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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Conto: Na borda da piscina

 



Na borda da piscina


Deu um longo impulso por debaixo d´água, esticou os braços e as pontas dos pés, abaixou a cabeça para diminuir a resistência ao máximo e deslizar rente ao fundo da piscina. A água abraçava-lhe o corpo por inteiro, num gostoso sentimento de ternura. Bolhas de ar rompiam a superfície plácida da piscina e ela deslizava como uma arraia discreta e bela de gestos lentos e coreografados. Surgiu do outro lado, a água escorrendo pelo rosto, os longos cabelos jogados para trás. Abriu os olhos e apoiou-se na borda da piscina buscando a toalha para secar a mão que buscava o celular. Tirou uma e outra foto fazendo careta, cortando metade do rosto, tentando captar a luz nas margens da piscina deixando as gotículas agirem como pequenos prismas. O sorriso discreto era de uma menina que se divertia, apesar da idade cronológica negar tal aparência.

Ficou séria e tirou uma foto de apenas metade do rosto. A composição era proposital. Queria apenas um fragmento, um recorte, um pedaço de como ela se via. Era para ser algo conceitual, pensou. Reparou nos fios brancos que se infiltravam na bela cabeleira como impostores indevidos. Lembrou de como ele dizia aqueles fios brancos traziam-lhe um charme maduro e que ela de cabelo molhado e de cara limpa sem maquiagem era a mulher mais bonita que conhecera. Beleza pura, sem filtros, ele falava. E ela, descrente do elogio sentia o coração aquecido e um enrubescido.

Ele tinha estas pílulas de afeto. Lançava-as como flechas, em doses homeopáticas, mas eram habituais e generosas. Ela gostava e se encantava com estes detalhes. Depois de um encontro, vinha alguma mensagem mencionando algum detalhe que havia passado despercebido para ela. A cor do esmalte que combinava com a blusa, os sapatos mocassim que pareciam tão confortáveis, os óculos novos que destacavam ainda mais os belos olhos castanhos. Sempre havia uma mensagem, sempre havia um gesto de atenção. Sim, atenção aos detalhes. Ele era muito observador, discreto não parecia que observava com tanto afinco. Era como se ela fosse seu objeto de estudo e análise. Fazia anotações em seu caderninho mental e depois destilava-as em suas gotas de afeto. Sempre gentil, sempre atencioso.

Ela gostava de ser mimada e paparicada, mas havia algo que lhe incomodava. Olhou para o céu azul, fechou os olhos e deixou o sol banhar-lhe o rosto, que se iluminou. Ela só queria que ele tomasse uma decisão. Simples assim, mas nem tudo é simples como parece.


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro

 



Trechos de livros

 “O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”

(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad. Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)


Com o passar dos anos, o acaso se tornou um companheiro decifrável, uma peça do quebra cabeça da vida que se encaixa e faz sentido. Tantas pessoas cruzam nossos caminhos e poucas ficam, permanecem com sua presença indelével e indispensável. Por quê?

São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza. 

Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Conto: Arembepe

 


AREMBEPE


Ela deixou suas pegadas na areia escura da praia deserta. Abraçada pela brisa do mar, que salpicava sua pele com a maresia, sentiu uma enorme liberdade borbulhar em seu coração. Desconectada, tinha apenas o céu azul, imenso e rabiscado por algumas poucas nuvens, como tela para contemplar. Nenhum recado de whatsapp ou email para responder, apenas a areia da praia, o mar, o céu, os coqueiros, a companhia da amiga. Pancetti se encantaria com a vivacidade das cores e retrataria de forma magistral em uma de suas telas, pensou.

A cabeça ainda girava com ideias para projetos e iniciativas, mas apaziguava estas inquietações, deixando o sol lhe acariciar a pele e espantar a tez cor de escritório paulistano. Não havia ninguém ao redor. Tudo deserto a perder de vista. Caminhou pela praia sem rumo, sem medir os passos, sem contar calorias ou ritmo, apenas caminhou e deixou que as ondas beijassem seus pés. A água morna massageava aqueles pés cansados. Ah, como era bom andar descalça, sem compromisso, sem horário, sem metas ou horários a cumprir!, pensou e deixou-se inundar pela calma e tranquilidade do lugar.

