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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Capela Rothko

Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni


Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e extremamente enriquecedor.

 

Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela Rothko.

 

A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró, Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros.

 

Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas aqui: site ). No exterior, não é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico. Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito histórico de Houston.

 


Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte.

 

Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura, em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade, fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos. Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de serenidade e paz.


Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores.


Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música, mergulhe na cultura local!


sexta-feira, 17 de abril de 2026

No aeroporto

 

@ rbueloni


No aeroporto


Procurei uma poltrona que permitisse uma boa visão da pista e do pátio de manobras das aeronaves no aeroporto de Guarulhos. O cenário era rotineiro, trivial eu diria. Uma nova viagem, a espera na sala VIP e alguns momentos para contemplar o sobe e desce dos aviões. Voar sempre me fascinou desde criança. Acho que herdei esta paixão do meu pai.

 

Andei de avião pela primeira vez em 1973, quando a família mudou-se para Miami. Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Partimos de São Paulo rumo a Miami num voo da Varig. Não lembro de mais nada além disso. Sei que embarcamos em Congonhas, que recentemente completou 90 anos de existência. Um lugar onde fui várias vezes com meu pai ao terraço que existia e que dava uma vista completa da pista e do pátio. Electras, Boeings 727, 737, Fokkers 100, Brasílias. Os grandes aviões a cruzar os céus em voos longos: o jumbo 747, o DC-10, o A340, o A330, o 767 e o 777. Voei em todos e para vários destinos. Congonhas era um ponto de partida frequente até para voos internacionais anes de Guarulhos ficar pronto. Os aviões partiam rumo ao Galeão, onde a Varig distribuía os passageiros em seus voos internacionais.

 

Voar era e continua a ser um fascínio. O encanto não foi perdido, apesar de alguns perrengues que se enfrentam hoje em dia na aviação. Cadeiras apertadas, passageiros mal educados, transtornos na segurança, salas VIP que deixaram de ser VIP, aeroportos antiquados e inadequados para o volume de passageiros atual. Mas, mesmo assim, sentar-se na janelinha e contemplar o mundo do alto, como um pássaro é algo sempre traz um gosto de novidade. Talvez o voar me faça reviver a infância novamente.

 

Estava lá eu perdido nos meus pensamentos, vendo os aviões subirem e descerem quando ouvi a voz de um menino que devia ter uns 14 ou 15 anos. Uma palavra apenas, um chamado:

- Pai!

O timbre da voz lembrava a do meu filho. Naquele momento banal fui transportado para o lado do meu pai. Meus olhos marejaram, contive um soluço e o choro que queria brotar. Disfarcei. Por alguns momentos eu era uma criança no aeroporto olhando os aviões ao lado do meu pai. Senti sua presença comigo, como seu braço repousasse no meu ombro e me apertasse para junto dele. Respirei fundo, sorri e pedi a Deus por ele.

 

PS: Amanhã meu pai, que faleceu em 2018, faria 81 anos.  

 


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Crônicas peruanas - Laguna Humantay

 

Laguna Humantay - @rbueloni



Cuzco,  22 de agosto de 2025

 

O despertador tocou alguns minutos depois das quatro da manhã. Era o último passeio que havíamos programado e talvez o mais exigente. Estava um pouco apreensivo, a começar pelo horário de acordar, mas resolvi juntar-me a minha filha e amiga na excursão até a Laguna Humantay.

O lobby do hotel estava escuro e havia apenas duas pessoas na recepção. O pátio central em estilo colonial espanhol trazia um ar medieval com a pouca luminosidade e a decoração que ressaltava a arte cusquenha. O atendente perguntou se havíamos pedido o café da manhã antecipado, mas esquecera de solicitar. É comum fornecerem um lanche para viagem, pois muitos passeios saem bem cedo, com o dia ainda escuro.

Pouco antes das cinco, a van de transporte chegou e o porteiro abriu a pesada porta de madeira. Brinquei com ele sobre ser o porteiro do castelo. Ele sorriu revelando o bom humor apesar da hora. Explicou-me que não fabricam mais portas de madeira maciça e com detalhes em metal. Hoje, tudo é mais leve e simples, disse-me.

Juntamo-nos ao grupo de turistas no veículo quase cheio. Logo em seguida, uma parada na Plaza de Armas, antigo centro do império Inca e ponto de encontro para os inúmeros passeios que partem de Cuzco. Algumas pessoas a mais entraram na van, que partiu lotada. Nosso guia, Fredy, deu instruções sobre o trajeto e o que iríamos encontrar. Alertou que havia oxigênio caso alguém necessitasse, afinal, a Laguna Humantay ficava a 4200 metros de altitude, ou seja, 800 metros a  mais do que Cuzco. Pensei comigo que isso seria desnecessário, pois já estava aclimatado à altitude. Fredy sugeriu que dormíssemos por duas horas antes da parada para o café da manhã. A van seguiu pela estrada sinuosa, deixando Cuzco para trás e percorrendo uma região de vale cultivado. Logo peguei no sono.

A parada para o café da manhã foi em Mollepata, um pequeno povoado e início de uma estrada de terra que nos levaria até a base da subida para a Laguna Humantay. O nosso grupo era composto por mexicanos, espanhóis e colombianos. Éramos os únicos brasileiros, o que deu um ar de comunidade latina muito divertida. Seguimos por uma hora por uma estrada de terra até o ponto de início de nossa subida, em Soraypampa, a 3800 metros de altitude. O minúsculo distrito tem dois pequenos hotéis e alguns casebres. O movimento é dado exclusivamente por turistas.

Equipados com bastão de apoio, demos início à caminhada. O dia estava cinza, um vento frio soprava e ao fundo se via o pico Salcantay, todo coberto de neve e cercado de nuvens esparsas. Nosso objetivo estava encoberto pelas nuvens e havia um prenúncio  de chuva. O silêncio era quebrado apenas por nossos passos e pelo vento. O esplendor dos Andes se descortinava diante de nós. Os picos cobertos de neve e envoltos por nuvens, alguns fios d’ água oriundos do degelo, os vales e passagens que indicavam caminhos trilhados.

No meio da cordilheira, a escalada era um desafio. A primeira parte da trilha era pouco íngreme, mas o ritmo era lento. O terreno pedregoso e de terra solta. Era preciso cuidado para não escorregar e percebia-se a falta de ar. Tinha para mim que uma caminhada de pouco mais de um quilômetro seria fácil, mesmo em se tratando de uma subida. O cansaço era presente e a cada punhado de metros parava para respirar e buscar o fôlego. Não estava ofegante ou sufocado, mas tinha-se uma clara impressão de que o ar não atendia às necessidades corpóreas.

Comecei a contar os passos e numa das pausas, fui surpreendido: “caballito?”, indagou uma senhora que seguia nosso grupo. Os turistas eram acompanhados por locais que subiam com cavalos prontos para carregar qualquer um que estivesse disposto a pagar. Recusei e segui. Novamente, vinha a tentação: caballito, caballito. Agradeci, mas neguei. Estava determinado a chegar ao final da caminhada sem desistir. Não estava fácil, mas insisti. Minha filha ficou preocupada achando que eu iria enfartar, mas segui o ritmo.

