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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Epígrafe - XVII




"Não tenha medo da solidão. Sempre que esta o afligir, valha-se de um bom livro, a um canto, em silêncio. Verá que passou a ter a solidão acompanhada, com a qual a vida sempre se enriquece."

(Josué Montello. Diário do Entardecer. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 247)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Epígrafe - XV


"Eu não me lembrava de ter posto dentro do volume o recorte da Lux. Teria comprado o livro, num dos sebos da Rua São José, com ele ali? É possível. Cedo ainda, como se estivesse mal desperto, pensei em falar para o [Manuel] Bandeira. E nisto me lembrei de que o velho amigo, o querido poeta, o exemplar companheiro, que sempre acordava emo eu em hora extremamente matinal, está recolhido ao Mausoléu da Academia, desde o ano passado.

Foi ele quem me faz achar o artigo? E por que não, se o mistério faz parte da condição humana?"

(Josué Montello. Diário do Entardecer 1967-1977. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 229)


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Paciência

"Desde cedo, devíamos ter aulas de paciência. Paciência para com a vida, para com o corpo, para conosco, para com os amigos, para com os desconhecidos, para com os colegas, para com os pais, para com os filhos, para com os irmãos, para com os mestres, para com os nossos algozes, sem esperar que os cabelos grisalhos afinal nos venham dizer que é preciso suportar de ânimo sereno os infortúnios e os contratempos.

Um velho amigo, Victor Hasson, costumave me dizer, segurando na ponta dos dedos um imenso charuto:

- É a vida que nos amansa.

E avermelhava-lhe a brasa, soprando-a com delicadeza.

O certo é que, por entre advertências e experiências, acabei por firmar no meu espírito, para uso exclusivo, aquilo a que chamei de teoria do saldo. Na hora do infortúnio ou do contratempo, convém verificar, de pronto, o que foi que nos sobrou. Há sempre um saldo em nosso favor. E é para esse saldo que devemos voltar nossa atenção reconhecida. Se sofremos um acidente e estamos vivos, a vida é o saldo. Porque sempre há um saldo. A sabedoria consiste em dar com ele, para agradecer a Deus o que nos restou.

E isso, que aprendi à minha própria custa, deveria ser ensinado a meninos e meninas, na escola primária."
(Josué Montello. Diário do Entardecer. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 215)

Trecho escrito em 2 de maio de 1969 em um dos volumes dos Diários de Josué Montello. Sábias palavras de um homem que passou pela vida e refletiu sobre ela. Há um caráter otimista e cheio de esperança nestas palavras, algo muito adequado para um ano que se inicia e para aqueles que se deparam com dificuldades, contrariedades e abismados com notícias das tragédias que assolaram o Haiti e tantas cidades brasileiras.

Não somos pacientes conosco. É da índole humana querer as coisas de forma mais rápida, quase imediatista. O passar do tempo nos revela que é preciso ter paciência. Paciência não significa imobilismo, inércia, mas saber que a vida tem um fluxo, um ritmo e caminha no ritmo próprio. Há dias com surpresas fantásticas; há dias com notícias tristes; há dias desagradáveis, e há dias felizes. O que importa, porém, é chegar ao final do dia e ter a certeza de que o novo dia que virá, trará novas expectativas e esperança.

domingo, 27 de setembro de 2009

Falando sozinho

"Não tenha receio de falar sozinho, para aliviar-se, caso lhe falte, no momento, o interlocutor adequado. Antes endoidecermos para os outros, que de longe nos observam, do que endoidecermos para nós mesmos, calando o desabafo. Quem manda alguém à merda, em ocasiões assim, tem a imensa vantagem de não receber o troco, sujando-se também."
(Josué Montello. Diário do Entardecer, 1967-1977. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 161)

Tenho hábito de falar sozinho e encontrar este trecho numa obra de reflexão sobre a vida, de alguém mais experiente e mais culto, tem o condão de confortar um certo sentimento de estranheza. Por vezes, "falo" sem deixar que as palavras saltem para fora, mas remanesçam no silêncio, guardadas em segredo. Outras vezes, mantenho um interlocutor imaginário que me acompanha em finais de dia, companhia que me distrai do trânsito, do cansaço rotineiro, da mesmice de um caminho. Com certa frequência, o meu interlocutor parece responder à minha fala, de tão bem que me conhece, vive me apontando as respostas às dúvidas que lhe coloco.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sorte ou azar – Parte 2

