| Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro
incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que
prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se
ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e
extremamente enriquecedor. Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de
maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida
pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela
Rothko. A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada
por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte
no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras
surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró,
Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros. Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção
octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é
permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do
exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas
aqui: site ). No exterior, não
é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico.
Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito
histórico de Houston. Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e
mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância
e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas
retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do
século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam
as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um
sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em
diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta
análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte. Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela
sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura,
em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos
diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de
ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente
para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito
escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele
tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues
pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade,
fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e
beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos.
Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido
uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e
sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de
serenidade e paz. Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta
alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando
nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora
entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores. Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música,
mergulhe na cultura local! |
sexta-feira, 29 de maio de 2026
A Capela Rothko
sexta-feira, 17 de abril de 2026
No aeroporto
| @ rbueloni |
No aeroporto
Procurei uma poltrona que permitisse uma boa visão da pista e do pátio de manobras das aeronaves no aeroporto de Guarulhos. O cenário era rotineiro, trivial eu diria. Uma nova viagem, a espera na sala VIP e alguns momentos para contemplar o sobe e desce dos aviões. Voar sempre me fascinou desde criança. Acho que herdei esta paixão do meu pai.
Andei de avião pela primeira vez em 1973, quando a família
mudou-se para Miami. Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Partimos de São Paulo
rumo a Miami num voo da Varig. Não lembro de mais nada além disso. Sei que
embarcamos em Congonhas, que recentemente completou 90 anos de existência. Um
lugar onde fui várias vezes com meu pai ao terraço que existia e que dava uma
vista completa da pista e do pátio. Electras, Boeings 727, 737, Fokkers 100,
Brasílias. Os grandes aviões a cruzar os céus em voos longos: o jumbo 747, o DC-10, o A340, o A330, o 767 e o 777. Voei em todos e para vários destinos. Congonhas era um ponto de
partida frequente até para voos internacionais anes de Guarulhos ficar pronto.
Os aviões partiam rumo ao Galeão, onde a Varig distribuía os passageiros em
seus voos internacionais.
Voar era e continua a ser um fascínio. O encanto não foi
perdido, apesar de alguns perrengues que se enfrentam hoje em dia na aviação.
Cadeiras apertadas, passageiros mal educados, transtornos na segurança, salas VIP
que deixaram de ser VIP, aeroportos antiquados e inadequados para o volume de passageiros atual. Mas, mesmo assim, sentar-se na
janelinha e contemplar o mundo do alto, como um pássaro é algo sempre traz um
gosto de novidade. Talvez o voar me faça reviver a infância novamente.
Estava lá eu perdido nos meus pensamentos, vendo os aviões
subirem e descerem quando ouvi a voz de um menino que devia ter uns 14 ou 15
anos. Uma palavra apenas, um chamado:
- Pai!
O timbre da voz lembrava a do meu filho. Naquele momento
banal fui transportado para o lado do meu pai. Meus olhos marejaram, contive um
soluço e o choro que queria brotar. Disfarcei. Por alguns momentos eu era uma
criança no aeroporto olhando os aviões ao lado do meu pai. Senti sua presença
comigo, como seu braço repousasse no meu ombro e me apertasse para junto dele. Respirei
fundo, sorri e pedi a Deus por ele.
PS: Amanhã meu pai, que faleceu em 2018, faria 81 anos.
quinta-feira, 23 de outubro de 2025
Crônicas peruanas - Laguna Humantay
| Laguna Humantay - @rbueloni |
Cuzco, 22 de agosto
de 2025
O despertador tocou alguns minutos depois das quatro da
manhã. Era o último passeio que havíamos programado e talvez o mais exigente.
Estava um pouco apreensivo, a começar pelo horário de acordar, mas resolvi
juntar-me a minha filha e amiga na excursão até a Laguna Humantay.
O lobby do hotel estava escuro e havia apenas duas pessoas
na recepção. O pátio central em estilo colonial espanhol trazia um ar medieval
com a pouca luminosidade e a decoração que ressaltava a arte cusquenha. O
atendente perguntou se havíamos pedido o café da manhã antecipado, mas
esquecera de solicitar. É comum fornecerem um lanche para viagem, pois muitos
passeios saem bem cedo, com o dia ainda escuro.
