| Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro
incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que
prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se
ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e
extremamente enriquecedor. Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de
maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida
pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela
Rothko. A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada
por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte
no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras
surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró,
Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros. Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção
octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é
permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do
exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas
aqui: site ). No exterior, não
é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico.
Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito
histórico de Houston. Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e
mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância
e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas
retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do
século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam
as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um
sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em
diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta
análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte. Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela
sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura,
em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos
diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de
ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente
para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito
escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele
tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues
pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade,
fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e
beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos.
Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido
uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e
sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de
serenidade e paz. Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta
alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando
nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora
entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores. Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música,
mergulhe na cultura local! |
sexta-feira, 29 de maio de 2026
A Capela Rothko
quinta-feira, 12 de março de 2026
Conto: Tarde de março
| foto por @rbueloni |
TARDE DE MARÇO
O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada
trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão
paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou
uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de
entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde
Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de
tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.
O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve,
quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa,
típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito
soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia
e a cada dia se convencia mais de sua certeza.
Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora
portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia
pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de
quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao
redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles
deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia.
Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem
celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo
daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo
viço.
Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os
últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e
avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma
sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação.
Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não
tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade
seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam
algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à
deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.
Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um
bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele
vinho do Porto após o jantar. Bjs”.
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Conto: O sol de Montevideo
| foto by @rbueloni |
O sol de Montevideo
O trajeto do aeroporto de Carrasco até o hotel demorava
pouco menos de uma hora. Jordi aguardava por Eugênio na área de desembarque.
Não havia necessidade de uma placa de identificação, pois Eugênio ia todo mês a
Montevideo e por lá ficava alguns dias. O motorista da empresa estava sempre a
postos e aguardava-o com paciência. Logo que Eugênio apareceu, saudou Jordi de
forma cordial, perguntou se o Peñarol havia ganho o jogo do final de semana,
ouvindo uma resposta negativa. Seguiram até o veículo e Eugênio foi no banco de
trás, como de costume. Nas primeiras vezes que viera à cidade, preferia andar
no banco da frente e apreciava o caminho, perguntando a Jordi sobre os pontos
mais importantes. Aos poucos, a rotina foi matando o ar de novidade e
curiosidade de Eugênio. Jordi, por sua vez, não cansava de admirar o estuário
do Rio da Prata e as praias ao longo do caminho. Certa vez perguntou a Eugênio
por que havia perdido o interesse pela cidade. A resposta veio quase que
automática: tenho que aproveitar esta hora para trabalhar, há muito o que
fazer. Jordi silenciou, mas não concordara com o chefe.
A luminosidade do final da manhã deixava as águas do rio da
Prata ainda mais vivas e de um azul escuro mais profundo. Algumas pessoas
seguiam de bicicleta pelo calçadão ao lado da longa rambla que os levaria ao
hotel, localizado no centro velho da cidade. Outras corriam e faziam seus
exercícios matinais. Era comum encontrar pessoas de mais idade caminhando,
sentadas nos bancos apreciando o sol matinal de outubro ou lendo algum livro.
Era possível identificar um ou outro pescador, ainda que fosse segunda-feira. O
trânsito estava favorável e Eugênio não tirava os olhos do celular e de alguns
relatórios que trazia consigo. O telefone tocou e ele não atendeu. Passaram
pela praia de Pocitos e Jordi perguntou se gostaria que fizesse uma reserva
para jantar no Zarzuela. A resposta foi um grunhido inaudível que mais parecia
irritação com a interrupção desnecessária. Jordi entendeu que deveria ficar
quieto, mas achou grosseira a forma como Eugênio retrucara.
Chegaram ao hotel NH Columbia, na Cidade Velha, bem diante
do rio e da rambla. Eugênio gostava daquele hotel por ser diante das águas.
Costumava correr na rambla pela manhã ou no final de tarde, contemplando o pôr
do sol tão famoso da cidade. Aos poucos, trocou a corrida de rua pela esteira
da academia do hotel. Faltava-lhe tempo, dizia. O trabalho consumia cada segundo,
cada minuto de sua jornada. A trilha sonora de seus dias havia sido capturada
da música dos Titãs e assim ele só se preocupava com o que pode dar certo, não
tinha tempo a perder.
Desceu do carro e na recepção do hotel foi atendido por
Milagros, que já o conhecia de visitas passadas. Seu quarto será o 702,
seguindo suas recomendações. Ele agradeceu, pegou a chave e rumou para o
elevador. O telefone tocou novamente. Era a quinta vez que sua secretária
ligava. Como não havia mensagem de whatsapp, ignorou. Não devia ser nada
urgente, pensou. Entrou no quarto, abriu as cortinas deixando a luz invadir o
ambiente. Ele não reparou no céu azul, no navio de cruzeiro que se dirigia ao
porto, nas crianças que caminhavam com seus uniformes de escola, no vendedor de
pipoca que seguia pelo calçadão, nos carros que passavam pela larga avenida
costeira.
O telefone tocou mais uma vez. Diga Beatriz, o que foi. Já
pedi para me mandar recado quando for urgente ao invés de ficar ligando!,
esbravejou. Ela, do outro lado da linha, com a voz hesitante disse que a
secretária do Dr. Flávio havia ligado e precisava falar com urgência. Eugênio
engoliu seco. Sentiu as pernas bambearem e o coração acelerar.
O médico era um amigo de longa data. Estudaram juntos no
colégio. A secretária atendeu e logo transferiu a ligação. O médico foi
objetivo e direto. O resultado da biópsia indicava que se tratava de um tumor
maligno. Era preciso fazer uma cirurgia para retirada do câncer e depois dar
início à quimioterapia. Não havia tempo a perder. A indicação atingiu Eugênio
como um soco direto no queixo. Gaguejou para responder e disse que só voltaria
para São Paulo no sábado. O médico repetiu o diagnóstico e alertou: acho que
você não entendeu. Se eu fosse você, voltava para o aeroporto agora e pegava o
próximo voo!
