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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crônica: Se a noite falasse

SE A NOITE FALASSE

Se a noite falasse, se a noite contasse tudo o que ouve e tudo do que é testemunha, o mundo seria uma grande desordem. A noite assemelha-se à nossa consciência. Ouve pensamentos dos mais singelos, os mais puros e os mais abjetos.

Naqueles momentos em que a cabeça repousa sobre o travesseiro e fazemos, voluntária ou involuntariamente o exame de consciência, ou deixamos o devaneio tomar conta do estado de sonolência, levemente embriagado, a noite é nossa única testemunha. Alerta e onisciente, tudo escuta. 

Na noite, planejam-se os crimes mais horrendos, os assassinatos, os roubos, os latrocínios, a violência hedionda, os embriagdos que descontrolados agridem mulheres indefesas, que disparam armas de fogo, que empunham armas brancas e dilaceram a carne de um inimigo - ou de um amigo.

Na noite, o pobre apaixonado é tomado de coragem e bravura, pronto a declarar-se, a declamar o mais belo poema de amor sem titubear, gaguejar ou fugir do olhar da amada. O coração parece não conhecer o medo e a timidez, mas apenas a alegria de dar vazão às palavras que brotam do coração. 

Na noite, há silêncio, há calmaria. Todos dormem, menos eu. Observo atento o que meu interior quer me dizer. Escrevo e anoto. Para quando o sol rair, quando se fizer, reler o que pensado, e sóbrio, tentar encontrar a coragem perdida para abraçar o mundo e simplesmente falar. E fazer. E viver.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Crônica: Só, na noite.


As crianças adormeceram e ele saiu do quarto silenciosamente. O silêncio reinava na casa. Havia uma paz de início de noite, sem ruídos. Estava sozinho pela primeira vez desde que os filhos nasceram. Marina havia viajado a trabalho e ausentava-se num dia de semana à noite.




Sentiu uma profunda liberdade, algo que não havia sentido há anos. Caminhou até a varanda e ficou a admirar a noite, degustando aqueles momentos de solidão, sozinho. O sentimento que mais temia, o sentimento que o levou a casar-se com Marina, agora era nutrido e enchia-o de satisfação. Não tinha que ficar conversando com ninguém. Podia conversar com seus pensamentos, conversar consigo mesmo, sem interrupções, sem brigas, sem discussões. Estava só em um ambiente que lhe era familiar. Tudo aquilo era novo, pois já estivera só em viagens, em quartos de hotel, caminhando no meio da rua ou num almoço. Algo de diferente havia naquela situação. Quando viajava, era um forasteiro, agora era um nativo no seu habitat natural. Estava tranquilo e sereno. Surpreendeu-se ao sentir-se confortável com a solidão.

O que mais temia na vida era ficar só, mas agora ansiava por momentos como este. Pensamentos confusos, sentimentos inexplicados rondavam sua cabeça. Não ficou admirado com o fato de não sentir ciúmes da mulher, de não querer saber onde estava ou com quem estava. Estava bem consigo mesmo, e isto era o que importava. Algo de sublime possuía sua alma, algo que não conseguia descrever ou entender. Afastou a lógica e a racionalidade e simplesmente degustou aquelas horas na noite adentro. Só, na noite.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Crônica: Uma noite qualquer


A noite me dá coragem. Na quietude, na solidão, banhado pelas estrelas consigo mergulhar no íntimo de minha alma. Deixo aflorar sentimentos e desejos, raivas, vinganças, alegrias e tristezas. Não penso só coisas boas. Sou humano e quantas vezes me vi tentado a implementar planos maquiavélicos que, ao raiar do sol, revelavam toda uma maldade que não tenho. Mas as coisas boas, ganham vigor com o nascer do dia. Nestas horas percebo a minha covardia diante da realidade que surge novamente. A luz do dia revela a minha impotência, meu medo. Medo que não tinha na calada da noite, quando tudo parecia possível.


A noite dispara meu coração que viaja para o lado da pessoa querida. A noite eletrifica minha razão que projeta a imagem de alguém especial. Coração e pensamento, num esforço de corporificar o desejo, de trazer-te para o meu lado, de ter-te nos meus braços num longo e infindável abraço. Quão intruso é meu desejo que fica paralisado, horas na noite, contemplando o infinito na escuridão, diante da lua que sorri. Não, a lua não sorri. É o teu sorriso que se desenha na bela lua a me encantar e acompanhar no devaneio silencioso.


Feitiço noturno qual canto da sereia, mas mais bela, mais morena, mais cândida, mais tudo...

quarta-feira, 7 de março de 2007

Crônica: Uma certa madrugada


Acordou de madrugada naquela noite de início de dezembro. A negritude preenchia todo o espaço do quarto. Não havia som ou sinal de luz. Silêncio pleno. Antonio revirou-se na cama, ainda meio sonado e olhou para o relógio que marcava 5:37 da manhã. Estava sereno e sentia-se desperto. De olhos fechados, o pensamento viajou para longe, como costumava fazer nas madrugadas. As noites pareciam um refúgio seguro para uma alma angustiada. Pensava na noite como o purgatório, algo temporário, efêmero, mas necessário para se chegar a contemplar a luz do sol que nasceria em breve.

As imagens formaram-se e a imaginação tomou corpo e forma, quase real. Parecia senti-la ao seu lado e não distante. Um sentimento de paz e tranquilidade tomou-lhe o ser. Algo sublime invadiu sua alma. Pensava nela. Parecia que ela sussurrava ao seu ouvido que de longa distância estava bem, sonhando com ele no sono profundo. Será que ela está acordada? Seria um beijo que me acordou? Seria um suspiro? Seria uma transmissão de ondas telepáticas que me despertaram dos braços de Morfeu? Enfim, com um leve suspiro, deu-se conta de que ela provavelmente dormia a quilômetros de distância, talvez tocada por uma leve brisa vinda do mar em Copacabana, sem perceber meus pensamentos.

