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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro

 



Trechos de livros

 “O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”

(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad. Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)


Com o passar dos anos, o acaso se tornou um companheiro decifrável, uma peça do quebra cabeça da vida que se encaixa e faz sentido. Tantas pessoas cruzam nossos caminhos e poucas ficam, permanecem com sua presença indelével e indispensável. Por quê?

São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza. 

Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Trechos: Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre

 

quarentena em SP


Publicado pela primeira vez em 1795, o breve livro de Xavier de Maistre (1763-1852) é um exercício de risonha subversão de hierarquias, sejam elas militares, metafísicas ou literárias. Zombando das circunstâncias, o autor transforma os quarenta e dois dias de castigo em ponto de partida para uma paródia dos relatos de viagem, algo que se encaixa muito bem em tempos de quarentena, lockdown e pandemia.

O breve livro foi minha companhia no mês de setembro de 2020, enquanto passava os minutos, as horas, os dias ao lado de minha mãe em um leito de UTI em São Paulo.

Eis alguns trechos:

"As horas deslizam sobre nós e se precipitam em silêncio pela eternidade, sem nos fazer sentir sua triste passagem." (p. 13)


"Uma cama nos vê nascer e nos vê morrer, teatro inconstante em que o gênero humano encena, dia após dia, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias espantosas. - A cama é um berço enfeitado de flores; - é o trono do amor; - é um sepulcro." (p.14)


"Essa vantagem me fez desejar que se inventasse um espelho moral, em que todos os homens pudessem se ver com seus vícios e virtudes. Cogitei mesmo propor a alguma academia que instituísse um prêmio por tal descoberta, quando reflexões mais maduras me provaram sua inutilidade." (p. 42)

(Maistre, Xavier de. Viagem ao redor do meu quarto. trad. Veresa Moraes. São Paulo : Editora 34, 2020)





terça-feira, 17 de novembro de 2020

Conto: O bilhete

 


O bilhete

Gosto da sua letra, do jeito que deitas o traço firme sobre o papel imaculado, desenhando letras e mais letras de forma decidida, com os olhos de jaboticaba fixados na ponta da caneta que desliza sobre a superfície. O texto ganha forma, corpo e apenas te observo enquanto escreves. Caprichas na forma como cortas a letra t. Os is trazem um pingo certeiro. A escrita flui como se a pergunta formulada na prova já tivesse sido pensada e respondida mentalmente antes de iniciares o texto. Sento-me sobre a mesa do professor para poder contemplar a letra que mais se parece com uma pintura. Talvez seja uma grande besteira este meu devaneio banal. Quem se encanta com uma letra? Não sou professor de caligrafia e nem professor de português, muito menos calígrafo, mas como é bom receber uma prova onde não é preciso decifrar garranchos e hieróglifos. Deveriam incluir um curso de arqueologia egípcia na formação do professor para que pudéssemos ler as provas de alguns alunos. Bem, estou eu divagando novamente. Quanta besteira, professor! Ninguém mais vai fazer prova escrita a mão. Em breve, tudo será digitado e as belas letras caprichadas se perderão, cairão num buraco negro, no esquecimento eterno. Ah, mas como eu gosto de admirar a tua letra em bilhetes que guardo com enorme carinho.


Remexer gavetas é uma atividade de risco, ainda que pareça algo tedioso e despido de periculosidade. Há sempre o perigo de ressuscitar memórias adormecidas, inertes em algum recanto da mente - ou de um baú. Basta encontrar algo para que aquele artefato solte algum gás tóxico que estava congelado no objeto e desperte e provoque as mais diversas sensações, sorrisos, lágrimas, raiva. Uma carta. Uma foto. Uma receita gastronômica. Uma música. Um perfume. Um ingresso de cinema. Um bilhete.


