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quinta-feira, 12 de março de 2026

Conto: Tarde de março

 

foto por @rbueloni


TARDE DE MARÇO


O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.

O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve, quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa, típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia e a cada dia se convencia mais de sua certeza.

Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia. Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo viço.

Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação. Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.

Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele vinho do Porto após o jantar. Bjs”.




sexta-feira, 13 de junho de 2025

Conto: Rabiscos mentais

 


Conto: Rabiscos mentais


Talvez eu goste de você mais do que deveria. Talvez nem deveria ter deixado me interessar por você, deveria ter me apegado a defeitos, a detalhes negativos, àqueles pontos que incomodam e desfazem qualquer encanto.

Acho que o cigarro era para ser um destes eventos para torcer o nariz. Lembro que você me disse que fumava com certo temor da minha reação, como se eu fosse torcer o nariz e fazer cara feia. Mas ouviu de mim que eu também fumei e gostava de fumar. Contive-me, mas quase emendei um “acho sexy fumar”. Engoli as palavras e calei-me. Naquele dia, após o almoço, enquanto caminhávamos pela rua, você acendeu um cigarro e eu fiquei apenas a observar. Enquanto te ouvia, minha imaginação viajava para um recanto distante, só nós dois a fumar e a brincar com as piruetas da fumaça do cigarro. Entrei numa realidade paralela somente perceptível a mim. Acho que fui discreto o suficiente para que não percebesses o que se passava nos recantos da mente.

Tentei fazer uma lista mental de pontos negativos, mas todos os quesitos eram positivos. Custei a achar algo que me incomodasse. Terminei com um conjunto vazio.  Acho que o sentimento turva o raciocínio, desfoca, neblina que cai espessa e impede a visibilidade clara. O coração parece saber navegar, mesmo com neblina intensa e sem qualquer visibilidade. Segue seguro e firme, ainda que por vezes pareça hesitar, sempre adiante, derrubando as barreiras e justificando cada atitude.

Havia leveza e alegria no ar e tudo causado pelo teu sorriso. Em tempos que se fala tanto em energia e conexão, parece que tudo se encaixou e a energia gerada era carbono free. Estávamos prontos para encarar a era das novas fontes energéticas? Brincadeiras a parte, o caminho ainda se revelaria longo e cheio de percalços, se é que existe caminho a trilhar. Caminhar sozinho pode ser tortuoso e queria que a jornada não fosse solitária.

 



quinta-feira, 7 de março de 2024

Conto: Esquecida

 



The bridge at Herndon, Virginia - @rbueloni



ESQUECIDA


Eu me chateio. Ainda. Talvez não devesse mais, após 32 anos, mas eu havia pedido para tirar a calça de cima da cama antes dela deitar e apagar a luz do quarto. Era um pedido singelo, objetivo, direto. Bastava pendurar a calça no cabide ou deixá-la sobre a cadeira no canto do quarto. Mas ela ignorou meu pedido. Passou em branco. Aquele momento onde o ignorar se confunde com o esquecer e transforma-te em um ser invisível. Muita coisa passava em branco e cada vez com maior frequência.

 

Pedia para comprar pasta de dente no supermercado, ela esquecia. Pedia para pegar dinheiro no caixa eletrônico, ela esquecia. Perguntava se podíamos jantar com amigos, ela esquecia que iria trabalhar. E assim os dias se seguiram, um após o outro. Não me irritava, mas apenas me chateava e notava o esquecimento que recaía sobre mim. Estava sendo esquecido, abandonado, pedacinho por pedacinho, qual um navio de partida que se afasta do porto e a praia vai diminuindo de tamanho até que o horizonte se confunde com a imensidão do mar.

 

Um dia, levei-a ao médico. Desconfiava que aquele esquecimento pudesse ser algo a mais. Não deixei que fosse sozinha e marquei a consulta. Alguns exames e dias depois, veio o diagnóstico de Alzheimer em fase inicial. Ela estava se esquecendo da vida.



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Crônica: Lampejo


Borboletas e Papoulas, Vincent Van Gogh

LAMPEJO

Foi o reflexo do sol na tela do computador que a dispersou do trabalho. Estava tão concentrada que nem vira a tarde passar. Aquele sol, tímido, poente, ao adentrar pela janela conduziu-a para longe. Fechou os olhos, respirou fundo. Quando reabriu os olhos, deixou o olhar correr para fora da janela. Um olhar distante que não se fixa em ponto algum; parecia contemplar o infinito, mergulhada em profundo devaneio.



