exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas
aqui: site ). No exterior, não
é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico.
Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito
histórico de Houston. Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e
mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância
e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas
retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do
século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam
as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um
sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em
diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta
análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte. Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela
sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura,
em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos
diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de
ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente
para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito
escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele
tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues
pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade,
fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e
beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos.
Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido
uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e
sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de
serenidade e paz. Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta
alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando
nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora
entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores. Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música,
mergulhe na cultura local! |
Visão ao longe
sexta-feira, 29 de maio de 2026
A Capela Rothko
sexta-feira, 17 de abril de 2026
No aeroporto
| @ rbueloni |
No aeroporto
Procurei uma poltrona que permitisse uma boa visão da pista e do pátio de manobras das aeronaves no aeroporto de Guarulhos. O cenário era rotineiro, trivial eu diria. Uma nova viagem, a espera na sala VIP e alguns momentos para contemplar o sobe e desce dos aviões. Voar sempre me fascinou desde criança. Acho que herdei esta paixão do meu pai.
Andei de avião pela primeira vez em 1973, quando a família
mudou-se para Miami. Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Partimos de São Paulo
rumo a Miami num voo da Varig. Não lembro de mais nada além disso. Sei que
embarcamos em Congonhas, que recentemente completou 90 anos de existência. Um
lugar onde fui várias vezes com meu pai ao terraço que existia e que dava uma
vista completa da pista e do pátio. Electras, Boeings 727, 737, Fokkers 100,
Brasílias. Os grandes aviões a cruzar os céus em voos longos: o jumbo 747, o DC-10, o A340, o A330, o 767 e o 777. Voei em todos e para vários destinos. Congonhas era um ponto de
partida frequente até para voos internacionais anes de Guarulhos ficar pronto.
Os aviões partiam rumo ao Galeão, onde a Varig distribuía os passageiros em
seus voos internacionais.
Voar era e continua a ser um fascínio. O encanto não foi
perdido, apesar de alguns perrengues que se enfrentam hoje em dia na aviação.
Cadeiras apertadas, passageiros mal educados, transtornos na segurança, salas VIP
que deixaram de ser VIP, aeroportos antiquados e inadequados para o volume de passageiros atual. Mas, mesmo assim, sentar-se na
janelinha e contemplar o mundo do alto, como um pássaro é algo sempre traz um
gosto de novidade. Talvez o voar me faça reviver a infância novamente.
Estava lá eu perdido nos meus pensamentos, vendo os aviões
subirem e descerem quando ouvi a voz de um menino que devia ter uns 14 ou 15
anos. Uma palavra apenas, um chamado:
- Pai!
O timbre da voz lembrava a do meu filho. Naquele momento
banal fui transportado para o lado do meu pai. Meus olhos marejaram, contive um
soluço e o choro que queria brotar. Disfarcei. Por alguns momentos eu era uma
criança no aeroporto olhando os aviões ao lado do meu pai. Senti sua presença
comigo, como seu braço repousasse no meu ombro e me apertasse para junto dele. Respirei
fundo, sorri e pedi a Deus por ele.
PS: Amanhã meu pai, que faleceu em 2018, faria 81 anos.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Conto: Tarde de março
| foto por @rbueloni |
TARDE DE MARÇO
O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada
trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão
paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou
uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de
entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde
Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de
tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.
O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve,
quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa,
típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito
soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia
e a cada dia se convencia mais de sua certeza.
Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora
portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia
pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de
quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao
redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles
deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia.
Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem
celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo
daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo
viço.
Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os
últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e
avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma
sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação.
Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não
tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade
seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam
algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à
deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.
Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um
bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele
vinho do Porto após o jantar. Bjs”.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Conto: O sol de Montevideo
| foto by @rbueloni |
O sol de Montevideo
O trajeto do aeroporto de Carrasco até o hotel demorava
pouco menos de uma hora. Jordi aguardava por Eugênio na área de desembarque.