O bilhete ainda trazia o clip de metal preso na parte superior, mas se separara do papel onde estava preso originalmente. O recado desprendera-se do trabalho de conclusão de curso de Joana, que analisou o projeto do Edifício Guaimbê, de Paulo Mendes da Rocha e sua influência na arquitetura residencial paulista. Lembro-me que fui tomado de grande surpresa quando a morena, um tanto debochada e que parecia entediada nas minhas aulas de História da Arquitetura Brasileira, escondida por detrás dos longos cabelos castanhos escuros e que deixava cair sobre o lado esquerdo do rosto, um toque de charme - ou talvez uma timidez disfarçada. Nunca soube ou certo. Lecionava no início do 3o. ano, 5o. semestre e muitos tinham minha disciplina como algo inútil, mera perfumaria para preencher a grade curricular. Aqueles que se dedicavam a minha disciplina e compreendiam a importância da história para a arquitetura, despontavam, mais adiante, como profundos observadores da realidade urbana brasileira. Posso me orgulhar de alguns alunos que orientei, sem dúvida, mas quando Joana me abordou no final do terceiro ano, na minha sala acanhada perto da biblioteca da faculdade, tive a nítida impressão de que ela havia me confundido com outro professor.  Algo que não seria estranho, pois sou um tipo comum, sem as excentricidades dos grandes professores de arquitetura. 


A proposta de trabalho de conclusão de curso tinha consistência e o tema estava circunscrito à minha área de pesquisa. Ela se mostrou mais preparada do que imaginava. Tentei puxar pela memória as notas dela na minha disciplina, mas não era nada que me despertasse um traço natural de genialidade. Era, assim como eu, uma aluna comum. Pareceu-me esforçada e teceu-me elogios que me fizeram ruborizar. Olhei-a com um olhar diferente a partir daquela primeira conversa. 


Ela se empolgou com o tema. Fizemos vários encontros na faculdade, alguns coletivos, outros individuais e aqueles olhos de jaboticaba despertavam um encanto que achava esquecido, perdido no tempo em algum lugar do passado. Paixões platônicas são verdadeiros narcóticos, entorpecem o ser, pintam a realidade de tons pastéis, estampam um sorriso quase permanente no rosto do viciado. Com tantos anos de vida acadêmica, não era a primeira vez que era acometido por esta síndrome platônica. Nas outras vezes, o silêncio não havia sido quebrado e o segredo restou guardado em alguns cadernos que usava como diários. Desta vez, porém, resolvi deixar florescer minha atração. Esperei a banca e o resultado. Fora aprovada e meus colegas desfiaram longos elogios à jovem arquiteta, agora recém formada. Enchi-me de orgulho e satisfação.


Alguns dias depois, convidei-a para jantar com a justificativa de comemorarmos o êxito do trabalho. Ao final de um agradável encontro, declarei-me. Ela ficou incomodada. A reação dela me deixou desgostoso. Pensei se minhas palavras poderiam caracterizar alguma forma de assédio, de pressão indevida. Um calafrio percorreu minha espinha e fui tomado de um sentimento de pânico. Minha carreira, meu prestígio, meus longos anos na academia. Tudo passou pela minha cabeça enquanto ela simplesmente passava o dedo pela borda do guardanapo de pano e tentava desfiar algumas palavras para trazer-me de volta a realidade. Um choque de realidade, sim, era isso que recebi naquele final de refeição. Envergonhado, as palavras me faltaram. Ela agradeceu o jantar, levantou-se e pediu um Uber. Não seria eu a levá-la de volta para casa. Não seria eu a provar o gosto daqueles lábios. Não seria eu a modificar o entorpecente em realidade viva. 


Daqueles dois anos de convivência mais intensa, além de meus delírios e devaneios, restou apenas o bilhete que ela escrevera e prendera no trabalho final do curso.




terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Trechos: Das terras bárbaras, de Ricardo da Costa Aguiar



"Afinal, se um anjo tinha sucumbido ao peso do orgulho, da inveja e da cobiça, o que esperar de nós, carne fraca? O anjo caído era uma vítima que merecia minha compaixão, eu o reconhecia em mim. Estudante, mudei essa imagem do Mal, transmutei-o em uma bela figura filosófica. Passou a ser a ausência do Bem, como o escuro é a ausência da luz. Passou a ser o lado animal dos homens, pronto a sucumbir sob a razão e o espírito. O Mal era inerte, uma sombra adormecida que se afastava na presença de tudo o que é puro. foi no calor de Maruery que o conheci como de fato ele é, viscoso e grudento. Ali eu o vi de perto, fétido e deformado, rouco e irracional."
(Ricardo da Costa Aguiar, Das terras bárbaras, São Paulo : Tordesilhas, 2019, p.112-3)

O romance de estreia de Ricardo da Costa Aguiar foi uma grata surpresa. Texto requintado, trabalho cuidadoso nas citações de latim que se espalham pelo texto. Além de ser ótima leitura, o romance ainda nos incrementa a cultura.

