quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Diário da dor - III

 

foto @rbueloni

Diário da dor - III

11 de agosto de 2026 - noite


No final da tarde, voltei ao hospital para uma rápida visita. Os olhos e a cabeça pesavam pela noite mal dormida. Entrei no quarto e ela estava dormindo, sem qualquer reação à minha presença.

Fui tomar um café com minha irmã e ela me atualizou sobre o dia. Sem novidades, disse. Não há reação para nada e querem transferi-la para um quarto, pois se os cuidados são paliativos, o plano de saúde não quer pagar mais a UTI. Senti uma impotência diante da realidade. A fragilidade diante do fim que se aproxima e o fim da vida visível.

Quanto tempo mais ela teria? A dúvida trazia consigo uma mistura de sentimentos. Por um lado, queria que ela descanse sem dor, sem sofrimento, que a morte viesse como a boa irmã, como o final de uma jornada terrena cheia de realizações, memórias e carinho. Por outro lado, não queria que ela partisse e tinha, no fundo, uma imensa vontade de prolongar ao máximo sua permanência entre nós. Senti-me um pouco egoísta ao pensar assim, mas rezei para que Deus fizesse o que fosse melhor para ela.

Rememoramos os últimos dias. Após a primeira noite no hospital, ela foi sincera quando lhe perguntei se estava bem. Ela respondeu: “eu não estou bem.” Foi a primeira vez que ela reclamou. Não foi bem uma reclamação, mas uma declaração sincera do seu estado e de como se sentia. Tive a certeza diante daquela resposta que ela estava pronta para a morte. Achei que ela sucumbiria no domingo, dia dos pais. Acabou por não acontecer. Ela teve mais uns dias de presente.

Na última sexta, pela manhã, após uma vigília de oração por vários amigos, ela estava bem. Falante, alimentando-se, sentada na cama. Pensei num milagre quando entrei no quarto logo pela manhã. Mas a realidade foi cruel. É comum a pessoa melhorar um pouco antes da jornada final. Naquela manhã, foi a última vez que a teríamos lúcida diante de nós.

Agora, só nos resta rezar e segurar sua mão, velar ao seu lado, esperando o tempo de Deus. O tempo para que a flor seja colhida no jardim.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Diário da Dor - II

 

foto @rbueloni

10 de agosto (segunda-feira) – noite

 

Cheguei ao Hospital São Luiz pouco depois das 18 horas. Era meu turno de pernoitar no hospital e precisava render minha irmã que passara a noite anterior e o dia inteiro.

Ela dormia placidamente por causa da sedação. Dei-lhe um beijo na testa e segurei-lhe a mão. Não houve reação ou resposta. O monitor de sinais vitais apitava com frequência indicando taquicardia. A saturação de oxigênio estava boa, mas a frequência cardíaca estava elevada.

Fui tomar um café com minha irmã que me narrou os acontecimentos do dia. Nada. Sem novidades, ela me disse. Não se alimentou, não acordou, não se comunicou, sem nenhuma resposta. Haviam aumentado a sedação na noite de domingo e ela estava tranquila. Imaginei que teria uma noite semelhante.

Após minha irmã partir, segurei a mão da minha mãe por alguns minutos. Algumas palavras brotaram espontaneamente. No dia anterior, domingo, antes de deixar o hospital no final do dia, fui me despedir dela. Segurei a mão, como fazia todas as vezes, dei-lhe um beijo e disse que amanhã eu voltava. Os olhos pouco abertos, mas ela sussurrou algumas palavras que não entendi de imediato. Minha irmã respondeu: “está tudo bem, mãe! Estamos aqui com você!”. Ela havia dito para mim: “está tudo bem!” e ao ouvir aquelas palavras comecei a chorar, não me contive. Mal sabia eu que seriam as últimas palavras que iria trocar com ela.