Os óculos de sol filtravam a luz que se projetava nos olhos âmbar. O azul ficava mais vivo por detrás das lentes. O verde estava mais intenso e a claridade era domada. Deitou-se sobre a canga e apenas deixou o tempo passar. Fechou os olhos, tirou os óculos e respirou profundamente. A alegria tomava-lhe o corpo e atiçava a alma. Se tivesse encomendado um dia para iniciar as férias, não teria pensado em algo tão perfeito e belo. A vida tem destas surpresas e agradeceu por estar ali, viva e contemplando toda aquela beleza. Talvez o que lhe faltava era exatamente a coragem para fugir do agito e mergulhar no silêncio de Arembepe.


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Poesia : desamei

 



@carolinepaternostro



DESAMEI

Amei
desarmei
o coração esvaziou-se
Desamei.

Não restou cicatriz
ou vestígio
Desaguei.
Era amor?






quarta-feira, 17 de março de 2021

Trechos: Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre

 

quarentena em SP


Publicado pela primeira vez em 1795, o breve livro de Xavier de Maistre (1763-1852) é um exercício de risonha subversão de hierarquias, sejam elas militares, metafísicas ou literárias. Zombando das circunstâncias, o autor transforma os quarenta e dois dias de castigo em ponto de partida para uma paródia dos relatos de viagem, algo que se encaixa muito bem em tempos de quarentena, lockdown e pandemia.

O breve livro foi minha companhia no mês de setembro de 2020, enquanto passava os minutos, as horas, os dias ao lado de minha mãe em um leito de UTI em São Paulo.

Eis alguns trechos:

"As horas deslizam sobre nós e se precipitam em silêncio pela eternidade, sem nos fazer sentir sua triste passagem." (p. 13)


"Uma cama nos vê nascer e nos vê morrer, teatro inconstante em que o gênero humano encena, dia após dia, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias espantosas. - A cama é um berço enfeitado de flores; - é o trono do amor; - é um sepulcro." (p.14)


"Essa vantagem me fez desejar que se inventasse um espelho moral, em que todos os homens pudessem se ver com seus vícios e virtudes. Cogitei mesmo propor a alguma academia que instituísse um prêmio por tal descoberta, quando reflexões mais maduras me provaram sua inutilidade." (p. 42)

(Maistre, Xavier de. Viagem ao redor do meu quarto. trad. Veresa Moraes. São Paulo : Editora 34, 2020)





terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Trechos: Das terras bárbaras, de Ricardo da Costa Aguiar



"Afinal, se um anjo tinha sucumbido ao peso do orgulho, da inveja e da cobiça, o que esperar de nós, carne fraca? O anjo caído era uma vítima que merecia minha compaixão, eu o reconhecia em mim. Estudante, mudei essa imagem do Mal, transmutei-o em uma bela figura filosófica. Passou a ser a ausência do Bem, como o escuro é a ausência da luz. Passou a ser o lado animal dos homens, pronto a sucumbir sob a razão e o espírito. O Mal era inerte, uma sombra adormecida que se afastava na presença de tudo o que é puro. foi no calor de Maruery que o conheci como de fato ele é, viscoso e grudento. Ali eu o vi de perto, fétido e deformado, rouco e irracional."
(Ricardo da Costa Aguiar, Das terras bárbaras, São Paulo : Tordesilhas, 2019, p.112-3)

O romance de estreia de Ricardo da Costa Aguiar foi uma grata surpresa. Texto requintado, trabalho cuidadoso nas citações de latim que se espalham pelo texto. Além de ser ótima leitura, o romance ainda nos incrementa a cultura.

O romance traz duas estórias em paralelo: um jovem diplomata e sua busca pelos antepassados e um jovem jesuíta que parte da metrópole para a colônia, e na colônia se depara com sua queda, causado ou não pelo anjo caído.