O romance traz duas estórias em paralelo: um jovem diplomata e sua busca pelos antepassados e um jovem jesuíta que parte da metrópole para a colônia, e na colônia se depara com sua queda, causado ou não pelo anjo caído.

Chamou-me mais atenção os detalhes com que a narrativa retrata a viagem de Lisboa a Salvador, depois a vida na colônia, a capital Salvador no seu esplendor, a pequena São Vicente e a subida da Serra do Mar até Piratininga e Maruery (hoje Barueri, e que outrora foi uma grande aldeia indígena). O escritor desvela toda sua cultura histórica e ensina enquanto entretém o leitor com uma trama bem costurada.

No final, o livro se torna um pouco previsível, mas não tira o mérito da obra. Vale a leitura.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Conto : Diálogos Soltos




DIÁLOGOS SOLTOS


- Não gosto dos meus pés. Acho-os feios.


- Eu gosto deles. Você está enganada, mas eu já sabia desta tua opinião um tanto quanto rigorosa consigo mesma. Sempre tem algo que não gostamos em nós mesmos. É uma visão subjetiva, distorcida. Lembro de você ter postado um story no Instagram em que posicionava seu pé ao lado de uma amiga e dizia que seu pé era feio, que parecia de homem. Minha vontade foi de mandar uma mensagem e retrucar seu autojulgamento rigoroso, tão impiedoso. Pois saiba que eu sempre gostei deles. Desde as primeiras fotos tuas, sempre olhei para teus pés. Reparo nos pés assim como reparo nas mãos. E como você gosta de usar estas sandálias rasteiras que deixam o pé aparente, quase que totalmente desnudo, salvo pelas finas tiras de couro que o envolvem.

- Você está sendo muito poético e exagerado, Ricardo, afinal são só pés. Ou teria você um fetiche por eles? – indagou com um leve sorriso malicioso.

- Não sou podólatra, mas acho seus pés delicados, bonitos e adoro te ver andando descalça, ou sentada no sofá fazendo aqueles malabarismos com as pernas cruzadas ou sentada sobre as pernas. Pode parecer besteira, mas percebo seu estado de ânimo pelo modo como você anda descalça pela casa. O som muda conforme seu humor. Talvez poucos homens reparem nos pés femininos, até porque homem não costuma olhar para baixo quando está diante de uma mulher. Principalmente se for bonita – e sorriu com o olhar fixo no dela. Vai ver que é por isso que vocês são tão fascinadas por sapatos. O sapato nada mais é do que a roupa do pé, uma vestimenta que abraça e acalenta tão delicada parte do corpo.

- Nossa! Estou adorando esta louvação que faz tão bem para minha autoestima.

- Como se você precisasse de alguém para elevar tua autoestima...

- Todo mundo gosta de um elogio sincero. Ainda mais quando se percebe que é um elogio inteligente e que lembrou de um detalhe tão banal e distante. Mulher gosta de homem que sabe reparar nos detalhes e que se lembra deles.

Ricardo sorriu encabulado e sentiu naquele momento algo de novo em relação a ela, algo mais do que o simples afeto de amigo. Tomou um gole de sua cerveja, reparou na sandália dela de forma discreta e mudou de assunto.


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Conto: Florescendo sem máscaras


by Erika Santiago sobre criação original de @_flordesaturno 


FLORESCENDO SEM MÁSCARAS


Estava exausta no final de mais um dia atribulado, onde fora preciso esconder sentimentos, vontades, desejos, sorrisos. As máscaras serviram de escudo para disfarçar a realidade. Tirou a maquiagem e deixou-se cair sobre o sofá. Despiu-se das máscaras e deixou os pés descalços sentirem o calor do piso. Libertos, enfim! Fechou os olhos e imaginou o silêncio da noite rural, onde poderia brincar com a grama molhada pelo orvalho a cutucar seus pés, o cheiro da terra a invadir suas narinas, o ar fresco da noite recém chegada. Raízes pareciam brotar de suas pernas, solo adentro, fixando-a e dando-lhe vigor. Esticou os braços e deles brotaram ramos e galhos e folhas, lindas flores substituíram seus dedos. Floresceu sem máscaras, sem fantasias. Abelhas extraíram o pólen e as flores viraram frutos. E com os frutos maduros semeou beleza, alegria, espalhou sorrisos e percebeu que as máscaras escondem quem ela é: única e bela.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Receita para o ano novo