Pouco antes das cinco, a van de transporte chegou e o
porteiro abriu a pesada porta de madeira. Brinquei com ele sobre ser o porteiro
do castelo. Ele sorriu revelando o bom humor apesar da hora. Explicou-me que
não fabricam mais portas de madeira maciça e com detalhes em metal. Hoje, tudo
é mais leve e simples, disse-me.
Juntamo-nos ao grupo de turistas no veículo quase cheio.
Logo em seguida, uma parada na Plaza de Armas, antigo centro do império Inca e
ponto de encontro para os inúmeros passeios que partem de Cuzco. Algumas
pessoas a mais entraram na van, que partiu lotada. Nosso guia, Fredy, deu
instruções sobre o trajeto e o que iríamos encontrar. Alertou que havia
oxigênio caso alguém necessitasse, afinal, a Laguna Humantay ficava a 4200
metros de altitude, ou seja, 800 metros a mais do que Cuzco. Pensei comigo que isso
seria desnecessário, pois já estava aclimatado à altitude. Fredy sugeriu que
dormíssemos por duas horas antes da parada para o café da manhã. A van seguiu
pela estrada sinuosa, deixando Cuzco para trás e percorrendo uma região de vale
cultivado. Logo peguei no sono.
A parada para o café da manhã foi em Mollepata, um pequeno
povoado e início de uma estrada de terra que nos levaria até a base da subida
para a Laguna Humantay. O nosso grupo era composto por mexicanos, espanhóis e
colombianos. Éramos os únicos brasileiros, o que deu um ar de comunidade latina
muito divertida. Seguimos por uma hora por uma estrada de terra até o ponto de
início de nossa subida, em Soraypampa, a 3800 metros de altitude. O minúsculo
distrito tem dois pequenos hotéis e alguns casebres. O movimento é dado
exclusivamente por turistas.
Equipados com bastão de apoio, demos início à caminhada. O
dia estava cinza, um vento frio soprava e ao fundo se via o pico Salcantay,
todo coberto de neve e cercado de nuvens esparsas. Nosso objetivo estava
encoberto pelas nuvens e havia um prenúncio
de chuva. O silêncio era quebrado apenas por nossos passos e pelo vento.
O esplendor dos Andes se descortinava diante de nós. Os picos cobertos de neve
e envoltos por nuvens, alguns fios d’ água oriundos do degelo, os vales e
passagens que indicavam caminhos trilhados.
No meio da cordilheira, a escalada era um desafio. A
primeira parte da trilha era pouco íngreme, mas o ritmo era lento. O terreno
pedregoso e de terra solta. Era preciso cuidado para não escorregar e
percebia-se a falta de ar. Tinha para mim que uma caminhada de pouco mais de um
quilômetro seria fácil, mesmo em se tratando de uma subida. O cansaço era
presente e a cada punhado de metros parava para respirar e buscar o fôlego. Não
estava ofegante ou sufocado, mas tinha-se uma clara impressão de que o ar não atendia
às necessidades corpóreas.
Comecei a contar os passos e numa das pausas, fui
surpreendido: “caballito?”, indagou uma senhora que seguia nosso grupo. Os
turistas eram acompanhados por locais que subiam com cavalos prontos para
carregar qualquer um que estivesse disposto a pagar. Recusei e segui.
Novamente, vinha a tentação: caballito, caballito. Agradeci, mas neguei.
Estava determinado a chegar ao final da caminhada sem desistir. Não estava
fácil, mas insisti. Minha filha ficou preocupada achando que eu iria enfartar,
mas segui o ritmo.
Perto do final, uma senhora que iniciava a descida me
incentivou: si se puede! A frase era conhecida por mim, slogan cantado
em jogos de futebol das seleções andinas. Sorri e respondi com a mesma frase.
Estava próximo o fim. A parte final era muito mais íngreme, mas foi superada
lentamente, com passos curtos e constantes. É preciso respeitar a montanha.
Antes de chegar na Laguna, avistei uma pequena tenda de madeira coberta de lona,
onde eram vendidos espetinhos de frango, assemelhando-se aos vendedores de sanduíche
de pernil na porta do estádio do Morumbi.