Perto do final, uma senhora que iniciava a descida me incentivou: si se puede! A frase era conhecida por mim, slogan cantado em jogos de futebol das seleções andinas. Sorri e respondi com a mesma frase. Estava próximo o fim. A parte final era muito mais íngreme, mas foi superada lentamente, com passos curtos e constantes. É preciso respeitar a montanha. Antes de chegar na Laguna, avistei uma pequena tenda de madeira coberta de lona, onde eram vendidos espetinhos de frango, assemelhando-se aos vendedores de sanduíche de pernil na porta do estádio do Morumbi.

Mais alguns passos e cheguei ao destino. Sentei-me numa pedra e contemplei toda aquela beleza em diversos tons de cinza. A laguna tinha a água esverdeada e formara-se com o degelo da neve do pico Humantay. As nuvens estavam baixas e cobriam o cume. O vento frio trazia junto uma garoa gelada, mas a beleza da natureza crua era encantadora. Fiquei ali por alguns minutos, recuperando o ar e apenas contemplando as montanhas, enquanto os turistas se preocupavam em tirar fotos, fazer poses e registrar os melhores ângulos para postar em redes sociais.

 A jornada de regresso era mais tranquila, menos exigente, mas necessitava cuidado, pois as pedras soltas podiam levar a escorregões. A vista era incrível e o hotel em Soraypampa mais parecia uma pequena maquete. Na parte final da trilha, avistavam-se o cavalos que já retornavam para o merecido descanso. O ar não nos faltou no caminho de retorno e concluímos o trajeto sem intercorrências.

Subimos na van esfomeados e prontos para o almoço. Éramos dezenove pessoas e Fredy nos disse que foi a primeira vez nesta temporada que ninguém havia precisado de apoio de um cavalo para subir ou descer. O grupo fora guerreiro. A van partiu e poucos minutos depois comecei a suar frio, senti tontura e a vista ficou embaçada. Chamei o guia e alertei-o que iria desmaiar. Rapidamente fui socorrido e posto no oxigênio. Respirei fundo o ar puro por dois minutos e logo tudo voltou ao normal. Não desmaiei, mas descobri que o oxigênio que fora trazido na van era para mim.

A viagem de volta pareceu mais longa, pois nosso motorista dirigia em ritmo lento. Foi uma ótima oportunidade para conversar com meus colegas espanhóis e que já tinham feito outras quatro trilhas no Peru em duas semanas. Eram praticamente trekers profissionais. Aproveitei para apreciar a estrada e a paisagem de pequenas propriedades cultivadas no vale que passava por Limatambo e Anta, antes de chegar em Cuzco.

O sol já havia se posto quando chegamos na Plaza Regocijo. Cansados, mas acometidos de uma alegria perene fruto da bela jornada no meio da Cordilheira dos Andes.


quinta-feira, 27 de março de 2025

Inspiração e exemplo

 

Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro - @rbueloni


Adentramos o mês de março e é impossível não lembrar do início da pandemia. Lá se vão 5 anos desde que fomos obrigados a manter o distanciamento social, ficamos trancados em casa, fomos impedidos de viajar e explorar o mundo. A vida se reduziu a espaços limitados. Todo ano relembro do início da pandemia e do mundo distópico que se materializou diante de nossos olhos. Muitos sucumbiram. Outros ignoraram. Outros ainda – acho que a maioria – saíram mais fortes, mais conscientes da nossa fragilidade, mais gratos pela vida.

 

Neste início de ano percebi um outro dado que tem me levado a uma reflexão mais profunda e a uma mudança de atitude. Percebi que a distância temporal entre a virada do século e o tempo provável que me resta de vida são equidistantes. 25 anos transcorreram desde o início do século e do bug do milênio (aquela catástrofe que não se concretizou) até o dia de hoje. E somando 25 anos à minha idade, provavelmente em 2050 estarei próximo da minha finitude. Isto me incomoda? Isto me assusta? Nem um pouco, apenas me fez refletir. O tempo é fugaz e há certas coisas que não vale a pena postergar, há certas atitudes que preciso mudar e há certos momentos em que não devo me calar, não devo deixar para depois, pois talvez não  haja um depois.

 

Se tudo parece-lhe confuso, calma que vou tentar me explicar e unir os dois parágrafos acima.

 

A pandemia deixou suas marcas e mudou alguns hábitos. O trabalho remoto passou a ser algo usual, a preocupação com a saúde deixou de ser algo a ser adiado, novas tecnologias foram incorporadas e as pessoas foram tomadas por um desejo constante de viajar e explorar e descobrir novos lugares. O dinheiro passou a ser utilizado de forma mais desapegada. Guardar para sempre? Não, gastemos um pouco, pois não se sabe quanto tempo teremos até a próxima pandemia.

 

O fato é que alguns dos nossos hábitos mudaram. O nosso mindset – para usar um termo moderninho – mudou. Tenho viajado muito mais. Prefiro viajar e adiar a troca de um veículo. Fiz um check up e confirmei o que já suspeitava: tenho pressão alta e o colesterol também. Vou começar a usar medicamento de uso contínuo. Sinal da idade. Passei a fazer caminhadas 3 vezes por semana e agora vou iniciar treinos de força, ou a boa e velha academia. Estudos demonstram que estes treinos ajudam a preservar a memória, além de garantir um envelhecimento de qualidade.

 

E o que isso tem a ver com inspiração e exemplo e pandemia e novos hábitos?

 

Dizem que as palavras movem e o exemplo arrasta. O exemplo arrasta e inspira novos hábitos. Muitas vezes estes novos hábitos são introduzidos por inspiração de pessoas que nos cercam. Algum amigo que faz exercício e te convida para ir à academia, por exemplo. Ou aquela amiga que posta todo dia um treino na academia. Estes exemplos me motivaram a começar com as caminhadas matinais. E ao invés de apenas seguir o exemplo, resolvi agradecer e contar para estas pessoas que o exemplo delas me motivou.

 

Enquanto pensava neste texto, lembrei-me de um exercício que fiz de escrita criativa numa oficina da Terapia da Palavra. A proposta do exercício era escrever uma carta para um chefe, um familiar, alguma pessoa que tenha sido importante influência em nossas vidas. Resolvi escrever a carta para meu primeiro chefe, Dr. Luiz Vergueiro, com quem aprendi muito sobre o trabalho do advogado e a postura profissional. Achei que ia ser difícil escrever, mas percebi que ao me debruçar sobre aqueles anos iniciais de estágio, muitos detalhes vieram à mente. A carta nunca foi enviada, mas sugeriram-me que a enviasse. Percebi como fui inspirado pelo exemplo e como aprendi com aquele sócio de um grande escritório de São Paulo.

 

E novas inspirações têm vindo neste começo de ano. Quem sabe planejar um período sabático em algum país distante? Quem sabe virar um nômade digital e perambular por países do leste europeu? Até brinquei com uma amiga que quero ser igual a ela quando crescer...ou melhor, quando envelhecer.