Um silêncio pesado inundou o quarto após a ligação. Eugênio
apoiou as mãos na mesa de trabalho diante da janela, baixou a cabeça e começou
a chorar. A vida lhe brindava com uma surpresa. Quando ergueu a cabeça e olhou
pela janela, deparou-se com a imagem de Nossa Senhora no topo da residência das
irmãs vincentinas ao lado do hotel. A imagem reluzia com o sol, brilhava de um
jeito mais forte do que das outras vezes. O manto azul tinha estrelas
desenhadas e o rosto maternal parecia brindar-lhe com um sorriso
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Conto: Na borda da piscina
Na borda da piscina
Deu um longo impulso por debaixo d´água, esticou os braços e
as pontas dos pés, abaixou a cabeça para diminuir a resistência ao máximo e
deslizar rente ao fundo da piscina. A água abraçava-lhe o corpo por inteiro,
num gostoso sentimento de ternura. Bolhas de ar rompiam a superfície plácida da
piscina e ela deslizava como uma arraia discreta e bela de gestos lentos e
coreografados. Surgiu do outro lado, a água escorrendo pelo rosto, os
longos cabelos jogados para trás. Abriu os olhos e apoiou-se na borda da
piscina buscando a toalha para secar a mão que buscava o celular. Tirou uma e
outra foto fazendo careta, cortando metade do rosto, tentando captar a luz nas
margens da piscina deixando as gotículas agirem como pequenos prismas. O
sorriso discreto era de uma menina que se divertia, apesar da idade cronológica
negar tal aparência.
Ficou séria e tirou uma foto de apenas metade do rosto. A
composição era proposital. Queria apenas um fragmento, um recorte, um pedaço
de como ela se via. Era para ser algo conceitual, pensou. Reparou nos fios
brancos que se infiltravam na bela cabeleira como impostores indevidos. Lembrou
de como ele dizia aqueles fios brancos traziam-lhe um charme maduro e que ela
de cabelo molhado e de cara limpa sem maquiagem era a mulher mais bonita que
conhecera. Beleza pura, sem filtros, ele falava. E ela, descrente do elogio
sentia o coração aquecido e um enrubescido.
Ele tinha estas pílulas de afeto. Lançava-as como flechas,
em doses homeopáticas, mas eram habituais e generosas. Ela gostava e se
encantava com estes detalhes. Depois de um encontro, vinha alguma mensagem mencionando
algum detalhe que havia passado despercebido para ela. A cor do esmalte que
combinava com a blusa, os sapatos mocassim que pareciam tão confortáveis, os
óculos novos que destacavam ainda mais os belos olhos castanhos. Sempre havia
uma mensagem, sempre havia um gesto de atenção. Sim, atenção aos detalhes. Ele
era muito observador, discreto não parecia que observava com tanto afinco. Era
como se ela fosse seu objeto de estudo e análise. Fazia anotações em seu
caderninho mental e depois destilava-as em suas gotas de afeto. Sempre gentil,
sempre atencioso.
Ela gostava de ser mimada e paparicada, mas havia algo que lhe
incomodava. Olhou para o céu azul, fechou os olhos e deixou o sol banhar-lhe o
rosto, que se iluminou. Ela só queria que ele tomasse uma decisão. Simples
assim, mas nem tudo é simples como parece.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Conto: Um dedo de prosa
| foto: Renato Bueloni Ferreira |
Um dedo de prosa
Têm dias que eu apenas queria alguém para conversar, tomar
um café no final do dia e perguntar: qual livro você está lendo?
E então deixar-me-ia inebriar pela doçura da tua voz
narrando alguma estória interessante, ou mesmo que não seja interessante, iria
me pendurar com atenção em cada detalhe narrativo, em cada pausa e suspiro da
tua voz, reparando no movimento dos teus lábios delicados e finos, atraído pelo
olhar fixo no meu. Não te interromperia. Apenas, deixaria que me contasse o que
quisesse do livro, que falasse e falasse e falasse.
Nunca te contei, mas quando estou estressado ou sentindo
aquele vazio que bate por vezes em dias corridos, ouço algum áudio teu que
deixo guardado no whatsapp, somente para ouvir tua voz. Já tentei imitá-la e no
silêncio, consigo te imaginar falando, sorrindo. Cada trejeito do rosto
completa a fala suave que me abraça com todo afeto. Curioso pensar que o jeito
de falar pode abraçar, pode acalmar, pode adentrar no fundo do coração e
desenhar um sorriso, terno, sincero, delicado. Parece que estes abraços
alternativos têm me cativado mais do que os abraços reais, vazios,
protocolares.
Outro dia, entregue a uma sessão de massagem para tentar
destravar as dores na lombar e no ombro, fui surpreendido pelo firme segurar da
minha mão. Dedos longos e finos, entrelaçados com os meus, e de repente, senti
um arrepio percorrer minha coluna. Não queria soltar da mão da massagista que
me atendia. Ela percebeu que ao segurar minha mão, havia um grito silencioso
contido dentro de mim. Queria este pequeno gesto de afeto, mas não sabia que
dele precisava. Ela apoiou a outra mão espalmada sobre minha coluna, como se
fizesse uma ligação direta para dar a partida num carro ou provocar um curto
circuito. Senti um arrepio mais forte, talvez algo produzido apenas na minha imaginação,
mas aquela aparência de energia me deixou pensativo, instigado. Aquela jovem
que me atendeu no spa estava inteiramente atenta às minhas necessidades naquele
momento e ela, ao segurar minha mão, abraçou-me de forma figurativa. Queria
congelar o tempo, parar o relógio, prorrogar aquela tarde. Queria fazer a
sensação de preenchimento do vazio perdurar para sempre.
Tua voz tem este mesmo poder mágico. Acolhe. Abraça.
