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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Poesia: Poente laranja

 

foto Renato Bueloni Ferreira



POENTE LARANJA


a moça de olhos oceânicos e profundos

camuflados em cabelos revoltos

debruçada na varanda, exalava charme

o poente a hipnotizava, todos os dias

o vento vinha lhe beijar a boca

o céu alaranjado vinha lhe acariciar a face

a luz do final de tarde lhe acalentava a alma

antes de mergulhar no escuro da noite

e esperar um novo renascer.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Poesia : Invisível

 

foto: Renato Bueloni Ferreira



INVISÍVEL


Mergulho no profundo âmbar dos seus olhos

olhar distante e perdido numa dimensão impenetrável

tento decifrar teus pensamentos, sentimentos, humores

tento entrar em tua corrente sanguínea e chegar ao coração

ao âmago da tua alma, ainda que imaterial e inalcançável

rodeio perdido no labirinto do teu ser e não acho o caminho.

Desnorteado, aceito minha incapacidade de despertar em ti

a fagulha que incendeia o candeeiro

a brasa que faz arder o coração e aquece a água do chimarrão.

Pobre de mim que passo invisível diante do profundo âmbar dos teus olhos.


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Poesia: Na madrugada

 


@rbueloni - instagram


NA MADRUGADA

Por vezes, vens me visitar na alta noite

no silêncio do sonho das madrugadas.

Alguns intensos, outros serenos e plácidos,

alguns sem sentido, outros a revelar verdades

marcantes e ao despertar,

o intenso batuque na caixa torácica

o arrepio latente, o sorriso discreto no rosto

invisível na escuridão pesada.

 

Por vezes, a chuva me acorda ao tocar na janela

teu corpo desnudo ao meu lado

envolto nos lençóis desarrumados.

Deixo a manhã preguiçosa invadir

e apenas te observo - calado.

Tuas costas, teus cabelos, tua respiração.

Desenho mapas e paisagens na tua pele

ligo os pontos e imagino tatuagens

a ponta dos dedos é meu pincel

tuas costas, a tela para minha aquarela.

 

Por vezes, interrompo o sonho com um beijo

a realidade a bater na porta, o alarme do relógio

a luz do sol intrusa a adentrar o quarto

revelando a verdade,

revelando que estou só.


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Poesia : desamei

 



@carolinepaternostro



DESAMEI

Amei
desarmei
o coração esvaziou-se
Desamei.

Não restou cicatriz
ou vestígio
Desaguei.
Era amor?






terça-feira, 31 de maio de 2022

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Poesia: Natureza Morta


instagram @rbueloni



NATUREZA MORTA
Renato Bueloni Ferreira


demorou a falar.
deixou que as palavras entaladas lhe sufocassem,
roubassem-lhe o brilho do dia
a luz do sol
a brisa marítima matinal
a energia do despertar
o sorriso do rosto dele.


demorou tanto a falar,
que as flores morreram,
o sentimento murchou,
a alegria evaporou
e ela passou.





terça-feira, 5 de novembro de 2019

A treva, de Adélia Prado



Foto: Alta noite, Renato Bueloni Ferreira


A TREVA
Adélia Prado


Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio como a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.

(Poesia Reunida, 2a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2016, p. 249)


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Saber viver, de Cora Coralina






SABER VIVER
Cora Coralina
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Devaneios outonais

instagram @rbueloni



No outono, as tardes são curtas e a noite cai mais cedo. O dia foi mais frio. O telefone tocou apenas uma vez. A narrativa que ouvi deixou-me perplexo, incrédulo de como a maldade pode invadir até a mais tenra infância. A tarde se desenrola preguiçosa e o tempo parece pesado, congelado, como se tudo se passasse em câmera lenta. O silêncio reina ao meu redor. Não há mais ninguém no escritório. Desliguei a música. Quero o silêncio para ouvir as palavras que brincam em minha mente, dando rodopios, saltos. Algumas fugidias, outras comportadas, prontas para saltar para o papel. Leio um poema do José Luis Peixoto e sou fulminado por seus versos.

ninguém pode saber que este poema é teu.
ninguém pode saber. ninguém pode saber
que este poema. ninguém. este poema é teu.
sou uma coisa da qual se tem vergonha.”