O coração bateu mais forte, um leve suor umedeceu suas mãos. Procurou uma foto dele, sem óculos escuros, para poder sentir o olhar penetrante, um olhar que parecia abraçá-la, envolvê-la por completo. Ainda que levemente triste, ele sempre a olhava como se ela fosse a única mulher existente. Ele fazia-a sentir incrivelmente preciosa.


Lembrou-se do último encontro, em que ele a levou para passear de moto. O vento no rosto, o medo que a fazia abraçá-lo com mais força e sentindo-o mais perto, como se estivessem unidos àquela máquina de metal a formar um ser unitário. Tudo aquilo revelava um espírito aventureiro que ela imaginava sepultado desde a juventude. Agora, com o passar do tempo, percebera que a seiva da vida voltava a pulsar forte em suas veias, irrigando-a de energia e vivacidade.


Repousou os olhos sobre a foto que a hipnotizava e a transportava a lugares longínquos, produto de um estupor momentâneo, mas que era ao mesmo tempo sublime e causava certa angústia e aflição. Ansiava por aquela liberdade que pensava não existir, por uma certa rebeldia que julgava incapaz de aceitar, por aquele sentimento confuso que reaparecia no seu âmago.


Estava confusa com todos estes fatos que se precipitavam diante dela, como o lampejo de um raio numa tempestade de verão. Não queria que aquele momento terminasse e o que sentiu naqueles segundos, apenas ela saberia. Seria e permaneceria um segredo íntimo, guardado eternamente.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Crônica: Doce Veneno - Parte 2

DOCE VENENO - Parte 2

(Parte 1)


Saí caminhando pela rua levemente confusa. Não queria ir além do beijo. Não queria ultrapassar limites impostos a mim mesma e que só o tempo seria capaz de ruir. Será que ele me interpretou corretamente? Será que ele não gostou do meu beijo? Será que ele se decepcionou comigo? Será que ele iria sumir depois de todos aqueles anos me esperando, esperando que aceitasse o convite dele e deixasse de lutar contra suas investidas?

Interrompi aquele espiral de insegurança e lembrei do seu abraço. Lembrei dos seus lábios buscando os meus. Recordei aquelas mãos tocando minha pele. E aquele olhar que me envenenou. Suspirei aliviada. Não havia qualquer razão plausível para dúvida; mas ela existia e martelava-me enquanto dava passos lentos pela rua. Aquela cena iria se repetir. Fui tomada de uma segurança e altivez raras. Ele havia me conquistado, ainda que eu dissesse o oposto. Ele havia trilhado o caminho do meu coração e derrubou cada obstáculo que lancei no caminho. Ele foi persistente, hábil, delicado, cirúrgico. Mas será que o encanto se evaporaria depois daquele beijo?

Comecei a falar sozinha no meio da rua. Não havia muitas pessoas por perto. Alguns olharam torto, tendo-me por maluca. Estava indiferente a tudo que circundava. Meu mundo era meu. Meu mundo era ele. Dane-se o exterior que não compreende minha dor, minha alegria, minha vontade de gritar e pular e dançar. Só ele sabe o poder que tem sobre mim e como me faz sentir. Suspirei profundamente e disse seu nome em voz alta. Um suspiro que pedia mais e mais. Um suspiro de entrega.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Crônica: Doce Veneno - Parte 1

DOCE VENENO - Parte 1

Parei diante da porta de correr da varanda que estava aberta. A brisa do mar soprava leve. Estava imersa em pensamentos, que dissipavam minha ansiedade e minha aflição de estar no quarto dele. Sozinha com ele naquele quarto de hotel. Enfim, a sós com ele. Não sei de onde me veio a coragem, não sei se foram as palavras dele ou se cansei de resistir e o coração falou mais alto. Estava nervosa e ele notou. Tentei disfarçar, mas ele notara. Ele tinha esta capacidade de ler meus pensamentos, de decifrar tudo que se passava no meu âmago.

Não percebi quando ele se aproximou por trás, com passos leves, e abraçou-me de um jeito todo delicado. Seus braços me enlaçaram e ele me puxou contra seu corpo. Aninhou seu queixo sobre meu ombro. Sua respiração quente acariciava meu rosto, seu coração batia acelerado e naquele instante o temor desapareceu de forma mágica. Não disse uma palavra. Nem ele. Não era preciso. Sabia o que ele pensava. Virei meu rosto e beijei sua boca. Aquele beijo que há tempos ansiava e esperava deixou minhas pernas trêmulas. Se não me apoiasse nele, teria caído.