 

A mudança deste começo de ano foi que comecei a falar mais, a agradecer as pessoas, a compartilhar estas inspirações, a elogiar condutas. Parei de calar e passei a falar, ainda que possa parecer besteira ou que seja um elogio banal e corriqueiro, ainda que seja uma aparente coincidência ou fruto do acaso. Você nunca sabe quando um elogio ou uma palavra amiga pode mudar o dia – e quiçá a vida – e o ânimo de uma pessoa. Por que não olhar ao redor, observar e deixar-se levar por bons exemplos? O tempo é curto. A vida é curta. Sejamos pessoas que semeiam sorrisos e esperança. Afinal, a esperança caminha de mãos dadas com a alegria. 


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Silêncio e ruídos na metrópole

 


Praça Vinicius de Moraes - @rbueloni


Se no dia de hoje no ano de 2019, alguém dissesse que no ano seguinte estaríamos todos trancafiados em casa, isolados, temerosos de andar na rua e de qualquer contato social, teria sido rotulado como uma bela pegadinha do dia da mentira.

 

O filósofo coreano Byung-Chul Han inicia o seu Sociedade do Cansaço (2014) afirmando que o desenvolvimento tecnológico afastara o risco de uma pandemia, pois havíamos dominado a fabricação de remédios capazes de evitar o alastramento de doenças em escala global. Ledo engano.

 

Em 20 de março de 2020, iniciamos uma quarentena no Brasil e o mundo ficou paralisado por causa da Covid-19. Uma pandemia que interrompeu o comércio internacional, as viagens, esvaziou escritórios e obrigou-nos a ficar em casa, isolados em nossas celas e o silêncio tomou conta das cidades. Alguns achavam que era o apocalipse, outros ficaram indiferentes e riam da “gripezinha”. Muitos morreram. Outros tiveram sequelas. Os serviços de saúde ficaram sobrecarregados até que se encontrou uma vacina e um possível protocolo de tratamento.

 

O que mais me marcou naqueles dias de isolamento foi o silêncio. A forma como a sonoridade da cidade mudou de forma radical.

 

Outro dia, caminhando na Praça Vinicius de Moraes num sábado pela manhã, ouvi o canto de algumas cigarras. Uma memória afetiva da infância no sítio me transportou de volta para os anos 1980. Grilos, latidos de cachorros, sapos coaxando, o relincho de um cavalo, um galo a cantar. Sons do interior, trilha sonora de roça, mas que tanto acalma o íntimo. Um convite para desacelerar e apenas ouvir os ruídos deitado numa rede ou sentado no gramado.

 

Tenho para mim que as pessoas não se atentam muito para os sons, para os ruídos da cidade grande. São Paulo é barulhenta, mas aqui no escritório, desfrutamos de um silêncio quase monástico em alguns dias quando o telefone dá uma trégua e passamos o dia trabalhando em silêncio. Sim, hoje em dia, pode-se dizer que o trabalho do advogado é silencioso. O silêncio que é interrompido apenas pelo dedilhar das teclas no computador. Até meu celular fica sempre em modo silencioso. Aprecio o silêncio e deixo-me levar. O silêncio inspira, acalma, convida-me a conversar com Deus. O silêncio é a porta de entrada para a vida interior, para os recantos da alma.

 

Não tenho saudades da pandemia e nem do isolamento, mas a pandemia deixou como fruto positivo a redescoberta do silêncio. Talvez não a redescoberta, mas o contraste entre o silêncio e a agitada rotina paulistana. Um contraste que exige atenção para ser percebido, um contraste que pede sensibilidade, pois é sutil e passa despercebido pela grande maioria das pessoas que caminham neste imenso formigueiro que é a pauliceia.


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Nostalgia

 



Fenway Park - @rbueloni


Caminhava no último sábado pela manhã numa praça perto de casa para fazer um pouco de exercício ao som de uma playlist que tenho no Spotify e que chamei de Midland Times (ou “tempos de Midland”). Midland é uma pequena cidade no meio do estado de Michigan, no norte dos Estados Unidos, onde residi por 4 anos. As músicas dos anos 1980 que compõem a lista me levaram de volta àquela pacata cidade do meio-oeste americano. Dei-me conta que no dia 31 fará exatos 40 anos que me mudei para lá, com 13 anos, falando um inglês macarrônico e débil, sem ter ideia do que iria encontrar.

Ao som de Billy Joel cantando River of Dreams, lembrei-me dos bons tempos da adolescência. Aquela música poderia ecoar do rádio do carro num dia de verão, onde Tom, Homer, Brian e eu íamos para tomar um sorvete no Baskin Robbins ou um slurpee no 7Eleven. E depois, passávamos horas conversando, ouvindo música, andando de bicicleta, vendo jogos de baseball e torcendo pelos Detroit Tigers.

Os dias de verão eram longos e quentes. Os dias de inverno muito frios, cheios de neve escuros e curtos. Mas a amizade construída naqueles anos perdurou e se manteve viva. Enquanto caminhava, relembrava do que aprendi na adolescência vivida numa cidade interiorana americana. Era eu um forasteiro, um estrangeiro. Senti o preconceito, a discriminação, os estereótipos aplicados a quem não é popular e quem não é atleta. Fui provocado a tomar decisões, a amadurecer, a escolher um rumo para a minha vida. Optei por dedicar-me aos estudos e com isso garantir uma vaga num processo seletivo de uma universidade de alto nível nos Estados Unidos. Era bom aluno e por isso ganhava a pecha de nerd, o que lhe incluía numa categoria social que impossibilitava sair com as meninas mais bonitas e populares.

 Olho com nostalgia para aquele tempo e agradeço por tudo que passei. Uma nostalgia alegre, jamais melancólica ou triste. Olho para o passado e agradeço pelo que recebi, pelos problemas que enfrentei, pelas chances e oportunidades que tive, pelas conquistas e pelos fracassos. Tudo foi um processo de aprendizado e que me levou a optar por não fazer curso superior nos EUA, apesar de ter sido aceito em Harvard, Georgetown, Boston College e na Universidade de Michigan.

Quarenta anos se passaram! Continuo vivo, mas sei que a cada dia que passa aproximo-me do fim. Gosto de refletir sobre o fim no dia de finados. Gosto de celebrar cada novo dia de vida que me é presenteado. Juntei nestes dias a nostalgia que me alegrou engatilhada pela música que despertou milhares de memórias, sorrisos, abraços, despedidas e momentos únicos,  com a lembrança daqueles tempos de adolescente. A nostalgia só me traz a certeza de que a cada novo dia, a gratidão aumenta.


PS: Não esqueça de fazer uma oração por aquele ente querido neste dia de finados. Não esqueçamos daqueles que se foram, mas que continuam vivos em nossos corações.

 


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Apagaram os sorrisos






Veio a pandemia e decretaram uma longa quarentena. Era para ser por quinze dias, depois mais quinze, viraram 60, adicionaram mais um mês e o pico parecia inalcançável. Até hoje acho que ainda não chegamos lá, mas resolveram que já era hora de permitir um afrouxamento, um lento despertar da cidade adormecida.