Energiza. Talvez hoje esteja enquadrado como perfeito aquariano, mergulhado em
devaneios e ideias sem sentido. Para mim, porém, há muito sentido. Quando
descubro estas coisas banais, que estão ali pipocando no cotidiano, meu dia
ganha novo sabor e cor. É como colocar novos óculos para ver a realidade e tudo
se transforma, ganha relevo, profundidade, altura. Acho que você nunca
desconfiaria que sua voz seria um bálsamo tão penetrante e com efeitos medicinais
para minha alma. Pois é, tens um poder oculto que descobri, mas que guardo a
sete chaves. Estou sendo muito egoísta em privar a humanidade desta maravilha
que cura? Ou seria este remédio aplicável somente a aquarianos bobos e
deslumbrados que se conectam na exata frequência da tua voz?
Não sei a resposta. Sei apenas que gosto de te ouvir, gosto
de estar com você, gosto de aprender contigo. Adoro jogar fora um dedo de prosa
contigo. O mundo é um lugar muito melhor com você. Que sorte a minha!
sexta-feira, 13 de junho de 2025
Conto: Rabiscos mentais
Talvez eu goste de você mais do que deveria. Talvez nem
deveria ter deixado me interessar por você, deveria ter me apegado a defeitos,
a detalhes negativos, àqueles pontos que incomodam e desfazem qualquer encanto.
Acho que o cigarro era para ser um destes eventos para
torcer o nariz. Lembro que você me disse que fumava com certo temor da minha
reação, como se eu fosse torcer o nariz e fazer cara feia. Mas ouviu de mim que
eu também fumei e gostava de fumar. Contive-me, mas quase emendei um “acho sexy
fumar”. Engoli as palavras e calei-me. Naquele dia, após o almoço, enquanto
caminhávamos pela rua, você acendeu um cigarro e eu fiquei apenas a observar. Enquanto
te ouvia, minha imaginação viajava para um recanto distante, só nós dois a
fumar e a brincar com as piruetas da fumaça do cigarro. Entrei numa realidade
paralela somente perceptível a mim. Acho que fui discreto o suficiente para que
não percebesses o que se passava nos recantos da mente.
Tentei fazer uma lista mental de pontos negativos, mas todos
os quesitos eram positivos. Custei a achar algo que me incomodasse. Terminei com
um conjunto vazio. Acho que o sentimento
turva o raciocínio, desfoca, neblina que cai espessa e impede a visibilidade
clara. O coração parece saber navegar, mesmo com neblina intensa e sem qualquer
visibilidade. Segue seguro e firme, ainda que por vezes pareça hesitar, sempre
adiante, derrubando as barreiras e justificando cada atitude.
Havia leveza e alegria no ar e tudo causado pelo teu
sorriso. Em tempos que se fala tanto em energia e conexão, parece que tudo se
encaixou e a energia gerada era carbono free. Estávamos prontos para
encarar a era das novas fontes energéticas? Brincadeiras a parte, o caminho
ainda se revelaria longo e cheio de percalços, se é que existe caminho a
trilhar. Caminhar sozinho pode ser tortuoso e queria que a jornada não fosse
solitária.
segunda-feira, 26 de maio de 2025
Conto: Quanto tempo?
Quanto tempo?
Ela tomou um longo e solene gole do café, num gesto quase
ritualístico, e perguntou sem olhar nos olhos de seu amigo:
- Já imaginou se soubéssemos quanto tempo de vida ainda nos
resta?
- Já, mas não me importo muito com isso. O fim chegará para
todos e para cada um de nós no seu devido momento. – respondeu sem cerimônia,
sem preocupação, sem esposar qualquer sentimento.
Ele sorriu e olhou para ela.
- Você tem medo que o futuro nos reserva?
- Não tenho medo do que o futuro nos reserva, mas se
soubesse quando fosse morrer, talvez usaria meu tempo de forma diferente. Acho
que daria mais valor ao tempo. Por exemplo, e se lhe restassem apenas doze
horas de vida, o que faria agora?
Ele engoliu o café, olhou-a com um leve sorriso e disse:
- Eu te beijaria e prolongaria o beijo até que meu tempo
expirasse.
quinta-feira, 27 de março de 2025
Inspiração e exemplo
| Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro - @rbueloni |
Adentramos o mês de março e é impossível não lembrar do
início da pandemia. Lá se vão 5 anos desde que fomos obrigados a manter o distanciamento
social, ficamos trancados em casa, fomos impedidos de viajar e explorar o
mundo. A vida se reduziu a espaços limitados. Todo ano relembro do início da
pandemia e do mundo distópico que se materializou diante de nossos olhos.
Muitos sucumbiram. Outros ignoraram. Outros ainda – acho que a maioria – saíram
mais fortes, mais conscientes da nossa fragilidade, mais gratos pela vida.
Neste início de ano percebi um outro dado que tem me levado
a uma reflexão mais profunda e a uma mudança de atitude. Percebi que a
distância temporal entre a virada do século e o tempo provável que me resta de
vida são equidistantes. 25 anos transcorreram desde o início do século e do bug
do milênio (aquela catástrofe que não se concretizou) até o dia de hoje. E
somando 25 anos à minha idade, provavelmente em 2050 estarei próximo da minha
finitude. Isto me incomoda? Isto me assusta? Nem um pouco, apenas me fez
refletir. O tempo é fugaz e há certas coisas que não vale a pena postergar, há
certas atitudes que preciso mudar e há certos momentos em que não devo me calar,
não devo deixar para depois, pois talvez não
haja um depois.
Se tudo parece-lhe confuso, calma que vou tentar me explicar
e unir os dois parágrafos acima.
A pandemia deixou suas marcas e mudou alguns hábitos. O
trabalho remoto passou a ser algo usual, a preocupação com a saúde deixou de
ser algo a ser adiado, novas tecnologias foram incorporadas e as pessoas foram
tomadas por um desejo constante de viajar e explorar e descobrir novos lugares.
O dinheiro passou a ser utilizado de forma mais desapegada. Guardar para
sempre? Não, gastemos um pouco, pois não se sabe quanto tempo teremos até a
próxima pandemia.