Virei-me para ele e o beijo se tornou mais profundo. Havia um doce veneno naquela boca que percorreu todo meu corpo, aquecendo minha pele e provocando uma deliciosa taquicardia. Sabia que se provasse daquele veneno cairia em sua teia, entregue, vencida pelo tempo, pelas palavras, pelos gestos, pelos carinhos. Se morresse naquele momento, morreria a mulher mais feliz do mundo.

Suas mãos percorriam minhas costas até meus cabelos e abracei com mais força. Nossas línguas brincavam explorando a boca que se oferecia como um manjar dos deuses, doce, sublime, inebriante. Entorpecida, esqueci de tudo que havia a minha volta. Meus pensamentos davam cambalhotas de alegria e de medo, temerosa do que viria a seguir. Ele percebeu meu medo, interrompeu o beijo, olhou-me nos olhos, com um olhar todo seu, com um olhar penetrante que lia minha alma e me dissecava. Um olhar que me inundou de uma paz interior indescritível. Um olhar que afastou todo o medo que sentia. Um olhar que apaziguou minha ansiedade e revelou-me que tudo o que imaginava sobre ele era verdadeiro.

Aquele homem havia aberto um novo capítulo em minha vida. Surgido do nada, ao acaso, agora ele escrevia páginas e mais páginas que gritavam por palavras e por estórias. Havia me esquecido o que era sentir o que senti naquele curto espaço de tempo em que perecia levitar.

Abracei-o com toda a força que tinha e sussurrei no seu ouvido:

- Obrigado. Muito obrigado por você existir!

(continua)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crônica: Comédia Romântica



COMÉDIA ROMÂNTICA


A noite fria e garoenta de sábado convidava a ficar em casa preguiçoso e quem sabe encontrar um filme decente para assistir na televisão. Pedro mudava de canal até se deparar com uma comédia romântica. Ele tinha medo destes filmes aparentemente leves, ingênuos, mas que no fundo levavam a grandes questionamentos. Se fossem inofensivos não teriam público, nem fariam um gênero tão diverso, quanto resistente ao tempo. Há algumas trágicas. Outras são verdadeiros pastelões, despidos de enredo ou nexo. Algumas revelam encontros e desencontros. Outras retratam casais que se amam e odeiam ao mesmo tempo, não conseguindo ficar longe e nem perto, valendo-se das tantas contradições do amor para narrar uma estória. O problema maior é que sempre há um final feliz. Isto incomodava a Pedro.

Não sabia ao certo, mas de uns tempos para cá não resistia ao choro nestes filmes menores da grande arte. Desconfiava, porém que as lágrimas eram fruto daquilo que havia perdido, daquilo que não mais sentia, e – silenciosamente – desejava reencontrar, mesmo que fosse com outra mulher.

Depois de alguns minutos, Clara achegou-se a ele no sofá e perguntou sobre o filme. Pedro fez uma breve descrição e torceu para que ela se desinteressasse pelo enredo e fosse dormir. Ela ficou. Atenta. Rindo. Cutucando-o quando alguma cena retratava algum fato daqueles anos de convivência. Era inevitável não se identificar com algumas situações.

Pedro manteve-se impassível. Disfarçou os olhos marejados. Ria, mas de forma contida. Como sempre acontecia, encontrou dois momentos que o fizeram pensar e esquecer o que se passava na tela. Uma fala singela retratou algo que havia perdido. O protagonista do filme disse para a mulher que cortejava, que havia guardado o livro por muitos anos pois era a única lembrança que tinha dela, como se fosse um pedaço dela guardado junto a ele.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Estava incomodado e pressentia que aquele filme, aparentemente cômico, conduziria a uma longa discussão da relação num sábado à noite. A comédia iria se transformar em tragédia. Ensaiou mentalmente o que iria dizer e como tentaria evadir-se da discussão. Seu coração acelerou-se perto do final do filme. As lágrimas silenciosas misturaram-se com uma ansiedade que já conhecia e antecipava as perguntas que conhecia e supunha que seriam feitas.

O filme acabou. Ele se levantou do sofá, mas antes de sair da sala, veio a pergunta de Clara:

- Por que você não se interessa mais por mim?