Enxuguei as lágrimas, tentei me controlar e acariciei a mão dela novamente. Está tudo bem, mãe! Estamos rezando por você, eu disse entre soluços.

Duas semanas antes dela ser internada, ouvi um podcast que dizia que pessoas em estado terminal reagem melhor quando conversamos com elas e há contato físico, segura-se a mão ou braço e então a conversa tem início. Ainda que não haja resposta direta, estudos comprovaram que há reação da pessoa, ainda que inconsciente. A pessoa reage a vozes conhecidas quando as palavras são acompanhadas do toque físico. Só lembrava isto do podcast, mas foi um daqueles sinais divinos discretos que recebemos ao longo da nossa rotina.

Pouco depois das 22 horas, resolvi apagar as luzes e tentar dormir. O sofá do quarto de UTI não parecia muito confortável, mas me acomodei. Ao fechar os olhos, veio-me à mente a imagem de uma longa conversa que tivera durante a tarde sobre perda, luto, morte, finitude. A conversa parecia ser repassada como um filme cuja tela eram minhas pálpebras cerradas. Aquilo me acalmou, me deu conforto e embalou meu sono.

Acordei num sobressalto quando a bomba de medicação soou o alarme avisando que o remédio havia acabado. Era um alarme alto e acordei assustado. Saltei do sofá zonzo e atordoado e chamei a enfermagem que veio prontamente.

O sono seguiu-se picado com a constante sinfonia dos aparelhos, sinfonia nada harmônica. Fui ao posto de enfermagem perguntar se não era possível silenciar a máquina, pois passava das três da manhã e aquilo incomodava à bessa. Não tiveram êxito e abracei minha cruz silenciosamente e com afeto.

No meio da noite, com o quarto iluminado pela luminosidade que irradiava dos aparelhos, fiquei a refletir sobre a conversa da tarde, sobre a finitude. Há um momento na vida em que deixamos de ser cuidados e passamos a cuidar. Nem sempre é perceptível. Dei-me conta disso enquanto acompanhava meu pai no hospital, vão-se lá nove anos. Agora estava minha mãe, cheia de fios e sedada sendo cuidada pelos filhos que não deixaram o seu lado durante toda a jornada de tratamento do câncer.

Resto tranquilo por saber que nestes anos todos jamais lhe neguei um pedido de ajuda, um favor, uma carona para levá-la ao médico ou sessão de quimioterapia. Procurei fazê-lo sempre com um sorriso, sem reclamar, sem pestanejar, sem deixá-la perceber que por vezes, eu me complicava para atender às necessidades dela. Aprendi com a doença dela a cuidar e servir com um sorriso no rosto. A doença não é um mal em sim mesmo, pode nos ensinar muitas coisas e pode nos ajudar a crescer humanamente.

Acordei na manhã de terça após uma noite mal dormida, mas sereno e tranquilo por ter ficado firme ao lado dela. Mais uma noite, mais um dia começava. Deus nos presenteava com mais um dia ao lado dela.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Diário da dor - I

 




10 de agosto de 2026

Pneumonia 

Mamãe foi internada no Hospital São Luiz com pneumonia. Vai ficar na UTI até se recuperar. São 9 anos de luta e decaída e acho que ela está cansada.  Fui tomado por uma dor agora na hora do almoço, um sentimento profundo de perda e de que o tempo dela está se esvaindo. Espero estar errado, mas a última internação no ano passado durou 45 dias. E depois mais 20 dias.

Curioso pensar que você pode sair de casa um dia e nunca mais voltar para sua cama, sua cadeira, seus utensílios, sua televisão, no caso dela, seus bordados, seus livros, suas plantas, a conversa diária com a filha que mora nos Estados Unidos, a escolha do que quer comer para o almoço, da rotina dos remédios.

Um dia, você sai de casa conduzido pelos filhos e não sai mais do hospital. O tempo é fugaz. Não pensamos no fim, até ele se aproximar e bater à porta.