A anedota merece ser reproduzida e para evitar que o post anterior ficasse muito longo, retomo o tema e a narrativa de Josué Montello:

"Certa vez, na Igreja de Santo Antônio, foi achada uma carteira com dinheiro. Imediatamente, os bons frades afixaram um aviso na sacristia, pondo a carteira à disposição do dono, desde que este provasse, pela explanação do que ela continha, ser realmente o proprietário.

A leitura do aviso dos frades atuou no espírito de Inácio José Ferreira (ou melhor: o Poeta Bacanga) como um raio de inspiração. Imediatamente atirou-se o bardo para o Jornal do Comércio. E ali pôs um anúncio, dizendo ter encontrado uma carteira. Pedia ao dono que passasse por sua casa, na rua tal, númerto tanto, no Castelo.

Assim que o jornal circulou, apareceu na casa do Poeta Bacanga o dono da carteira. Inácio não demorou a recebê-lo.

- Como é ela? – indagou.

Ponto por ponto, o outro deu explicações: a cor, o tamanho, os papéis e cédulas que continha.

- Então não é sua a carteira que eu encontrei – replicou o poeta, mostrando ao homem uma carteira velha que tirou do bolso.

Assim que o senhor, desapontado, saiu fora de portas, o vigarista subiu as escadas da igreja de Santo Antônio. De posse das informações necessárias, descreveu aos frades a carteira e seu conteúdo e entrou logo na posse do dinheiro.

O gênio do vigarista merecia o prêmio. Merecia. E não se pense que, por ser ladrão, não tinha melindres. Tinha-os, e à flor da pele. Tanto assim que, ao se ver retratado, com o nome de Pereira, na comédia Verso e Reverso, de José de Alencar, quis castigar a bengaladas, no próprio teatro, o famoso teatrólogo. Este, para não apanhar, correu. E como era pequenino, e ágil, conseguiu escapar à fúria do Poeta Bacanga." (Diário do Entardecer. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991 p. 49)


E por falar em cara-de-pau e malandragem, o discurso que ecoou ontem nos jornais televisivos e está reproduzido nos jornais de hoje, revela que o Brasil de ontem e de hoje é o mesmo. Triste, mas verdadeiro.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sorte ou azar?


Dois fatos curiosos chegaram aos jornais em dias recentes. Um apostador do Vale do Paraíba acertou a Mega Sena, teria direito a um prêmio de R$ 5 milhões e até a véspera do último dia para resgatar o dinheiro o sujeito não tinha aparecido. Surgiu no último e recebeu a grana. Quase um sortudo azarado.

Outro caso foi o de uma mulher em Israel que guardava US$ 1 milhão dentro do colchão de sua casa. Sua filha resolveu presenteá-la com um novo colchão e jogou o colchão velho no lixo. A coitada da velhinha quase teve um ataque cardíaco ao descobrir que a filha tinha jogado o dinheiro no lixo. Bem, foi o colchão, mas era um colchão valioso.

Deparei-me, nestes feriados, com um interessante trecho do Diário do Entardecer, de Josué Montello, e que transcrevo aqui:

"Dizia Machado de Assis que a mais antiga forma de ficção que se conhece é o conto-do-vigário. E acrescentava: 'Não é propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou Andersen, mas é conto, um conto especial, tão célebre como os outros, e mais lucrativo que nenhum.'

Como em toda modalidade de arte, o conto-do-vigário tem criadores e plagiários.

Sou de parecer que, nos casos habituais dos bilhetes de loteria falsamente premiados, que um espertalhão impinge à ingenuidade alheia, nas ruas das grandes cidades, deveriam ir para a cadeia o vendedor e o comprador. Este, por falta de malícia; aquele, por falta de imaginação." (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 48)


O espertinho, nestas horas, merece o castigo de cair na lábia do espertalhão.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pedaços pelo caminho

24 de setembro de 1983.