A profecia se realizava.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Crônica: Voz no silêncio

(Pôr do sol em Punta Del Este)


VOZ NO SILÊNCIO

- Eu gosto do final de tarde – ela disse com uma voz hesitante, como se tateasse um quarto escuro e não pudesse ver as coisas ao seu redor, como se aquelas palavras fossem a senha para deixar vazar o que tinha dentro de si e que ganhava coragem para falar-lhe. – Você não gosta? – emendou a pergunta retórica, enquanto seus dedos brincavam com o isqueiro sobre a mesa e o olhar baixo, desviando dos olhos de Roberto.

- Eu gosto sim. – respondeu sem firmeza, esperando ansioso o que viria a seguir.

- Fico com um sentido de vitória quando chego ao final do dia, como um corredor que vê a linha de chegada, estende os braços no ar e é tomado de um sentimento de missão cumprida. Mais um dia! Não que encare isto de forma negativa, mas é um sinal de sobrevivência, de luta constante. O pôr do sol me traz um sentimento de alívio, que me inunda. Um sentimento de serenidade que aumenta com o cair da noite, com a escuridão e o silêncio que vem com o avançar das horas, quando a cidade parece adormecer e o menor ruído é facilmente notado.

E continuou sua fala observando o olhar atento de Roberto na tentativa de descobrir o que se passava naquela cabeça, na tentativa de ouvir sua voz no silêncio dos pensamentos.

- Gozado que não me sinto sozinha. Não temo os momentos solitários, que são quase diários. Tenho prazer nesta solidão aparente que permite ficar a sós comigo mesmo, a me ouvir.

- Mas como assim, aparente? – perguntou, inquieto e um pouco incomodado pelo discurso solitário que se descortinava diante dele, como se ela declarasse que não havia espaço para ele na vida dela.

- Aparente porque preencho estes momentos com pensamentos deliciosos, com boas memórias e lembranças, com música, com leituras...ou simplesmente fico olhando o céu e a noite, à procura de estrelas escondidas no céu claro da cidade.

Ela fitou-o e sorriu. Um sorriso maroto acompanhado de um olhar que lia seus pensamentos. Com o dedo indicador, tocou-lhe a ponta do nariz.

- Eu sei o que você está pensando seu bobo! Estes momentos são muito melhores quando você está comigo! Não se preocupe. Posso parecer estar só, mas muitas vezes tenho você no pensamento. – e o sorriso fácil tomou-lhe o rosto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Crônica: Mosaico

Mosaico de Tomie Ohtake na Escola Maria Imaculada, em São Paulo.


Faz pouco mais de três, ou algo assim, ele ganhou um presente. Dentro de uma bela caixa de cor azul-marinho, um diário com capa de couro escuro, levemente avermelhado, e páginas em branco de papel de boa qualidade. Não deu muita atenção ao diário, demorando-se apenas no cartão singelo e com poucas palavras de lembrança de seu aniversário. Deixou-o num canto da mesa. O tempo passou e a caixa foi se perdendo entre papéis, bilhetes, pastas, relatórios. A mesa de trabalho parecia engolir aquela lembrança que descansava silenciosa e que de tempos em tempos atraía seu olhar.

Ganhara de uma pessoa ainda pouco conhecida. Agradeceu o presente com um email, pois vinha de longe, e afinal era um gesto gentil de uma conhecida. Porém, a cada dia as conversas entre os dois tornavam-se mais frequentes. Brotava, daquele relacionamento nascido de um encontro casual, algo mais tangível, mais palpável. Pensou em abrir aquele diário e anotar alguns diálogos, algumas coincidências, algumas estórias e deixar registrados os bons momentos. A preguiça o impedia de fazê-lo, ainda que mergulhasse em devaneios sorridentes após uma lembrança dela. O diário captava seu olhar e era como se escrevesse nele com o pensamento, como se os monólogos mentais fossem transcritos com a força do pensamento naquelas páginas.

Ela, de forma atenciosa, tinha a paciência para ouvi-lo. Ele, timidamente, descobria naquelas conversas um mundo novo de sentimentos estranhos. Ela, corajosa, despia seus temores emocionais e aflições diante daquele homem que não estava mais distante. Ele, alegremente, tratava de revelar as qualidades raras daquela amiga e brincava como criança nas conversas que estendiam por tardes a fio. Ela, sorridente, contagiava-o com suas estórias divertidas. Ele aprendia o que era uma amizade verdadeira.