Mais alguns passos e cheguei ao destino. Sentei-me numa
pedra e contemplei toda aquela beleza em diversos tons de cinza. A laguna tinha
a água esverdeada e formara-se com o degelo da neve do pico Humantay. As nuvens
estavam baixas e cobriam o cume. O vento frio trazia junto uma garoa gelada,
mas a beleza da natureza crua era encantadora. Fiquei ali por alguns minutos,
recuperando o ar e apenas contemplando as montanhas, enquanto os turistas se
preocupavam em tirar fotos, fazer poses e registrar os melhores ângulos para
postar em redes sociais.
Subimos na van esfomeados e prontos para o almoço. Éramos
dezenove pessoas e Fredy nos disse que foi a primeira vez nesta temporada que
ninguém havia precisado de apoio de um cavalo para subir ou descer. O grupo
fora guerreiro. A van partiu e poucos minutos depois comecei a suar frio, senti
tontura e a vista ficou embaçada. Chamei o guia e alertei-o que iria desmaiar.
Rapidamente fui socorrido e posto no oxigênio. Respirei fundo o ar puro por
dois minutos e logo tudo voltou ao normal. Não desmaiei, mas descobri que o
oxigênio que fora trazido na van era para mim.
A viagem de volta pareceu mais longa, pois nosso motorista
dirigia em ritmo lento. Foi uma ótima oportunidade para conversar com meus
colegas espanhóis e que já tinham feito outras quatro trilhas no Peru em duas
semanas. Eram praticamente trekers profissionais. Aproveitei para
apreciar a estrada e a paisagem de pequenas propriedades cultivadas no vale que
passava por Limatambo e Anta, antes de chegar em Cuzco.
O sol já havia se posto quando chegamos na Plaza Regocijo.
Cansados, mas acometidos de uma alegria perene fruto da bela jornada no meio da
Cordilheira dos Andes.
quinta-feira, 27 de março de 2025
Inspiração e exemplo
| Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro - @rbueloni |
Adentramos o mês de março e é impossível não lembrar do
início da pandemia. Lá se vão 5 anos desde que fomos obrigados a manter o distanciamento
social, ficamos trancados em casa, fomos impedidos de viajar e explorar o
mundo. A vida se reduziu a espaços limitados. Todo ano relembro do início da
pandemia e do mundo distópico que se materializou diante de nossos olhos.
Muitos sucumbiram. Outros ignoraram. Outros ainda – acho que a maioria – saíram
mais fortes, mais conscientes da nossa fragilidade, mais gratos pela vida.
Neste início de ano percebi um outro dado que tem me levado
a uma reflexão mais profunda e a uma mudança de atitude. Percebi que a
distância temporal entre a virada do século e o tempo provável que me resta de
vida são equidistantes. 25 anos transcorreram desde o início do século e do bug
do milênio (aquela catástrofe que não se concretizou) até o dia de hoje. E
somando 25 anos à minha idade, provavelmente em 2050 estarei próximo da minha
finitude. Isto me incomoda? Isto me assusta? Nem um pouco, apenas me fez
refletir. O tempo é fugaz e há certas coisas que não vale a pena postergar, há
certas atitudes que preciso mudar e há certos momentos em que não devo me calar,
não devo deixar para depois, pois talvez não
haja um depois.
Se tudo parece-lhe confuso, calma que vou tentar me explicar
e unir os dois parágrafos acima.
A pandemia deixou suas marcas e mudou alguns hábitos. O
trabalho remoto passou a ser algo usual, a preocupação com a saúde deixou de
ser algo a ser adiado, novas tecnologias foram incorporadas e as pessoas foram
tomadas por um desejo constante de viajar e explorar e descobrir novos lugares.
O dinheiro passou a ser utilizado de forma mais desapegada. Guardar para
sempre? Não, gastemos um pouco, pois não se sabe quanto tempo teremos até a
próxima pandemia.
O fato é que alguns dos nossos hábitos mudaram. O nosso
mindset – para usar um termo moderninho – mudou. Tenho viajado muito mais.