Depois da primeira noite, Pe. Carlos foi vê-la. Levou a comunhão e a unção dos enfermos. Confidenciou que não gostaria de esperar “até amanhã, pois poderia ser tarde”.

O quarto do hospital não tem relógio e as horas se misturam, perde-se a noção temporal, perde-se a noção de dia e de noite, perde-se a noção de quando chegará a hora de cada um.

Sento-me no sofá ao lado da cama e apenas espero o tempo passar, olhando para o monitor que de tempos em tempos apita um alarme. Um enfermeiro entra no quarto. Checa os sinais vitais e saí. A noite será longa.

 


sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Capela Rothko

Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni


Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e extremamente enriquecedor.

 

Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela Rothko.

 

A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró, Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros.

 

Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas aqui: site ). No exterior, não é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico. Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito histórico de Houston.

 


Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte.

 

Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura, em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade, fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos. Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de serenidade e paz.


Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores.


Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música, mergulhe na cultura local!


sexta-feira, 17 de abril de 2026

No aeroporto

 

@ rbueloni


No aeroporto


Procurei uma poltrona que permitisse uma boa visão da pista e do pátio de manobras das aeronaves no aeroporto de Guarulhos. O cenário era rotineiro, trivial eu diria. Uma nova viagem, a espera na sala VIP e alguns momentos para contemplar o sobe e desce dos aviões. Voar sempre me fascinou desde criança. Acho que herdei esta paixão do meu pai.

 

Andei de avião pela primeira vez em 1973, quando a família mudou-se para Miami. Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Partimos de São Paulo rumo a Miami num voo da Varig. Não lembro de mais nada além disso. Sei que embarcamos em Congonhas, que recentemente completou 90 anos de existência. Um lugar onde fui várias vezes com meu pai ao terraço que existia e que dava uma vista completa da pista e do pátio. Electras, Boeings 727, 737, Fokkers 100, Brasílias. Os grandes aviões a cruzar os céus em voos longos: o jumbo 747, o DC-10, o A340, o A330, o 767 e o 777. Voei em todos e para vários destinos. Congonhas era um ponto de partida frequente até para voos internacionais anes de Guarulhos ficar pronto. Os aviões partiam rumo ao Galeão, onde a Varig distribuía os passageiros em seus voos internacionais.

 

Voar era e continua a ser um fascínio. O encanto não foi perdido, apesar de alguns perrengues que se enfrentam hoje em dia na aviação. Cadeiras apertadas, passageiros mal educados, transtornos na segurança, salas VIP que deixaram de ser VIP, aeroportos antiquados e inadequados para o volume de passageiros atual. Mas, mesmo assim, sentar-se na janelinha e contemplar o mundo do alto, como um pássaro é algo sempre traz um gosto de novidade. Talvez o voar me faça reviver a infância novamente.

 

Estava lá eu perdido nos meus pensamentos, vendo os aviões subirem e descerem quando ouvi a voz de um menino que devia ter uns 14 ou 15 anos. Uma palavra apenas, um chamado:

- Pai!

O timbre da voz lembrava a do meu filho. Naquele momento banal fui transportado para o lado do meu pai. Meus olhos marejaram, contive um soluço e o choro que queria brotar. Disfarcei. Por alguns momentos eu era uma criança no aeroporto olhando os aviões ao lado do meu pai. Senti sua presença comigo, como seu braço repousasse no meu ombro e me apertasse para junto dele. Respirei fundo, sorri e pedi a Deus por ele.

 

PS: Amanhã meu pai, que faleceu em 2018, faria 81 anos.  

 


quinta-feira, 12 de março de 2026

Conto: Tarde de março

 

foto por @rbueloni


TARDE DE MARÇO


O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.

O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve, quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa, típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia e a cada dia se convencia mais de sua certeza.

Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia. Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo viço.

Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação. Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.

Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele vinho do Porto após o jantar. Bjs”.