O fato é que alguns dos nossos hábitos mudaram. O nosso
mindset – para usar um termo moderninho – mudou. Tenho viajado muito mais.
Prefiro viajar e adiar a troca de um veículo. Fiz um check up e confirmei o que
já suspeitava: tenho pressão alta e o colesterol também. Vou começar a usar
medicamento de uso contínuo. Sinal da idade. Passei a fazer caminhadas 3 vezes
por semana e agora vou iniciar treinos de força, ou a boa e velha academia. Estudos
demonstram que estes treinos ajudam a preservar a memória, além de garantir um
envelhecimento de qualidade.
E o que isso tem a ver com inspiração e exemplo e pandemia e
novos hábitos?
Dizem que as palavras movem e o exemplo arrasta. O exemplo
arrasta e inspira novos hábitos. Muitas vezes estes novos hábitos são
introduzidos por inspiração de pessoas que nos cercam. Algum amigo que faz
exercício e te convida para ir à academia, por exemplo. Ou aquela amiga que
posta todo dia um treino na academia. Estes exemplos me motivaram a começar com
as caminhadas matinais. E ao invés de apenas seguir o exemplo, resolvi
agradecer e contar para estas pessoas que o exemplo delas me motivou.
Enquanto pensava neste texto, lembrei-me de um exercício que
fiz de escrita criativa numa oficina da Terapia da Palavra. A proposta do
exercício era escrever uma carta para um chefe, um familiar, alguma pessoa que
tenha sido importante influência em nossas vidas. Resolvi escrever a carta para
meu primeiro chefe, Dr. Luiz Vergueiro, com quem aprendi muito sobre o trabalho
do advogado e a postura profissional. Achei que ia ser difícil escrever, mas
percebi que ao me debruçar sobre aqueles anos iniciais de estágio, muitos
detalhes vieram à mente. A carta nunca foi enviada, mas sugeriram-me que a
enviasse. Percebi como fui inspirado pelo exemplo e como aprendi com aquele
sócio de um grande escritório de São Paulo.
E novas inspirações têm vindo neste começo de ano. Quem sabe
planejar um período sabático em algum país distante? Quem sabe virar um nômade
digital e perambular por países do leste europeu? Até brinquei com uma amiga
que quero ser igual a ela quando crescer...ou melhor, quando envelhecer.
A mudança deste começo de ano foi que comecei a falar mais,
a agradecer as pessoas, a compartilhar estas inspirações, a elogiar condutas.
Parei de calar e passei a falar, ainda que possa parecer besteira ou que seja
um elogio banal e corriqueiro, ainda que seja uma aparente coincidência ou
fruto do acaso. Você nunca sabe quando um elogio ou uma palavra amiga pode
mudar o dia – e quiçá a vida – e o ânimo de uma pessoa. Por que não olhar ao
redor, observar e deixar-se levar por bons exemplos? O tempo é curto. A vida é
curta. Sejamos pessoas que semeiam sorrisos e esperança. Afinal, a esperança caminha
de mãos dadas com a alegria.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2025
Poesia: Poente laranja
| foto Renato Bueloni Ferreira |
POENTE LARANJA
a moça de olhos oceânicos e profundos
camuflados em cabelos revoltos
debruçada na varanda, exalava charme
o poente a hipnotizava, todos os dias
o vento vinha lhe beijar a boca
o céu alaranjado vinha lhe acariciar a face
a luz do final de tarde lhe acalentava a alma
antes de mergulhar no escuro da noite
e esperar um novo renascer.
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
Conto: Arembepe
AREMBEPE
Ela deixou suas pegadas na areia escura da praia deserta.
Abraçada pela brisa do mar, que salpicava sua pele com a maresia, sentiu uma
enorme liberdade borbulhar em seu coração. Desconectada, tinha apenas o céu
azul, imenso e rabiscado por algumas poucas nuvens, como tela para contemplar.
Nenhum recado de whatsapp ou email para responder, apenas a areia da praia, o
mar, o céu, os coqueiros, a companhia da amiga. Pancetti se encantaria com a
vivacidade das cores e retrataria de forma magistral em uma de suas telas,
pensou.
A cabeça ainda girava com ideias para projetos e
iniciativas, mas apaziguava estas inquietações, deixando o sol lhe acariciar a
pele e espantar a tez cor de escritório paulistano. Não havia ninguém ao redor.
Tudo deserto a perder de vista. Caminhou pela praia sem rumo, sem medir os
passos, sem contar calorias ou ritmo, apenas caminhou e deixou que as ondas
beijassem seus pés. A água morna massageava aqueles pés cansados. Ah, como era
bom andar descalça, sem compromisso, sem horário, sem metas ou horários a
cumprir!, pensou e deixou-se inundar pela calma e tranquilidade do lugar.
Os óculos de sol filtravam a luz que se projetava nos olhos
âmbar. O azul ficava mais vivo por detrás das lentes. O verde estava mais
intenso e a claridade era domada. Deitou-se sobre a canga e apenas deixou o
tempo passar. Fechou os olhos, tirou os óculos e respirou profundamente. A
alegria tomava-lhe o corpo e atiçava a alma. Se tivesse encomendado um dia para
iniciar as férias, não teria pensado em algo tão perfeito e belo. A vida tem
destas surpresas e agradeceu por estar ali, viva e contemplando toda aquela
beleza. Talvez o que lhe faltava era exatamente a coragem para fugir do agito e mergulhar no silêncio de Arembepe.
segunda-feira, 7 de outubro de 2024
Reflexão
Nos encontros, sempre é mais feliz aquele que ama mais. Valorize os encontros. Valorize o tempo. Valorize o presente.
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Silêncio e ruídos na metrópole
Praça Vinicius de Moraes - @rbueloni |
Se no dia de hoje no ano de 2019, alguém dissesse que no ano seguinte
estaríamos todos trancafiados em casa, isolados, temerosos de andar na rua e de
qualquer contato social, teria sido rotulado como uma bela pegadinha do dia da
mentira.
