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quarta-feira, 22 de abril de 2015
Matilde Campilho : Rua do Alecrim
RUA DO ALECRIM
Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.
Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdadeira a bofetadas.
(Jóquei. São Paulo : Editora 34, 2015, p. 64)
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Poesia: DOOR
![]() |
| Centro São Paulo / Downtown São Paulo instagram @rbueloni |
DOOR
You knocked and I let you in.
Passed through the door
step by step, slowly but steady
nobody had gone this far
no one had the courage
to enter the door of my heart
and I let you in to where
no one had ever been
but you were afraid
you left and ran away.
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sábado, 17 de maio de 2014
Desassossego - II
Desassossego. Palavra adulta que não cabe na boca de uma
criança. Passamos a nos questionar e o desassossego nos faz companhia. É
própria do mundo adulto, das inquietações que afligem o ser pensante e que nos
foi apresentada pelo inigualável poeta lusitano. Retrata com precisão um estado
da alma, mais profundo e que não se percebe na superfície, num sorriso
disfarçado, numa lágrima escondida, num tom de voz falso.
Desassossego que vem com a aflição por pagar contas, com a
falta de trabalho, com o dia de amanhã, com a semana seguinte, com o chefe
neurótico, com a resposta que não chega, com o diagnóstico do tumor que se
espera, com o resultado do concurso, com o telefone que não toca, com o
silêncio que incomoda, com o pecado que macula e condena. Deixamo-nos levar e
esquecemos do hoje.
Desassossego que nos acompanha e se faz presente no mundo
moderno, na vida corrida, na hiperatividade, mas que nos enfrenta quando nos
deparamos com um espelho e então ele lança a pergunta incômoda, aquela que
tentamos fugir atulhando a mente com distrações e milhares de afazeres.
Desviamos da resposta que cutuca no fundo da consciência, empurramo-la para
depois e a vida segue, com o desassossego como companheiro. Sábio poeta que
soube enxergar tão bem a alma humana.
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Antes do sono
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Renato
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Espelho paterno
Sentei-me diante dela na mesa da sala de jantar e, discretamente, passei a observá-la por cima da tela do notebook. Compenetrada, livros, cadernos e estojo organizados e dispostos simetricamente sobre a mesa. Tirou uma folha branca com exercícios de matemática e com um lápis bem apontado, deu vida a números que dançavam sobre o papel branco com uma rapidez e leveza que fiquei surpreso.
Não tardou a terminar a resolução dos problemas e pediu que eu conferisse. Apenas um deles estava errado. Releu o enunciado e descobriu o erro sozinha. Apagou a resolução e refez o trabalho.
Durante pouco mais de trinta minutos, ela ficou imersa na lição de casa, concentrada, mergulhada nos estudos. Questionei-me se, na mesma idade, tinha tanta facilidade com o dever de casa, com a resolução dos problemas, com o estudo do ciclo da cana de açúcar. Conclui que não. Conclui que ela é muito mais inteligente que eu e muito mais dedicada e organizada. Ela não era mero reflexo do pai, mas uma pedra lapidada e apurada.
Depois do jantar, sentou-se no meu colo para me ajudar com o Sudoku do jornal. E disse:
- Gosto de ver você resolvendo estes problemas.
O coração de pai ficou derretido pelo elogio filial.
Ao deitar-me à noite, rememorei estes fatos que devem ter passado despercebidos por ela, mas que ficaram gravados naquela tarde. Momentos assim merecem ser preservados, e são preservados na memória. Ficarão guardados neste blog, e quem sabe um dia, ela os lerá.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Crônica: Doce Veneno - Parte 2
DOCE VENENO - Parte 2
(Parte 1)
(Parte 1)
Saí caminhando pela rua levemente confusa. Não queria ir além do beijo. Não queria ultrapassar limites impostos a mim mesma e que só o tempo seria capaz de ruir. Será que ele me interpretou corretamente? Será que ele não gostou do meu beijo? Será que ele se decepcionou comigo? Será que ele iria sumir depois de todos aqueles anos me esperando, esperando que aceitasse o convite dele e deixasse de lutar contra suas investidas?
Interrompi aquele espiral de insegurança e lembrei do seu abraço. Lembrei dos seus lábios buscando os meus. Recordei aquelas mãos tocando minha pele. E aquele olhar que me envenenou. Suspirei aliviada. Não havia qualquer razão plausível para dúvida; mas ela existia e martelava-me enquanto dava passos lentos pela rua. Aquela cena iria se repetir. Fui tomada de uma segurança e altivez raras. Ele havia me conquistado, ainda que eu dissesse o oposto. Ele havia trilhado o caminho do meu coração e derrubou cada obstáculo que lancei no caminho. Ele foi persistente, hábil, delicado, cirúrgico. Mas será que o encanto se evaporaria depois daquele beijo?
Comecei a falar sozinha no meio da rua. Não havia muitas pessoas por perto. Alguns olharam torto, tendo-me por maluca. Estava indiferente a tudo que circundava. Meu mundo era meu. Meu mundo era ele. Dane-se o exterior que não compreende minha dor, minha alegria, minha vontade de gritar e pular e dançar. Só ele sabe o poder que tem sobre mim e como me faz sentir. Suspirei profundamente e disse seu nome em voz alta. Um suspiro que pedia mais e mais. Um suspiro de entrega.
Interrompi aquele espiral de insegurança e lembrei do seu abraço. Lembrei dos seus lábios buscando os meus. Recordei aquelas mãos tocando minha pele. E aquele olhar que me envenenou. Suspirei aliviada. Não havia qualquer razão plausível para dúvida; mas ela existia e martelava-me enquanto dava passos lentos pela rua. Aquela cena iria se repetir. Fui tomada de uma segurança e altivez raras. Ele havia me conquistado, ainda que eu dissesse o oposto. Ele havia trilhado o caminho do meu coração e derrubou cada obstáculo que lancei no caminho. Ele foi persistente, hábil, delicado, cirúrgico. Mas será que o encanto se evaporaria depois daquele beijo?
Comecei a falar sozinha no meio da rua. Não havia muitas pessoas por perto. Alguns olharam torto, tendo-me por maluca. Estava indiferente a tudo que circundava. Meu mundo era meu. Meu mundo era ele. Dane-se o exterior que não compreende minha dor, minha alegria, minha vontade de gritar e pular e dançar. Só ele sabe o poder que tem sobre mim e como me faz sentir. Suspirei profundamente e disse seu nome em voz alta. Um suspiro que pedia mais e mais. Um suspiro de entrega.