Foram alguns minutos, 10 ou 15, mas sorria internamente com aquele senso de paz interior que o pensamento nela lhe trazia. Antonio ajeitou-se na cama, virou para o lado, colocou as mãos por debaixo do rosto e voltou a dormir. Desejava sonhar com ela, desejava tê-la ao seu lado, mas aqueles momentos sublimes, de alegria silenciosa, permitiram que afastasse a angústia dos últimos dias e caísse no sono como um bebê recém-nascido nos braços da mãe.


(RLBF)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Ainda na escuridão da noite

Interessante como os temas deste blog foram ganhando vida própria. Despretensiosamente comecei a escrever e um tema foi puxando outro. Como se puxássemos o fio de um novelo, que se desenrola e puxa outro tema, e mais outro tema. Falávamos sobre a noite e encontrei este poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que medita sobre a noite. Álvaro de Campos vive, neste poema, uma fase de desilusão com a vida, de cansaço.

Na noite fiquemos, mas prometo seguir em frente, para que possamos fazer o sol raiar num novo dia.

NOITE TERRÍVEL

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.

Álvaro de Campos

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Hemingway e a noite


Passemos do silêncio da noite para outro tema, puxando o fio da meada.

A noite é metáfora da morte, da ausência de vida para alguns escritores. Ernest Hemingway reflete em seus heróis o medo da morte. Seus personagens evitam dormir de luz apagada à noite, ou dormirem sozinhos. O medo de não voltar do sono profundo atormenta os heróis de Hemingway. A surpresa da morte, a incerteza quanto à sua ocorrência talvez tenham-no levado a tirar sua vida com um tiro de carabina boca.

Em O Velho e o Mar (título original: The Old Man and the Sea), Santiago, um velho pescador, aventura-se em alto mar em busca de um grande marlim. Queria provar que não estava velho, que não estava ultrapassado e que ainda era um bom pescador. Afasta-se da costa de Cuba e fisga um peixe enorme. Luta a noite inteira contra o peixe. Nesta luta, tubarões atacam o marlim preso ao lado do pequeno barco. Santiago retorna para a costa sem o peixe, que fora devorado pelos tubarões. Entra em seu casebre, deita-se e dorme.

Este foi o primeiro livro que numa única sentada. Estava na 8a. série e apaixonei-me por Hemingway. Um escritor com estilo conciso e jornalístico. Frases curtas, sem excesso de palavras ou descrições.

O Velho e o Mar não é um livro sobre pescaria, mas sim um livro sobre superação, determinação, coragem. Estas coisas marcaram-me quando li o livro. Hoje, mais velho, e repassando a estória, outros aspectos me chamam a atenção.

Santiago volta para sua casa com o senso do dever cumprido, com um sentimento interno, pessoal de júbilo, ainda que frustrado por não poder exibir seu feito. Somente o mar e Deus presenciaram o sucesso de Santiago. Foi uma daquelas situações em que a alegria interna não precisa ser dividida. A sensação se exaure dentro dele. Como um gesto gratuito de generosidade, como um sorriso dividido e tantos outros eventos que fazem parte de nossa vida diária e que exaurem dentro de nós. Morrem conosco no final do dia, ou que às vezes contamos e dividimos, deixando transbordar o sentimento e alegria com quem quisermos.

A luta contra o marlim, durante toda a noite - notem que Santiago não dorme, como todo herói criado por Hemingway durante a pescaria - coroa a vida de Santiago. Ao final, ele não conta para ninguém o que conquistou. Simplesmente deita e dorme (entenda-se, recolhe-se no leito e morre).


Não pensem que em semana pré-carnavalesca estou tratando de temas mórbidos ou negativos. O post de hoje é apenas um capítulo para os posts seguintes. Um pouco de expectativa prende o leitor.


É só voltar amanhã.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Devaneios no meio-sono

No último post (O Bonde e a Janela), fiquei depois a pensar no silêncio do meu avô, sentado na poltrona. Por anos, sentei-me ao lado dele. Recordo-me daqueles momentos de carinho silencioso, mas foram poucas as palavras. Não deu-me lições de vida, ou grandes explicações metafísicas. Apenas ficava eu, ao lado dele, olhando pela janela. Um silêncio quase que reverencial. Hoje percebo que é possível ser carinhoso no silêncio.

O que será que dominava seus pensamentos e sua memória? O que será que lamentava ou de que atos se arrependia? O que será que lhe alegrava? Quais os pensamentos, não sei...e nunca saberei.

O silêncio da noite é sempre um convite a pensar, a refletir, a falar interiormente aquilo que não temos coragem de dizer à luz do dia. São os sussurros para a pessoa amada, ainda que longe; são os pedidos de perdão, ainda que a pessoa não esteja mais ao nosso lado; são as decisões que se clareiam em nossas mentes; são novas dúvidas que surgem...

Parece que no silêncio da noite, nos devaneios do meio-sono, tudo se torna tão claro, tão iluminado. A escuridão se desfaz e nossos olhos deixam de turvar-se. Passamos a ver com precisão. Mas neste exame de consciência, muitos propósitos se perdem com o sono, com os sonhos, com o ressonar...

Deixar de fazer, deixar de se levantar depois de uma queda só nos leva ao lamento. É preciso coragem para arriscar aquilo que na noite pensamos. Ainda que custe, ainda que nos achemos incapazes de abraçar a tarefa que se desenha diante de nós.