instagram @rbueloni


Um bom livro, um café ...ou uma taça de vinho, uma cerveja gelada, uma chá gelado, um suco...tanto faz, o que importa é o bom livro. O lugar também perde relevância quando o livro nos absorve, intriga, faz pensar.

"A Fórmula do Bom Humor", de Carlo de Marchi (Editora Quadrante, 2018) não é um livro de auto-ajuda. Achei que era quando o recebi, mas arrisquei. Afinal, o livro tem como subtítulo "E os cinco remédios contra a tristeza". Parecia feito sob encomenda para um 2018 que foi um ano longo, um ano de despedidas, de dor.

Pois bem, o livro é de uma grande leveza, mas mostra como é possível tornar nossos dias mais confortáveis, mais afáveis, como é possível enfrentar as dificuldades com serenidade e um certo grau de alegria - até onde é humanamente possível.

Destaco abaixo 2 trechos do livro que me pareceram uma verdadeira receita para o ano novo, algo como um propósito a ser praticado todos os dias, faça chuva ou faça sol (eu adoro dias chuvosos e aquele barulho de chuva no telhado ou na janela....).

Vamos aos trechos:

"Em uma passagem de seu célebre discurso de aceitação do Nobel da Paz, Madre Teresa de Calcutá fez um convite que surpreendeu muitos dos presentes: 'Dai sempre um sorriso a vossos familiares. Oferecei-vos reciprocamente vosso tempo em família. Dai-lhes um sorriso.'

Uma condição prévia para atingir esse objetivo é cultivar uma visão sorridente de si mesmo. Trata-se de uma aceitação particular do próprio modo de ser que permite não dramatizar a situação em que nos encontramos, isto é, a não me levar muito a sério e não levar muito a sério os demais." (p. 76)


"'Em minha vida, só me arrependo de não ter sido mais gentil', disse o escritor George Saunders quando, em 2013, foi convidado a proferir um discurso como patrono dos graduandos na Universidade de Siracusa, nos Estados Unidos. Em seu discurso, propôs a gentileza como regra para o sucesso de quem está começando a carreira profissional:

'De quem vocês se lembram com mais carinho no decorrer da vida? Com o mais inegável sentimento de cordialidade? Daqueles que eram mais gentis com você, aposto. Talvez isso seja um pouco simplista, e é certamente difícil colocá-lo em prática: no entanto, eu diria que, como objetivo de vida, vocês fariam bem se tentassem ser mais gentis.'"

Será que custa tanto tentar ser mais gentil e sorrir mais, compartilhar com mais pessoas um sorriso? Não sei se conseguirei, mas vou tentar!


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Conto: Aquário, câncer




CONTO:  AQUÁRIO, CÂNCER


Pouco depois das 7 e meia da manhã achei uma vaga no Starbucks do Itaim. Algo raro e imaginei encontrar a loja vazia, afinal ainda era cedo. Ao abrir a porta, uma fila razoável e dois motoboys de serviços de entrega de comida por aplicativo se enfileiravam diante do caixa. Pensei comigo, quem pede um Frapuccino via aplicativo às 7 e meia da manhã?, seria preguiça de sair de casa ou a realidade de eremitas que não desgrudam de seus aparelhinhos e preferem degustar sua bebida em casa, longe de olhares estranhos e do convívio social? Seriam estas imensas janelas, tão generosas na iluminação natural, a dar a sensação de um enorme aquário onde seres humanos substituem os mais diversos peixes ornamentais?

Uma certa irritação começou a me dominar, porém hoje era um dia daqueles em que as irritações do cotidiano seriam solenemente desprezadas. Tinha algo muito mais sério a dominar meus pensamentos. Pensei em ir embora, dar meia volta, mas respirei fundo e voltei a ser absorvido pela efemeridade de momentos corriqueiros. Distraí-me observando os que estavam na minha frente e tentando descobrir o que se passava naquelas mentes.