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quarta-feira, 8 de julho de 2009
Crônica: Doce Veneno - Parte 1
DOCE VENENO - Parte 1
Abracei-o com toda a força que tinha e sussurrei no seu ouvido:
- Obrigado. Muito obrigado por você existir!
(continua)
Parei diante da porta de correr da varanda que estava aberta. A brisa do mar soprava leve. Estava imersa em pensamentos, que dissipavam minha ansiedade e minha aflição de estar no quarto dele. Sozinha com ele naquele quarto de hotel. Enfim, a sós com ele. Não sei de onde me veio a coragem, não sei se foram as palavras dele ou se cansei de resistir e o coração falou mais alto. Estava nervosa e ele notou. Tentei disfarçar, mas ele notara. Ele tinha esta capacidade de ler meus pensamentos, de decifrar tudo que se passava no meu âmago.
Não percebi quando ele se aproximou por trás, com passos leves, e abraçou-me de um jeito todo delicado. Seus braços me enlaçaram e ele me puxou contra seu corpo. Aninhou seu queixo sobre meu ombro. Sua respiração quente acariciava meu rosto, seu coração batia acelerado e naquele instante o temor desapareceu de forma mágica. Não disse uma palavra. Nem ele. Não era preciso. Sabia o que ele pensava. Virei meu rosto e beijei sua boca. Aquele beijo que há tempos ansiava e esperava deixou minhas pernas trêmulas. Se não me apoiasse nele, teria caído.
Virei-me para ele e o beijo se tornou mais profundo. Havia um doce veneno naquela boca que percorreu todo meu corpo, aquecendo minha pele e provocando uma deliciosa taquicardia. Sabia que se provasse daquele veneno cairia em sua teia, entregue, vencida pelo tempo, pelas palavras, pelos gestos, pelos carinhos. Se morresse naquele momento, morreria a mulher mais feliz do mundo.
Suas mãos percorriam minhas costas até meus cabelos e abracei com mais força. Nossas línguas brincavam explorando a boca que se oferecia como um manjar dos deuses, doce, sublime, inebriante. Entorpecida, esqueci de tudo que havia a minha volta. Meus pensamentos davam cambalhotas de alegria e de medo, temerosa do que viria a seguir. Ele percebeu meu medo, interrompeu o beijo, olhou-me nos olhos, com um olhar todo seu, com um olhar penetrante que lia minha alma e me dissecava. Um olhar que me inundou de uma paz interior indescritível. Um olhar que afastou todo o medo que sentia. Um olhar que apaziguou minha ansiedade e revelou-me que tudo o que imaginava sobre ele era verdadeiro.
Aquele homem havia aberto um novo capítulo em minha vida. Surgido do nada, ao acaso, agora ele escrevia páginas e mais páginas que gritavam por palavras e por estórias. Havia me esquecido o que era sentir o que senti naquele curto espaço de tempo em que perecia levitar.
Não percebi quando ele se aproximou por trás, com passos leves, e abraçou-me de um jeito todo delicado. Seus braços me enlaçaram e ele me puxou contra seu corpo. Aninhou seu queixo sobre meu ombro. Sua respiração quente acariciava meu rosto, seu coração batia acelerado e naquele instante o temor desapareceu de forma mágica. Não disse uma palavra. Nem ele. Não era preciso. Sabia o que ele pensava. Virei meu rosto e beijei sua boca. Aquele beijo que há tempos ansiava e esperava deixou minhas pernas trêmulas. Se não me apoiasse nele, teria caído.
Virei-me para ele e o beijo se tornou mais profundo. Havia um doce veneno naquela boca que percorreu todo meu corpo, aquecendo minha pele e provocando uma deliciosa taquicardia. Sabia que se provasse daquele veneno cairia em sua teia, entregue, vencida pelo tempo, pelas palavras, pelos gestos, pelos carinhos. Se morresse naquele momento, morreria a mulher mais feliz do mundo.
Suas mãos percorriam minhas costas até meus cabelos e abracei com mais força. Nossas línguas brincavam explorando a boca que se oferecia como um manjar dos deuses, doce, sublime, inebriante. Entorpecida, esqueci de tudo que havia a minha volta. Meus pensamentos davam cambalhotas de alegria e de medo, temerosa do que viria a seguir. Ele percebeu meu medo, interrompeu o beijo, olhou-me nos olhos, com um olhar todo seu, com um olhar penetrante que lia minha alma e me dissecava. Um olhar que me inundou de uma paz interior indescritível. Um olhar que afastou todo o medo que sentia. Um olhar que apaziguou minha ansiedade e revelou-me que tudo o que imaginava sobre ele era verdadeiro.
Aquele homem havia aberto um novo capítulo em minha vida. Surgido do nada, ao acaso, agora ele escrevia páginas e mais páginas que gritavam por palavras e por estórias. Havia me esquecido o que era sentir o que senti naquele curto espaço de tempo em que perecia levitar.
Abracei-o com toda a força que tinha e sussurrei no seu ouvido:
- Obrigado. Muito obrigado por você existir!
(continua)
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
Crônica: Vazão
Precisava dar vazão às palavras que irriquietas pulavam e saltativam no meu interior. Algazarra de crianças dentro de um ônibus que ruma para uma excursão numa tarde qualquer. Barulhentas, ansiosas, as palavras enfileiraram-se no papel, aparentando ordem e disciplina que não existia no turbilhão interno de onde foram confeccionadas. Redemoinhos de sentimentos, que viraram pensamentos, que viraram palavras. Assim como as crianças, difíceis de controlar e de saber que peça iriam me pregar.
Dei vazão às palavras. Coloquei-as no papel. Enviei a mensagem. O inquieto passei a ser eu, no aguardo de que ela lesse aquele amontoado de ideias, de sentimentos, de palavras doces. Reli a mensagem e tive a sensação de que Fernando Pessoa estava certo: todas as cartas de amor são ridículas. Senti minha pele enrusbescer. Senti-me um idiota cujas palavras não diziam nada e seriam incompreensíveis a ela. Um nó formou-se na minha garganta, passei a suar frio, a cadeira parecia ter pregos a me espetar e tudo por causa de um estúpido email que resolvi enviar.