Não havia necessidade de uma placa de identificação, pois Eugênio ia todo mês a
Montevideo e por lá ficava alguns dias. O motorista da empresa estava sempre a
postos e aguardava-o com paciência. Logo que Eugênio apareceu, saudou Jordi de
forma cordial, perguntou se o Peñarol havia ganho o jogo do final de semana,
ouvindo uma resposta negativa. Seguiram até o veículo e Eugênio foi no banco de
trás, como de costume. Nas primeiras vezes que viera à cidade, preferia andar
no banco da frente e apreciava o caminho, perguntando a Jordi sobre os pontos
mais importantes. Aos poucos, a rotina foi matando o ar de novidade e
curiosidade de Eugênio. Jordi, por sua vez, não cansava de admirar o estuário
do Rio da Prata e as praias ao longo do caminho. Certa vez perguntou a Eugênio
por que havia perdido o interesse pela cidade. A resposta veio quase que
automática: tenho que aproveitar esta hora para trabalhar, há muito o que
fazer. Jordi silenciou, mas não concordara com o chefe.
A luminosidade do final da manhã deixava as águas do rio da
Prata ainda mais vivas e de um azul escuro mais profundo. Algumas pessoas
seguiam de bicicleta pelo calçadão ao lado da longa rambla que os levaria ao
hotel, localizado no centro velho da cidade. Outras corriam e faziam seus
exercícios matinais. Era comum encontrar pessoas de mais idade caminhando,
sentadas nos bancos apreciando o sol matinal de outubro ou lendo algum livro.
Era possível identificar um ou outro pescador, ainda que fosse segunda-feira. O
trânsito estava favorável e Eugênio não tirava os olhos do celular e de alguns
relatórios que trazia consigo. O telefone tocou e ele não atendeu. Passaram
pela praia de Pocitos e Jordi perguntou se gostaria que fizesse uma reserva
para jantar no Zarzuela. A resposta foi um grunhido inaudível que mais parecia
irritação com a interrupção desnecessária. Jordi entendeu que deveria ficar
quieto, mas achou grosseira a forma como Eugênio retrucara.
Chegaram ao hotel NH Columbia, na Cidade Velha, bem diante
do rio e da rambla. Eugênio gostava daquele hotel por ser diante das águas.
Costumava correr na rambla pela manhã ou no final de tarde, contemplando o pôr
do sol tão famoso da cidade. Aos poucos, trocou a corrida de rua pela esteira
da academia do hotel. Faltava-lhe tempo, dizia. O trabalho consumia cada segundo,
cada minuto de sua jornada. A trilha sonora de seus dias havia sido capturada
da música dos Titãs e assim ele só se preocupava com o que pode dar certo, não
tinha tempo a perder.
Desceu do carro e na recepção do hotel foi atendido por
Milagros, que já o conhecia de visitas passadas. Seu quarto será o 702,
seguindo suas recomendações. Ele agradeceu, pegou a chave e rumou para o
elevador. O telefone tocou novamente. Era a quinta vez que sua secretária
ligava. Como não havia mensagem de whatsapp, ignorou. Não devia ser nada
urgente, pensou. Entrou no quarto, abriu as cortinas deixando a luz invadir o
ambiente. Ele não reparou no céu azul, no navio de cruzeiro que se dirigia ao
porto, nas crianças que caminhavam com seus uniformes de escola, no vendedor de
pipoca que seguia pelo calçadão, nos carros que passavam pela larga avenida
costeira.
O telefone tocou mais uma vez. Diga Beatriz, o que foi. Já
pedi para me mandar recado quando for urgente ao invés de ficar ligando!,
esbravejou. Ela, do outro lado da linha, com a voz hesitante disse que a
secretária do Dr. Flávio havia ligado e precisava falar com urgência. Eugênio
engoliu seco. Sentiu as pernas bambearem e o coração acelerar.
O médico era um amigo de longa data. Estudaram juntos no
colégio. A secretária atendeu e logo transferiu a ligação. O médico foi
objetivo e direto. O resultado da biópsia indicava que se tratava de um tumor
maligno. Era preciso fazer uma cirurgia para retirada do câncer e depois dar
início à quimioterapia. Não havia tempo a perder. A indicação atingiu Eugênio
como um soco direto no queixo. Gaguejou para responder e disse que só voltaria
para São Paulo no sábado. O médico repetiu o diagnóstico e alertou: acho que
você não entendeu. Se eu fosse você, voltava para o aeroporto agora e pegava o
próximo voo!