Boa conversa com Carlos Drummond de Andrade, pelo telefone. O poeta ainda se sente alquebrado com a operação a que se submeteu, há poucos dias, para ablação da próstata.

E ele me diz, na sua voz quase apagada:

- Para viver, depois de certa idade, temos de ir deixando os pedaços de nós mesmos pelo caminho
.”
(MONTELLO, Josué. Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 419)

Deixar pedaços de nós mesmos pelo caminho. O poeta, com sua simplicidade mineira, fazia referência ao sentido físico da expressão. Ou talvez não!

No convívio diário, deixamos pedaços. Sementes lançadas ao vento, ou derramadas cuidadosamente no solo fértil para florescer. Sementes que brotam em forma de sorrisos, de uma palavra amiga, de um olhar carinhoso, de um abraço singelo, de um ouvido atento.

Pedaços íntimos da alma que o poeta desvenda em seus versos e rimas. Pedaços humanos nascidos de uma epifania única que se prolonga no tempo para os leitores.

Pedaços que um escritor utiliza para construir suas personagens, que hão de ser absorvidos por alguém em algum tempo em algum lugar. Não há data certa para que aquele ser fictício imaginado pelo autor venha a inspirar, a dar coragem, a mexer com um jovem – ou adulto, ou velho – que folheie o livro.

Pedaços todos nós deixamos ao longo da vida. Que estes pedaços sejam sempre bons e férteis!

Ontem fez 3 anos que Josué Montello faleceu. Ele deixou seus pedaços pelo caminho. Pedaços valiosos. Pedaços que tornam um momento rotineiro em momentos de descobertas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Saudade


"A saudade existe no coração, sem necessidade de recordações externas."

Machado de Assis

(Migalhas de Machado de Assis. São Paulo: Migalhas, 2008).


"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!"

Carlos Drummond de Andrade

("Confidência do Itabirano". Antologia Poética. 26ª. Ed. Rio de Janeiro : Record, 1991).


"Eu próprio, ao refletir sobre os percalços do ano-velho, vejo agora neles a provocação que nos faz amar a vida com outra intensidade. Os calhaus do caminho ficaram para trás. Nossa vida nada mais é do que a transformação do dia de hoje em dia de ontem, enquanto esperamos o dia de amanhã. O que é bom lembrar também se chama saudade."

Josué Montello

(Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 214)


A memória, intangível, silenciosa, guarda, como uma caixinha de joias, os detalhes de tantos momentos vividos, imaginados, sentidos. Fundem-se emoções, realidade, sonhos, vibrações, alegrias, lágrimas e tristezas. Cria-se algo novo, fruto desta mistura de dádivas, que percorre o corpo até o coração. Este, órgão tão potente, estremece diante da saudade e precipita o anseio pelo reencontro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Trata de escrever




"Para que as palavras se transformem em obra de arte, trata de escrevê-las. Exatas. Insubstituíveis. E que fixem um rosto, um olhar, um sorriso, um drama, uma vida, um ser humano, saído de ti, com teu sangue, com tua carne, e que exista como realidade autônoma, fiel a ti mesmo, e que só por si seja tu próprio com a tua singularidade. A literatura é exatamente esse texto no papel. Desde Homero. Desde sempre."

(Josué Montello. Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994,p. 64)


Num canto de minha mesa de trabalho, mantenho empilhados, de forma não muito organizada, os últimos livros que li e que, invariavelmente, contêm trechos marcados e rabiscados a lápis. Sempre a lápis para não machucar o livro. Deixo-os ao meu lado para extrair idéias, para guiarem um texto ou para fazerem companhia num momento de silêncio.


Peguei este trecho, escolhido aleatoriamente, de um dos Diários de Josué Montello. Parecem palavras que servem de guia a um escritor jovem e inexperiente escritor. Descreve com maestria o que escrever. Mas insiste: trata de escrever. Não deixe as palavras apenas no vácuo, lança-as no papel. Palavras de incentivo para todos que gostam de escrever.

Ou talvez como o personagem da minha crônica Resolução de Ano Novo.
Bom fim de semana a todos!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Lembrando Josué Montello

(c) visão ao longe


São poucos os escritores brasileiros contemporâneos que deixaram sua marca na literatura brasileira. Josué Montello foi um destes expoentes. Amanhã completará 2 anos que ele nos deixou para alegrar os céus com suas narrativas cativantes.