Poderia muito bem ter-me calado, silenciado e ela nunca saberia de todas as sentimentalidades, de todos os desejos, de todas os delírios que se passaram na minha cabeça. Sentimentos restariam adormecidos e seguiriam calados comigo pelo resto dos meus dias. Mas, resolvi dar vazão às palavras.
Lancei-as ao vento e não pertenciam mais a mim. Elas agora eram do mundo, ou melhor do mundo dela, só dela. Talvez ela não lesse a mensagem, pensei, mas isto era improvável. Respirei fundo e deixei os ombros cairem. Só me restava esperar e esperar.
Fui deitar-me, pois já era tarde, assim como hoje. No meio-sono, tomado por uma certa embriaguez natural deste momento mágico em que mergulhamos nos braços de morfeu, senti como se ela me abraçasse. O toque de suas mãos me envolvendo, percorrendo meus ombros, me puxando contra si e me abraçando, trouxeram-me o sorriso e uma paz plena. Fui tomado de um estupor indescritível. Seus cabelos roçavam no meu rosto e ela sorria para mim. Poderia tê-la tocado, mas era ela que me tocava. Adormeci com a inequívoca certeza de que havia feito a coisa certa ao dar vazão às minhas palavras mais íntimas.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Crônica: Espinhos
Começaste com uma agulha. Vencido o tempo do idílio e do conto de fadas, vieram as pontadas nos dedos. Usaste o instrumento de costura para provocar pequenas feridas. Bolinhas vermelhas a tingir meus dedos. Não tinha dedal e qual mão de costureira e apareceram as primeiras marcas.
Descobriste os espinhos, meio mais eficaz para rasgar a carne e tatuar o corpo com cicatrizes póstumas ao sangue jorrado da carne dilacerada. Não me coroaste com espinhos, mas as feridas eram tão profundas e doloridas que quase sucumbi. Calos nas mãos e nos pés, defesa natural do corpo agredido, do coração esmagado. A carapaça nasceu naturalmente fruto do instinto de sobrevivência e da esperança de que um dia a flor voltaria a desabrochar. Um cactus sem flor, mas coberto de espinhos defensivos. Carapaça intransponível que criara um mundo aparte oriundo de boas lembranças e sonhos.
O arsenal foi todo testado. Dardos, flechas, zarabatanas, lanças. Talvez até uma bala não ultrapassasse o escudo formado pelos momentos de descaso. Blindado estava eu e a distância era uma proteção eficaz. Distância que permitia desviar com malabarismos dos ataques constantes e mais freqüentes. Saltos, cambalhotas, piruetas. Artimanhas aprendidas com a vida. Dolorosas para um corpo pouco flexível e desanimado.
O solo tornou-se estéril. Deserto arenoso do coração. Desterro solitário, delirando na ilusão de que a nova estação traria chuvas. Chão árido onde o cactus não dava flor e murchava com a ausência total de água e da seiva da vida. Relegado ao relento, ao frio da noite e ao sol escaldante do meio-dia. Ignorado, desprezado, imóvel. Restava aguardar abraçado ao tempo.
De forma improvável, trouxeste as primeiras gotas a regar o chão duro e rachado. Suguei o líquido vindo dos céus com um sorriso tímido. Mandaste mais chuva e adubo para o solo. Enrugado que estava pela secura, voltei a sentir a pele mais tenra. Os calos pareciam diminuir e o sangue circulava com mais vigor, levemente palpitante a irrigar todos os órgãos deste corpo. Cuidaste de mim. Podaste as folhas mortas. Inesperada chuva que aliviou a dor. E quando faltou a chuva, regaste-me com palavras.
Não estava morto. Apenas hibernara sem data para despertar. Descobri esta verdade apenas quando surgiste. O coração desfalecido, quebradiço, fragilizado, recuperava-se agora.
Incrédulo, dei me conta de que trazia boas novas. Incrédulo, recobrei o brilho no olhar. Incrédulo, voltei a notar que o solo se recobria de verde e de brotos. Incrédulo, transformaste os espinhos em um campo de flores. A noite que sucedeu era estrelada e com uma lua magnífica. As flores voltaram rejuvenescidas e trazidas como fruto de inúmeras palavras. Sempre mágicas.
Descobriste os espinhos, meio mais eficaz para rasgar a carne e tatuar o corpo com cicatrizes póstumas ao sangue jorrado da carne dilacerada. Não me coroaste com espinhos, mas as feridas eram tão profundas e doloridas que quase sucumbi. Calos nas mãos e nos pés, defesa natural do corpo agredido, do coração esmagado. A carapaça nasceu naturalmente fruto do instinto de sobrevivência e da esperança de que um dia a flor voltaria a desabrochar. Um cactus sem flor, mas coberto de espinhos defensivos. Carapaça intransponível que criara um mundo aparte oriundo de boas lembranças e sonhos.
O arsenal foi todo testado. Dardos, flechas, zarabatanas, lanças. Talvez até uma bala não ultrapassasse o escudo formado pelos momentos de descaso. Blindado estava eu e a distância era uma proteção eficaz. Distância que permitia desviar com malabarismos dos ataques constantes e mais freqüentes. Saltos, cambalhotas, piruetas. Artimanhas aprendidas com a vida. Dolorosas para um corpo pouco flexível e desanimado.
O solo tornou-se estéril. Deserto arenoso do coração. Desterro solitário, delirando na ilusão de que a nova estação traria chuvas. Chão árido onde o cactus não dava flor e murchava com a ausência total de água e da seiva da vida. Relegado ao relento, ao frio da noite e ao sol escaldante do meio-dia. Ignorado, desprezado, imóvel. Restava aguardar abraçado ao tempo.
De forma improvável, trouxeste as primeiras gotas a regar o chão duro e rachado. Suguei o líquido vindo dos céus com um sorriso tímido. Mandaste mais chuva e adubo para o solo. Enrugado que estava pela secura, voltei a sentir a pele mais tenra. Os calos pareciam diminuir e o sangue circulava com mais vigor, levemente palpitante a irrigar todos os órgãos deste corpo. Cuidaste de mim. Podaste as folhas mortas. Inesperada chuva que aliviou a dor. E quando faltou a chuva, regaste-me com palavras.