Chamou-me mais atenção os detalhes com que a narrativa retrata a viagem de Lisboa a Salvador, depois a vida na colônia, a capital Salvador no seu esplendor, a pequena São Vicente e a subida da Serra do Mar até Piratininga e Maruery (hoje Barueri, e que outrora foi uma grande aldeia indígena). O escritor desvela toda sua cultura histórica e ensina enquanto entretém o leitor com uma trama bem costurada.

No final, o livro se torna um pouco previsível, mas não tira o mérito da obra. Vale a leitura.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A treva, de Adélia Prado



Foto: Alta noite, Renato Bueloni Ferreira


A TREVA
Adélia Prado


Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio como a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.

(Poesia Reunida, 2a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2016, p. 249)


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Saber viver, de Cora Coralina






SABER VIVER
Cora Coralina
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Vem aí uma antologia poética com nossa participação






O livro estará disponível em julho, em formato físico e e-book, e será publicado pela Editora Meraki Publisher.


terça-feira, 26 de março de 2019

Perfeito, de Eucanaã Ferraz



instagram @rbueloni


PERFEITO


Me disse nos meus braços você parece
um menino eu disse nos seus braços
eu sou um menino eu podia ter dito

trago pela mão um girassol um livro
um violino eu devia ter dito eu não disse
sou um verso que teci com seus cabelos

sou o peixe vermelho no aquário
de Matisse eu diria ainda mas
deixei que só a respiração dissesse

que eu era a presença longínqua da maresia
por entre os pinheiros de Curitiba
um menino sim um grão de mostarda

um sobrado em Braga branco e branco
eu despertava e Amsterdã sob a neve
parecia mais uma pequenina sílaba

à espera de uma sílaba que a tarde
trazia entre dentes miúdos; tudo
sob o laço prestes a desatar e cair

à maneira de um copo que se parte
mas por ora nada tinha peso nada
era grave e o tempo sem as horas

nunca soube dar de nós ali onde o mundo
permaneceria daquele modo suspenso
perfeito.

(Escuta, Eucanaã Ferraz, São Paulo : Companhia das Letras, 2015, p. 73)



terça-feira, 2 de maio de 2017

Beatriz Bracher e a condição feminina




O que significa "condição feminina" para você?

"No meu livro mais recente, ao escrever, percebi que esse era um tema dos mais fortes. Quis que fosse assim, conscientemente. Nos outros livros não. Para mim é muito difícil lidar com estas expressões, seja "condição feminina"ou uma ideia contemporânea de que o feminismo é das mulheres e não dos humanos, sabe? Essa coisa de que as mulheres têm que falar, têm que ter espaço. Na minha cabeça, mulheres e homens têm que falar sempre, mas entendo e sei que não é um caminho "errado". Mas é diferente do meu caminho. Tenho um pensamento que talvez não seja tão estratégico. Por isso tenho medo de criticar. Acho que as feministas têm um pensamento muito estratégico e isso nem sempre reflete uma busca de verdade. Acho que reflete uma busca da justiça. E num país como o nosso, que tem tanta violência contra a mulher, acho que elas, as feministas estão certas. Acho que a luta é esta e tem que ser desta forma. Mas alguém que é uma ficcionista não pode seguir esse caminho. Tem que complicar as coisas. Tem que virar um pouco do avesso. Colocar o homem no meio. No livro, o que eu fui descobrindo, ao escrever, lendo Milton, pensando sobre  Adão e Eva, é que a condição do machismo, a cultura machista que a gente vive, faz com que todos nós estejamos sujeitos a ela. É uma cultura em que a mulher oprimida sim, mas o fato de o homem ser o opressor não quer dizer que ele também não foi levado a esse caminho. Há uma forma de violência nisso. De você ter sido levado a ser opressor. É muito difícil reconhecer isso. Às vezes você tem atitudes que nitidamente revelam que o homem é mais "forte" que a mulher, o que faz parte de um sistema de crenças. Abrir a porta do carro para mulher entrar, por exemplo, é do nosso sistema de crenças, uma gentileza. Daí a você chamar uma pessoa que tem um gesto machista, de machista, eu acho inverídico, mentiroso. E a gente sabe que é mentiroso. Só que estrategicamente é muito interessante você radicalizar, ser muito agressivo em relação a essas coisas, mesmo que não sejam verdades, porque no jogo político você lida com inverdades. Condição feminina para mim é como as mulheres vivem hoje no mundo inteiro em todas as classes. E a condição é ruim porque tem muita opressão, sofrimento e injustiça. São muitas visões. Uma é a de quem está na luta política. A de uma ficcionista é outra."
(Vila Cultural, edição 156, abril 2017, p. 8-9)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade : Ontem


Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni


ONTEM

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)

No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevam, dissipem e leiam poesia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Navegando pela escrita


Um livro com uma coletânea de textos de jovens escritoras (entre 10 e 15 anos). Os textos estão em português, inglês e espanhol, uma viagem por línguas e palavras e dialetos e pela criatividade.

Prestigie o lançamento deste projeto!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Epígrafe - XXXIV



"A pequena alameda continuava descendo até uma clínica que se encontrava no meio do parque. Tinham parado de falar, mas ouvia o rumor das rodas da cadeira no cascalho. Gostaria de ter se virado, mas não conseguiu. A coisa mais linda do mundo. Disse uma menina careca em uma cadeira de rodas, conduzida por uma enfermeira. Ela sabia qual era a coisa mais linda do mundo. Ele, ao contrário, não sabia. Como era possível que na sua idade, com tudo aquilo que vira e conhecera, ainda não soubesse qual era a coisa mais linda do mundo?"

(Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. trad. Nilson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010, p. 47)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lançado conto em ebook





Lançado na semana passada, já está à venda na loja da Amazon o conto Taquaral,  escrito para o concurso do Globo e da Amazon, Brasil em Prosa. O conto só está disponível em formato de ebook.

O conto pode ser adquirido na loja da Amazon aqui.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A poesia de Matilde Campilho



Descobrir um novo poeta é descobrir um novo dialeto que traduz a realidade do mundo. Todo poeta tem o seu idioma próprio, uma forma toda peculiar de retratar, de descrever de forma inusitada o que é banal, o que é sublime, o que é importante, o que é profundo. Cada poeta usa traços e linhas e sombras e nuances para desenhar com palavras o que tantas vezes tentamos fazer sem sucesso.

Matilde Campilho poderia ser facilmente confundida com uma brasileira. A bela morena morou no Rio de Janeiro e passaria por carioca, não fosse o inconfundível – e charmoso – sotaque português. De cabelos longos e pele bronzeada, Matilde é uma jovem escritora, uma jovem poetisa que desponta no cenário das letras.

Participou do recente colóquio Minha língua, minha pátria, organizado pelo jornal português Público em conjunto com a Livraria Cultura. Matilde estará presente também na Flip deste ano.

Jóquei é seu primeiro livro, publicado no Brasil pela Editora 34. Não se surpreenda com os poemas em inglês, alguns poucos, misturados com um punhado de textos em prosa. A poesia conduz leva-nos a passear por Lisboa, pelo Rio de Janeiro e por cidades que poderiam ser tanto no Brasil, ou Portugal, ou qualquer lugar onde um caminhante atento observa tudo ao seu redor.


Há leveza na poesia de Matilde Campilho que parece escrever a poesia que todos gostaríamos de escrever. Trata-se de um elogio, antes que me entendam mal, a simplicidade é mais difícil de ser atingida do que pode parecer e a caixa torácica deve retumbar quando as palavras deitadas sobre o papel agradam à escritora. O leitor da poesia de Matilde descobre sua fascinação pelos números, pela ciência, onde parece indicar um discreto deslumbramento sobre os mistérios invísiveis do universo, transformando o DNA em poesia.





quarta-feira, 22 de abril de 2015

Matilde Campilho : Rua do Alecrim





RUA DO ALECRIM

Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdadeira a bofetadas.