O filósofo coreano Byung-Chul Han inicia o seu Sociedade do
Cansaço (2014) afirmando que o desenvolvimento tecnológico afastara o risco de
uma pandemia, pois havíamos dominado a fabricação de remédios capazes de evitar
o alastramento de doenças em escala global. Ledo engano.
Em 20 de março de 2020, iniciamos uma quarentena no Brasil e
o mundo ficou paralisado por causa da Covid-19. Uma pandemia que interrompeu o
comércio internacional, as viagens, esvaziou escritórios e obrigou-nos a ficar em
casa, isolados em nossas celas e o silêncio tomou conta das cidades. Alguns
achavam que era o apocalipse, outros ficaram indiferentes e riam da “gripezinha”.
Muitos morreram. Outros tiveram sequelas. Os serviços de saúde ficaram
sobrecarregados até que se encontrou uma vacina e um possível protocolo de
tratamento.
O que mais me marcou naqueles dias de isolamento foi o silêncio.
A forma como a sonoridade da cidade mudou de forma radical.
Outro dia, caminhando na Praça Vinicius de Moraes num sábado
pela manhã, ouvi o canto de algumas cigarras. Uma memória afetiva da infância
no sítio me transportou de volta para os anos 1980. Grilos, latidos de cachorros,
sapos coaxando, o relincho de um cavalo, um galo a cantar. Sons do interior, trilha
sonora de roça, mas que tanto acalma o íntimo. Um convite para desacelerar e apenas
ouvir os ruídos deitado numa rede ou sentado no gramado.
Tenho para mim que as pessoas não se atentam muito para os sons,
para os ruídos da cidade grande. São Paulo é barulhenta, mas aqui no escritório,
desfrutamos de um silêncio quase monástico em alguns dias quando o telefone dá
uma trégua e passamos o dia trabalhando em silêncio. Sim, hoje em dia, pode-se
dizer que o trabalho do advogado é silencioso. O silêncio que é interrompido
apenas pelo dedilhar das teclas no computador. Até meu celular fica sempre em
modo silencioso. Aprecio o silêncio e deixo-me levar. O silêncio inspira, acalma,
convida-me a conversar com Deus. O silêncio é a porta de entrada para a vida
interior, para os recantos da alma.
Não tenho saudades da pandemia e nem do isolamento, mas a
pandemia deixou como fruto positivo a redescoberta do silêncio. Talvez não a
redescoberta, mas o contraste entre o silêncio e a agitada rotina paulistana.
Um contraste que exige atenção para ser percebido, um contraste que pede
sensibilidade, pois é sutil e passa despercebido pela grande maioria das pessoas
que caminham neste imenso formigueiro que é a pauliceia.
quinta-feira, 7 de março de 2024
Conto: Esquecida
The bridge at Herndon, Virginia - @rbueloni
ESQUECIDA
Eu me chateio. Ainda. Talvez não
devesse mais, após 32 anos, mas eu havia pedido para tirar a calça de cima da
cama antes dela deitar e apagar a luz do quarto. Era um pedido singelo,
objetivo, direto. Bastava pendurar a calça no cabide ou deixá-la sobre a
cadeira no canto do quarto. Mas ela ignorou meu pedido. Passou em branco.
Aquele momento onde o ignorar se confunde com o esquecer e transforma-te em um
ser invisível. Muita coisa passava em branco e cada vez com maior frequência.
Pedia para comprar pasta de dente no
supermercado, ela esquecia. Pedia para pegar dinheiro no caixa eletrônico, ela
esquecia. Perguntava se podíamos jantar com amigos, ela esquecia que iria
trabalhar. E assim os dias se seguiram, um após o outro. Não me irritava, mas
apenas me chateava e notava o esquecimento que recaía sobre mim. Estava sendo
esquecido, abandonado, pedacinho por pedacinho, qual um navio de partida que se
afasta do porto e a praia vai diminuindo de tamanho até que o horizonte se
confunde com a imensidão do mar.
Um dia, levei-a ao médico.
Desconfiava que aquele esquecimento pudesse ser algo a mais. Não deixei que
fosse sozinha e marquei a consulta. Alguns exames e dias depois, veio o
diagnóstico de Alzheimer em fase inicial. Ela estava se esquecendo da vida.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
Nostalgia
Fenway Park - @rbueloni |
Caminhava no último sábado pela manhã numa praça perto de casa
para fazer um pouco de exercício ao som de uma playlist que tenho no Spotify e
que chamei de Midland Times (ou “tempos de Midland”). Midland é uma pequena
cidade no meio do estado de Michigan, no norte dos Estados Unidos, onde residi
por 4 anos. As músicas dos anos 1980 que compõem a lista me levaram de volta àquela
pacata cidade do meio-oeste americano. Dei-me conta que no dia 31 fará exatos
40 anos que me mudei para lá, com 13 anos, falando um inglês macarrônico e
débil, sem ter ideia do que iria encontrar.
Ao som de Billy Joel cantando River of Dreams, lembrei-me dos bons tempos da adolescência. Aquela música poderia ecoar do rádio do carro num dia de verão, onde Tom, Homer, Brian e eu íamos para tomar um sorvete no Baskin Robbins ou um slurpee no 7Eleven. E depois, passávamos horas conversando, ouvindo música, andando de bicicleta, vendo jogos de baseball e torcendo pelos Detroit Tigers.
Os dias de verão eram longos e quentes. Os dias de inverno muito frios, cheios de neve escuros e curtos. Mas a amizade construída naqueles anos perdurou e se manteve viva. Enquanto caminhava, relembrava do que aprendi na adolescência vivida numa cidade interiorana americana. Era eu um forasteiro, um estrangeiro. Senti o preconceito, a discriminação, os estereótipos aplicados a quem não é popular e quem não é atleta. Fui provocado a tomar decisões, a amadurecer, a escolher um rumo para a minha vida. Optei por dedicar-me aos estudos e com isso garantir uma vaga num processo seletivo de uma universidade de alto nível nos Estados Unidos. Era bom aluno e por isso ganhava a pecha de nerd, o que lhe incluía numa categoria social que impossibilitava sair com as meninas mais bonitas e populares.