No caixa, uma adolescente com uniforme de escola inglesa, saia xadrez, camisa de gola e botões na parte dianteira e uma fina gravata listrada pendurada no pescoço sem qualquer cuidado com o nó. A senha do cartão não funcionou. Ela chamou a irmã. Nova tentativa no cartão. Sem êxito. A irmã tirou uma nota de cinquenta e pagou. A atendente se atrapalhou com o troco. Perguntou se o pão de queijo era normal ou integral. A simplicidade da vida agora era atacada por opções e variantes sobre o mesmo tema. O leite podia ser de soja, integral ou desnatado. O pão de queijo integral ou tradicional. O açúcar também tinha suas variações: mascavo, orgânico, cristal. Isto sem mencionar o adoçante em gotas ou em pó.

A cliente seguinte foi mais rápida, assim como o motoboy do aplicativo. Quando chegou minha vez, já havia desistido do pão de queijo e queria apenas um café espresso. Seu nome?, veio a pergunta habitual. E eu, como de costume, inventei um: Heitor. Sempre escolho um nome diferente e fora do comum só para me divertir com o atendente escrevendo o que ouviu no copo ou no papelzinho.

Passei para o canto da loja e continuei observando os que estavam na minha frente, como se fosse um espião ou agente secreto. Uma moça de pele clara, cabelos escorridos, unhas cortadas bem curtas e sem esmalte. Deveria ser engenheira ou da área de TI. Pelo jeito não era vaidosa e não trabalhava em uma empresa ou cargo que exigisse um pouco mais de cuidado pessoal. Não era desleixada, nem feia, mas pelo visto não prezava tanto a aparência. Talvez estivesse de férias. No antebraço uma discretíssima tatuagem, um risco fino e contínuo que contornava todo o braço, dando a impressão de que seu braço havia sido cortado por uma fina lâmina de metal. Ou poderia ser apenas um risco de caneta bem fina. Mayara era o nome dela. O nome não combinava com a pessoa.

Bruno, gritou a moça com um copo na mão e o motoboy se apresentou para retirar dois Frapuccinos, um de chocolate e outro de café. Pediu um suporte de papelão para segurar os copos. Soltou um valeu e partiu para seu destino. A menina da escola inglesa ainda aguardava seu pedido. Parecia impaciente. Atrás de mim três jovens de seus vinte e pouco anos, típicos representantes da geração millenials, no vestir-se e no falar, computador a tiracolo, insistiam em falar sobre a importância de ser agressivos nesse mercado – não sei qual – e em contar com um sujeito que manje muito de finanças. Falavam mais alto que os demais, a conversa animada, qualquer um diria que já haviam tomado uma jarra de café.

O mundo para um millenial ainda é pequeno, um início de caminhada, uma dimensão a ser explorada e conquistada com um aplicativo – ou vários aplicativos – que fosse disruptivo e transformasse a forma de fazer negócio, de se viver, de pedir um café pela manhã ou de saber quanto você gasta com gasolina no final do mês, tudo organizado numa planilha.

Não ri, mas senti um pouco de pena da ingenuidade destes jovens que desprezam o tempo com arrogância, como se fosse algo reutilizável, reciclável. O tempo se esvai rápido e depois que o segundo do relógio passa, ele não volta jamais. “Etor”, gritou a moça informando que meu café estava pronto, achando que era um nome inspirado em algum personagem da Marvel. Açúcar, uma rápida mexida e o café morno foi consumido. Sai da loja ainda me divertindo com o pequeno espetáculo e as pequenas preocupações daqueles personagens. Passei por eles como o homem invisível, sem ser notado. Não me importei. A única coisa que me importava naquela manhã era que haviam descoberto um novo câncer no estômago de meu pai. E a batalha pela vida recomeçava.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Navegando pela escrita


Um livro com uma coletânea de textos de jovens escritoras (entre 10 e 15 anos). Os textos estão em português, inglês e espanhol, uma viagem por línguas e palavras e dialetos e pela criatividade.