Um silêncio pesado inundou o quarto após a ligação. Eugênio
apoiou as mãos na mesa de trabalho diante da janela, baixou a cabeça e começou
a chorar. A vida lhe brindava com uma surpresa. Quando ergueu a cabeça e olhou
pela janela, deparou-se com a imagem de Nossa Senhora no topo da residência das
irmãs vincentinas ao lado do hotel. A imagem reluzia com o sol, brilhava de um
jeito mais forte do que das outras vezes. O manto azul tinha estrelas
desenhadas e o rosto maternal parecia brindar-lhe com um sorriso
quinta-feira, 23 de outubro de 2025
Crônicas peruanas - Laguna Humantay
| Laguna Humantay - @rbueloni |
Cuzco, 22 de agosto
de 2025
O despertador tocou alguns minutos depois das quatro da
manhã. Era o último passeio que havíamos programado e talvez o mais exigente.
Estava um pouco apreensivo, a começar pelo horário de acordar, mas resolvi
juntar-me a minha filha e amiga na excursão até a Laguna Humantay.
O lobby do hotel estava escuro e havia apenas duas pessoas
na recepção. O pátio central em estilo colonial espanhol trazia um ar medieval
com a pouca luminosidade e a decoração que ressaltava a arte cusquenha. O
atendente perguntou se havíamos pedido o café da manhã antecipado, mas
esquecera de solicitar. É comum fornecerem um lanche para viagem, pois muitos
passeios saem bem cedo, com o dia ainda escuro.
Pouco antes das cinco, a van de transporte chegou e o
porteiro abriu a pesada porta de madeira. Brinquei com ele sobre ser o porteiro
do castelo. Ele sorriu revelando o bom humor apesar da hora. Explicou-me que
não fabricam mais portas de madeira maciça e com detalhes em metal. Hoje, tudo
é mais leve e simples, disse-me.
Juntamo-nos ao grupo de turistas no veículo quase cheio.
Logo em seguida, uma parada na Plaza de Armas, antigo centro do império Inca e
ponto de encontro para os inúmeros passeios que partem de Cuzco. Algumas
pessoas a mais entraram na van, que partiu lotada. Nosso guia, Fredy, deu
instruções sobre o trajeto e o que iríamos encontrar. Alertou que havia
oxigênio caso alguém necessitasse, afinal, a Laguna Humantay ficava a 4200
metros de altitude, ou seja, 800 metros a mais do que Cuzco. Pensei comigo que isso
seria desnecessário, pois já estava aclimatado à altitude. Fredy sugeriu que
dormíssemos por duas horas antes da parada para o café da manhã. A van seguiu
pela estrada sinuosa, deixando Cuzco para trás e percorrendo uma região de vale
cultivado. Logo peguei no sono.
A parada para o café da manhã foi em Mollepata, um pequeno
povoado e início de uma estrada de terra que nos levaria até a base da subida
para a Laguna Humantay. O nosso grupo era composto por mexicanos, espanhóis e
colombianos. Éramos os únicos brasileiros, o que deu um ar de comunidade latina
muito divertida. Seguimos por uma hora por uma estrada de terra até o ponto de
início de nossa subida, em Soraypampa, a 3800 metros de altitude. O minúsculo
distrito tem dois pequenos hotéis e alguns casebres. O movimento é dado
exclusivamente por turistas.
Equipados com bastão de apoio, demos início à caminhada. O
dia estava cinza, um vento frio soprava e ao fundo se via o pico Salcantay,
todo coberto de neve e cercado de nuvens esparsas. Nosso objetivo estava
encoberto pelas nuvens e havia um prenúncio
de chuva. O silêncio era quebrado apenas por nossos passos e pelo vento.
O esplendor dos Andes se descortinava diante de nós. Os picos cobertos de neve
e envoltos por nuvens, alguns fios d’ água oriundos do degelo, os vales e
passagens que indicavam caminhos trilhados.