Prefiro viajar e adiar a troca de um veículo. Fiz um check up e confirmei o que
já suspeitava: tenho pressão alta e o colesterol também. Vou começar a usar
medicamento de uso contínuo. Sinal da idade. Passei a fazer caminhadas 3 vezes
por semana e agora vou iniciar treinos de força, ou a boa e velha academia. Estudos
demonstram que estes treinos ajudam a preservar a memória, além de garantir um
envelhecimento de qualidade.
E o que isso tem a ver com inspiração e exemplo e pandemia e
novos hábitos?
Dizem que as palavras movem e o exemplo arrasta. O exemplo
arrasta e inspira novos hábitos. Muitas vezes estes novos hábitos são
introduzidos por inspiração de pessoas que nos cercam. Algum amigo que faz
exercício e te convida para ir à academia, por exemplo. Ou aquela amiga que
posta todo dia um treino na academia. Estes exemplos me motivaram a começar com
as caminhadas matinais. E ao invés de apenas seguir o exemplo, resolvi
agradecer e contar para estas pessoas que o exemplo delas me motivou.
Enquanto pensava neste texto, lembrei-me de um exercício que
fiz de escrita criativa numa oficina da Terapia da Palavra. A proposta do
exercício era escrever uma carta para um chefe, um familiar, alguma pessoa que
tenha sido importante influência em nossas vidas. Resolvi escrever a carta para
meu primeiro chefe, Dr. Luiz Vergueiro, com quem aprendi muito sobre o trabalho
do advogado e a postura profissional. Achei que ia ser difícil escrever, mas
percebi que ao me debruçar sobre aqueles anos iniciais de estágio, muitos
detalhes vieram à mente. A carta nunca foi enviada, mas sugeriram-me que a
enviasse. Percebi como fui inspirado pelo exemplo e como aprendi com aquele
sócio de um grande escritório de São Paulo.
E novas inspirações têm vindo neste começo de ano. Quem sabe
planejar um período sabático em algum país distante? Quem sabe virar um nômade
digital e perambular por países do leste europeu? Até brinquei com uma amiga
que quero ser igual a ela quando crescer...ou melhor, quando envelhecer.
A mudança deste começo de ano foi que comecei a falar mais,
a agradecer as pessoas, a compartilhar estas inspirações, a elogiar condutas.
Parei de calar e passei a falar, ainda que possa parecer besteira ou que seja
um elogio banal e corriqueiro, ainda que seja uma aparente coincidência ou
fruto do acaso. Você nunca sabe quando um elogio ou uma palavra amiga pode
mudar o dia – e quiçá a vida – e o ânimo de uma pessoa. Por que não olhar ao
redor, observar e deixar-se levar por bons exemplos? O tempo é curto. A vida é
curta. Sejamos pessoas que semeiam sorrisos e esperança. Afinal, a esperança caminha
de mãos dadas com a alegria.
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Silêncio e ruídos na metrópole
Praça Vinicius de Moraes - @rbueloni |
Se no dia de hoje no ano de 2019, alguém dissesse que no ano seguinte
estaríamos todos trancafiados em casa, isolados, temerosos de andar na rua e de
qualquer contato social, teria sido rotulado como uma bela pegadinha do dia da
mentira.
O filósofo coreano Byung-Chul Han inicia o seu Sociedade do
Cansaço (2014) afirmando que o desenvolvimento tecnológico afastara o risco de
uma pandemia, pois havíamos dominado a fabricação de remédios capazes de evitar
o alastramento de doenças em escala global. Ledo engano.
Em 20 de março de 2020, iniciamos uma quarentena no Brasil e
o mundo ficou paralisado por causa da Covid-19. Uma pandemia que interrompeu o
comércio internacional, as viagens, esvaziou escritórios e obrigou-nos a ficar em
casa, isolados em nossas celas e o silêncio tomou conta das cidades. Alguns
achavam que era o apocalipse, outros ficaram indiferentes e riam da “gripezinha”.
Muitos morreram. Outros tiveram sequelas. Os serviços de saúde ficaram
sobrecarregados até que se encontrou uma vacina e um possível protocolo de
tratamento.
O que mais me marcou naqueles dias de isolamento foi o silêncio.
A forma como a sonoridade da cidade mudou de forma radical.