A memória de um escritor vive pelos seus leitores e Josué Montello vive por seus livros, por seus conselhos, pelas palavras lançadas nas inúmeras folhas brancas. São dele os trechos abaixo, que separei do seu Diário da Noite Iluminada (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994).

"Nosso equívoco quando buscamos a felicidade, é pretender conquistá-la por atacado, quando a verdade é que ela só se rende a varejo. Nunca nos vem para a entrega total. Sempre para os pequenos favores.
Essa é a regra. O que não exclui as exceções." (p. 404)

"Uma das características da obra de arte literária é que ela é naturalmente confessional, mesmo quando o escritor dá a impressão de que está a criar seres que se contrapõem a seu próprio ser. Nos anjos e demônios de seus livros, há sempre algo do criador, ainda quando condena, ou sobretudo quando condena." (p. 419)

"Todos nós temos um diálogo secreto com o nosso passado. Mesmo quando não o interrogamos, ele interfere, e impõe nossa norma de conduta. São os atos, as atitudes, as decisões que nos individualizam, e a que temos de obedecer para sermos coerentes, com o sentimento de nossa autenticidade.
Quem não faz assim, apenas representa um papel que não confere com o original. E o original é Deus que assina." (p. 254-5)

Poderia comentar, mas deixo para a reflexão individual dos leitores.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ano Novo


Gosto de separar bons trechos de livros para dividi-los com os leitores. Este trecho é do Diário da Noite Iluminada, de Josué Montello.


"1o. de janeiro de 1979


Depois de termos visto findar algumas dezenas de vezes o ano-velho, há um processo fácil para saber se ainda não envelhecemos por dentro: é descobrir em nós o sentimento da alegria e da esperança, no momento em que desponta o ano-novo, com seu alarido de luz e cores.


O ano-novo, que aqui está a dar os primeiros passos, merece que o acolhamos de rosto aberto. O ano-velho, que ontem nos voltou as costas, a caminho da Eternidade, cumpriu seu ofício. O novo, com seu carregamento de surpresas, ainda não disse a que veio. É cedo para fazê-lo. Ainda traz em si a expectativa da novidade. Será bom? Será ruim? O que sabemos é que será ele próprio, na configuração que lhe der o futuro - com a nossa colaboração." (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 95)


Feliz 2008 a todos, com muita esperança e forças renovadas!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Janelas abertas

(São Luís, Maranhão)


No fim de semana, um comentário de Bruno Azevedo, nosso leitor de São Luís, sobre o livro Janelas Fechadas, de Josué Montello, fez-me refletir.


Janelas Fechadas foi o primeiro livro que comentei neste blog. Abri as janelas do blog com 3 textos com comentários e reflexões sobre a obra. Os textos foram: Janelas Fechadas (1) , Janelas Fechadas (2) e O Bonde e a Janela.


Escreveu o leitor:


"(...) ai tem também uma discussão sobre a modernidade, ao meu ver. Se você conhece São Luís deve conhecer o anil e saber o que ele representa hoje na ilha. Em Janelas Fechadas tem tudo isso ai chegando. E as pessoas esperam, esperam. Fantástico!"


Infelizmente não conheço São Luís e não consigo relacionar o Anil e sua importância para a ilha. Confesso que ler sobre lugares que não conheço me deixa um pouco aflito. Parece que não consigo me situar, como se estivesse num lugar sem um mapa. Mas, Bruno fala da modernidade. As personagens da obra esperam algo. Uma constante espera, esperança inesgotável. Benzinho espera uma carta que não chega. D. Binoca espera o tempo passar. E o bonde sempre passa diante da janela da família.


Achei interessante a referência à modernidade. É uma interpretação válida e que pode ser extraída da obra. Esperam a modernidade, o progresso, uma mudança que levará novos ares e que permitirá virar a página. Talvez o desfecho da obra, quando Benzinho resolve ceder, finalmente, aos interesses de José Senhor, indique exatamente este ponto crucial de mudança. Ela pára de esperar e age. Muda, vira a página e segue adiante.