O período de hibernação dos ursos deve ser assim, salta-se do carnaval para as férias de julho, sem Páscoa e sem festa junina, e adicione alguns feriados que foram devorados pelo vírus por decisões políticas. Transitar por São Paulo, após escurecer, é como caminhar por uma cidade semideserta, quase fantasma, com ar soturno, tristonho. O trânsito evaporou, não há carros, não há pessoas, não há ruídos. O silêncio impera e traz à memória uma cidade de interior, pacata, tranquila, silenciosa.

Aos poucos, há uma reabertura. Pessoas voltam a circular pelas ruas ao longo do dia, mas há algo de diferente. Apagaram os sorrisos. Olhe para a foto de um rosto e cubra a parte abaixo do nariz e o queixo. É praticamente impossível dizer se a pessoa está sorrindo, se a pessoa está triste, se a pessoa está nervosa. Perde-se a expressão quando escondem a nossa boca por detrás de uma máscara.

Não estou aqui a me revoltar contra as máscaras, apenas constato que os sorrisos deixaram de habitar a cidade. Continuam escondidos em quarentena dentro das casas e dos ambientes seguros. A partir de agora, não se pode mais cumprimentar o porteiro ou uma pessoa na rua com um singelo sorriso e um aceno de cabeça. O aceno de cabeça ficou capenga, órfão de um elemento fundamental que é a expressão labial. Vamos ter que aprender a ler olhares, a atentar para as pequenas oscilações do canto dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, da testa franzida. A percepção será outra, pois a boca se esconde.

Primeiro, o coronavírus roubou-nos o tempo e a liberdade. Agora, o coronavírus apaga os sorrisos de nossos rostos.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sons da quarentena




O céu cinza de um domingo de outono dá um tom melancólico, quase soturno, a mais este dia de quarentena. Uma garoa cai silenciosa e umedece a rua sem tráfego. O silêncio, da cidade adormecida pela pandemia e pela obrigação de ficar em casa, é quebrado pelo latido de alguns cães nas casas ao redor do prédio. Não se ouve o barulho dos carros, nem das motos dos entregadores de comida. O vento assobia de tempos em tempos pelas frestas da porta, batendo uma janela, balançando as folhas das árvores e agitando as flores rosáceas do ipê. Hoje, o final de tarde não será anunciado pela algazarra do bando de maritacas que surge em revoada antes do sol repousar.

 

Os sons da pauliceia mudaram com a pandemia. Há um clima de cidade pequena, de cidade do interior, onde os sons são mais naturais, mais ligados aos eventos da natureza. A chuva que cai no telhado, a batida oca de uma fruta que cai do pé e se acomoda no chão de terra batida, o portão da casa que bate ao ser fechado, o grito de quem chega e bate palma perguntado se há alguém na casa, crianças correndo na rua. A sonoridade da cidade pequena, da cidade acolhedora e familiar, é muito diferente da sinfonia pouco harmoniosa da cidade grande.

 

Outro dia, passava pela avenida Paulista, no meio de uma manhã de dia útil. O semáforo estava verde para os carros, mas não havia carros. Olhei e iniciei a travessia. Cheguei ao canteiro central e do outro lado também os carros estavam ausentes. A cidade marcha em câmara lenta, quase sem ruído, silenciosa, adormecida.

 

Continuei a caminhada até o escritório atentando para os sons. Nenhuma sirene, nenhum camelô anunciando seus produtos, nenhuma conversa de porta de bar, nenhuma pessoa varrendo a calçada, nenhum caminhão fazendo entregas. O silêncio imperava.

 

Deixei minha memória auditiva retornar para a infância, quando as brincadeiras na casa de minha avó eram interrompidas pela buzina do carrinho de sorvete, ou da música instrumental do realejo, da batida seca na tábua do vendedor de biju, do assobio longo do amolador de facas. Uma sinfonia urbana levada pelo tempo e que deixou saudades.

 

E a quarentena, seus sons deixarão saudades? Ou seria a ausência de sons que deixarão saudades? Será que sentimos saudades da sonoridade tão urbana da metrópole em pleno funcionamento?

 

Não me refiro à multiplicação de shows de música em canais de internet e na TV, nem na proliferação de lives, mas daqueles ruídos que quebram o silêncio e ativam nossa memória auditiva. Não me detenho sobre as músicas que tem a capacidade de nos transportar imediatamente para um lugar distante no passado, um momento preciso e exato na vida de cada um, na capacidade de arrepiar a pele ou de provocar olhos marejados.

 

Quero que repare nos sons ao seu redor. Quero convidá-lo, meu amigo leitor, a perceber a sonoridade que o cerca. Abra a janela de sua casa, feche os olhos e escute. Apenas escute. O que mudou nesta quarentena? Algo mudou. A trilha sonora da pauliceia mudou. Hoje, o dia termina silencioso e acinzentado e nem as maritacas saíram de seus abrigos para anunciar o fim do dia com a algazarra do bando. A minha quarentena deixará na memória a quase diária sinfonia dissonante das maritacas.  



terça-feira, 31 de março de 2020

Crônica do início de uma quarentena


A semana começou de forma estranha, um clima de apreensão no ar, uma expectativa que se confundia com ansiedade, as escolas e universidades tiveram suas aulas suspensas, o trânsito ficou mais leve, o fluxo de pessoas na São Paulo acelerada diminuiu, o rodízio foi suspenso, o som da cidade mudou. Sempre dei muita atenção para o som da cidade, seus ruídos, sua sinfonia urbana. Noto as mais sutis mudanças, deixo-me encantar pelos sons de pássaros, pela algazarra das maritacas no final de tarde. Caminhávamos tateando cada passo e no aguardo de uma diretriz, um grito de liderança que se mostraria mais tarde polifônico, dissonante.

Na quinta-feira, dia 19 de março, dia de São José, fui ao escritório pela manhã seguindo a rotina diária. Peguei o jornal e fui tomar café. Perguntei para a atendente sobre o movimento na loja e ela respondeu que havia caído e que amanhã fechariam, sem previsão para reabertura. O estado de emergência estava instalado pelo prefeito, pelo governador e pelo presidente da república. Tomei o café, li o jornal sem pressa e despedi-me da atendente desejando que se cuidasse.

Ao sair na rua, o céu estava cinza claro, nuvens baixas que se assemelhavam a uma bruma, um calor abafado e a ausência de carros e motos na rua era notável às nove da manhã. Ouvi então um barulho que vinha do alto e parecia de uma aeronave. Na hora, fui teletransportado para a Londres de 1940 e imaginei que veria no céu um avião da Luftwaffe prestes a lançar sua carga de bombas sobre a capital do império britânico. A palavra guerra, tão usada pelos nossos governantes, instalou-se no meu subconsciente e a imagem me deixou desnorteado. Olhei para o alto e passou um helicóptero.  Segui meu rumo com serenidade, mas o clima era de tristeza e medo. Algo de estranho pairava no ar.

O dia transcorreu sem que o telefone tocasse. As páginas de notícias de jornais, as estações de rádio só tratavam do coronavírus. A pandemia já estava entre nós e era preciso ficar em casa. O tempo todo e todo mundo. São Paulo seria o epicentro da contaminação, a cidade mais cosmopolita do Brasil.