Não estava morto. Apenas hibernara sem data para despertar. Descobri esta verdade apenas quando surgiste. O coração desfalecido, quebradiço, fragilizado, recuperava-se agora.
Incrédulo, dei me conta de que trazia boas novas. Incrédulo, recobrei o brilho no olhar. Incrédulo, voltei a notar que o solo se recobria de verde e de brotos. Incrédulo, transformaste os espinhos em um campo de flores. A noite que sucedeu era estrelada e com uma lua magnífica. As flores voltaram rejuvenescidas e trazidas como fruto de inúmeras palavras. Sempre mágicas.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Palavras sábias
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sexta-feira, 4 de abril de 2008
Crônica: Caixa de Chocolates

CAIXA DE CHOCOLATES
Ao voltar do almoço, logo ao entrar na sala, reparou no embrulho sobre a mesa. Uma pequena caixa envolta em papel colorido, em tons claros, com uma etiqueta endereçada a ela. Ficou surpresa e curiosa, ainda que a intuição feminina lhe dissesse que o remetente era conhecido. Deixou a bolsa sobre a cadeira e apanhou o pacote ainda de pé. O coração palpitou mais forte enquanto retirava a fita adesiva com cuidado. Uma caixa de madeira de cor lilás e com uma tampa branca em pintura rústica. “Ele tem bom gosto!”, pensou em voz alta com um sorriso desabrochando.
Abriu a caixa e encontrou apenas três bombons e vários pequenos pedaços de papel dobrados de forma igual. No fundo da caixa, uma folha maior dobrada em quatro partes. Abriu primeiro a folha grande e nela uma carta:
“Olá, minha querida!
Imagino-te surpresa. Gosto de te surpreender, mas os pensamentos e sentimentos também me surpreendem. No dia em que seu olhar cruzou com o meu, minha vida tomou um novo rumo, um rumo colorido, um rumo alegre. Nesta pequena caixa encontrará momentos e lembranças. Poucas palavras. Memórias, muitas. Memórias guardadas de forma especial e intensa no coração. Não em um cantinho escondido, mas no centro dele. Memórias espaçosas, que expulsaram a melancolia e a escuridão.
Cada papelote tem uma palavra que aflorará à memória gestos, ocasiões, sentimentos, sonhos, desejos. Uma música, um presente, um olhar, um brinco, uma surpresa, uma brincadeira, uma conversa, uma lágrima. Sei que você entenderá. E confio que a sua memória trará a lembrança de um momento inesquecível, de um acaso qualquer. São nestes momentos que pensei quando escrevi cada papelzinho.
Guarda-os contigo. E se precisares de um sorriso, ou de um carinho especial, tira um da caixa, leia-o e feche os olhos. Estarei pensando em você para lhe trazer um beijo e todo carinho que você merece.
Um beijo deste eterno amigo paulista.”
Os olhos estavam marejados, o coração pulsando forte, a pele arrepiada. Sentia-se levitar, um sentimento sublime, doce, intenso. Beijou o papel com os olhos fechados. A surpresa dizia em poucas palavras tudo que ele sentia e ela teve uma vontade incontrolável de correr para os braços dele, de beijá-lo, de poder dizer obrigado mil vezes. Ela tinha que esperar. Tinha que esperar até que ele viesse novamente ao Rio. Enfim, tinha que esperar.
Abriu a caixa e encontrou apenas três bombons e vários pequenos pedaços de papel dobrados de forma igual. No fundo da caixa, uma folha maior dobrada em quatro partes. Abriu primeiro a folha grande e nela uma carta:
“Olá, minha querida!
Imagino-te surpresa. Gosto de te surpreender, mas os pensamentos e sentimentos também me surpreendem. No dia em que seu olhar cruzou com o meu, minha vida tomou um novo rumo, um rumo colorido, um rumo alegre. Nesta pequena caixa encontrará momentos e lembranças. Poucas palavras. Memórias, muitas. Memórias guardadas de forma especial e intensa no coração. Não em um cantinho escondido, mas no centro dele. Memórias espaçosas, que expulsaram a melancolia e a escuridão.
Cada papelote tem uma palavra que aflorará à memória gestos, ocasiões, sentimentos, sonhos, desejos. Uma música, um presente, um olhar, um brinco, uma surpresa, uma brincadeira, uma conversa, uma lágrima. Sei que você entenderá. E confio que a sua memória trará a lembrança de um momento inesquecível, de um acaso qualquer. São nestes momentos que pensei quando escrevi cada papelzinho.
Guarda-os contigo. E se precisares de um sorriso, ou de um carinho especial, tira um da caixa, leia-o e feche os olhos. Estarei pensando em você para lhe trazer um beijo e todo carinho que você merece.
Um beijo deste eterno amigo paulista.”
Os olhos estavam marejados, o coração pulsando forte, a pele arrepiada. Sentia-se levitar, um sentimento sublime, doce, intenso. Beijou o papel com os olhos fechados. A surpresa dizia em poucas palavras tudo que ele sentia e ela teve uma vontade incontrolável de correr para os braços dele, de beijá-lo, de poder dizer obrigado mil vezes. Ela tinha que esperar. Tinha que esperar até que ele viesse novamente ao Rio. Enfim, tinha que esperar.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Crônica: Frágil Coração

FRÁGIL CORAÇÃO
Não ligou o rádio do carro naquela manhã a caminho do trabalho. Deixou o interior do carro em completo silêncio, vidros fechados, que contrastava com o barulho do seu interior. Ela estava isolada numa bolha, alheia ao que acontecia ao seu redor. O trânsito intenso e a fileira de carros foram abstraídos da realidade. Ela entrou em automático e seguia o trajeto de forma robotizada, automática. Estava absorta em pensamentos, na conversa da noite anterior com o marido. Uma conversa que lhe deixara sem chão, perplexa, confusa, culpada.