As janelas abrem-se para novas experiências, para novas oportunidades, para a vida e cria-se espaço para as mudanças.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Voltar a ser criança



"Tia Bilu parou o movimento das agulhas, deixou cair as mãos no regaço, por cima do novelo de lã, já com o novo casaquinho terminado:

- Por hoje, basta!

E como tinha também terminado de contar o seu mais belo conto, perguntei-lhe, afagando seus cabelos levemente prateados:

- Tia Bilu, a senhora acredita mesmo em tudo que contou?

E ela, depois de me beijar:

- Um pouco de inocência, para saber acreditar, também ajuda a viver. Foi por isso que Cristo ensinou aos seus discípulos que o reino dos Céus pertence às crianças. Eu, quando conto minhas histórias, sinto que volto a ser menina. E acredito em tudo."

(Josué Montello. O Carrasco que era Santo. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 100)


Este é o último trecho de um romance infanto-juvenil escrito por Josué Montello. Terminei-o na semana passada. Uma linda estória, excelente para jovens leitores. Queria uma pausa em leituras adultas e refugiei-me em uma estória juvenil, leve, para ver se tirava algumas idéias para uma semana temática sobre o dia das crianças.


Acho que o trecho é muito ilustrativo. Um pouco de inocência também ajuda a viver e rejuvenesce. Voltar a ser criança. Algo que poderíamos tentar fazer nestes próximos dias. E não precisa muito, basta achar tempo para sentar no chão e brincar com nossos filhos, a deixar que as coisas simples nos enterneçam e tragam sorrisos, a sonhar e contar estórias. Basta simplesmente brincar.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Palavras de Flaubert

Gustave Flaubert é um dos maiores escritores franceses. São dele as palavras trazidas por Josué Montello em seu Diário da Noite Iluminada:

"Lição de Flaubert: 'Cada sonho acaba por encontrar a sua forma, já que há ondas para todas as sedes, assim como há amor para todos os corações.' E é dele, ainda, no mesmo texto epistolar: 'Já que não podemos deslocar o sol, ponhamos cortinas em nossas janelas e acendamos os lustres de nossos quartos.'" (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 446)

Desloquemos o sol para dentro de nós mesmos e irradiemos o brilho do sorriso, daquele sorriso que contagia e semeia novos sorrisos ao seu redor. Raras são as pessoas que conseguem fazer isto, mas a verdadeira amizade sempre semeia sorrisos.

domingo, 16 de setembro de 2007

Personagens e ficção


Esta semana escrevi um conto para um concurso literário organizado por uma editora carioca. O tema do conto era o medo. Não o medo comum de coisas corriqueiras como altura ou barata, mas dos medos mais profundos, do medo de se expor, do medo da vida, do medo da morte, do medo de errar. A primeira versão do conto não me agradou. Achei o final previsível e deixei o protagonista adormecer por uma semana. De repente, parece que o personagem do conto sussurrou-me seu destino e o final foi alterado.

Interessante como, depois de finalizado, ouvi de duas pessoas idéias muito semelhantes às que tinha colocado no conto, como um reflexo do medo sentido e enfrentado por Octavio, o protagonista.

O processo criativo e a formação de personagens têm me intrigado, pois resolvi abraçar a idéia de escrever um livro. Josué Montello escreveu que seus personagens tinham sempre um referencial de alguém conhecido, todos eles já existiram de alguma forma em alguma pessoa de seu convívio. Trilhas reais que ganham trilhas de ficção.

Lygia Fagundes Telles, na crônica “Bolas de Sabão” (Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p.17) retrata algumas conversas com leitores acerca de seus personagens. É curioso como alguns personagens ganham vida própria, deixam de ser meros produtos da ficção e são considerados como figuras históricas de um passado – recente ou não. Eles ganham vida própria como bolhas de sabão que se desprendem do criador e alçam vôo na atmosfera, até que estouram e desaparecem, como ocorre com o final de um livro. Alguns autores afirmam que depois que o livro é concluído, ganha vida própria, foge ao controle do escritor.