Num final de tarde qualquer, pouco antes de terminar o expediente, notou que a luz do sol que adentrava por uma fresta da cortina repousava sobre a caixa azul contendo o diário. Uma luz forte e amarelada destacava da bagunçada mesa aquela caixa submersa e quase afogada por jornais não lidos. A atração foi irresistível. Tirou a caixa debaixo dos papéis e abriu o diário com a determinação de escrever. Não tinha reparado que havia algo escrito por ela, aguardando pacientemente que ele descobrisse. Palavras prontas para despertar de um sono profundo. Na primeira página do diário, uma frase escrita em bela caligrafia feminina: "A amizade é um enorme mosaico composto de fragmentos unidos por lágrimas e sorrisos e um constante querer estar próximo." Ele não conteve as lágrimas silenciosas que deixou escorrer e molhar o papel.

domingo, 14 de setembro de 2008

Crônica: Café Odeon







CAFÉ ODEON



Desci na Praça Floriano por volta das 18 horas. Era um final de tarde quente de final de inverno no Rio de Janeiro. Estávamos no dia 14 de setembro e aguardava ansiosamente um encontro. Liguei pelo celular e avisei-a que já estava livre. Ela confirmou que me encontraria e só restava esperar.

Caminhei pela praça enquanto aguardava, admirando o Teatro Municipal, o Centro Cultural da Justiça Federal. Tudo em meio a dezenas de transeuntes apressados que deixavam os locais de trabalho. No Amarelinho, várias pessoas já desfrutavam de um chopp geladinho e de petiscos típicos dos bons botecos cariocas.

Retornei ao Café Odeon e procurei uma mesa. Não havia uma mesa mais de canto ou em local mais reservado. Escolhi uma no centro do Café. Sentei de frente para a porta para vê-la quando chegasse e para não perder um minuto do encontro. Celular sobre a mesa aguardava-a. O aparelhinho tocou duas vezes antes que ela me avisasse que estava saindo. A cada toque meu coração saltava. Na terceira vez ela ligou e disse que estava saindo. Minhas mãos suavam um pouco, senti um frio na barriga e procurei o copo de chopp para me acalmar.

Finalmente iria encontrá-la depois de vários meses conversando. Tinha uma necessidade de vê-la, de olhar nos seus olhos....de falar-lhe ao vivo e presente. Havia pensando em coisas para lhe dizer, mas sabia – conhecendo-me – que não teria coragem, que engasgaria, ou simplesmente ficaria com vergonha. Deixaria o tempo ditar o momento certo para dizer algumas coisas – ou talvez jamais dizê-las.

De repente ela apareceu na porta, como uma brisa fresca que acaricia a pele. Um largo sorriso dominou meu rosto. Inclinou a cabeça para olhar para dentro do Café e avistou-me. “A foto é tão pequenininha que não sabia se ia te achar” – disse sorrindo.

Abraçou-me e dei-lhe um beijo no rosto. Quando fui dar o segundo beijo – coisa de paulista – me atrapalhei e senti seus cabelos macios na minha pele. Ela estava linda com um vestido preto de mangas curtas e detalhes contornando o decote, sandálias pretas com brilhos, um colar e um escapulário de cordão, anéis e as unhas perfeitamente feitas para marcar as lindas mãos. Os lábios delineados por um batom suave, ou talvez não fosse batom, talvez fosse o brilho natural daqueles lábios que emolduravam o sorriso que só conhecia por fotos. A pele morena, as pernas, os pés...tudo nela era encantador. Tudo nela superava o que tinha imaginado e sonhado.

Sua beleza natural enfeitiçou-me. Percebi naqueles momentos iniciais que o meu sentimento não era loucura, nem tampouco um devaneio platônico. Tudo era real e agora se concretizava. O que será que ela pensava de mim? O que será que sentia? O que será que o futuro nos traria? Aquelas dúvidas cutucavam meu inconsciente, mas queria me concentrar nela. O futuro não importava naquele momento. Só o presente era fundamental. O tempo congelou-se e sabia que aquelas imagens, conversas, palavras iam ficar marcadas de forma permanente na minha memória.

Resolvemos pedir algo para comer. Mal conseguia folhear o cardápio. Ela pediu um suco de laranja, que veio sem açúcar e estava azedo, e um croissant de presunto e queijo. Pedi o mesmo para comer e mais um chopp. Este segundo chopp era para me deixar menos tímido.