Prestigie o lançamento deste projeto!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Epígrafe - XXXIV



"A pequena alameda continuava descendo até uma clínica que se encontrava no meio do parque. Tinham parado de falar, mas ouvia o rumor das rodas da cadeira no cascalho. Gostaria de ter se virado, mas não conseguiu. A coisa mais linda do mundo. Disse uma menina careca em uma cadeira de rodas, conduzida por uma enfermeira. Ela sabia qual era a coisa mais linda do mundo. Ele, ao contrário, não sabia. Como era possível que na sua idade, com tudo aquilo que vira e conhecera, ainda não soubesse qual era a coisa mais linda do mundo?"

(Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. trad. Nilson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010, p. 47)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fantasma


www.emiliesugai.com.br - Cinema de Sombras


Não me tenhas como um fantasma do passado a assombrar teus dias, tuas tardes preguiçosas, tuas madrugadas insones, tuas noites solitárias, tuas manhãs de ressaca. Não sou eu a desfazer os espirais de fumaça que fluem de seus cigarros, assoprando as belas esculturas que se desenham no ar. Sei que está só e te observo de longe, em pensamentos e desejos, com a boca costurada pela censura que me impusestes. Não me procures mais, chega! O grito escrito num email saltou do fundo da garganta e me ensurdeceu. Calei-me como pediste por quase dois anos, mas uma serena vontade me consome e sou tomado pela impotência de não resistir. Quero te escrever, mas temo que seja tido como um fantasma, daqueles esqueletos do fundo do armário, esquecidos e que quando revelados assombram, causam taquicardia, suores, um forte aperto no coração.

Não quero ser um pesadelo, não quero tirar teu sono, nem tua paz - se é que em algum momento nos últimos tumultuados meses atingistes a paz de espírito. Do jeito que te conheço, ouso dizer, sem medo de errar, que teu interior inquieto e ansioso, extremamente analítico jamais lhe concedeu a paz interior.

O mundo é muito turbulento para ti. O mundo está em constante mutação, tanto o material como o espiritual e tentas captar tudo, usas do conhecimento para tentar atingir o impossível controle sobre o destino, sobre a razão e o mais utópico: sobre o coração e os sentimentos. Suas tentativas de negar e rejeitar o sentimento despertado, por mim confessado, foram em vão. Negaste de forma reiterada, acreditando que o silêncio me induziria ao erro. A negação se transformou em agressão verbal e escondida por detrás de um colete à prova de flechadas do cupido. Fingiu que estava intacta ao que fora despertado no seu âmago. Jamais acusaste o golpe e sei que és orgulhosa por demasia para reconhecer que se apaixonara por alguém que lhe faria fugir e correr e correr. A contradição posta lhe embaralhou o raciocínio e a filosofia foi escassa, insuficiente, não lhe dando os instrumentos para dissecar a sua própria alma e tomar de conselho a lição primordial: conhece-te a ti mesmo! 


Falhaste e me condenaste ao limbo das almas penadas, dos fantasmas do passado. Deixei de ser um sonho bom para me tornar um pesadelo dos mais traumáticos e inquietantes. Não sou um fantasma e não quero morrer como fantasma. Será que em algum momento do futuro, à luz do dia, o espectro se transformará de novo em um inofensivo amigo?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lançado conto em ebook





Lançado na semana passada, já está à venda na loja da Amazon o conto Taquaral,  escrito para o concurso do Globo e da Amazon, Brasil em Prosa. O conto só está disponível em formato de ebook.

O conto pode ser adquirido na loja da Amazon aqui.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A poesia que nos falta




Eu leio poesia. Eu compro poesia. Eu não sou um consumidor de poesia, pois poesia não se consome, desfruta-se. Penso que a poesia é um convite à contemplação, a ultrapassar a superfície das coisas, um mergulho nas profundezas do cotidiano e dos sentimentos, da vida e dos objetos, da realidade que nos cerca. A poesia me transporta para o mundo da reflexão, do devaneio, da tentativa de melhor compreender este mundo.

Creio que nos falta poesia no dia a dia. Talvez você, meu caro leitor, perguntará onde existe poesia num metrô lotado, num engarrafamento de final de dia quando se está cansado a caminho de casa, numa notícia de jornal que reproduz a violência e a barbárie de crimes cometidos. Onde está a poesia deste mundo cruel?

Quem sabe, se olhássemos o mundo com um olhar poético, contemplativo, poderíamos ultrapassar a casca que recobre a realidade e penetrar mais fundo no transcendental. 