E Lygia Fagundes Telles termina assim sua crônica:

Aparetemente não pensei mais no assunto mas quando um dia me sentei para escrever A estrutura da bolha de sabão já tinha intuído que a imagem da bola era a imagem do amor. E a estrutura dessa bola? Calma, pensei, era preciso inventar um enredo que envolvesse essa imagem. E só lá adiante vou descobrir (ou não) como funciona essa tal de estrutura que deve ser assim como o próprio ser humano, indefinível, inacessível. E incontrolável.” (p. 23)


E este mistério humano continua a nos intrigar e cativar. E nos inspira a escrever!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Descrevendo a amizade


Li este trecho hoje de manhã, numa pausa para um café, antes de passar a manhã inteira num cliente. É Josué Montello quem nos traz palavras de Mário de Andrade acerca da amizade escritas a Drummond, um tema sempre atual e tão bem descrito pelos grandes escritores.


"Drummond deu à sua coletânea o título exato: A Lição do Amigo. E amigo com algo de paternal, como é sempre a verdadeira amizade. Querendo advertir, ensinar, chamar a atenção, mas sem dar ar de mestre-escola, sempre no tom de companheiro. Mais afetivo que persuasivo. Mais generoso que doutrinador. E a despeito de ele próprio reconhecer que sofria de 'gigantismo epistolar', dizia a Drummond, numa das cartas: 'Se eu tivesse tempo pra escrever cartas como se faz na França, cartas pra depois da morte os amigos publicarem, havia de mandar uma pra você sobre o que sou, o que faço e o que penso agora. Dava um assunto bonito, que esta minha vida é uma pororoca do Amazonas." (Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 421).


Amizade verdadeira, sincera é algo raro nos dias de hoje. Saber ouvir, saber esperar, saber respeitar são coisas que parecem esquecidas nos tempos modernos. Muitos são os conhecidos, mas poucos os amigos, aquelas pessoas que estão sempre ao nosso lado pelo que somos e não pelo que gostaríamos que fossêmos.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Monteiro Lobato e Meio Ambiente



Lendo o Diário da Noite Iluminada, de Josué Montello (o livro tem 546 páginas), achei a transcrição de uma carta encaminhada por Monteiro Lobato no jornal Estado de São Paulo em 1914.


Transcrevo o texto abaixo. Monteiro Lobato era um homem com visão ao longe e escreveu a carta a quase 100 anos atrás.


"Lobato, em 1914, fazendeiro em Buquira, na serra da Mantiqueira, mando ao Estado de São Paulo, para a seção 'Queixas e reclamações', um protesto contra as queimadas, e esse protesto, que seria o ponto de partida de uma grande obra literária, parece uma advertência atual, ajustada à preocupação ecológica de nossos dias: 'Preocupa a nossa gente o conhecer em quanto fica por dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda ordem, provindos de uma assombrosa queima destas árvores. As velhas camadas de húmus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal da terra paralisado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para pior do clima, pela agravação crescente das secas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado pela falta de pasto; as mil e uma particularidades que dizem respeito a esta ou àquela zona, e, dentro dela, a esta ou àquela situação agrícola." (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 309)


Não poderia esta carta ter sido escrita hoje? Isto é o que torna um escritor universal e de grande vulto.

domingo, 13 de maio de 2007

Ainda sobre as cores da manhã

Escrvei a última crônica no trânsito de São Paulo, indo de um lugar a outro, aproveitando o silêncio no carro. Qual não foi minha surpresa a ler ontem o pano de fundo do que havia escrito, com a diferença que foi descrito por um grande escritor brasileiro. Só posso concluir que minhas inspirações têm brotado dos lugares certos.

Aqui vai mais um trecho de Diário da Noite Iluminada, de Josué Montello, para matar a curiosidade:

13 de março de 1981.

"Se os dorminhocos soubessem o que perdem por não acordar cedo, não permaneceriam na preguiça da cama, com as cortinas impedindo a claridade nova que vai crescendo no horizonte, e é sempre uma festa de cores por cima do mar. É dessa luz que vem o meu bom humor. A natureza, ao apontar do dia, sempre nos dá, como hoje, a sua mais bela lição: faz a mesma coisa sem se repetir. "

(Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 232)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Caminhando dia após dia

Continuo a ler um dos Diários de Josué Montello. Ontem, antes de dormir, li mais algumas páginas. A vantagem de um livro de memórias é que os trechos mais curtos, permitem uma leitura pausada, em curtos períodos de tempo, sem que se perca o fio da meada.