Diante de mim materializava-se a mulher que dominava meus pensamentos diurnos e noturnos, por todos os dias dos últimos meses. Ganhara forma e cor, relevo e vida. Senti-me no céu. A conversa fluiu facilmente, como todas as nossas conversas. Ela talvez um pouco nervosa, mas disfarçou-o bem. Eu, bem eu, acompanhava a conversa, mas estava inebriado, enlevado pela presença dela, pela voz e pelos sorrisos.

Meus olhos registravam o rosto, os brincos, os cabelos, o colo que discretamente olhava e admirava, descendo sorrateiramente pelo decote levemente sedutor. Mas os olhos me hipnotizaram. Percebi que quando a olhava fixamente, seu olhar fugia do meu de quando em quando...e isto era um bom sinal. A mesa impedia de olhar suas pernas ou pés, mas tudo aquilo não importava. Finalmente estava na presença dela. Importava que naqueles minutos, naquela hora a minha atenção era só dela e a atenção dela só minha.






Engraçado como as coisas mudam. Há um ano atrás, teria implicado com o sotaque carioca, com a cidade, com o calor, enfim com tudo que fosse carioca. Agora, a voz dela e o jeitinho de falar eram música para os meus ouvidos. A cidade do Rio de Janeiro me encantava, pois ela ali morava. Copacabana passara a ser o centro das minhas atenções. Ela havia permitido que eu entrasse na vida dela e ela fazia parte da minha vida de forma definitiva. Mexeu comigo de um jeito inesperado e como era bom aquele sentimento.

Acercava-se das 20 horas quando pedimos a conta e partimos. Fomos em busca de um táxi e meus olhos puderam novamente percorrer o seu corpo pelas costas. As pernas morenas desapareciam debaixo do vestido solto logo acima do joelho. Poderia ficar contemplando-a por horas, como faço com suas fotos.

Entramos no táxi e rumamos para Copacabana. Não queria que terminasse aquele encontro, não queria que a noite a levasse de mim, mas tinha a certeza de que seria o primeiro de muitos. Quando ela pediu para o táxi encostar, me atrapalhei todo. Abracei-a e beijei seu rosto. Não me lembro dos detalhes, porque não queria deixá-la ir. Ela saiu do carro sorrindo. Eu ali fiquei sonhando e voando.

Ela partiu e senti que aquele primeiro encontro para sempre me marcaria e que se abria diante de mim um novo caminho. Tive a certeza, naquele dia, de que estava diante da mulher mais encantadora que já conheci, da mulher mais bela que meus olhos já avistaram.

Voltei ao hotel e fiquei horas sonhando acordado, num longo devaneio, quase um transe profundo. Não saí para jantar. Apenas fiquei ali relembrando cada detalhes, curtindo cada momento daquele encontro. A trilha sonora deu o pano de fundo de uma noite inesquecível. Um dia banal, que se tornou imensamente especial.



sábado, 23 de agosto de 2008

Crônica: Amiga Imaginária





"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós."

(Clarice Lispector)


AMIGA IMAGINÁRIA


Ele tinha uma mania, ou melhor um hábito, algo adquirido recentemente, coisa de pouco mais de dois anos. Ele parecia uma criança quando estava sozinho no carro, apenas mais um cidadão perdido no lento trânsito da capital paulista. O silêncio interno do veículo era quebrado por um intenso diálogo mental e gestual. Falava, gesticulava, gargalhava, cantarolava. Sem se preocupar com o mundo ao redor, imaginava que tinha uma passageira com ele, sentada ao seu lado. Uma amiga muito bela, de pele levemente morena, olhos castanhos, cabelos longos e uma pintinha no lado direito do rosto. Naquela noite, fazendo o mesmo percurso de sempre, parado no mesmo congestionamento de sempre, ela perguntou num tom de irritação perceptível:


- Como é que você agüenta este trânsito infernal todos os dias?


Ele explodiu numa sonora gargalhada, bateu com as duas mãos no volante arqueando-se para frente, quase chorou de tanto rir. Nem percebeu o olhar estranho do motorista e passageiro do carro ao lado, que sem dúvida o tomaram por maluco.


- Eu sabia que no dia em que você viesse me visitar, ia dizer exatamente isto. Sei que você tem pavor de congestionamento. Mas sabe qual é o meu segredo?


- Qual? – retrucou ela, curiosa.