Outro dia, um amigo criticou de forma ácida o grande sucesso do momento, os livros de colorir para adultos. Para adultos? Quer dizer que criança não pode colorir aqueles desenhos elaborados? Lógico que pode, mas são planejados para adultos lidarem com o estresse. 

Curioso como a atividade lúdica, como o contato com a arte, ainda que de forma primitiva, seja utilizada como elemento terapêutico. A escrita já é usada como terapia, assim como a leitura. Agora, é a vez dos livros de colorir. O adulto dá um primeiro passo para ter contato com a arte visual. Digo primeiro passo, pois poderia sentar-se num banco em uma das galerias do MASP e contemplar Rembrandt, Picasso, El Greco, Goya, Modigliani, Monet, Manet...

Contemplar é mais trabalhoso do que simplesmente pintar com canetinhas e lápis de cor. Contemplar exige que se silencie o interior, que nossos sentidos estejam focados no objeto. A poesia faz isto, transporta-nos para o mundo da contemplação. Falta-nos poesia no mundo de hoje, mas quem sabe alguns não descubram que a Arte não é restrita a livros de colorir para adultos.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Matilde Campilho : Rua do Alecrim





RUA DO ALECRIM

Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdadeira a bofetadas.

(Jóquei. São Paulo : Editora 34, 2015, p. 64)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Epígrafe - XXXIII


instagram @rbueloni


"O material do escritor é o alfabeto"

"O livro é uma máquina de nos fazer levantar a cabeça"

Gonçalo M. Tavares, no simpósio Minha língua, minha pátria, na Livraria Cultura, 11 de abril de 2015.

Mais sobre o bate-papo aqui.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Conto: Corra, corra!




CONTO: Corra, corra!


Fazia questão de acordar cedo todos os dias, exceção feita aos sábados, domingos e feriados. Nos demais, levantava-se pouco antes do nascer do sol de modo a estar na rua e ter a face acariciada pelos primeiros raios solares. Gostava de contemplar a luminosidade matinal, como uma cortina que se abre e revela o cenário do palco, a cidade que despia sua roupa escura, cenário conhecido mas que ganhava tonalidades e cores inesperadas conforme a estação do ano,  a bruma matinal, a maresia, o cheiro. A corrida era uma necessidade, uma forma de espantar a preguiça do corpo e punir a carne com esforço e sacrifício, para ao final desfrutar de uma descarga benéfica de hormônios.

O silêncio da manhã, da cidade ainda adormecida, instigava-lhe a imaginar as vidas ao seu redor, as pessoas que cruzava – algumas habitualmente – em caminhadas ou corridas na orla da praia, faça chuva ou faça sol, sem intempérie a detê-los. Era uma disciplina quase fanática, quase militar, um exército de viciados em atividade física. Se ela fosse um robô agiria igual, pensou alongando os braços e pernas antes dos exercícios. Hoje dispensara a música. Optara pelo silêncio de seu universo próprio, como fazia todo dia 5 de cada mês.

A dor se misturava com a nostalgia, a melancolia com a saudade, a raiva com a compaixão. Nestes dias, era um cadinho de sentimentos em ebulição. Sensações que beiravam a dor física. Passaram-se seis anos desde aquele dia de novembro, mas tudo permanecia vivo e ela se odiava por isso. Deveria ter morrido o sentimento. Ele deveria ter  morrido. Não bastava fechar os olhos. O coração não tem olhos, pensou. Deixou-se abraçar pelo sol, deu dois saltos para sair do transe que lhe arrastava sem rumo e começou a correr.

Março trazia a instabilidade de um mês de transição. As manhãs não eram tão quentes, menos úmidas que nos meses anteriores. Fim de verão com as águas de março, mas hoje o dia resplandecia com toda sua majestade.  O vento era leve e lhe beijava o rosto com delicadeza. Seu cabelo preso num rabo de cavalo balançava num movimento pendular e ajudava a marcar o ritmo das passadas. Precisava se concentrar no começo, até que o ritmo lhe dominasse o organismo e tudo ficasse cadenciado numa máquina azeitada. Respiração, passada, braços, batimentos, olhar altivo. O cronômetro acionado para registrar tudo na planilha de treinos. A disciplina era rigorosa. Ela riu ao pensar em quantos lançamentos fizera nas planilhas de treino, quantos minutos correndo, quantos quilômetros correndo, quantos momentos da vida foram passados ali à beira-mar correndo, delirando com a paisagem da cidade sonolenta, lutando contra seu segredo, esforçando-se por esquecer o que nunca esqueceria. A corrida era uma tortura prazerosa que lhe permitia momentos de plena solidão, de pleno esforço e luta, de dominação do corpo pela mente e imaginava que isto algum dia, lhe permitiria esmigalhar por completo o sentimento guardado.