(José Luis Peixoto, A criança em ruínas. Porto Alegre : Dublinense, 2017, p. 70)


O poema com dedicatória anônima, o teu nome sussurrado para uma flor, o delírio urbano do poeta na cidade concreta. Notar o invisível, dar forma diversa àquilo que todos imaginam ser, lançar um olhar torto, louco, alucinado sobre a suposta feiura da cidade grande. Tentaram ordená-la, mas perderam o controle. Vejo beleza onde veem concreto, vejo vida onde vislumbram morte, vejo luz onde falta cor, vejo ordem e simetria onde imaginam o caos.

Até no outono, onde as noites são mais longas, as tardes curtas, a luz se esvai cedo, permito que o pensamento me leve a voar para longe, bem longe, no voo solitário e silencioso, talvez para um poema, talvez para um refúgio, talvez para um recanto onde a vida é plena. A melancolia que invade a alma não me impede de vibrar no silêncio, mas convida-me a saborear um outro lado da vida, discreto e sem alarde.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Vem aí uma antologia poética com nossa participação






O livro estará disponível em julho, em formato físico e e-book, e será publicado pela Editora Meraki Publisher.


terça-feira, 26 de março de 2019

Perfeito, de Eucanaã Ferraz



instagram @rbueloni


PERFEITO


Me disse nos meus braços você parece
um menino eu disse nos seus braços
eu sou um menino eu podia ter dito

trago pela mão um girassol um livro
um violino eu devia ter dito eu não disse
sou um verso que teci com seus cabelos

sou o peixe vermelho no aquário
de Matisse eu diria ainda mas
deixei que só a respiração dissesse

que eu era a presença longínqua da maresia
por entre os pinheiros de Curitiba
um menino sim um grão de mostarda

um sobrado em Braga branco e branco
eu despertava e Amsterdã sob a neve
parecia mais uma pequenina sílaba

à espera de uma sílaba que a tarde
trazia entre dentes miúdos; tudo
sob o laço prestes a desatar e cair

à maneira de um copo que se parte
mas por ora nada tinha peso nada
era grave e o tempo sem as horas

nunca soube dar de nós ali onde o mundo
permaneceria daquele modo suspenso
perfeito.

(Escuta, Eucanaã Ferraz, São Paulo : Companhia das Letras, 2015, p. 73)



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Distorcendo a realidade


instagram @rbueloni

"A lágrima é a saudade em forma líquida."

Renato Bueloni Ferreira

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Poesia: Despida




DESPIDA

abraçou-se
e diante do espelho,
no isolamento do quarto,
alma despida de máscaras e maquiagem
apenas brilhou linda.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A sabedoria de Adélia Prado



O trecho é extraído do Valor Econômico, Caderno Eu&, de 3 de fevereiro de 2017, p. 23, em entrevista concedia por Adélia Prado à jornalista Andrea Jubé.

"(...) Pergunto o que ala acha das feministas. 'O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras.'

E prossegue: 'A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê mulheres se tornarem companheironas dos homens', critica. 'É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher.'"

Adélia Prado nos brinda com palavras de sabedoria, com uma simples reflexão que tem sido sufocada por bandeiras e agendas e palavras de ordem. No meio da gritaria, surge a voz da lucidez.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Poesia: Entre flores

instagram @rbueloni


ENTRE FLORES

Sobre a mesa, flores
de sobremesa dores.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade : Ontem


Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni


ONTEM

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)

No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevam, dissipem e leiam poesia.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Epígrafe - XXXV



"A los quince años me inicié en la enseñaza en una escuela rural, sola, sin familia. En ese ambiente impregnado de tristeza y de silencio empecé a escribir; él me hizo espiritualmente lo que soy. Su influencia definitiva en mi alma."

(Gabriela Mistral. Vivir y escribir. Prosas autobiográficas. Santiago de Chile : Ediciones Universidad Diego Portales, 2013, p. 99)

Este trecho foi escrito  por Gabriela Mistral em 1925. A poetisa chilena nasceu em 1889, em Vicuña, e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Faleceu em Nova York em 1957.

O ambiente rural é descrito como duro, áspero, triste. Não é nada bucólico, nem leve. O trabalho no campo é pesado. Os alunos, pode-se imaginar, deviam frequentar a escola apenas por alguns anos e depois abraçavam no trabalho no campo para ajudar as famílias. O dinheiro curto. A diversão inexistente. Gabriela Mistral mergulha no mundo melancólico de sua adolescência e transpõe tudo para sua escrita, para sua poesia.