Quarenta anos se passaram! Continuo vivo, mas sei que a cada
dia que passa aproximo-me do fim. Gosto de refletir sobre o fim no dia de
finados. Gosto de celebrar cada novo dia de vida que me é presenteado. Juntei
nestes dias a nostalgia que me alegrou engatilhada pela música que despertou
milhares de memórias, sorrisos, abraços, despedidas e momentos únicos, com a lembrança daqueles tempos de adolescente.
A nostalgia só me traz a certeza de que a cada novo dia, a gratidão aumenta.
PS: Não esqueça de fazer uma oração por aquele ente querido neste dia de finados. Não esqueçamos daqueles que se foram, mas que continuam vivos em nossos corações.
quinta-feira, 27 de abril de 2023
Cortina de ferro
| by Renato Bueloni Ferreira |
Sento-me às margens do rio Odra, numa tarde agradável de domingo de primavera, e tento imaginar como era a vida na Polônia durante o regime soviético.
As novas gerações têm a liberdade, algo inexistente naquela época. As novas gerações têm seus celulares, a comunicação livre com o mundo. As novas gerações têm acesso a uma universidade aberta, a programas de intercâmbio, a viajar pela Europa e explorar novos destinos.
É domingo, os sinos das igrejas badalam e as pessoas vão à missa. Avisto vários campanários de igrejas em estilo gótico, mas de tijolos à vista. As paredes externas são marrons, uma cor terrosa escura, mais sóbria e sisuda do que no sul da Europa.
Casais passeiam com crianças pequenas, há risos, jovens conversando e olhando seus celulares. Uma mulher lê algo em um Kindle. Um grupo de jovens controla um pequeno drone sobre o rio. A cidade medieval de Wroclaw abraçou a modernidade e a tecnologia sem esquecer do passado.
E como foi o passado?
Quase não há sinais do período soviético. Deparei-me com um conjunto habitacional acinzentado, quadrado, decaído que me lembrou 1984, de George Orwell. A vida devia ser triste, melancólica, sem esperança, com falta de comida, de dinheiro, de energia. A vida era controlada pelo Estado, a vida era dirigida pelo Estado, a vida era traçada pelo Estado, como um roteiro de filme onde o bom cidadão sobrevive. Entenda-se por “bom cidadão" aquele que segue as regras e se deixa escravizar pelo Estado, aquele que não critica, aquele que incensa o líder supremo.
Os mais velhos, que vivenciaram o terror, não hesitaram em dar apoio à Ucrânia e a acolher os refugiados. Os mais velhos têm a memória viva do que é perder a liberdade.
Que este terror jamais volte!
Em tempos de tentativa de regulamentação das redes sociais, que a voz jamais seja calada, que a liberdade de opinião e de expressão continue a reinar como direito fundamental do cidadão, que o Brasil não enverede pelos negros caminhos da censura.
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
Poesia: Na madrugada
@rbueloni - instagram |
NA MADRUGADA
Por vezes, vens me visitar na alta noite
no silêncio do sonho das madrugadas.
Alguns intensos, outros serenos e plácidos,
alguns sem sentido, outros a revelar verdades
marcantes e ao despertar,
o intenso batuque na caixa torácica
o arrepio latente, o sorriso discreto no rosto
invisível na escuridão pesada.
Por vezes, a chuva me acorda ao tocar na janela
teu corpo desnudo ao meu lado
envolto nos lençóis desarrumados.
Deixo a manhã preguiçosa invadir
e apenas te observo - calado.
Tuas costas, teus cabelos, tua respiração.
Desenho mapas e paisagens na tua pele
ligo os pontos e imagino tatuagens
a ponta dos dedos é meu pincel
tuas costas, a tela para minha aquarela.
Por vezes, interrompo o sonho com um beijo
a realidade a bater na porta, o alarme do relógio
a luz do sol intrusa a adentrar o quarto
revelando a verdade,
revelando que estou só.
terça-feira, 17 de novembro de 2020
Conto: O bilhete
O bilhete
Gosto da sua letra, do jeito que deitas o traço firme sobre o papel imaculado, desenhando letras e mais letras de forma decidida, com os olhos de jaboticaba fixados na ponta da caneta que desliza sobre a superfície. O texto ganha forma, corpo e apenas te observo enquanto escreves. Caprichas na forma como cortas a letra t. Os is trazem um pingo certeiro. A escrita flui como se a pergunta formulada na prova já tivesse sido pensada e respondida mentalmente antes de iniciares o texto. Sento-me sobre a mesa do professor para poder contemplar a letra que mais se parece com uma pintura. Talvez seja uma grande besteira este meu devaneio banal. Quem se encanta com uma letra? Não sou professor de caligrafia e nem professor de português, muito menos calígrafo, mas como é bom receber uma prova onde não é preciso decifrar garranchos e hieróglifos. Deveriam incluir um curso de arqueologia egípcia na formação do professor para que pudéssemos ler as provas de alguns alunos. Bem, estou eu divagando novamente. Quanta besteira, professor! Ninguém mais vai fazer prova escrita a mão. Em breve, tudo será digitado e as belas letras caprichadas se perderão, cairão num buraco negro, no esquecimento eterno. Ah, mas como eu gosto de admirar a tua letra em bilhetes que guardo com enorme carinho.
Remexer gavetas é uma atividade de risco, ainda que pareça algo tedioso e despido de periculosidade. Há sempre o perigo de ressuscitar memórias adormecidas, inertes em algum recanto da mente - ou de um baú. Basta encontrar algo para que aquele artefato solte algum gás tóxico que estava congelado no objeto e desperte e provoque as mais diversas sensações, sorrisos, lágrimas, raiva. Uma carta. Uma foto. Uma receita gastronômica. Uma música. Um perfume. Um ingresso de cinema. Um bilhete.