No meio da cordilheira, a escalada era um desafio. A
primeira parte da trilha era pouco íngreme, mas o ritmo era lento. O terreno
pedregoso e de terra solta. Era preciso cuidado para não escorregar e
percebia-se a falta de ar. Tinha para mim que uma caminhada de pouco mais de um
quilômetro seria fácil, mesmo em se tratando de uma subida. O cansaço era
presente e a cada punhado de metros parava para respirar e buscar o fôlego. Não
estava ofegante ou sufocado, mas tinha-se uma clara impressão de que o ar não atendia
às necessidades corpóreas.
Comecei a contar os passos e numa das pausas, fui
surpreendido: “caballito?”, indagou uma senhora que seguia nosso grupo. Os
turistas eram acompanhados por locais que subiam com cavalos prontos para
carregar qualquer um que estivesse disposto a pagar. Recusei e segui.
Novamente, vinha a tentação: caballito, caballito. Agradeci, mas neguei.
Estava determinado a chegar ao final da caminhada sem desistir. Não estava
fácil, mas insisti. Minha filha ficou preocupada achando que eu iria enfartar,
mas segui o ritmo.
Perto do final, uma senhora que iniciava a descida me
incentivou: si se puede! A frase era conhecida por mim, slogan cantado
em jogos de futebol das seleções andinas. Sorri e respondi com a mesma frase.
Estava próximo o fim. A parte final era muito mais íngreme, mas foi superada
lentamente, com passos curtos e constantes. É preciso respeitar a montanha.
Antes de chegar na Laguna, avistei uma pequena tenda de madeira coberta de lona,
onde eram vendidos espetinhos de frango, assemelhando-se aos vendedores de sanduíche
de pernil na porta do estádio do Morumbi.
Mais alguns passos e cheguei ao destino. Sentei-me numa
pedra e contemplei toda aquela beleza em diversos tons de cinza. A laguna tinha
a água esverdeada e formara-se com o degelo da neve do pico Humantay. As nuvens
estavam baixas e cobriam o cume. O vento frio trazia junto uma garoa gelada,
mas a beleza da natureza crua era encantadora. Fiquei ali por alguns minutos,
recuperando o ar e apenas contemplando as montanhas, enquanto os turistas se
preocupavam em tirar fotos, fazer poses e registrar os melhores ângulos para
postar em redes sociais.
Subimos na van esfomeados e prontos para o almoço. Éramos
dezenove pessoas e Fredy nos disse que foi a primeira vez nesta temporada que
ninguém havia precisado de apoio de um cavalo para subir ou descer. O grupo
fora guerreiro. A van partiu e poucos minutos depois comecei a suar frio, senti
tontura e a vista ficou embaçada. Chamei o guia e alertei-o que iria desmaiar.
Rapidamente fui socorrido e posto no oxigênio. Respirei fundo o ar puro por
dois minutos e logo tudo voltou ao normal. Não desmaiei, mas descobri que o
oxigênio que fora trazido na van era para mim.
A viagem de volta pareceu mais longa, pois nosso motorista
dirigia em ritmo lento. Foi uma ótima oportunidade para conversar com meus
colegas espanhóis e que já tinham feito outras quatro trilhas no Peru em duas
semanas. Eram praticamente trekers profissionais. Aproveitei para
apreciar a estrada e a paisagem de pequenas propriedades cultivadas no vale que
passava por Limatambo e Anta, antes de chegar em Cuzco.
O sol já havia se posto quando chegamos na Plaza Regocijo.
Cansados, mas acometidos de uma alegria perene fruto da bela jornada no meio da
Cordilheira dos Andes.
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Conto: Na borda da piscina
Na borda da piscina
Deu um longo impulso por debaixo d´água, esticou os braços e
as pontas dos pés, abaixou a cabeça para diminuir a resistência ao máximo e
deslizar rente ao fundo da piscina. A água abraçava-lhe o corpo por inteiro,
num gostoso sentimento de ternura. Bolhas de ar rompiam a superfície plácida da
piscina e ela deslizava como uma arraia discreta e bela de gestos lentos e
coreografados. Surgiu do outro lado, a água escorrendo pelo rosto, os
longos cabelos jogados para trás. Abriu os olhos e apoiou-se na borda da
piscina buscando a toalha para secar a mão que buscava o celular. Tirou uma e
outra foto fazendo careta, cortando metade do rosto, tentando captar a luz nas
margens da piscina deixando as gotículas agirem como pequenos prismas. O
sorriso discreto era de uma menina que se divertia, apesar da idade cronológica
negar tal aparência.