Lembrou das palavras de sua avó, poucas semanas antes do casamento. Sabedoria de uma longa vida. “O coração é um órgão frágil, minha filha!”, ela lhe dissera. “Ele precisa ser regado, cuidado, nutrido, senão resseca, murcha, definha. Ele precisa ser protegido com uma cerca, sem buracos, sem mourões quebrados ou podres, mantendo a guarda atenta e sempre alerta. Caso contrário, você deixa entrar animais carnívoros que o atacarão, grandes predadores que arrancarão pedaços dele. E tomar cuidado também com aquelas pragas invisíveis, que lentamente, silenciosamente, contaminam tudo, por vezes imperceptível, abrindo uma fenda que pode se transformar num intransponível abismo. Pragas que vão endurecê-lo, torná-lo duro e empedernido. E se ele cair no chão, como um vaso de porcelana, ele se quebrará. E se alguém, por perto passar, e notar os cacos no chão, eles serão colados, um a um, com carinho, atenção e zelo, reconstruindo o belo vaso que se espatifara no chão. Nesse caso, ele terá um novo dono e talvez você perceba quando é tarde demais. Lembre-se, minha filha, o coração é muito frágil, vulnerável. Cuide dele!”
Palavras ditas há mais de 8 anos, mas que permaneciam vivas. Quando a cerca balançava, ela procurava remendá-la prontamente, ainda que exigisse muito esforço. Mas depois da conversa de ontem, percebera que não havia mais sentido em manter a cerca intacta. A rachadura era muito grande. E ela não tinha notado. Culpou-se por tudo isto e deixou as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto sem maquiagem.
Lembrou das palavras de sua avó, poucas semanas antes do casamento. Sabedoria de uma longa vida. “O coração é um órgão frágil, minha filha!”, ela lhe dissera. “Ele precisa ser regado, cuidado, nutrido, senão resseca, murcha, definha. Ele precisa ser protegido com uma cerca, sem buracos, sem mourões quebrados ou podres, mantendo a guarda atenta e sempre alerta. Caso contrário, você deixa entrar animais carnívoros que o atacarão, grandes predadores que arrancarão pedaços dele. E tomar cuidado também com aquelas pragas invisíveis, que lentamente, silenciosamente, contaminam tudo, por vezes imperceptível, abrindo uma fenda que pode se transformar num intransponível abismo. Pragas que vão endurecê-lo, torná-lo duro e empedernido. E se ele cair no chão, como um vaso de porcelana, ele se quebrará. E se alguém, por perto passar, e notar os cacos no chão, eles serão colados, um a um, com carinho, atenção e zelo, reconstruindo o belo vaso que se espatifara no chão. Nesse caso, ele terá um novo dono e talvez você perceba quando é tarde demais. Lembre-se, minha filha, o coração é muito frágil, vulnerável. Cuide dele!”
Palavras ditas há mais de 8 anos, mas que permaneciam vivas. Quando a cerca balançava, ela procurava remendá-la prontamente, ainda que exigisse muito esforço. Mas depois da conversa de ontem, percebera que não havia mais sentido em manter a cerca intacta. A rachadura era muito grande. E ela não tinha notado. Culpou-se por tudo isto e deixou as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto sem maquiagem.
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terça-feira, 2 de outubro de 2007
Crônica: Brisa

BRISA
O vento brincou com seus cabelos, desarrumando-os e lançando uma mecha que lhe cobriu parte do rosto. Ela coçou o nariz duas vezes e puxou os cabelos para trás, prendendo-os num rabo-de-cavalo alto. O rosto livre dos fios aloirados e domesticados pelo elástico. Os longos cabelos presos revelavam toda a beleza do rosto sem maquiagem. O contorno do pescoço exposto com sua suave curva. Pedro gostava de apreciar as linhas que desciam de sua nuca e uniam-se aos ombros desnudos. Talvez fosse o tom da pele, talvez simplesmente fosse ela.
Ela permanecia imóvel, olhos fixos no mar, alheia ao ruído da Avenida Atlântica. A água de coco refrescava-lhe numa tarde quente de primavera. O pensamento longe tinha na saudade o conforto. Queria Pedro ao lado dela, naquele quiosque, naquela tarde, no meio do expediente, como fizera algumas vezes. Escapavam do trabalho para conversar e rir. Lembrou-se de quando ele percebeu a discreta cicatriz sobre a sobrancelha direita, um pequeno risquinho, quase imperceptível, mas que ele notara. Ele notava tudo. Não dizia tudo para não parecer paranóico, mas ela sabia que ele notava tudo. O silêncio, o olhar, o sorriso, os gestos. Ao rememorar estes fatos, alegrou-se, sorriu. Com a brisa do mar, afastou-se a saudade.
Ela permanecia imóvel, olhos fixos no mar, alheia ao ruído da Avenida Atlântica. A água de coco refrescava-lhe numa tarde quente de primavera. O pensamento longe tinha na saudade o conforto. Queria Pedro ao lado dela, naquele quiosque, naquela tarde, no meio do expediente, como fizera algumas vezes. Escapavam do trabalho para conversar e rir. Lembrou-se de quando ele percebeu a discreta cicatriz sobre a sobrancelha direita, um pequeno risquinho, quase imperceptível, mas que ele notara. Ele notava tudo. Não dizia tudo para não parecer paranóico, mas ela sabia que ele notava tudo. O silêncio, o olhar, o sorriso, os gestos. Ao rememorar estes fatos, alegrou-se, sorriu. Com a brisa do mar, afastou-se a saudade.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Crônica: Pássaro

PÁSSARO
Desceram do táxi na frente do hotel. Trocaram algumas palavras, despediram-se com um longo abraço e um beijo no rosto. Ele acompanhou-a por uns 50 metros até a Siqueira Campos, quando repetiram o gesto de despedida. Partiu e ela atravessou a rua com o olhar seguindo-a.
Voltou ao hotel, inebriado, com a alma aquecida. Sentia que podia voar como um pássaro sobre a orla de Copacabana. Sentou-se na varanda do 15º. andar do prédio e releu o email que lhe havia enviado. “Será que ela o lerá hoje ainda?” – pensou. Era pouco depois das 20 horas. Todo o encontro, toda a conversa estava viva na sua mente. Cada sorriso, cada gesto, cada toque, cada palavra. Tudo fresco e maduro na memória. Pensou nas coisas que queria dizer e não disse, pensou no beijo que queria dar e não dera....mas tudo aquilo era pequeno diante da profunda alegria que o tomava.
O ponto alto do encontro foi o presente que lhe dera. O sorriso ao abrir o pacotinho contendo os brincos....ao colocá-los....tudo aquilo o fazia flutuar.
Fitava o infinito, congelado, mas ardendo por dentro um fogo prazeroso. Estava feliz, sereno, com um riso incontido. Um adolescente que acabava de desfrutar de uma companhia única, um delírio acordado, arrebatado por aquela mulher.
