sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Diário da Dor - II

 

foto @rbueloni

10 de agosto (segunda-feira) – noite

 

Cheguei ao Hospital São Luiz pouco depois das 18 horas. Era meu turno de pernoitar no hospital e precisava render minha irmã que passara a noite anterior e o dia inteiro.

Ela dormia placidamente por causa da sedação. Dei-lhe um beijo na testa e segurei-lhe a mão. Não houve reação ou resposta. O monitor de sinais vitais apitava com frequência indicando taquicardia. A saturação de oxigênio estava boa, mas a frequência cardíaca estava elevada.

Fui tomar um café com minha irmã que me narrou os acontecimentos do dia. Nada. Sem novidades, ela me disse. Não se alimentou, não acordou, não se comunicou, sem nenhuma resposta. Haviam aumentado a sedação na noite de domingo e ela estava tranquila. Imaginei que teria uma noite semelhante.

Após minha irmã partir, segurei a mão da minha mãe por alguns minutos. Algumas palavras brotaram espontaneamente. No dia anterior, domingo, antes de deixar o hospital no final do dia, fui me despedir dela. Segurei a mão, como fazia todas as vezes, dei-lhe um beijo e disse que amanhã eu voltava. Os olhos pouco abertos, mas ela sussurrou algumas palavras que não entendi de imediato. Minha irmã respondeu: “está tudo bem, mãe! Estamos aqui com você!”. Ela havia dito para mim: “está tudo bem!” e ao ouvir aquelas palavras comecei a chorar, não me contive. Mal sabia eu que seriam as últimas palavras que iria trocar com ela.

Enxuguei as lágrimas, tentei me controlar e acariciei a mão dela novamente. Está tudo bem, mãe! Estamos rezando por você, eu disse entre soluços.

Duas semanas antes dela ser internada, ouvi um podcast que dizia que pessoas em estado terminal reagem melhor quando conversamos com elas e há contato físico, segura-se a mão ou braço e então a conversa tem início. Ainda que não haja resposta direta, estudos comprovaram que há reação da pessoa, ainda que inconsciente. A pessoa reage a vozes conhecidas quando as palavras são acompanhadas do toque físico. Só lembrava isto do podcast, mas foi um daqueles sinais divinos discretos que recebemos ao longo da nossa rotina.

Pouco depois das 22 horas, resolvi apagar as luzes e tentar dormir. O sofá do quarto de UTI não parecia muito confortável, mas me acomodei. Ao fechar os olhos, veio-me à mente a imagem de uma longa conversa que tivera durante a tarde sobre perda, luto, morte, finitude. A conversa parecia ser repassada como um filme cuja tela eram minhas pálpebras cerradas. Aquilo me acalmou, me deu conforto e embalou meu sono.

Acordei num sobressalto quando a bomba de medicação soou o alarme avisando que o remédio havia acabado. Era um alarme alto e acordei assustado. Saltei do sofá zonzo e atordoado e chamei a enfermagem que veio prontamente.

O sono seguiu-se picado com a constante sinfonia dos aparelhos, sinfonia nada harmônica. Fui ao posto de enfermagem perguntar se não era possível silenciar a máquina, pois passava das três da manhã e aquilo incomodava à bessa. Não tiveram êxito e abracei minha cruz silenciosamente e com afeto.

No meio da noite, com o quarto iluminado pela luminosidade que irradiava dos aparelhos, fiquei a refletir sobre a conversa da tarde, sobre a finitude. Há um momento na vida em que deixamos de ser cuidados e passamos a cuidar. Nem sempre é perceptível. Dei-me conta disso enquanto acompanhava meu pai no hospital, vão-se lá nove anos. Agora estava minha mãe, cheia de fios e sedada sendo cuidada pelos filhos que não deixaram o seu lado durante toda a jornada de tratamento do câncer.

Resto tranquilo por saber que nestes anos todos jamais lhe neguei um pedido de ajuda, um favor, uma carona para levá-la ao médico ou sessão de quimioterapia. Procurei fazê-lo sempre com um sorriso, sem reclamar, sem pestanejar, sem deixá-la perceber que por vezes, eu me complicava para atender às necessidades dela. Aprendi com a doença dela a cuidar e servir com um sorriso no rosto. A doença não é um mal em sim mesmo, pode nos ensinar muitas coisas e pode nos ajudar a crescer humanamente.

Acordei na manhã de terça após uma noite mal dormida, mas sereno e tranquilo por ter ficado firme ao lado dela. Mais uma noite, mais um dia começava. Deus nos presenteava com mais um dia ao lado dela.