Ficou séria e tirou uma foto de apenas metade do rosto. A
composição era proposital. Queria apenas um fragmento, um recorte, um pedaço
de como ela se via. Era para ser algo conceitual, pensou. Reparou nos fios
brancos que se infiltravam na bela cabeleira como impostores indevidos. Lembrou
de como ele dizia aqueles fios brancos traziam-lhe um charme maduro e que ela
de cabelo molhado e de cara limpa sem maquiagem era a mulher mais bonita que
conhecera. Beleza pura, sem filtros, ele falava. E ela, descrente do elogio
sentia o coração aquecido e um enrubescido.
Ele tinha estas pílulas de afeto. Lançava-as como flechas,
em doses homeopáticas, mas eram habituais e generosas. Ela gostava e se
encantava com estes detalhes. Depois de um encontro, vinha alguma mensagem mencionando
algum detalhe que havia passado despercebido para ela. A cor do esmalte que
combinava com a blusa, os sapatos mocassim que pareciam tão confortáveis, os
óculos novos que destacavam ainda mais os belos olhos castanhos. Sempre havia
uma mensagem, sempre havia um gesto de atenção. Sim, atenção aos detalhes. Ele
era muito observador, discreto não parecia que observava com tanto afinco. Era
como se ela fosse seu objeto de estudo e análise. Fazia anotações em seu
caderninho mental e depois destilava-as em suas gotas de afeto. Sempre gentil,
sempre atencioso.
Ela gostava de ser mimada e paparicada, mas havia algo que lhe
incomodava. Olhou para o céu azul, fechou os olhos e deixou o sol banhar-lhe o
rosto, que se iluminou. Ela só queria que ele tomasse uma decisão. Simples
assim, mas nem tudo é simples como parece.
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Conto: Todo dia
| foto: Renato Bueloni Ferreira |
TODO DIA
Todo dia ela faz tudo sempre igual, seguindo a rotina
cotidiana cantada por Chico Buarque. Entrou no elevador e atraída pela força
magnética do enorme espelho no fundo daquela caixa metálica, pegou o celular na
bolsa, arrumou o cabelo e ajustou o enquadramento para tirar mais uma
fotografia. E depois outra e mais outra, afinal, uma foto apenas não é
suficiente, pois é preciso escolher a melhor para postar nas redes sociais.
Todos os dias fazia o mesmo registro pela manhã ao sair de
casa. Um registro diário que documentava o passar dos dias, das semanas, das
estações e dos anos. As fotos sempre parecidas. As poses semelhantes. O sorriso
contido e discreto, o rosto um pouco encoberto pelo aparelho celular era
proposital. Queria dar um ar misterioso, fazer um charme com aqueles registros.
Se montasse uma sequência em forma de filme, teria um documentário do
envelhecimento sorrateiro e imperceptível.
Naquela manhã, parou diante do espelho e ficou a contemplar
o que via. Não tirou a foto. Esqueceu de apertar o botão do térreo. Paralisada,
mergulhou no espelho como se adentrasse um portal. Uma janela se descortinava
diante dela e tudo ganhara novas cores. Notou as raízes brancas que surgiam e
lembrou-se do comentário feito por um amigo um dia antes. Ele disse que era
charmoso e lhe deixava ainda mais bonita. Achou graça, mas não gostou.
Precisava marcar cabelereiro e pintar aqueles fios brancos. Mas de repente,
viu-se arrebatada por uma sensação física de passagem do tempo. Não eram dores
e nem sinais externos. Ela não tinha rugas aparentes e nem marcas na face, mas
o espelho penetrava no seu coração e ela viu-se envelhecida, cansada, exaurida
por uma rotina que lhe ditava os caminhos. Percebeu que deixara de ser
protagonista de seus dias e passara a ser mera passageira, conduzida pela
correnteza deste rio que chamamos de vida.