- Sua companhia! Com sua companhia não há trânsito ruim, dia de chuva torrencial que encharca os sapatos ou cansaço que me impeçam de rir. Meu segredo é você. Meu segredo é conversar com você, mesmo quando não estás fisicamente comigo. Quando está longe, deixo meu pensamento levar as palavras até você. E escuto com atenção, pois sempre me vem uma resposta sua. Estes papos me conduzem pelo caminho e fazem com que dedique estes momentos somente a você. Assim o caminho é sempre divertido, sem que me importe com o trânsito ou aquelas coisas chatas do trabalho.


Ela sorriu encabulada, vermelha como uma pimenta, e esqueceu completamente do trânsito.



segunda-feira, 28 de abril de 2008

Crônica: Poente



CRÔNICA: POENTE


A lua já despontara no céu de final de tarde, levemente avermelhado. Sentou-se no degrau da escada que levava à piscina e ela ao seu lado. Dividiam os fones de ouvido e o ipod fornecia a trilha sonora. Contemplavam o céu, sem trocar palavras. Ele estava feliz por tê-la ali com ele. Sozinhos. Somente os dois. Nada mais importava.

A luminosidade cadente tornava o rosto dela ainda mais belo, a pele mais dourada. O sol poente ressaltava seus traços. Ela fechara os olhos, enquanto John Coltrane fazia o pano de fundo musical. Ela não percebeu que ele a olhava, contemplava-a com um olhar embevecido. Roberto não conseguia imaginar mulher mais bela, mais encantadora. Hipnotizado por ela, ou talvez enfeitiçado pela sutileza feminina. Não frágil, mas delicada.

Minutos se passaram e a noite caiu. Ele ergueu-se da grama, onde estava deitado, e retornou para casa, subindo o morro gramado. Tudo não se passara de imaginação. Mas era assim que imaginara um final de tarde com ela. Só com ela.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Crônica: Frágil Coração



FRÁGIL CORAÇÃO


Não ligou o rádio do carro naquela manhã a caminho do trabalho. Deixou o interior do carro em completo silêncio, vidros fechados, que contrastava com o barulho do seu interior. Ela estava isolada numa bolha, alheia ao que acontecia ao seu redor. O trânsito intenso e a fileira de carros foram abstraídos da realidade. Ela entrou em automático e seguia o trajeto de forma robotizada, automática. Estava absorta em pensamentos, na conversa da noite anterior com o marido. Uma conversa que lhe deixara sem chão, perplexa, confusa, culpada.

Lembrou das palavras de sua avó, poucas semanas antes do casamento. Sabedoria de uma longa vida. “O coração é um órgão frágil, minha filha!”, ela lhe dissera. “Ele precisa ser regado, cuidado, nutrido, senão resseca, murcha, definha. Ele precisa ser protegido com uma cerca, sem buracos, sem mourões quebrados ou podres, mantendo a guarda atenta e sempre alerta. Caso contrário, você deixa entrar animais carnívoros que o atacarão, grandes predadores que arrancarão pedaços dele. E tomar cuidado também com aquelas pragas invisíveis, que lentamente, silenciosamente, contaminam tudo, por vezes imperceptível, abrindo uma fenda que pode se transformar num intransponível abismo. Pragas que vão endurecê-lo, torná-lo duro e empedernido. E se ele cair no chão, como um vaso de porcelana, ele se quebrará. E se alguém, por perto passar, e notar os cacos no chão, eles serão colados, um a um, com carinho, atenção e zelo, reconstruindo o belo vaso que se espatifara no chão. Nesse caso, ele terá um novo dono e talvez você perceba quando é tarde demais. Lembre-se, minha filha, o coração é muito frágil, vulnerável. Cuide dele!”

Palavras ditas há mais de 8 anos, mas que permaneciam vivas. Quando a cerca balançava, ela procurava remendá-la prontamente, ainda que exigisse muito esforço. Mas depois da conversa de ontem, percebera que não havia mais sentido em manter a cerca intacta. A rachadura era muito grande. E ela não tinha notado. Culpou-se por tudo isto e deixou as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto sem maquiagem.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Crônica: Ampulheta



AMPULHETA


Descalço, o chão ainda quente com o calor do dia, atravessou a sala semi-iluminada, afastou a grande porta de correr, que mais parecia uma enorme janela, e saiu para o deck de madeira que dava acesso ao gramado frontal da casa, que por sua vez esticava-se até a areia da pequena praia privada. Bem, deveria ser pública, mas só se chegava à praia depois de passar pela portaria do condomínio e caminhar por cerca de dois quilômetros de subidas e descidas.