Não tinha ao certo quanto tempo ficou ali sentado, mas o olhar estava fixo no pequeno trecho de esquina entre a Domingos Ferreira e a Siqueira Campos, que avistava do último andar do prédio. Queria vê-la de novo, só mais um pouquinho, mais uma vez, ainda que por poucos segundos. Esperou e ela surgiu. Caminhava cansada, pois já passava das 21 horas. A visão durou pouco, mas deu um novo choque de oxitocina no seu corpo, um choque de prazer e alegria, um choque de encantamento.
Sonhou ser um pássaro e voar por sobre sua cabeça. Ou um anjo da guarda para caminhar do seu lado. Um pássaro era melhor. Pequeno, discreto, invisível, para seguir seus passos até sua casa. Pousar na janela e contemplar aquela mulher que havia aparecido em sua vida e transformado seus dias e noites. Silencioso e imperceptível. Vê-la tirar os sapatos. Vê-la beijar o filho. Vê-la cansada, mas sempre bela. Vê-la lendo o email. Vê-la reagindo. Vê-la sorrindo. Vê-la levemente sem graça.
O toque do celular despertou-o do devaneio e com ele a mensagem esperada. Ela havia lido o email e ele voltou para as nuvens, voando, novamente, como um pássaro.
Voltou ao hotel, inebriado, com a alma aquecida. Sentia que podia voar como um pássaro sobre a orla de Copacabana. Sentou-se na varanda do 15º. andar do prédio e releu o email que lhe havia enviado. “Será que ela o lerá hoje ainda?” – pensou. Era pouco depois das 20 horas. Todo o encontro, toda a conversa estava viva na sua mente. Cada sorriso, cada gesto, cada toque, cada palavra. Tudo fresco e maduro na memória. Pensou nas coisas que queria dizer e não disse, pensou no beijo que queria dar e não dera....mas tudo aquilo era pequeno diante da profunda alegria que o tomava.
O ponto alto do encontro foi o presente que lhe dera. O sorriso ao abrir o pacotinho contendo os brincos....ao colocá-los....tudo aquilo o fazia flutuar.
Fitava o infinito, congelado, mas ardendo por dentro um fogo prazeroso. Estava feliz, sereno, com um riso incontido. Um adolescente que acabava de desfrutar de uma companhia única, um delírio acordado, arrebatado por aquela mulher.
Não tinha ao certo quanto tempo ficou ali sentado, mas o olhar estava fixo no pequeno trecho de esquina entre a Domingos Ferreira e a Siqueira Campos, que avistava do último andar do prédio. Queria vê-la de novo, só mais um pouquinho, mais uma vez, ainda que por poucos segundos. Esperou e ela surgiu. Caminhava cansada, pois já passava das 21 horas. A visão durou pouco, mas deu um novo choque de oxitocina no seu corpo, um choque de prazer e alegria, um choque de encantamento.
Sonhou ser um pássaro e voar por sobre sua cabeça. Ou um anjo da guarda para caminhar do seu lado. Um pássaro era melhor. Pequeno, discreto, invisível, para seguir seus passos até sua casa. Pousar na janela e contemplar aquela mulher que havia aparecido em sua vida e transformado seus dias e noites. Silencioso e imperceptível. Vê-la tirar os sapatos. Vê-la beijar o filho. Vê-la cansada, mas sempre bela. Vê-la lendo o email. Vê-la reagindo. Vê-la sorrindo. Vê-la levemente sem graça.
O toque do celular despertou-o do devaneio e com ele a mensagem esperada. Ela havia lido o email e ele voltou para as nuvens, voando, novamente, como um pássaro.
terça-feira, 3 de julho de 2007
Crônica: Foto

Distraído, no meio do dia, sou desperto do meu devaneio ao ver na tela uma foto sua. Há algo de mágico nesta foto que me enviou. Talvez seja o teu sorriso, de lábios elegantemente afastados emoldurando os dentes alvos. Talvez seja o olhar, de brilho de cristal, olhos castanhos que alumiam a noite e refletem um mundo interior. Talvez seja teu rosto, de pele morena, bochechas coradas, pintinha num canto dando um toque de charme.
Talvez seja você e um magnetismo que percebo, um carisma inconfundível, uma magia peculiar e discreta. O sorriso estampado no rosto de uma mulher madura, mas que tem traços de uma menina arteira, de uma criança de espírito, própria das almas leves e encantadoras. Alma complexa que só um bom observador apreende da foto.
Parei alguns segundos, que viraram minutos, hipnotizado a te contemplar. Paralisado num momento atemporal, coração acelerado, flutuando sem sair de minha cadeira. Uma foto pode ser mágica e as tuas sempre são. Pelo menos, para mim.
sábado, 30 de junho de 2007
Poesia: FALTAM-ME PALAVRAS

FALTAM-ME PALAVRAS
Faltam-me palavras
Atônito
Paralisado diante das letras
Que saltam do papel aos meus olhos
E as letras dançam, ganham vida
Soam deliciosamente aos meus ouvidos
Perfumam o ar
Inebriam todo meu ser
Flutuo, levito
Torno-me um anjo
Um pássaro de grande envergadura
E alço vôo no céu anil
Despido de nuvens
Colorido pelo astro rei.
Coração a batucar
Em ritmo de samba, em ritmo de bateria
Em ritmo único e particular
Palavras simples que dizem tudo
Que sussurram com sotaque arrastado
Com malícia e jingado
Com jeito moleque
Coração dançarino
Ao som de nova melodia.
(RLBF - junho 2007)
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Crônica: Quer dançar?

Avistou-a do outro lado do salão, sentada na mesa bebericando uma taça de Prosecco e conversando com uma amiga. Ela não o viu. Estava com um lindo vestido azul escuro, com decote discreto e cavado nas costas cobertas por seus longos cabelos castanhos. Algo de especial havia naquela noite de festa, talvez o sorriso que escondia um sentimento de tristeza, disfarçado no clima de alegria que envolvia o ambiente. A banda cumpria o roteiro típico de festas de casamento, começando com músicas de Frank Sinatra e sucessos da época em que se dançava com um par a noite inteira.
Pacientemente, Eduardo esperou que ela ficasse sozinha. Queria ter certeza de que ela não estava acompanhada. A amiga deixou-a na mesa e ele foi ao seu encontro. Estava distraída quando perguntou:
- Quer dançar?