Quantos anos ela deixar passar sem que tomasse as rédeas de
sua vida? Quanto tempo deixara transcorrer? Tentou se lembrar da última viagem
que fizera por decisão própria. Iam-se lá uns dois ou três anos, pois nos períodos
recentes, acompanhou amigas em viagens curtas, não definindo roteiros ou
passeios. Ia a tiracolo, como mera acompanhante, sem voz ativa. Quando foi que
ela se deixou apagar assim? Sentiu um vazio interior a lhe consumir, um aperto
no coração e foi tomada de um senso de urgência, uma vontade que lhe ardia por
dentro e de repente deixou sua face ruborizada. A chama estava viva dentro
dela, apenas adormecida. Sorriu cheia de energia e apertou o botão do térreo
com determinação renovada. Hoje seria o primeiro dia de algo novo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2025
Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro
Trechos de livros
“O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”
(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad.
Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)
São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza.
Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Conto: Um dedo de prosa
| foto: Renato Bueloni Ferreira |
Um dedo de prosa
Têm dias que eu apenas queria alguém para conversar, tomar
um café no final do dia e perguntar: qual livro você está lendo?
E então deixar-me-ia inebriar pela doçura da tua voz
narrando alguma estória interessante, ou mesmo que não seja interessante, iria
me pendurar com atenção em cada detalhe narrativo, em cada pausa e suspiro da
tua voz, reparando no movimento dos teus lábios delicados e finos, atraído pelo
olhar fixo no meu. Não te interromperia. Apenas, deixaria que me contasse o que
quisesse do livro, que falasse e falasse e falasse.
Nunca te contei, mas quando estou estressado ou sentindo
aquele vazio que bate por vezes em dias corridos, ouço algum áudio teu que
deixo guardado no whatsapp, somente para ouvir tua voz. Já tentei imitá-la e no
silêncio, consigo te imaginar falando, sorrindo. Cada trejeito do rosto
completa a fala suave que me abraça com todo afeto. Curioso pensar que o jeito
de falar pode abraçar, pode acalmar, pode adentrar no fundo do coração e
desenhar um sorriso, terno, sincero, delicado. Parece que estes abraços
alternativos têm me cativado mais do que os abraços reais, vazios,
protocolares.
Outro dia, entregue a uma sessão de massagem para tentar
destravar as dores na lombar e no ombro, fui surpreendido pelo firme segurar da
minha mão. Dedos longos e finos, entrelaçados com os meus, e de repente, senti
um arrepio percorrer minha coluna. Não queria soltar da mão da massagista que
me atendia. Ela percebeu que ao segurar minha mão, havia um grito silencioso
contido dentro de mim. Queria este pequeno gesto de afeto, mas não sabia que
dele precisava. Ela apoiou a outra mão espalmada sobre minha coluna, como se
fizesse uma ligação direta para dar a partida num carro ou provocar um curto
circuito. Senti um arrepio mais forte, talvez algo produzido apenas na minha imaginação,
mas aquela aparência de energia me deixou pensativo, instigado. Aquela jovem
que me atendeu no spa estava inteiramente atenta às minhas necessidades naquele
momento e ela, ao segurar minha mão, abraçou-me de forma figurativa. Queria
congelar o tempo, parar o relógio, prorrogar aquela tarde. Queria fazer a
sensação de preenchimento do vazio perdurar para sempre.
Tua voz tem este mesmo poder mágico. Acolhe. Abraça.
Energiza. Talvez hoje esteja enquadrado como perfeito aquariano, mergulhado em
devaneios e ideias sem sentido. Para mim, porém, há muito sentido. Quando
descubro estas coisas banais, que estão ali pipocando no cotidiano, meu dia
ganha novo sabor e cor. É como colocar novos óculos para ver a realidade e tudo
se transforma, ganha relevo, profundidade, altura. Acho que você nunca
desconfiaria que sua voz seria um bálsamo tão penetrante e com efeitos medicinais
para minha alma. Pois é, tens um poder oculto que descobri, mas que guardo a
sete chaves. Estou sendo muito egoísta em privar a humanidade desta maravilha
que cura? Ou seria este remédio aplicável somente a aquarianos bobos e
deslumbrados que se conectam na exata frequência da tua voz?