(Jóquei. São Paulo : Editora 34, 2015, p. 64)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Epígrafe - XXXIII


instagram @rbueloni


"O material do escritor é o alfabeto"

"O livro é uma máquina de nos fazer levantar a cabeça"

Gonçalo M. Tavares, no simpósio Minha língua, minha pátria, na Livraria Cultura, 11 de abril de 2015.

Mais sobre o bate-papo aqui.

sábado, 7 de março de 2015

Vinicius de Moraes : Senhor, Eu não sou digno






SENHOR, EU NÃO SOU DIGNO



Para que cantarei nas montanhas sem eco
As minhas louvações?
A tristeza de não poder atingir o infinito
Embargará de lágrimas a minha voz.
Para que entoarei o salmo harmonioso
Se tenho na alma um de-profundis?
Minha voz jamais será clara como a voz das crianças
Minha voz tem a inflexão dos brados de martírio
Minha voz enrouqueceu no desespero…
Para que cantarei
Se em vez de belos cânticos serenos
A solidão escutará gemidos?
Antes ir. Ir pelas montanhas sem eco
Pelas montanhas sem caminho
Onde a voz fraca não irá.
Antes ir – e abafar as louvações no peito
Ir vazio de cantos pela vida
Ir pelas montanhas sem eco e sem caminho, pelo silêncio
Como o silêncio que caminha…


(Vinicius de Moraes. As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 37)

 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O "Paraíso" de Tatiana Salem Levy



Sabedor do novo livro de Tatiana Salem Levy, fui à Livraria da Vila da Lorena no início de dezembro em busca do livro. Acostumei-me a me adiantar às livrarias. Fico sabendo dos lançamentos pelos jornais ou pelos perfis dos escritores nas redes sociais e me antecipo ao mercado. Foi assim com os poemas de Fernando Pessoa declamados por Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Até agora a Saraiva ainda não tem o produto disponível e a maioria das livrarias ainda não recebeu o DVD. 

A vendedora me olhou com perplexidade quando perguntei sobre o livro. Ela parecia desconhecer a autora, um dos expoentes da literatura brasileira contemporânea. Foi consultar o terminal. O livro acabara de chegar. Estava na caixa no subsolo da loja. Comprei o primeiro exemplar do livro recém-chegado.

Um dileto amigo que me acompanhava e que é ávido comprador de livros (e leitor) me inquire:

- Você gosta tanto dela assim para comprar um livro sem sequer folhear e dar uma lida em alguns trechos? Você sabe do que se trata a estória?

Respondi afirmativamente às duas questões. 

Encantei-me com a prosa de Tatiana Salem Levy em "A Chave de Casa". O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 por melhor autor estreante. A forma narrativa, o estilo, o despojo na escrita me cativaram. Virei fã e leitor fiel. 

Em seu novo livro, a escritora trata de temas sociais e volta a dialogar com a memória como forma de compreender quem somos. Tatiana parece indagar - através de seus personagens - sobre a importância do passado na formação do nosso caráter, na construção de uma personalidade que não é inovadora e inédita, mas um somatório de fatores familiares que são transportados de geração em geração ainda que de forma silenciosa e não deliberada.

Estou a digerir as impressões sobre a saga de Ana, protagonista de Paraíso. Parece-me que o novo livro é inferior aos dois anteriores, mas não tenho a certeza. Ana refugia-se num sítio em Nogueira, na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro em busca de paz para escrever um romance histórico e em busca de isolamento para lidar com o potencial contágio de AIDS, após uma noitada irresponsável. O título pode se revelar contraditório, pois a calmaria da serra não espanta os fantasmas interiores de Ana. E ela desfia-os ao longo do romance.

A prosa leve de Tatiana é envolvente e o livro, que como a boa literatura brasileira não se tornará um best seller, vale a leitura. E a discussão. A esta discussão retorno em outro post.

PS: clique no tag abaixo para ler mais sobre Tatiana Salem Levy.