O vírus microscópico não deixa estragos na paisagem, como uma tempestade, um vendaval, um furacão, um terremoto. O vírus é silencioso. Esta forma de agir é que deixa tudo estranho e confuso. Os dias de quarentena serão sábados – ou domingos ou feriados – que se repetirão sem data para terminar. Ficar em casa nos impedirá de experimentar a cidade fantasma em que São Paulo se transformará.

Naquela noite, as imagens de entrevistas coletivas revelavam um futuro de colapso do sistema de saúde, de caos na economia, de cadáveres se acumulando, de gente faminta, de ruas abandonadas e uma cidade paralisada.  Traçaram um cenário apocalíptico. Seria risível, exagerado e inverossímil se não houvesse notícias das mortes na Itália, Espanha e os primeiros casos nos EUA. 

Políticos cederam lugar a médicos infectologistas, pneumologistas, secretários de saúde, ministro da saúde. O inimigo é invisível, mas devastador, disseram de forma unânime. Lavem as mãos, usem álcool gel, não saiam de casa. O mantra se repetia em todos os canais de televisão, rádios, sites noticiosos na internet.  Pessoas esgotaram os estoques de álcool gel e máscaras cirúrgicas das farmácias e supermercados. O papel higiênico virou item de primeira necessidade nos estoques residenciais.  Um medo contido tomou conta da população, com exceção daqueles que acham que se trata de uma gripezinha.

Não houve histeria ou pânico generalizado, mas uma aflição coletiva. O abastecimento dos supermercados seguiu o ritmo normal. O mesmo se dá nas farmácias e postos de gasolina. Os serviços essenciais seguem funcionando, mas temos que ficar em casa.  Alguns sentem mais o medo, ou melhor, alguns deixam-se tomar pelo medo da incerteza, da ausência de horizonte. Quando isso tudo vai acabar? Ninguém sabe, ninguém tem a resposta e a incerteza amedronta, paralisa, tira-nos a racionalidade.

A invisibilidade do inimigo deveria nos deixar menos aflitos, mas depois de uma semana inteira de quarentena, as pessoas estão com as emoções à flor da pele. O medo corrói a coragem e nos drena. Precisamos de forças para caminhar um passo por vez.  Meu otimismo realista me leva a ter esperança e fé de que vamos superar esta batalha.

Em momentos como este, manter a serenidade, o equilíbrio é fundamental para a sanidade. Em tempos de pandemia, vale a pena desligar a televisão. Não se trata de apontar o dedo para o ministro da saúde e acusá-lo de atacar a imprensa. A imprensa faz o seu trabalho, mas o excesso de notícias sobre a pandemia faz mal para a saúde mental. Respire, deixe-se respirar, não se cobre tanto, como escreveu Mafê Probst.  Pare de contar os casos, deixe o tempo correr e siga um dia por vez.  Teremos mais capítulos pela frente.


A pandemia vai acabar e sairemos melhores e mais humanos desta batalha invisível.  

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Paulistânia invernal


foto: @rbueloni


Na São Paulo invernal, cidade de amplitudes térmicas, onde o dia começa quente e termina frio, onde frentes frias parecem ser escassas neste ano e o inverno seco brinca com nossa saúde respiratória, o roxo cede lugar no palco ao amarelo.

Sampa é uma cidade mais florida do que se imagina e o inverno é o palco dos ipês. Primeiro, os roxos. Lembram-nos de que já passamos pela metade da estação mais fria. Em seguida, surgem os amarelos, vivos, quentes, alegres, cheios de alegria, o prenúncio da primavera que se aproxima. Contrastam com o céu de azul profundo do inverno. Não é o céu do cerrado, mas é um céu que nos cativa nestes dias com pouca chuva. Amarelo e azul, uma variação das cores de nossa bandeira. Mas no meio do verde de árvores que não se despiram no inverno, o amarelo tinge a paisagem quando são contemplados do alto de prédios, seres dos mais habituais da metrópole.

A cidade não é mais tão cinza. A cidade se vestiu de flores. Há manacás e quaresmeiras no início do ano, mas agora o palco é dos ipês. Depois, para fechar o espetáculo anual, entrarão em cena os flamboyants. Basta reparar. Basta caminhar pela cidade e olhar e contemplar e tirar os olhos do celular.




terça-feira, 30 de julho de 2019

Conto : Diálogos Soltos




DIÁLOGOS SOLTOS


- Não gosto dos meus pés. Acho-os feios.


- Eu gosto deles. Você está enganada, mas eu já sabia desta tua opinião um tanto quanto rigorosa consigo mesma. Sempre tem algo que não gostamos em nós mesmos. É uma visão subjetiva, distorcida. Lembro de você ter postado um story no Instagram em que posicionava seu pé ao lado de uma amiga e dizia que seu pé era feio, que parecia de homem. Minha vontade foi de mandar uma mensagem e retrucar seu autojulgamento rigoroso, tão impiedoso. Pois saiba que eu sempre gostei deles. Desde as primeiras fotos tuas, sempre olhei para teus pés. Reparo nos pés assim como reparo nas mãos. E como você gosta de usar estas sandálias rasteiras que deixam o pé aparente, quase que totalmente desnudo, salvo pelas finas tiras de couro que o envolvem.

- Você está sendo muito poético e exagerado, Ricardo, afinal são só pés. Ou teria você um fetiche por eles? – indagou com um leve sorriso malicioso.

- Não sou podólatra, mas acho seus pés delicados, bonitos e adoro te ver andando descalça, ou sentada no sofá fazendo aqueles malabarismos com as pernas cruzadas ou sentada sobre as pernas. Pode parecer besteira, mas percebo seu estado de ânimo pelo modo como você anda descalça pela casa. O som muda conforme seu humor. Talvez poucos homens reparem nos pés femininos, até porque homem não costuma olhar para baixo quando está diante de uma mulher. Principalmente se for bonita – e sorriu com o olhar fixo no dela. Vai ver que é por isso que vocês são tão fascinadas por sapatos. O sapato nada mais é do que a roupa do pé, uma vestimenta que abraça e acalenta tão delicada parte do corpo.

- Nossa! Estou adorando esta louvação que faz tão bem para minha autoestima.

- Como se você precisasse de alguém para elevar tua autoestima...

- Todo mundo gosta de um elogio sincero. Ainda mais quando se percebe que é um elogio inteligente e que lembrou de um detalhe tão banal e distante. Mulher gosta de homem que sabe reparar nos detalhes e que se lembra deles.

Ricardo sorriu encabulado e sentiu naquele momento algo de novo em relação a ela, algo mais do que o simples afeto de amigo. Tomou um gole de sua cerveja, reparou na sandália dela de forma discreta e mudou de assunto.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Devaneios outonais

instagram @rbueloni



No outono, as tardes são curtas e a noite cai mais cedo. O dia foi mais frio. O telefone tocou apenas uma vez. A narrativa que ouvi deixou-me perplexo, incrédulo de como a maldade pode invadir até a mais tenra infância. A tarde se desenrola preguiçosa e o tempo parece pesado, congelado, como se tudo se passasse em câmera lenta. O silêncio reina ao meu redor. Não há mais ninguém no escritório. Desliguei a música. Quero o silêncio para ouvir as palavras que brincam em minha mente, dando rodopios, saltos. Algumas fugidias, outras comportadas, prontas para saltar para o papel. Leio um poema do José Luis Peixoto e sou fulminado por seus versos.

ninguém pode saber que este poema é teu.
ninguém pode saber. ninguém pode saber
que este poema. ninguém. este poema é teu.
sou uma coisa da qual se tem vergonha.”