- Vou pisar no seu pé. – respondeu rindo. Estou meio altinha com estas taças de Prosecco.
- Não me importo, desde que dance comigo. Fique tranqüila que não vou deixar você cair. – retrucou com um sorriso correspondido com um olhar que dizia que ela estava contente de encontrá-lo.
Estendeu a mão e conduziu-a à pista. Dançaram uma, duas, três músicas sem trocarem qualquer palavra. Eduardo sentia seu coração acelerado, o perfume suave inundava suas narinas, o toque das mãos, o cabelo que roçava seu rosto, tudo aquilo fez com que esquecesse por completo tudo à sua volta. Sabia que aquele momento iria se eternizar em sua memória com todos os pequenos detalhes, queria que o tempo parasse, que todos sumissem e que a música nunca cessasse. Queria ficar dançando com ela, coladinho, para sempre. Palavras não eram necessárias e ele tinha certeza de que ela era capaz de ler seus pensamentos e adivinhar o que se passava no seu interior.
- Está vendo como não pisou nos meus pés. – disse ele.
Ela colou seu rosto no dele, aproximou-se mais e suspirou. Um desabafo que deixava transparecer a tristeza que havia detectado no sorriso disfarçado.
A música vinda do despertador acordou-o. Jogou as pernas para fora da cama e viu-se num quarto vazio, despertado do sono da noite. Queria voltar a dormir, queria voltar a sonhar, queria que o sonho continuasse.
Pacientemente, Eduardo esperou que ela ficasse sozinha. Queria ter certeza de que ela não estava acompanhada. A amiga deixou-a na mesa e ele foi ao seu encontro. Estava distraída quando perguntou:
- Quer dançar?
- Vou pisar no seu pé. – respondeu rindo. Estou meio altinha com estas taças de Prosecco.
- Não me importo, desde que dance comigo. Fique tranqüila que não vou deixar você cair. – retrucou com um sorriso correspondido com um olhar que dizia que ela estava contente de encontrá-lo.
Estendeu a mão e conduziu-a à pista. Dançaram uma, duas, três músicas sem trocarem qualquer palavra. Eduardo sentia seu coração acelerado, o perfume suave inundava suas narinas, o toque das mãos, o cabelo que roçava seu rosto, tudo aquilo fez com que esquecesse por completo tudo à sua volta. Sabia que aquele momento iria se eternizar em sua memória com todos os pequenos detalhes, queria que o tempo parasse, que todos sumissem e que a música nunca cessasse. Queria ficar dançando com ela, coladinho, para sempre. Palavras não eram necessárias e ele tinha certeza de que ela era capaz de ler seus pensamentos e adivinhar o que se passava no seu interior.
- Está vendo como não pisou nos meus pés. – disse ele.
Ela colou seu rosto no dele, aproximou-se mais e suspirou. Um desabafo que deixava transparecer a tristeza que havia detectado no sorriso disfarçado.
A música vinda do despertador acordou-o. Jogou as pernas para fora da cama e viu-se num quarto vazio, despertado do sono da noite. Queria voltar a dormir, queria voltar a sonhar, queria que o sonho continuasse.
(Ilustração do post: Baile, de Fernando Botero)
segunda-feira, 11 de junho de 2007
Crônica: Carta a uma amiga
Luis sentou-se diante da tela do computador, num final de dia, e resolveu redigir um email a uma amiga.
Querida amiga,
Sinto que preciso te dizer algumas coisas neste teu aniversário. Coisas estas guardadas dentro de mim e que borbulham no meu interior prontas para ganhar vida. Redescobri a poesia da vida com você. Seu jeito, seu olhar, sua voz, seu sorriso, seu carisma mudaram minha vida de uma forma tão delicada, sutilmente feminina, carinhosa. Naturalmente você me fez perceber as coisas, sem imposições, simplesmente sendo você. E quando me dava conta, uma implicância já havia desaparecido, um momento que passaria despercebido marcou-me de forma inesquecível, um simples encontro para um café cravou na minha alma um sentimento novo.
Você trouxe música de volta aos meus dias, adivinhando meus gostos, falando com palavras em forma de canções. Música que me faz sorrir e leva meu pensamento a viajar para junto de ti.
Sim, minha amiga, você é a culpada por tudo isto. Somente coisas boas que sem você não teriam acontecido.
A magia da amizade transforma até os corações mais gelados, mais frios, mais indiferentes. E esta magia faz acender no coração empedernido o calor da brasa. A pedra se torna fonte de vida e de luz. O coração se transmuda em algo divino, compartilhando do amor maior.
Minha amiga, sou-lhe eternamente grato e eternamente endividado por terdes feito tudo isto por mim, ainda que sem querer, ainda que sem notar.
Sei que não detenho a mesma magia, que não sou capaz de estampar um eterno sorriso no teu rosto, mas sempre vou tentar, pois uma amiga como você é muito valiosa. Feliz Aniversário.
Um beijo carinhoso,
Releu a mensagem. Achou-a muito intensa, muito sincera. Desistiu de mandá-la. Marcou o texto e apagou a mensagem. Começou de novo e escreveu algo que pensava ser mais condizente com seu estilo.
Querida amiga,
Sinto que preciso te dizer algumas coisas neste teu aniversário. Coisas estas guardadas dentro de mim e que borbulham no meu interior prontas para ganhar vida. Redescobri a poesia da vida com você. Seu jeito, seu olhar, sua voz, seu sorriso, seu carisma mudaram minha vida de uma forma tão delicada, sutilmente feminina, carinhosa. Naturalmente você me fez perceber as coisas, sem imposições, simplesmente sendo você. E quando me dava conta, uma implicância já havia desaparecido, um momento que passaria despercebido marcou-me de forma inesquecível, um simples encontro para um café cravou na minha alma um sentimento novo.
Você trouxe música de volta aos meus dias, adivinhando meus gostos, falando com palavras em forma de canções. Música que me faz sorrir e leva meu pensamento a viajar para junto de ti.
Sim, minha amiga, você é a culpada por tudo isto. Somente coisas boas que sem você não teriam acontecido.
A magia da amizade transforma até os corações mais gelados, mais frios, mais indiferentes. E esta magia faz acender no coração empedernido o calor da brasa. A pedra se torna fonte de vida e de luz. O coração se transmuda em algo divino, compartilhando do amor maior.