A tristeza, a dificuldade forjam o caráter, lapidam a alma e dão fortaleza àqueles que não sucumbem diante dos infortúnios e dos percalços do caminho.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A poesia que nos falta




Eu leio poesia. Eu compro poesia. Eu não sou um consumidor de poesia, pois poesia não se consome, desfruta-se. Penso que a poesia é um convite à contemplação, a ultrapassar a superfície das coisas, um mergulho nas profundezas do cotidiano e dos sentimentos, da vida e dos objetos, da realidade que nos cerca. A poesia me transporta para o mundo da reflexão, do devaneio, da tentativa de melhor compreender este mundo.

Creio que nos falta poesia no dia a dia. Talvez você, meu caro leitor, perguntará onde existe poesia num metrô lotado, num engarrafamento de final de dia quando se está cansado a caminho de casa, numa notícia de jornal que reproduz a violência e a barbárie de crimes cometidos. Onde está a poesia deste mundo cruel?

Quem sabe, se olhássemos o mundo com um olhar poético, contemplativo, poderíamos ultrapassar a casca que recobre a realidade e penetrar mais fundo no transcendental. 

Outro dia, um amigo criticou de forma ácida o grande sucesso do momento, os livros de colorir para adultos. Para adultos? Quer dizer que criança não pode colorir aqueles desenhos elaborados? Lógico que pode, mas são planejados para adultos lidarem com o estresse. 

Curioso como a atividade lúdica, como o contato com a arte, ainda que de forma primitiva, seja utilizada como elemento terapêutico. A escrita já é usada como terapia, assim como a leitura. Agora, é a vez dos livros de colorir. O adulto dá um primeiro passo para ter contato com a arte visual. Digo primeiro passo, pois poderia sentar-se num banco em uma das galerias do MASP e contemplar Rembrandt, Picasso, El Greco, Goya, Modigliani, Monet, Manet...

Contemplar é mais trabalhoso do que simplesmente pintar com canetinhas e lápis de cor. Contemplar exige que se silencie o interior, que nossos sentidos estejam focados no objeto. A poesia faz isto, transporta-nos para o mundo da contemplação. Falta-nos poesia no mundo de hoje, mas quem sabe alguns não descubram que a Arte não é restrita a livros de colorir para adultos.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A poesia de Matilde Campilho



Descobrir um novo poeta é descobrir um novo dialeto que traduz a realidade do mundo. Todo poeta tem o seu idioma próprio, uma forma toda peculiar de retratar, de descrever de forma inusitada o que é banal, o que é sublime, o que é importante, o que é profundo. Cada poeta usa traços e linhas e sombras e nuances para desenhar com palavras o que tantas vezes tentamos fazer sem sucesso.

Matilde Campilho poderia ser facilmente confundida com uma brasileira. A bela morena morou no Rio de Janeiro e passaria por carioca, não fosse o inconfundível – e charmoso – sotaque português. De cabelos longos e pele bronzeada, Matilde é uma jovem escritora, uma jovem poetisa que desponta no cenário das letras.

Participou do recente colóquio Minha língua, minha pátria, organizado pelo jornal português Público em conjunto com a Livraria Cultura. Matilde estará presente também na Flip deste ano.

Jóquei é seu primeiro livro, publicado no Brasil pela Editora 34. Não se surpreenda com os poemas em inglês, alguns poucos, misturados com um punhado de textos em prosa. A poesia conduz leva-nos a passear por Lisboa, pelo Rio de Janeiro e por cidades que poderiam ser tanto no Brasil, ou Portugal, ou qualquer lugar onde um caminhante atento observa tudo ao seu redor.


Há leveza na poesia de Matilde Campilho que parece escrever a poesia que todos gostaríamos de escrever. Trata-se de um elogio, antes que me entendam mal, a simplicidade é mais difícil de ser atingida do que pode parecer e a caixa torácica deve retumbar quando as palavras deitadas sobre o papel agradam à escritora. O leitor da poesia de Matilde descobre sua fascinação pelos números, pela ciência, onde parece indicar um discreto deslumbramento sobre os mistérios invísiveis do universo, transformando o DNA em poesia.





quarta-feira, 22 de abril de 2015

Matilde Campilho : Rua do Alecrim





RUA DO ALECRIM

Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdadeira a bofetadas.

(Jóquei. São Paulo : Editora 34, 2015, p. 64)