Outro dia, caminhando na Praça Vinicius de Moraes num sábado
pela manhã, ouvi o canto de algumas cigarras. Uma memória afetiva da infância
no sítio me transportou de volta para os anos 1980. Grilos, latidos de cachorros,
sapos coaxando, o relincho de um cavalo, um galo a cantar. Sons do interior, trilha
sonora de roça, mas que tanto acalma o íntimo. Um convite para desacelerar e apenas
ouvir os ruídos deitado numa rede ou sentado no gramado.
Tenho para mim que as pessoas não se atentam muito para os sons,
para os ruídos da cidade grande. São Paulo é barulhenta, mas aqui no escritório,
desfrutamos de um silêncio quase monástico em alguns dias quando o telefone dá
uma trégua e passamos o dia trabalhando em silêncio. Sim, hoje em dia, pode-se
dizer que o trabalho do advogado é silencioso. O silêncio que é interrompido
apenas pelo dedilhar das teclas no computador. Até meu celular fica sempre em
modo silencioso. Aprecio o silêncio e deixo-me levar. O silêncio inspira, acalma,
convida-me a conversar com Deus. O silêncio é a porta de entrada para a vida
interior, para os recantos da alma.
Não tenho saudades da pandemia e nem do isolamento, mas a
pandemia deixou como fruto positivo a redescoberta do silêncio. Talvez não a
redescoberta, mas o contraste entre o silêncio e a agitada rotina paulistana.
Um contraste que exige atenção para ser percebido, um contraste que pede
sensibilidade, pois é sutil e passa despercebido pela grande maioria das pessoas
que caminham neste imenso formigueiro que é a pauliceia.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
Nostalgia
Fenway Park - @rbueloni |
Caminhava no último sábado pela manhã numa praça perto de casa
para fazer um pouco de exercício ao som de uma playlist que tenho no Spotify e
que chamei de Midland Times (ou “tempos de Midland”). Midland é uma pequena
cidade no meio do estado de Michigan, no norte dos Estados Unidos, onde residi
por 4 anos. As músicas dos anos 1980 que compõem a lista me levaram de volta àquela
pacata cidade do meio-oeste americano. Dei-me conta que no dia 31 fará exatos
40 anos que me mudei para lá, com 13 anos, falando um inglês macarrônico e
débil, sem ter ideia do que iria encontrar.
Ao som de Billy Joel cantando River of Dreams, lembrei-me dos bons tempos da adolescência. Aquela música poderia ecoar do rádio do carro num dia de verão, onde Tom, Homer, Brian e eu íamos para tomar um sorvete no Baskin Robbins ou um slurpee no 7Eleven. E depois, passávamos horas conversando, ouvindo música, andando de bicicleta, vendo jogos de baseball e torcendo pelos Detroit Tigers.
Os dias de verão eram longos e quentes. Os dias de inverno muito frios, cheios de neve escuros e curtos. Mas a amizade construída naqueles anos perdurou e se manteve viva. Enquanto caminhava, relembrava do que aprendi na adolescência vivida numa cidade interiorana americana. Era eu um forasteiro, um estrangeiro. Senti o preconceito, a discriminação, os estereótipos aplicados a quem não é popular e quem não é atleta. Fui provocado a tomar decisões, a amadurecer, a escolher um rumo para a minha vida. Optei por dedicar-me aos estudos e com isso garantir uma vaga num processo seletivo de uma universidade de alto nível nos Estados Unidos. Era bom aluno e por isso ganhava a pecha de nerd, o que lhe incluía numa categoria social que impossibilitava sair com as meninas mais bonitas e populares.
Quarenta anos se passaram! Continuo vivo, mas sei que a cada
dia que passa aproximo-me do fim. Gosto de refletir sobre o fim no dia de
finados. Gosto de celebrar cada novo dia de vida que me é presenteado. Juntei
nestes dias a nostalgia que me alegrou engatilhada pela música que despertou
milhares de memórias, sorrisos, abraços, despedidas e momentos únicos, com a lembrança daqueles tempos de adolescente.
A nostalgia só me traz a certeza de que a cada novo dia, a gratidão aumenta.
PS: Não esqueça de fazer uma oração por aquele ente querido neste dia de finados. Não esqueçamos daqueles que se foram, mas que continuam vivos em nossos corações.