(José Luis Peixoto, A criança em ruínas. Porto Alegre : Dublinense, 2017, p. 70)


O poema com dedicatória anônima, o teu nome sussurrado para uma flor, o delírio urbano do poeta na cidade concreta. Notar o invisível, dar forma diversa àquilo que todos imaginam ser, lançar um olhar torto, louco, alucinado sobre a suposta feiura da cidade grande. Tentaram ordená-la, mas perderam o controle. Vejo beleza onde veem concreto, vejo vida onde vislumbram morte, vejo luz onde falta cor, vejo ordem e simetria onde imaginam o caos.

Até no outono, onde as noites são mais longas, as tardes curtas, a luz se esvai cedo, permito que o pensamento me leve a voar para longe, bem longe, no voo solitário e silencioso, talvez para um poema, talvez para um refúgio, talvez para um recanto onde a vida é plena. A melancolia que invade a alma não me impede de vibrar no silêncio, mas convida-me a saborear um outro lado da vida, discreto e sem alarde.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Conto: Um domingo qualquer


Dia branco, by @missuniversoproprio

UM DOMINGO QUALQUER


O sol adentrava pela janela da sala, ainda tímido, naquela manhã fria de final de inverno paulistano. Com uma xícara de café, daquelas grandes, sentou-se na poltrona ao lado do sofá, esticando as belas pernas e apoiando-as sobre a mesa de centro. Contemplava os raios que penetravam pela janela, invadindo seu espaço privado. Segurou a xícara com as duas mãos, aproveitando o calor da porcelana azul. Uma das cachorras aproximou-se e apoiou a cabeça sobre sua coxa, pedindo um carinho matinal.

Bebericou o café, levantou-se, abriu a porta da varanda e ficou a ouvir o ruído tranquilo e preguiçoso da manhã de domingo. Não havia carros, ônibus, motos ou qualquer outro barulho de veículo motorizado, apenas uma leve brisa a criar um rebuliço nas folhas das árvores da praça em frente. Alguns poucos pássaros se agitavam entre as folhas e a cidade ganhava contornos de cidade de interior, onde prevalecia apenas o cantar da natureza. Achou estranho o silêncio, mas percebeu um certo reconforto, um acolhimento tranquilizador da metrópole. Sentiu frio nos pés descalços e voltou a entrar.

A cada novo dia a esperança renasce no ser, no viver. Um vestido plúmbeo de alça fina caiu-lhe bem. Era discreto o suficiente para não chamar atenção, mas permitia realçar suas qualidades físicas, perceptíveis ao olhar mais atento.  Acendeu um cigarro e deu uma longa tragada. Não era um vício, mas um prazer solitário que mantinha desde os tempos de faculdade. Gostava de fumar e se divertia com as piruetas da fumaça subindo da ponta do cigarro em brasa. Era um momento só dela, onde vasculhava seu interior e refletia. Em tempos de exclusão de fumantes, sua casa era um refúgio onde podia fumar sem reprimendas ou olhares tortos e condenatórios, onde podia caminhar nua pelos cômodos sem olhares indiscretos de vizinhos, onde ouvia as músicas que gostava e lhe davam energia para enfrentar cada dia.

Naquela manhã, não havia música no interior do apartamento, apenas o silêncio. Quando estava compenetrada, sua beleza era mais notada. Os olhos traziam consigo uma força inquebrável, não como um super-herói de filme da Marvel em que um raio destruidor está prestes a brotar dos olhos da heroína, mas se assemelhavam a de uma esfinge que nos convida a decifrá-la, se é que é possível decifrar o pensamento e o âmago de uma mulher.

Apagou o cigarro, amarrou um lenço de seda no pescoço, checou a bolsa, pegou o celular e hesitou. Estava na hora de ir, mas sentiu medo. As mãos estavam geladas. Respirou fundo e deu um passo em direção à porta. Não era possível mais adiar aquela conversa. A amiga não imaginava o assunto, mas ela precisava falar e derramar sobre a mesa tudo que sabia. Guardar para si o que tinha visto tornara-se sufocante, um peso impossível de carregar. Precisava dar vazão a tudo que estava retido, mesmo que pudesse custar a longa amizade. Abriu a porta e chamou o elevador.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Conto: Fino traçado

Minimal is Good 8 by Raid71


CONTO: FINO TRAÇADO



As ondas abraçavam seus pés à beira-mar com delicadeza. Um abraço mais frio do que o usual, afinal inverno no Rio de Janeiro traz consigo águas marinhas mais frias, mas nada que lhe incomodasse. Seria muita pretensão reclamar do inverno no Rio de Janeiro, se é que podemos chamar de inverno uma época onde a temperatura baixa alguns poucos graus e o sol continua a brilhar sem trégua.  

O mar estava calmo e a praia semideserta naquele ponto do Leme. Olhou para baixo e deixou-se hipnotizar pelo ritmo constante das ondas calmas, que vinham, acariciavam sua pele, depois iam-se sem cansar. Perdeu-se na contemplação do mar, algo que nunca lhe cansava. Eram mais de quarenta anos morando naquela cidade de São Sebastião, abençoada por uma beleza natural inigualável, à beira do oceano que lhe parecia infinito quando criança.

Marina nascera no Leme. Seus avós moravam em Copacabana. Seus tios entre estes dois bairros. Vivia cercada de primos e família. A vida era boa. Não havia do que reclamar. Veio a adolescência, a faculdade de economia na PUC, o casamento com o Bernardo, o nascimento de Laura, a briga, as discussões, a separação. Um roteiro tão previsível quanto tema de novela. Nenhuma separação passa incólume. Deixa cicatrizes na pele, sulcos no coração, marcas na alma.

Ficou de cócoras e passou a desenhar na areia com um dedo. Um longo e fino traçado sinuoso logo era apagado pelas ondas. Seria tão bom, pensou, se as lágrimas derramadas tivessem o poder mágico de apagar feridas como as ondas do mar alisam a areia, apagando pegadas, destruindo castelos construídos por crianças, varrendo o lixo abandonado por cidadãos mal educados. Lágrimas seriam um santo remédio, mas não são nada mais do que o acúmulo de dor em forma líquida, que jorra por um vertedouro, esvaziando o reservatório interno com capacidade que parece nunca se esgotar. Só o tempo prova que aquela caixa d’água interna é finita. Em certa hora, as lágrimas secam, a dor se esvai e a alma volta a vibrar diante da vida.

As lágrimas de Marina ainda não haviam cessado. Desejava tanto que pudessem lavar a pele e arrancar as cicatrizes, deixando a pele igual à de um recém-nascido. Quis acelerar o tempo, quis voltar no tempo. Tudo parecia confuso e embaralhado.