O bilhete ainda trazia o clip de metal preso na parte superior, mas se separara do papel onde estava preso originalmente. O recado desprendera-se do trabalho de conclusão de curso de Joana, que analisou o projeto do Edifício Guaimbê, de Paulo Mendes da Rocha e sua influência na arquitetura residencial paulista. Lembro-me que fui tomado de grande surpresa quando a morena, um tanto debochada e que parecia entediada nas minhas aulas de História da Arquitetura Brasileira, escondida por detrás dos longos cabelos castanhos escuros e que deixava cair sobre o lado esquerdo do rosto, um toque de charme - ou talvez uma timidez disfarçada. Nunca soube ou certo. Lecionava no início do 3o. ano, 5o. semestre e muitos tinham minha disciplina como algo inútil, mera perfumaria para preencher a grade curricular. Aqueles que se dedicavam a minha disciplina e compreendiam a importância da história para a arquitetura, despontavam, mais adiante, como profundos observadores da realidade urbana brasileira. Posso me orgulhar de alguns alunos que orientei, sem dúvida, mas quando Joana me abordou no final do terceiro ano, na minha sala acanhada perto da biblioteca da faculdade, tive a nítida impressão de que ela havia me confundido com outro professor. Algo que não seria estranho, pois sou um tipo comum, sem as excentricidades dos grandes professores de arquitetura.
A proposta de trabalho de conclusão de curso tinha consistência e o tema estava circunscrito à minha área de pesquisa. Ela se mostrou mais preparada do que imaginava. Tentei puxar pela memória as notas dela na minha disciplina, mas não era nada que me despertasse um traço natural de genialidade. Era, assim como eu, uma aluna comum. Pareceu-me esforçada e teceu-me elogios que me fizeram ruborizar. Olhei-a com um olhar diferente a partir daquela primeira conversa.
Ela se empolgou com o tema. Fizemos vários encontros na faculdade, alguns coletivos, outros individuais e aqueles olhos de jaboticaba despertavam um encanto que achava esquecido, perdido no tempo em algum lugar do passado. Paixões platônicas são verdadeiros narcóticos, entorpecem o ser, pintam a realidade de tons pastéis, estampam um sorriso quase permanente no rosto do viciado. Com tantos anos de vida acadêmica, não era a primeira vez que era acometido por esta síndrome platônica. Nas outras vezes, o silêncio não havia sido quebrado e o segredo restou guardado em alguns cadernos que usava como diários. Desta vez, porém, resolvi deixar florescer minha atração. Esperei a banca e o resultado. Fora aprovada e meus colegas desfiaram longos elogios à jovem arquiteta, agora recém formada. Enchi-me de orgulho e satisfação.
Alguns dias depois, convidei-a para jantar com a justificativa de comemorarmos o êxito do trabalho. Ao final de um agradável encontro, declarei-me. Ela ficou incomodada. A reação dela me deixou desgostoso. Pensei se minhas palavras poderiam caracterizar alguma forma de assédio, de pressão indevida. Um calafrio percorreu minha espinha e fui tomado de um sentimento de pânico. Minha carreira, meu prestígio, meus longos anos na academia. Tudo passou pela minha cabeça enquanto ela simplesmente passava o dedo pela borda do guardanapo de pano e tentava desfiar algumas palavras para trazer-me de volta a realidade. Um choque de realidade, sim, era isso que recebi naquele final de refeição. Envergonhado, as palavras me faltaram. Ela agradeceu o jantar, levantou-se e pediu um Uber. Não seria eu a levá-la de volta para casa. Não seria eu a provar o gosto daqueles lábios. Não seria eu a modificar o entorpecente em realidade viva.
Daqueles dois anos de convivência mais intensa, além de meus delírios e devaneios, restou apenas o bilhete que ela escrevera e prendera no trabalho final do curso.
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Conto: Entre corpos
ENTRE CORPOS
O ônibus não estava lotado naquela manhã, igual a todas as
outras. Passageiros se alinhavam de forma assimétrica diante de mim, ao
percorrer com os olhos a massa humana, fui arrebatado por algo inusitado. Entre
braços e corpos, formava-se um espaço onde podia avistar um pescoço longilíneo,
delicado, que desaparecia numa cortina de cabelos loiros. Lembrei-me de Rodin e
de seus estudos das partes do corpo. Aquele pescoço seria um modelo perfeito
para uma escultura do mestre francês. Como abelha atraída por uma bela flor
repleta de pólen, vi-me abobalhado a admirar aquela obra de arte em forma
humana. Confesso que alguns pensamentos mais sensuais me cruzaram a mente, mas
aquele não era o lugar para ter estas vibrações. Era sensual, sim, não havia
dúvida, mas desde quando um pescoço se tornara algo sensual para mim? Achei
divertida aquela reflexão sem tirar os olhos do pescoço da bela moça.
A gola branca, de blusa discreta, realçava a pele amorenada
que não escondia algumas pintas e uma pequena marca de nascença em forma de
meia lua, bem clara, quase imperceptível. Meu olhar aguçado não poderia deixar
desenhar estrelas naquelas pintas que dançavam ao redor da lua. Dois colares
com correntes finas e douradas acariciavam o entorno do pescoço e repousavam
sobre o colo. Alguns fios de cabelo escondiam o que seria um alvo predileto de
um vampiro, que se refestelaria com uma larga mordida, a transformar a bela
moça em sua seguidora noturna. Seria eu um vampiro que agora despertava diante
daquele pescoço que me atraía de forma estranha e inexplicável? Teria eu algum
sangue de antepassado vindo da Transilvânia ou aparentado do Conde Drácula? Ou
seria algum personagem daquela série de livros de adolescentes vampiros Crepúsculo?
Quase ri alto com tanta besteira a rondar minha mente com pensamentos
desconexos.