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Apagaram os sorrisos
Veio a pandemia e decretaram uma longa quarentena. Era para
ser por quinze dias, depois mais quinze, viraram 60, adicionaram mais um mês e
o pico parecia inalcançável. Até hoje acho que ainda não chegamos lá, mas
resolveram que já era hora de permitir um afrouxamento, um lento despertar da
cidade adormecida.
O período de hibernação dos ursos deve ser assim, salta-se do carnaval para as férias de julho, sem Páscoa e sem festa junina, e adicione alguns feriados que foram devorados pelo vírus por decisões políticas. Transitar por São Paulo, após escurecer, é como caminhar por uma cidade semideserta, quase fantasma, com ar soturno, tristonho. O trânsito evaporou, não há carros, não há pessoas, não há ruídos. O silêncio impera e traz à memória uma cidade de interior, pacata, tranquila, silenciosa.
Aos poucos, há uma reabertura. Pessoas voltam a circular pelas ruas ao longo do dia, mas há algo de diferente. Apagaram os sorrisos. Olhe para a foto de um rosto e cubra a parte abaixo do nariz e o queixo. É praticamente impossível dizer se a pessoa está sorrindo, se a pessoa está triste, se a pessoa está nervosa. Perde-se a expressão quando escondem a nossa boca por detrás de uma máscara.
Não estou aqui a me revoltar contra as máscaras, apenas constato que os sorrisos deixaram de habitar a cidade. Continuam escondidos em quarentena dentro das casas e dos ambientes seguros. A partir de agora, não se pode mais cumprimentar o porteiro ou uma pessoa na rua com um singelo sorriso e um aceno de cabeça. O aceno de cabeça ficou capenga, órfão de um elemento fundamental que é a expressão labial. Vamos ter que aprender a ler olhares, a atentar para as pequenas oscilações do canto dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, da testa franzida. A percepção será outra, pois a boca se esconde.
Primeiro, o coronavírus roubou-nos o tempo e a liberdade. Agora, o coronavírus apaga os sorrisos de nossos rostos.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Sons da quarentena
O céu cinza de um domingo de outono dá um tom melancólico, quase soturno, a mais este dia de quarentena. Uma garoa cai silenciosa e umedece a rua sem tráfego. O silêncio, da cidade adormecida pela pandemia e pela obrigação de ficar em casa, é quebrado pelo latido de alguns cães nas casas ao redor do prédio. Não se ouve o barulho dos carros, nem das motos dos entregadores de comida. O vento assobia de tempos em tempos pelas frestas da porta, batendo uma janela, balançando as folhas das árvores e agitando as flores rosáceas do ipê. Hoje, o final de tarde não será anunciado pela algazarra do bando de maritacas que surge em revoada antes do sol repousar.
Os sons da pauliceia mudaram com a pandemia. Há um clima de cidade pequena, de cidade do interior, onde os sons são mais naturais, mais ligados aos eventos da natureza. A chuva que cai no telhado, a batida oca de uma fruta que cai do pé e se acomoda no chão de terra batida, o portão da casa que bate ao ser fechado, o grito de quem chega e bate palma perguntado se há alguém na casa, crianças correndo na rua. A sonoridade da cidade pequena, da cidade acolhedora e familiar, é muito diferente da sinfonia pouco harmoniosa da cidade grande.
Outro dia, passava pela avenida Paulista, no meio de uma manhã de dia útil. O semáforo estava verde para os carros, mas não havia carros. Olhei e iniciei a travessia. Cheguei ao canteiro central e do outro lado também os carros estavam ausentes. A cidade marcha em câmara lenta, quase sem ruído, silenciosa, adormecida.
Continuei a caminhada até o escritório atentando para os sons. Nenhuma sirene, nenhum camelô anunciando seus produtos, nenhuma conversa de porta de bar, nenhuma pessoa varrendo a calçada, nenhum caminhão fazendo entregas. O silêncio imperava.
Deixei minha memória auditiva retornar para a infância, quando as brincadeiras na casa de minha avó eram interrompidas pela buzina do carrinho de sorvete, ou da música instrumental do realejo, da batida seca na tábua do vendedor de biju, do assobio longo do amolador de facas. Uma sinfonia urbana levada pelo tempo e que deixou saudades.