Voltou a desenhar na areia uma silhueta feminina, como Bernardo fazia ao percorrer cada recanto de seu corpo. Com a ponta do dedo, deslizava por sua pele, descobrindo curvas, recantos, detalhes. Ele parecia retratar seu corpo numa tela em branco, com leves pinceladas de cor e vida. Ela ficava admirada com o carinho e as palavras que marcavam aqueles momentos de início de relacionamento. O tempo parava, os problemas desapareciam, o trabalho da faculdade que estava atrasado evaporava, a doença do avô era esquecida. Tudo era simples e parecia fácil.

Uma linha. Uma onda. E tudo desapareceu.  

quarta-feira, 28 de março de 2018

Saudade futura







A saudade lhe pesava como asas de chumbo num passarinho, cravado no chão, tolhido de todo o direito de voar, de fugir do caminhar rotineiro. Achava que a saudade havia sido curada com o tempo, mas num momento avassalador, fora tomada de um peso enorme, maior do que ela. Não tinha saudade do passado, tinha saudade do futuro, daquilo que nunca seria, e esta é a saudade que mais machuca. A saudade do passado parece tão bela e lírica quando passeia num fado cantado por uma voz afinada em alguma tasca de Lisboa, ou no Porto, ou qualquer recanto onde se serve um bom vinho português e assa-se o bacalhau. A saudade do que poderia ter sido, daquilo que ela achava que deveria ser, mas nunca foi e que nunca será, exatamente esta saudade que lhe invadira a alma naquela manhã.

Ela sabia a causa de tudo isto e aquilo lhe incomodava. Como poderia ainda sentir algo por ele depois de tantos meses, vinte e nove para ser exata, pensou sem se levantar da cama. Aquele sonho viera em péssima hora, adentrara seu sono tranquilo, um ladrão na calada da noite, e sua paz fora roubada. Não que a paz fosse profunda e sincera, mas ela se enganava achando que havia conquistado a paz de coração finalmente. E alguma vez o coração fica em paz?, perguntou-se. Virou para o lado e viu que o relógio marcava 7:45. Já estava atrasada, mas que importava, quem se importaria com seu atraso, com a ausência de seu sorriso, com a aparência de que tudo estava bem. Não conseguiu conter algumas lágrimas que desenharam um traçado retilíneo em sua pele macia e sedosa. Apesar dos anos, era uma mulher bonita, mas que se deixara aprisionar numa saudade futura.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Conto: A mulher do voo




 A MULHER DO VOO

O voo que me levaria de volta a São Paulo não estava muito cheio e pude escolher o assento do corredor. Impossível dizer que havia conforto, pois nos dias de hoje, voar tornou-se um tormento, um aperto, um exercício de contorcionismo. Acomodei a mala de mão no bagageiro, apertei o cinto e abri o jornal. Abrir é força de expressão, claro, pois não é possível se esticar num avião sem acertar o passageiro do lado. Apesar de todos percalços e incômodos, voar ainda me alegra. Gosto de voar. Talvez uma daquelas coisas de menino que sonha em ser piloto, em poder observar o mundo de cima, do alto, por entre as nuvens, vislumbrar o nascer do sol, admirar o poente, contemplar estrelas e a lua na imensidão da noite.

Voltei-me para o jornal após o passageiro que escolheu o assento da janela acomodou-se. Foi então que percebi, na minha diagonal, uma fileira à frente, uma mulher. Não a deixei perceber que meu olhar havia se fixado em seu belo rosto. A discrição era fundamental para que me perdesse em pensamentos e lembranças. Seu rosto me lembrava alguém, mas sou péssimo fisionomista. Sou excelente para nomes, dados, datas, mas meu cérebro não tem espaço para armazenar fisionomias.

Olhou para a direita e pude admirar a pele clara, uma boneca de porcelana, não sem vida ou de uma brancura insípida, mas de uma clareza solar, qual os primeiros raios a refletirem em gotas de orvalho na relva. Delicada, de traços bem cuidados, ângulos suaves. A maestria do artista era notada nas sobrancelhas a contornar os olhos. Percorria cada detalhe do rosto, hipnotizado e absorto. Havia um mistério naqueles olhos castanhos escuros, os cílios longos e a maquiagem leve. A boca era um capítulo à parte. Desenhada com precisão, os lábios vermelhos eram um convite para serem devorados com um beijo voluptuoso e imprudente. Contive-me e controlei aquele arroubo momentâneo. A natureza, por vezes, aproxima-se da perfeição, do convite à contemplação, e ali me perdi a contemplar seu rosto.

Estava séria, alheia a todo o redor, contemplativa, devia estar dialogando com seus pensamentos, preocupações. Parecia que viajava a trabalho, mas vestia-se de forma casual, a elegância de quem não precisa ostentar, de quem exala autoconfiança. Guardava a dor e o mistério dentro de si, aqueles segredos que só confidenciamos a nós mesmos e que não compartilhamos com mais ninguém.

Tentei voltar ao jornal, mas lia as notícias sem deixar de pensar naquela mulher próxima. Tirei um caderno de anotações do bolso do paletó e pus-me a rabiscar algumas linhas. Uma descrição da cena, breves palavras. Quem sabe, serviriam para algum texto, ou para uma epígrafe de livro. Cada um sabe a dor e o mistério que carrega dentro de si, escrevi.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Lavar louça




"Foi numa noite lavando louça, enquanto Alice dormia no sofá, que ele se deu conta da banalidade do amor."

(trecho de conto inédito by Renato Bueloni Ferreira)

quinta-feira, 16 de março de 2017

Armadas e perigosas



A manhã de verão é cinza e regada por uma chuva constante que abafa o atrito dos carros nas ruas e o ronco dos ônibus acelerando. A chuva obriga todos a sacarem sua mais perigosa e poderosa arma: o guarda-chuva.

Visto do alto de algum prédio em uma movimentada avenida, parecem coreografados, em diversas cores e estampas, bolinhas, desenhos, marcas, listras. Numa São Paulo de outrora, eram todos pretos, sisudos e carregados por senhores usando chapéus. Na sampa moderna, o guarda-chuva ganhou cor, passou a ser fabricado na China e surgem no mais impressionante fenômeno de geração espontânea às portas do metrô com camelôs vendendo 1 por 10, 2 por 18 e 3 por 25. Basta começar a chover, que aparecem num passe de mágica.


Os guarda-chuvas, Renoir


Mas toda a beleza e serenidade da dança dos guarda-chuvas na cidade banhada pela chuva transmuda-se em aventura radical e perigosa. Se você, caro leitor, tem pouco mais de 1,75m, com certeza irá se deparar com as perigosas agentes armadas de uma arma letal: o guarda-chuva. Sim, ele pode ser usado para lhe tirar a vida. Sejamos mais realistas, podem lhe cegar, causar alguns hematomas, mas matar seria um exagero.