Minha amiga, sou-lhe eternamente grato e eternamente endividado por terdes feito tudo isto por mim, ainda que sem querer, ainda que sem notar.
Sei que não detenho a mesma magia, que não sou capaz de estampar um eterno sorriso no teu rosto, mas sempre vou tentar, pois uma amiga como você é muito valiosa. Feliz Aniversário.
Um beijo carinhoso,
Releu a mensagem. Achou-a muito intensa, muito sincera. Desistiu de mandá-la. Marcou o texto e apagou a mensagem. Começou de novo e escreveu algo que pensava ser mais condizente com seu estilo.
Querida amiga,
Feliz Aniversário. Parabéns e muitas felicidades.
Um beijo do seu amigo.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Crônica: Tarde no Café

No meio da tarde de sábado, final de verão, Pedro escolheu uma mesa perto da calçada, num simpático café da Rua Oscar Freire. Queria ver gente. Observar as pessoas. Analisar. Distrair-se com as divertidas figuras do coração do luxo e da elegância paulistana. Pediu um café puro e um pão de queijo. Deixou o livro recém-adquirido sobre a mesa, cruzou as pernas e preguiçosamente deixou seu olhar passear.
Passeavam pela calçada, ou melhor, desfilavam mulheres com sacolas, com cachorrinhos embonecados, com óculos escuros largos sobre a face, com amigas a falar e a gargalhar alto. Uma fauna de mulheres ricas, de peruas, de patricinhas, de todas as tribos urbanas e cosmopolitas. Umas medindo as outras de cima abaixo. Grifes caras e famosas e outras nem tanto. Uma variedade de roupas e estilos, de tamanhos e de rostos, de aromas de perfumes caros e de cores. Tudo se mesclava numa tela impressionista, sem precisão, como um emaranhado de sons, aromas e formas.
Pedro fitava-as discretamente, de relance. Começou pelos pés. Admirou-se com a variedade de sapatos, sandálias, unhas, pés que por ali passavam. Achava defeito em todos. Simpatizou com alguns. Mas algo incomodava-lhe.
Distraiu-se então com os rostos. Reparou nos cabelos, alguns longos, outros curtos, presos, soltos, loiros, ruivos e castanhos. Cortes variados, visuais esquisitos, outros elegantes, outros mais simples. “Qual o mais bonito”, perguntava-se. “Qual a forma da beleza?” Uma beleza abstrata rondava sua mente e não se materializava diante dele naquela tarde. Pensou em Platão e no mundo das idéias. “Seria a beleza perfeita algo inatingível, algo invisível, algo que somente pode ser criado em nossas mentes? Haveria um molde perfeito?” O molde de beleza de Pedro estava silente, escondido em seu inconsciente.
Continuou a observar de forma incessante a procura de algo que sabia existir, que sabia estar presente dentro de si ou no mundo exterior. Sentiu-se criando um Frankesntein feminino. Juntava partes e pedaços de mulheres, misturava estilos e roupas, mas nada lhe apaziguava o espírito. Inquieto não desistia em sua busca.
Estava ali há mais de uma hora e meia, quando uma moça perguntou-lhe se queria mais alguma coisa. Despertou do transe ao ouvir a indagação. Olhou-a e o reflexo da luz sobre um ponto brilhante que repousava sobre o nariz da funcionária alvejou-o como um raio. “Por isso encontrava defeito em todas as mulheres!”, disse a si mesmo. “Você é e sempre será única. Não há substituta, não há outra igual a você. Nunca serei indiferente ao seu nome. Sempre que o ouvir, lembrarei de ti. Sempre!” O pequeno piercing acima da narina esquerda havia trazido Pedro de volta à realidade. Pediu mais um café e sorriu. Encontrara o que buscava.
Passeavam pela calçada, ou melhor, desfilavam mulheres com sacolas, com cachorrinhos embonecados, com óculos escuros largos sobre a face, com amigas a falar e a gargalhar alto. Uma fauna de mulheres ricas, de peruas, de patricinhas, de todas as tribos urbanas e cosmopolitas. Umas medindo as outras de cima abaixo. Grifes caras e famosas e outras nem tanto. Uma variedade de roupas e estilos, de tamanhos e de rostos, de aromas de perfumes caros e de cores. Tudo se mesclava numa tela impressionista, sem precisão, como um emaranhado de sons, aromas e formas.
Pedro fitava-as discretamente, de relance. Começou pelos pés. Admirou-se com a variedade de sapatos, sandálias, unhas, pés que por ali passavam. Achava defeito em todos. Simpatizou com alguns. Mas algo incomodava-lhe.
Distraiu-se então com os rostos. Reparou nos cabelos, alguns longos, outros curtos, presos, soltos, loiros, ruivos e castanhos. Cortes variados, visuais esquisitos, outros elegantes, outros mais simples. “Qual o mais bonito”, perguntava-se. “Qual a forma da beleza?” Uma beleza abstrata rondava sua mente e não se materializava diante dele naquela tarde. Pensou em Platão e no mundo das idéias. “Seria a beleza perfeita algo inatingível, algo invisível, algo que somente pode ser criado em nossas mentes? Haveria um molde perfeito?” O molde de beleza de Pedro estava silente, escondido em seu inconsciente.
Continuou a observar de forma incessante a procura de algo que sabia existir, que sabia estar presente dentro de si ou no mundo exterior. Sentiu-se criando um Frankesntein feminino. Juntava partes e pedaços de mulheres, misturava estilos e roupas, mas nada lhe apaziguava o espírito. Inquieto não desistia em sua busca.
Estava ali há mais de uma hora e meia, quando uma moça perguntou-lhe se queria mais alguma coisa. Despertou do transe ao ouvir a indagação. Olhou-a e o reflexo da luz sobre um ponto brilhante que repousava sobre o nariz da funcionária alvejou-o como um raio. “Por isso encontrava defeito em todas as mulheres!”, disse a si mesmo. “Você é e sempre será única. Não há substituta, não há outra igual a você. Nunca serei indiferente ao seu nome. Sempre que o ouvir, lembrarei de ti. Sempre!” O pequeno piercing acima da narina esquerda havia trazido Pedro de volta à realidade. Pediu mais um café e sorriu. Encontrara o que buscava.
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