E a quarentena, seus sons deixarão saudades? Ou seria a ausência de sons que deixarão saudades? Será que sentimos saudades da sonoridade tão urbana da metrópole em pleno funcionamento?
Não me refiro à multiplicação de shows de música em canais de internet e na TV, nem na proliferação de lives, mas daqueles ruídos que quebram o silêncio e ativam nossa memória auditiva. Não me detenho sobre as músicas que tem a capacidade de nos transportar imediatamente para um lugar distante no passado, um momento preciso e exato na vida de cada um, na capacidade de arrepiar a pele ou de provocar olhos marejados.
Quero que repare nos sons ao seu redor. Quero convidá-lo, meu amigo leitor, a perceber a sonoridade que o cerca. Abra a janela de sua casa, feche os olhos e escute. Apenas escute. O que mudou nesta quarentena? Algo mudou. A trilha sonora da pauliceia mudou. Hoje, o dia termina silencioso e acinzentado e nem as maritacas saíram de seus abrigos para anunciar o fim do dia com a algazarra do bando. A minha quarentena deixará na memória a quase diária sinfonia dissonante das maritacas.
terça-feira, 31 de março de 2020
Crônica do início de uma quarentena
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Paulistânia invernal
| foto: @rbueloni |
Na São Paulo invernal, cidade de amplitudes térmicas, onde o dia começa quente e termina frio, onde frentes frias parecem ser escassas neste ano e o inverno seco brinca com nossa saúde respiratória, o roxo cede lugar no palco ao amarelo.
Sampa é uma cidade mais florida do que se imagina e o inverno é o palco dos ipês. Primeiro, os roxos. Lembram-nos de que já passamos pela metade da estação mais fria. Em seguida, surgem os amarelos, vivos, quentes, alegres, cheios de alegria, o prenúncio da primavera que se aproxima. Contrastam com o céu de azul profundo do inverno. Não é o céu do cerrado, mas é um céu que nos cativa nestes dias com pouca chuva. Amarelo e azul, uma variação das cores de nossa bandeira. Mas no meio do verde de árvores que não se despiram no inverno, o amarelo tinge a paisagem quando são contemplados do alto de prédios, seres dos mais habituais da metrópole.
A cidade não é mais tão cinza. A cidade se vestiu de flores. Há manacás e quaresmeiras no início do ano, mas agora o palco é dos ipês. Depois, para fechar o espetáculo anual, entrarão em cena os flamboyants. Basta reparar. Basta caminhar pela cidade e olhar e contemplar e tirar os olhos do celular.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Conto : Diálogos Soltos
DIÁLOGOS SOLTOS
- Não gosto dos meus pés. Acho-os feios.
quinta-feira, 6 de junho de 2019
Devaneios outonais
| instagram @rbueloni |
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Conto: Um domingo qualquer
| Dia branco, by @missuniversoproprio |
UM DOMINGO QUALQUER
terça-feira, 7 de agosto de 2018
Conto: Fino traçado
| Minimal is Good 8 by Raid71 |
CONTO: FINO TRAÇADO
quarta-feira, 28 de março de 2018
Saudade futura
quinta-feira, 1 de março de 2018
Conto: A mulher do voo
A MULHER DO VOO
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Lavar louça
"Foi numa noite lavando louça, enquanto Alice dormia no sofá, que ele se deu conta da banalidade do amor."
(trecho de conto inédito by Renato Bueloni Ferreira)
quinta-feira, 16 de março de 2017
Armadas e perigosas
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| Os guarda-chuvas, Renoir |
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Conto: Olhar Furtivo
OLHAR FURTIVO
Foi ela quem primeiro puxou papo. No mundo conectado por aplicativos, solitários vagam pelos corredores e vitrines do mundo virtual usando seus celulares como instrumentos de caça. Feito o match, ela não tardou a chamá-lo. Ele preferia esta virtualidade, que domava sua timidez sufocante. Se a encontrasse num café, lendo um livro, sozinha, não puxaria assunto. Ficaria com medo, desviaria o olhar constrangido. Poderia ser considerado assédio, abuso, uma conduta inapropriada, não saberia nem como começar a conversar. Um simples "oi" poderia ser tido como ofensivo, ainda mais se ela fosse uma feminista, empoderada, daquelas que luta contra a cultura do estupro, que grita aos quatro cantos "meu corpo, minhas regras", que vê golpe em cada decisão judicial que reafirma a Constituição, que proclama "Fora, Temer", mas no fundo da alma, sente um desejo enorme de não pensar assim.