Vou revelar a identidade secreta destas agentes perigosas, que armadas vagueiam por dias chuvosos escondidas debaixo de seus guarda-chuvas. Refiro-me às senhoras idosas e a todo e qualquer cidadão com menos de 1,65m e que ande com o guarda-chuva praticamente colado na cabeça. Ao caminhar pela calçada, estas agentes não desviam – e também não te veem. É preciso ficar esperto para desviar dos pontiagudos ferros que seguram o plástico da camada protetora do pedestre. Estas agentes caminham em linha reta, obrigam-no a sair debaixo de marquises e lançam qualquer pedestre que vier em sentido contrário no meio da rua. E se você reclamar, é capaz de levar uma guarda-chuvada na cabeça ou no braço.

Repare, meu caro leitor, como o ato de caminhar por uma rua movimentada num dia de chuva pode ser uma perigosa aventura. Qualquer dia algum prefeito ainda vai inventar o rodízio de guarda-chuva definido por data de aniversário: dias ímpares para quem nasceu em dia ímpar e dia par para quem nasceu em dia par. E ai de quem reclamar!


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Conto: Olhar Furtivo



OLHAR FURTIVO


Foi ela quem primeiro puxou papo. No mundo conectado por aplicativos, solitários vagam pelos corredores e vitrines do mundo virtual usando seus celulares como instrumentos de caça. Feito o match, ela não tardou a chamá-lo. Ele preferia esta virtualidade, que domava sua timidez sufocante. Se a encontrasse num café, lendo um livro, sozinha, não puxaria assunto. Ficaria com medo, desviaria o olhar constrangido. Poderia ser considerado assédio, abuso, uma conduta inapropriada, não saberia nem como começar a conversar. Um simples "oi" poderia ser tido como ofensivo, ainda mais se ela fosse uma feminista, empoderada, daquelas que luta contra a cultura do estupro, que grita aos quatro cantos "meu corpo, minhas regras", que vê golpe em cada decisão judicial que reafirma a Constituição, que proclama "Fora, Temer", mas no fundo da alma, sente um desejo enorme de não pensar assim.

Foi ela quem soltou o primeiro "oi" e ele respondeu. Ela logou alertou: "sou de esquerda!". Assustou-se, mas aqueles olhos castanhos sorriam-lhe. Engoliu seco e deixou a serenidade tomar-lhe a alma. Ela pensava de forma diametralmente oposta à dele, mas havia algo que aplainava as ideias tão discrepantes. Em meio à ebulição política dos tempos de impeachment, ele foi cauteloso com as palavras. Evitaria temas políticos e tentaria decifrá-la. Marcaram um primeiro encontro.

 - Não gosto de italiano. Prefiro algo mais leve no almoço.

Versátil em termos gastronômicos, a culinária pouco lhe importava. Queria desvirtualizar a conversa e deixaria que ela escolhesse o lugar. A curiosidade, tão própria nas mulheres, estava aguçada e começara a montar, peça por peça, o perfil da bela mulher cujo caminho cruzava o dele.

Ela se atrasou. Ele tinha certeza que isto ocorreria. Errara o caminho, avisou pelo celular. A espera tem sempre o condão de aumentar a expectativa. Tentou manter-se calmo, composto, sereno, domando a ansiedade.

Quando ela chegou, apressada, desculpando-se pelo atraso, ele sorriu, "não tem problema, não tinha mesa, sentei faz pouco" - uma leve mentira para amenizar o atraso. Começou a narrar que havia subido a Consolação, ao invés de vir pela Campinas e que o trânsito na Santos estava horrível. Ele observava cada gesto, cada palavra, divertindo-se com as explicações dela como se ele fosse algum dignatário importante, mas para ele, quem fazia o favor de estar ali era ela a compartilhar com ele o almoço.

Deixou-a falar, contando do trabalho, das pesquisas, das viagens. Com olhar furtivo, quando ela mirava pela ampla janela do restaurante, ele reparava nos seus cabelos, no sorriso contido, nas unhas pequenas, nas curvas do rosto, nos óculos que ajeitava com charme natural. Discreta, contida, mas vibrante. Cada palavra era dita com intensidade, uma vivacidade que ultrapassava a mera vibração das cordas vocais e preenchia o ambiente com fogo. A indignação não se media pela frustração com o que destino lhe oferecia, mas em como teria de lutar para mudar o presente e assim construir um futuro muito diverso do atual.

Ela não discursava, falava com fluência e segurança, sorrindo de forma esporádica, com um toque melancólico. Talvez cética fosse a palavra mais adequada a descrever o estado de espírito dela. Estava desacreditada do que acontecia no país. Esbravejou contra a professora que lhe roubara o projeto de pesquisa sem a menor cerimônia e ele notou o desgosto disfarçado pelo discurso de fatalidade.

- Coisas do mundo acadêmico! - desabafou.

Percebeu que sentia enorme prazer naquele diálogo, em ouvir cada narrativa, cada reclamação, cada crítica, cada comentário. Manteve-se receptivo, mas muito reservado. Deixava o olhar ser seu único instrumento invasivo. Quando ela ajeitou os cabelos longos, perdeu-se por alguns segundos contemplando o ombro esquerdo desnudo, quando a blusa escorregou e revelou um pouco mais da pele. Imaginou a textura, o cheiro, a temperatura, mas logo se recompôs do devaneio que claramente seria inadequado a este encontro. Ao menos no primeiro encontro, pensou.

Na despedida, na calçada movimentada, barulhenta, poluída da metrópole, olhou-o nos olhos e disse com firmeza:

- Não vai sumir!

E abraçou-o, delatando o grito silencioso de fragilidade, a súplica que tentara esconder, mas que a mão acariciando as costas dele denunciavam. O enlace dos braços lhe dava um confortante sentimento de segurança, carinho e afeto que ele deixara transparecer e agora confirmava com o demorado abraço. A solidão se esvaia e o vazio era preenchido.

- Não vou sumir. - respondeu acolhedor. E ela, depois daquele encontro, mudou-se para a França.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Águas passadas




Sonhei com você noutra noite. Sentada num canto de uma sala, sorria com um copo de vinho na mão. Mirava-me, silenciosa, mas transparecia uma alegria serena. De longe, olhei-te, sorri de volta, mas não acenei. Não iria tomar a iniciativa de abordar-te e romper teu desejo expresso no passado e de forma tão contundente. Tiveste força para me calar. Eu nunca calei tua voz dentro de mim. E vez por outra, como no acaso de um encontro casual, visitas-me com teu olhar distante e levemente melancólico, um olhar que sempre parecia gritar por socorro. 

Não queimei os poucos retalhos que guardei, não formatei o HD. Na verdade, o HD se autodestruiu, uma daquelas panes inesperadas que levaram junto arquivos, contatos, fotos, textos, memórias. Curioso como uma máquina é capaz de simplesmente apagar anos de trabalho que ali estavam armazenados. Voltei a confiar no meu HD mental, na memória que agora armazena variantes de gambitos, sicilianas e Ruy Lopez. A criatividade se desenrola num tabuleiro, onde tenho um pouco mais de controle sobre o que se passa. Quando algo dá errado, a culpa é só minha e de algum erro de cálculo. A vida tem suas inesperadas mudanças.

Acordei sem sentir saudades. O tempo passou, as águas correram e o sentimento se desfez. Ou talvez esteja apenas adormecido na noite fria que avança.