Mas afinal, entre aqueles braços e corpos, só conseguia
avistar o pescoço, um pedaço da orelha que não estava coberta pelos fios loiros
e uma leve curvatura do maxilar a iniciar o desenho da face. Ela parecia
hipnotizada pelo celular, totalmente alheia à minha presença e meu olhar fixo.
Meu interesse passava despercebido. Quando chegou minha hora de descer do
ônibus, lancei um olhar acrescido de um sorriso terno, mas ela me ignorou. Quem
sabe amanhã, tomaria o mesmo ônibus. Quem sabe amanhã, poderia perguntar seu
nome. Quem sabe amanhã, ela me olharia nos olhos.
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Apagaram os sorrisos
Veio a pandemia e decretaram uma longa quarentena. Era para
ser por quinze dias, depois mais quinze, viraram 60, adicionaram mais um mês e
o pico parecia inalcançável. Até hoje acho que ainda não chegamos lá, mas
resolveram que já era hora de permitir um afrouxamento, um lento despertar da
cidade adormecida.
O período de hibernação dos ursos deve ser assim, salta-se do carnaval para as férias de julho, sem Páscoa e sem festa junina, e adicione alguns feriados que foram devorados pelo vírus por decisões políticas. Transitar por São Paulo, após escurecer, é como caminhar por uma cidade semideserta, quase fantasma, com ar soturno, tristonho. O trânsito evaporou, não há carros, não há pessoas, não há ruídos. O silêncio impera e traz à memória uma cidade de interior, pacata, tranquila, silenciosa.
Aos poucos, há uma reabertura. Pessoas voltam a circular pelas ruas ao longo do dia, mas há algo de diferente. Apagaram os sorrisos. Olhe para a foto de um rosto e cubra a parte abaixo do nariz e o queixo. É praticamente impossível dizer se a pessoa está sorrindo, se a pessoa está triste, se a pessoa está nervosa. Perde-se a expressão quando escondem a nossa boca por detrás de uma máscara.
Não estou aqui a me revoltar contra as máscaras, apenas constato que os sorrisos deixaram de habitar a cidade. Continuam escondidos em quarentena dentro das casas e dos ambientes seguros. A partir de agora, não se pode mais cumprimentar o porteiro ou uma pessoa na rua com um singelo sorriso e um aceno de cabeça. O aceno de cabeça ficou capenga, órfão de um elemento fundamental que é a expressão labial. Vamos ter que aprender a ler olhares, a atentar para as pequenas oscilações do canto dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, da testa franzida. A percepção será outra, pois a boca se esconde.
Primeiro, o coronavírus roubou-nos o tempo e a liberdade. Agora, o coronavírus apaga os sorrisos de nossos rostos.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Sons da quarentena
O céu cinza de um domingo de outono dá um tom melancólico, quase soturno, a mais este dia de quarentena. Uma garoa cai silenciosa e umedece a rua sem tráfego. O silêncio, da cidade adormecida pela pandemia e pela obrigação de ficar em casa, é quebrado pelo latido de alguns cães nas casas ao redor do prédio. Não se ouve o barulho dos carros, nem das motos dos entregadores de comida. O vento assobia de tempos em tempos pelas frestas da porta, batendo uma janela, balançando as folhas das árvores e agitando as flores rosáceas do ipê. Hoje, o final de tarde não será anunciado pela algazarra do bando de maritacas que surge em revoada antes do sol repousar.
Os sons da pauliceia mudaram com a pandemia. Há um clima de cidade pequena, de cidade do interior, onde os sons são mais naturais, mais ligados aos eventos da natureza. A chuva que cai no telhado, a batida oca de uma fruta que cai do pé e se acomoda no chão de terra batida, o portão da casa que bate ao ser fechado, o grito de quem chega e bate palma perguntado se há alguém na casa, crianças correndo na rua. A sonoridade da cidade pequena, da cidade acolhedora e familiar, é muito diferente da sinfonia pouco harmoniosa da cidade grande.
Outro dia, passava pela avenida Paulista, no meio de uma manhã de dia útil. O semáforo estava verde para os carros, mas não havia carros. Olhei e iniciei a travessia. Cheguei ao canteiro central e do outro lado também os carros estavam ausentes. A cidade marcha em câmara lenta, quase sem ruído, silenciosa, adormecida.
Continuei a caminhada até o escritório atentando para os sons. Nenhuma sirene, nenhum camelô anunciando seus produtos, nenhuma conversa de porta de bar, nenhuma pessoa varrendo a calçada, nenhum caminhão fazendo entregas. O silêncio imperava.
Deixei minha memória auditiva retornar para a infância, quando as brincadeiras na casa de minha avó eram interrompidas pela buzina do carrinho de sorvete, ou da música instrumental do realejo, da batida seca na tábua do vendedor de biju, do assobio longo do amolador de facas. Uma sinfonia urbana levada pelo tempo e que deixou saudades.
E a quarentena, seus sons deixarão saudades? Ou seria a ausência de sons que deixarão saudades? Será que sentimos saudades da sonoridade tão urbana da metrópole em pleno funcionamento?
Não me refiro à multiplicação de shows de música em canais de internet e na TV, nem na proliferação de lives, mas daqueles ruídos que quebram o silêncio e ativam nossa memória auditiva. Não me detenho sobre as músicas que tem a capacidade de nos transportar imediatamente para um lugar distante no passado, um momento preciso e exato na vida de cada um, na capacidade de arrepiar a pele ou de provocar olhos marejados.
Quero que repare nos sons ao seu redor. Quero convidá-lo, meu amigo leitor, a perceber a sonoridade que o cerca. Abra a janela de sua casa, feche os olhos e escute. Apenas escute. O que mudou nesta quarentena? Algo mudou. A trilha sonora da pauliceia mudou. Hoje, o dia termina silencioso e acinzentado e nem as maritacas saíram de seus abrigos para anunciar o fim do dia com a algazarra do bando. A minha quarentena deixará na memória a quase diária sinfonia dissonante das maritacas.

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