Não sei a resposta. Sei apenas que gosto de te ouvir, gosto
de estar com você, gosto de aprender contigo. Adoro jogar fora um dedo de prosa
contigo. O mundo é um lugar muito melhor com você. Que sorte a minha!
sexta-feira, 13 de junho de 2025
Conto: Rabiscos mentais
Talvez eu goste de você mais do que deveria. Talvez nem
deveria ter deixado me interessar por você, deveria ter me apegado a defeitos,
a detalhes negativos, àqueles pontos que incomodam e desfazem qualquer encanto.
Acho que o cigarro era para ser um destes eventos para
torcer o nariz. Lembro que você me disse que fumava com certo temor da minha
reação, como se eu fosse torcer o nariz e fazer cara feia. Mas ouviu de mim que
eu também fumei e gostava de fumar. Contive-me, mas quase emendei um “acho sexy
fumar”. Engoli as palavras e calei-me. Naquele dia, após o almoço, enquanto
caminhávamos pela rua, você acendeu um cigarro e eu fiquei apenas a observar. Enquanto
te ouvia, minha imaginação viajava para um recanto distante, só nós dois a
fumar e a brincar com as piruetas da fumaça do cigarro. Entrei numa realidade
paralela somente perceptível a mim. Acho que fui discreto o suficiente para que
não percebesses o que se passava nos recantos da mente.
Tentei fazer uma lista mental de pontos negativos, mas todos
os quesitos eram positivos. Custei a achar algo que me incomodasse. Terminei com
um conjunto vazio. Acho que o sentimento
turva o raciocínio, desfoca, neblina que cai espessa e impede a visibilidade
clara. O coração parece saber navegar, mesmo com neblina intensa e sem qualquer
visibilidade. Segue seguro e firme, ainda que por vezes pareça hesitar, sempre
adiante, derrubando as barreiras e justificando cada atitude.
Havia leveza e alegria no ar e tudo causado pelo teu
sorriso. Em tempos que se fala tanto em energia e conexão, parece que tudo se
encaixou e a energia gerada era carbono free. Estávamos prontos para
encarar a era das novas fontes energéticas? Brincadeiras a parte, o caminho
ainda se revelaria longo e cheio de percalços, se é que existe caminho a
trilhar. Caminhar sozinho pode ser tortuoso e queria que a jornada não fosse
solitária.
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Conto: Quanto tempo?
Quanto tempo?
Ela tomou um longo e solene gole do café, num gesto quase
ritualístico, e perguntou sem olhar nos olhos de seu amigo:
- Já imaginou se soubéssemos quanto tempo de vida ainda nos
resta?
- Já, mas não me importo muito com isso. O fim chegará para
todos e para cada um de nós no seu devido momento. – respondeu sem cerimônia,
sem preocupação, sem esposar qualquer sentimento.
Ele sorriu e olhou para ela.
- Você tem medo que o futuro nos reserva?
- Não tenho medo do que o futuro nos reserva, mas se
soubesse quando fosse morrer, talvez usaria meu tempo de forma diferente. Acho
que daria mais valor ao tempo. Por exemplo, e se lhe restassem apenas doze
horas de vida, o que faria agora?
Ele engoliu o café, olhou-a com um leve sorriso e disse:
- Eu te beijaria e prolongaria o beijo até que meu tempo
expirasse.
quinta-feira, 27 de março de 2025
Inspiração e exemplo
| Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro - @rbueloni |
Adentramos o mês de março e é impossível não lembrar do
início da pandemia. Lá se vão 5 anos desde que fomos obrigados a manter o distanciamento
social, ficamos trancados em casa, fomos impedidos de viajar e explorar o
mundo. A vida se reduziu a espaços limitados. Todo ano relembro do início da
pandemia e do mundo distópico que se materializou diante de nossos olhos.
Muitos sucumbiram. Outros ignoraram. Outros ainda – acho que a maioria – saíram
mais fortes, mais conscientes da nossa fragilidade, mais gratos pela vida.