Foi ela quem soltou o primeiro "oi" e ele respondeu. Ela logou alertou: "sou de esquerda!". Assustou-se, mas aqueles olhos castanhos sorriam-lhe. Engoliu seco e deixou a serenidade tomar-lhe a alma. Ela pensava de forma diametralmente oposta à dele, mas havia algo que aplainava as ideias tão discrepantes. Em meio à ebulição política dos tempos de impeachment, ele foi cauteloso com as palavras. Evitaria temas políticos e tentaria decifrá-la. Marcaram um primeiro encontro.
- Não gosto de italiano. Prefiro algo mais leve no almoço.
Versátil em termos gastronômicos, a culinária pouco lhe importava. Queria desvirtualizar a conversa e deixaria que ela escolhesse o lugar. A curiosidade, tão própria nas mulheres, estava aguçada e começara a montar, peça por peça, o perfil da bela mulher cujo caminho cruzava o dele.
Ela se atrasou. Ele tinha certeza que isto ocorreria. Errara o caminho, avisou pelo celular. A espera tem sempre o condão de aumentar a expectativa. Tentou manter-se calmo, composto, sereno, domando a ansiedade.
Quando ela chegou, apressada, desculpando-se pelo atraso, ele sorriu, "não tem problema, não tinha mesa, sentei faz pouco" - uma leve mentira para amenizar o atraso. Começou a narrar que havia subido a Consolação, ao invés de vir pela Campinas e que o trânsito na Santos estava horrível. Ele observava cada gesto, cada palavra, divertindo-se com as explicações dela como se ele fosse algum dignatário importante, mas para ele, quem fazia o favor de estar ali era ela a compartilhar com ele o almoço.
Deixou-a falar, contando do trabalho, das pesquisas, das viagens. Com olhar furtivo, quando ela mirava pela ampla janela do restaurante, ele reparava nos seus cabelos, no sorriso contido, nas unhas pequenas, nas curvas do rosto, nos óculos que ajeitava com charme natural. Discreta, contida, mas vibrante. Cada palavra era dita com intensidade, uma vivacidade que ultrapassava a mera vibração das cordas vocais e preenchia o ambiente com fogo. A indignação não se media pela frustração com o que destino lhe oferecia, mas em como teria de lutar para mudar o presente e assim construir um futuro muito diverso do atual.
Ela não discursava, falava com fluência e segurança, sorrindo de forma esporádica, com um toque melancólico. Talvez cética fosse a palavra mais adequada a descrever o estado de espírito dela. Estava desacreditada do que acontecia no país. Esbravejou contra a professora que lhe roubara o projeto de pesquisa sem a menor cerimônia e ele notou o desgosto disfarçado pelo discurso de fatalidade.
- Coisas do mundo acadêmico! - desabafou.
Percebeu que sentia enorme prazer naquele diálogo, em ouvir cada narrativa, cada reclamação, cada crítica, cada comentário. Manteve-se receptivo, mas muito reservado. Deixava o olhar ser seu único instrumento invasivo. Quando ela ajeitou os cabelos longos, perdeu-se por alguns segundos contemplando o ombro esquerdo desnudo, quando a blusa escorregou e revelou um pouco mais da pele. Imaginou a textura, o cheiro, a temperatura, mas logo se recompôs do devaneio que claramente seria inadequado a este encontro. Ao menos no primeiro encontro, pensou.
Na despedida, na calçada movimentada, barulhenta, poluída da metrópole, olhou-o nos olhos e disse com firmeza:
- Não vai sumir!
E abraçou-o, delatando o grito silencioso de fragilidade, a súplica que tentara esconder, mas que a mão acariciando as costas dele denunciavam. O enlace dos braços lhe dava um confortante sentimento de segurança, carinho e afeto que ele deixara transparecer e agora confirmava com o demorado abraço. A solidão se esvaia e o vazio era preenchido.
- Não vou sumir. - respondeu acolhedor. E ela, depois daquele encontro, mudou-se para a França.