Roberto acendeu um cigarro, enquanto a leve brisa da noite roçava seu rosto e a ondas do mar davam a música de fundo, quebrando o silêncio da solidão. O céu recoberto de pontos brilhantes, numa noite clara, porém sem lua. A maresia trazia consigo um ar indigesto. O aroma lhe incomodou e tossiu, como se estivesse nauseado, uma tosse intensa, longa, alta. Ninguém o ouviu, pois todos já haviam adormecido. Estava sem sono. Talvez fosse o cigarro que lhe causava aquela náusea; talvez a discussão com a mãe; talvez a sensação de que a aparente solidez de sua vida começara a ruir. Grãos de areia escorrendo silenciosamente como se seus dias fossem uma ampulheta.

Tragou novamente o cigarro e soltou a fumaça numa longa baforada para o alto. Gostava de fumar e isto irritava profundamente sua mulher. Estava pouco preocupado com o que a irritava de uns tempos para cá. Sentiu-se egoísta com este pensamento, mas era verdade. Tinha que ser sincero consigo mesmo, recomendara um amigo psicanlista. É preciso perder o medo da verdade e de dar nome às coisas. Chega de devaneios e de juízos parciais, Roberto. O obstáculo a ser vencido porém, não era dar nome às coisas, mas sim externá-las, dizê-las em alto e bom som. A mulher não o ouvia, ou fingia não ouvir. E Roberto tinha medo de falar.

Durante toda sua vida, ouvira dizer que a comunicação é o segredo da longevidade de todo casamento e de todo o relacionamento. O amor vence as barreiras linguísticas e ataca corações, ainda que os seres não falem o mesmo idioma. O amor ataca sem aviso, sorrateiro, invade lentamente o ser, e domina-o, estrangulando-o, anestesiando-o, desnorteando-o. Quando se dá conta, o coração já sequestrou a razão e esta, coitada, se vê perdida num canto da vida, no aguardo de que o coração bobeie e a razão retome as rédeas da montaria.

No início conversavam longamente, sem tempo, sem relógio, sobre tudo. Perdiam-se com as conversas. Temas variados, nunca entediados, sempre com sorrisos, beijos e carícias, longos abraços. Aquelas tardes na rede do sítio, tardes sem pressa, tardes para simplesmente ficar juntos. Dilemas, discussões, entreveros eram superados com bom senso, sorrisos e um sendo convencido pelo outro a mudar de posição. Claro que não concordavam com tudo, mas sempre algum deles cedia e tudo acabava bem, com um longo beijo na boca e um sorriso renovado.

“Jamais durmam sem resolver uma briga!”. Ouvira o conselho no curso de noivos na Igreja de São Gabriel. Não se lembrava de muita coisa daquele curso, apenas deste conselho. E seguiam-no à risca. Até que algo estremeceu e o conselho perdeu seu vigor. Roberto parecia cansado de ceder, de atenuar as coisas, de abrir mão do que pensava e achava. As implicâncias aumentavam, com coisas banais e outras relevantes. Tentara falar. Em vão. Novamente, conversaram. E a resposta, foi desanimadora. Parecia que dialogavam em dois idiomas completamente diferentes, ou melhor, não dialogavam. Eram monólogos, discursos lançados ao vento, sem ouvintes, sem platéia e sem que o teor fosse compreendido. Por vezes, Roberto tinha vontade de rir. Tudo era muito estranho, cômico até, pois não se entendiam. As brigas eram mais frequentes. As discussões constantes e a paz evaporara, assim como a fumaça do cigarro. E voltara a fumar sob o pretexto de que estava estressado no escritório e com bloqueio para escrever. A verdade ele sabia. O cigarro tinha a função de irritá-la. Ou talvez afastá-la, forçá-la a tomar coragem e decidir por ele. Ela encararia a verdade que ele temia e se recusava a trazer à tona.

O plano passou a ser este. Roberto agiria de forma proposital para que ela tomasse a iniciativa, para que ela provocasse uma briga final, para que ela desse um basta ao relacionamento, para que ela ficasse na situação de vencedora diante de um fracassado. O cigarro era um primeiro passo. Roberto pensou em esticar mais as viagens a trabalho, talvez numa viagem de sexta-feira, voltaria somente no sábado. Precisava de uma estratégia e de um plano. Acendeu outro cigarro e com o olhar nas estrelas, iniciou a planejar uma forma de romper com a mulher sem que tivesse que se desgastar. “Doce ilusão”, pensou consigo mesmo.” Já estou desgastado. Já estou drenado, agora só me falta a coragem.”