Neste início de ano percebi um outro dado que tem me levado
a uma reflexão mais profunda e a uma mudança de atitude. Percebi que a
distância temporal entre a virada do século e o tempo provável que me resta de
vida são equidistantes. 25 anos transcorreram desde o início do século e do bug
do milênio (aquela catástrofe que não se concretizou) até o dia de hoje. E
somando 25 anos à minha idade, provavelmente em 2050 estarei próximo da minha
finitude. Isto me incomoda? Isto me assusta? Nem um pouco, apenas me fez
refletir. O tempo é fugaz e há certas coisas que não vale a pena postergar, há
certas atitudes que preciso mudar e há certos momentos em que não devo me calar,
não devo deixar para depois, pois talvez não
haja um depois.
Se tudo parece-lhe confuso, calma que vou tentar me explicar
e unir os dois parágrafos acima.
A pandemia deixou suas marcas e mudou alguns hábitos. O
trabalho remoto passou a ser algo usual, a preocupação com a saúde deixou de
ser algo a ser adiado, novas tecnologias foram incorporadas e as pessoas foram
tomadas por um desejo constante de viajar e explorar e descobrir novos lugares.
O dinheiro passou a ser utilizado de forma mais desapegada. Guardar para
sempre? Não, gastemos um pouco, pois não se sabe quanto tempo teremos até a
próxima pandemia.
O fato é que alguns dos nossos hábitos mudaram. O nosso
mindset – para usar um termo moderninho – mudou. Tenho viajado muito mais.
Prefiro viajar e adiar a troca de um veículo. Fiz um check up e confirmei o que
já suspeitava: tenho pressão alta e o colesterol também. Vou começar a usar
medicamento de uso contínuo. Sinal da idade. Passei a fazer caminhadas 3 vezes
por semana e agora vou iniciar treinos de força, ou a boa e velha academia. Estudos
demonstram que estes treinos ajudam a preservar a memória, além de garantir um
envelhecimento de qualidade.
E o que isso tem a ver com inspiração e exemplo e pandemia e
novos hábitos?
Dizem que as palavras movem e o exemplo arrasta. O exemplo
arrasta e inspira novos hábitos. Muitas vezes estes novos hábitos são
introduzidos por inspiração de pessoas que nos cercam. Algum amigo que faz
exercício e te convida para ir à academia, por exemplo. Ou aquela amiga que
posta todo dia um treino na academia. Estes exemplos me motivaram a começar com
as caminhadas matinais. E ao invés de apenas seguir o exemplo, resolvi
agradecer e contar para estas pessoas que o exemplo delas me motivou.
Enquanto pensava neste texto, lembrei-me de um exercício que
fiz de escrita criativa numa oficina da Terapia da Palavra. A proposta do
exercício era escrever uma carta para um chefe, um familiar, alguma pessoa que
tenha sido importante influência em nossas vidas. Resolvi escrever a carta para
meu primeiro chefe, Dr. Luiz Vergueiro, com quem aprendi muito sobre o trabalho
do advogado e a postura profissional. Achei que ia ser difícil escrever, mas
percebi que ao me debruçar sobre aqueles anos iniciais de estágio, muitos
detalhes vieram à mente. A carta nunca foi enviada, mas sugeriram-me que a
enviasse. Percebi como fui inspirado pelo exemplo e como aprendi com aquele
sócio de um grande escritório de São Paulo.
E novas inspirações têm vindo neste começo de ano. Quem sabe
planejar um período sabático em algum país distante? Quem sabe virar um nômade
digital e perambular por países do leste europeu? Até brinquei com uma amiga
que quero ser igual a ela quando crescer...ou melhor, quando envelhecer.
A mudança deste começo de ano foi que comecei a falar mais,
a agradecer as pessoas, a compartilhar estas inspirações, a elogiar condutas.
Parei de calar e passei a falar, ainda que possa parecer besteira ou que seja
um elogio banal e corriqueiro, ainda que seja uma aparente coincidência ou
fruto do acaso. Você nunca sabe quando um elogio ou uma palavra amiga pode
mudar o dia – e quiçá a vida – e o ânimo de uma pessoa. Por que não olhar ao
redor, observar e deixar-se levar por bons exemplos? O tempo é curto. A vida é
curta. Sejamos pessoas que semeiam sorrisos e esperança. Afinal, a esperança caminha
de mãos dadas com a alegria.
