sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Diário da dor - I

 




10 de agosto de 2026

Pneumonia 

Mamãe foi internada no Hospital São Luiz com pneumonia. Vai ficar na UTI até se recuperar. São 9 anos de luta e decaída e acho que ela está cansada.  Fui tomado por uma dor agora na hora do almoço, um sentimento profundo de perda e de que o tempo dela está se esvaindo. Espero estar errado, mas a última internação no ano passado durou 45 dias. E depois mais 20 dias.

Curioso pensar que você pode sair de casa um dia e nunca mais voltar para sua cama, sua cadeira, seus utensílios, sua televisão, no caso dela, seus bordados, seus livros, suas plantas, a conversa diária com a filha que mora nos Estados Unidos, a escolha do que quer comer para o almoço, da rotina dos remédios.

Um dia, você sai de casa conduzido pelos filhos e não sai mais do hospital. O tempo é fugaz. Não pensamos no fim, até ele se aproximar e bater à porta.

Depois da primeira noite, Pe. Carlos foi vê-la. Levou a comunhão e a unção dos enfermos. Confidenciou que não gostaria de esperar “até amanhã, pois poderia ser tarde”.

O quarto do hospital não tem relógio e as horas se misturam, perde-se a noção temporal, perde-se a noção de dia e de noite, perde-se a noção de quando chegará a hora de cada um.

Sento-me no sofá ao lado da cama e apenas espero o tempo passar, olhando para o monitor que de tempos em tempos apita um alarme. Um enfermeiro entra no quarto. Checa os sinais vitais e saí. A noite será longa.