Há algo porém que tem me impressionado nesta leitura. Nunca fui muito atraído por livros de memórias, mas recentemente mudei de idéia, mais um conceito revisto aos trinta e muitos anos. Ao ler, tenho tido respostas a dúvidas ou confirmações de coisas que imaginava e que pensei. Trechos relembram meu avô, dando conselhos - claro que mais simplicidade e menos beleza linguística - e falando sobre a vida. A coincidência é que meu avô materno morreu exatamente 16 anos antes que Josué Montello, num dia 15 de março. Abrevio a divagação para transcrever um trecho que ontem li. Um trecho que fala das dificuldades e o que elas nos ensinam, um trecho que mostra a importância de conduzir a vida um dia por vez. Um dia após o outro....sempre.

"31 de dezembro de 1980

Eu próprio, ao refletir sobre os percalços do ano-velho, vejo agora neles a provação que nos faz amar a vida com outra intensidade. Os calhaus do caminho ficaram para trás. Nossa vida nada mais é do que a transformação do dia de hoje em dia de ontem, enquanto esperamos o dia de amanhã. A memória, que tudo recolhe, faz a triagem necessária. O que é bom de lembrar também se chama saudade.

Entretanto, o que vale mesmo, nas tribulações com que a vida nos sacode nos seus abalos císmicos, é a revelação, ou a confirmação, das amizades puras, com as quais se enfeitam as aventuras da própria vida. E essa revelação, ou confirmação não me faltou. No aconchego e no carinho de toda a família. No desvelo com que fui tratado. A começar por minha incomparável companheira."

(Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 214)

A semana começa e as páginas estão em branco, prontas para serem preenchidas. Só cabe a nós escrevê-las.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Inspiração e criação



De onde vem a inspiração dos grandes escritores?

Tenho feito esta pergunta nos últimos meses a mim mesmo. Poetas e romancistas têm visões diferentes da inspiração e explicam de forma pessoal o processo criativo. Conclui que a inspiração para escrever é algo individual e distinto, um processo ou fonte de criação que não pode ser transposto ou ensinado. Talvez seja um dom. Talvez seja fruto de esforço pessoal. Não sei a resposta e continuo a buscá-la. Mas independente disto, continuo a escrever, geralmente inspirado.


Decidi que após terminar minha tese de doutorado, à qual dedicar-me-ei durante todo o segundo semestre, vou tentar escrever um livro. Cedi ao incentivo e aos elogios e vou tentar. O enredo tenho-o formado na cabeça. Primeiro e último capítulos já ganharam forma abstrata, sem ainda ganharem a tela do computador. Falta o recheio, o que me parece a parte mais árdua.


Nesta busca por tentar achar um método de criação ou inspiração, deparei-me com uma passagem de Josué Montello sobre o tema. Aliás, no Diário da Noite Iluminada, o imortal semeia idéias para muitos posts e para muitas reflexões. Neste trecho, do dia 24 de dezembro de 1978, ele comenta sobre a inspiração de um romance.


Quando me perguntam como surge em mim a idéia de um romance, não sei responder. Sei apenas que ela surge de repente, e logo se delineia, com seu universo privativo, e eu vejo as figuras, o ambiente, os movimentos, como se toda a ação narrativa, em vez de obedecer a uma formação gradual, constituísse uma iluminação instantânea. Por vezes tenho a mesma impressão de que toda a urdidura romanesca, no seu conjunto, seria mais uma lembrança que uma invenção.


Sempre tive grande dificuldade em transferir figuras reais para meus textos. Só estou à vontade quando sei que elas não correspondem a tipos ou pessoas que eu conheço ou de que me recordo. A sensação de lembrança, no caso, é diferente. Falta-me poder para identificar. O que sei é que toda a trama está comigo, e passa a viver como se se tratasse de uma gestação.” (Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 92)

NOTA: A tela que ilustra este post é de Alfredo Volpi.