Uma bicicleta passou buzinando e ela se distraiu, atrapalhou-se no ritmo da passada, não a ponto de cair, mas revelando-se desengonçada. Achava-se pouco ágil, pesada demais para correr longas distâncias, mas percorria diuturnamente os oito quilômetros da beira-mar, quatro de ida e quatro de volta, concluindo o treino com uma refrescante água de coco. Ao menos, a corrida lhe dera mais resistência, pernas firmes, pele viçosa, colesterol baixo e um tornozelo que por vezes fazia questão de lembrar-lhe que os 40 anos já haviam sido superados. Ela ria de si mesma. Não corria para ficar gostosa. Corria para ter a sensação de que tinha condições de fugir, de escapar da realidade, como se a corrida lhe condicionasse e lhe preparasse para um momento de reencontro e então ela correria e correria e correria, sem olhar para trás, sem hesitar, sem temer o coração e com total racionalidade.

Ela tinha medo do reencontro. Tinha medo de emails, de presentes, de livros, de textos, de cartas, de recados, de bilhetes, de telefonemas, se bem que telefonemas eram coisa do passado. Achava mais arriscado encontrar um recado no whatsapp. Tudo se rompera em determinado momento. De uma única vez, como arrancar esparadrapo. Ele insistira. Ela calara. Um ano se passou e ele continuava a mandar sinais de fumaça, sem insistência, de forma delicada e carinhosa. Ela foi firme. Um dia ele desistiu, ou assim, achava ela. No fundo, desconfiara que em algum momento inesperado ele reapareceria e então ela teria que retomar sua fuga. Tinha que estar preparada e treinada. A corrida era a solução. Tinha que correr. Tinha que fugir. Tinha que estar alerta. Dispararia como um cometa, um cavalo chucro a correr numa planície qualquer.


E todo dia 5 a tensão atingia níveis extremos de ansiedade. Ele nunca mais aparecera, mas o que será que o destino guarda, ela pensou. Será que teria coragem de fugir? Será que seria forte o suficiente para fugir? Ou o coração me trairia novamente? As dúvidas açoitavam seus pensamentos com pontadas firmes, como se estivesse presa ao pelourinho recebendo chibatadas pelo seu mau comportamento. A ternura de seu olhar seria um bálsamo para o corpo cansado e teimoso. Por que fugir? Por que correr? Pare de pensar e corra. Corra. Corra!


sábado, 21 de fevereiro de 2015

O "Paraíso" de Tatiana Salem Levy



Sabedor do novo livro de Tatiana Salem Levy, fui à Livraria da Vila da Lorena no início de dezembro em busca do livro. Acostumei-me a me adiantar às livrarias. Fico sabendo dos lançamentos pelos jornais ou pelos perfis dos escritores nas redes sociais e me antecipo ao mercado. Foi assim com os poemas de Fernando Pessoa declamados por Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Até agora a Saraiva ainda não tem o produto disponível e a maioria das livrarias ainda não recebeu o DVD. 

A vendedora me olhou com perplexidade quando perguntei sobre o livro. Ela parecia desconhecer a autora, um dos expoentes da literatura brasileira contemporânea. Foi consultar o terminal. O livro acabara de chegar. Estava na caixa no subsolo da loja. Comprei o primeiro exemplar do livro recém-chegado.

Um dileto amigo que me acompanhava e que é ávido comprador de livros (e leitor) me inquire:

- Você gosta tanto dela assim para comprar um livro sem sequer folhear e dar uma lida em alguns trechos? Você sabe do que se trata a estória?

Respondi afirmativamente às duas questões. 

Encantei-me com a prosa de Tatiana Salem Levy em "A Chave de Casa". O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 por melhor autor estreante. A forma narrativa, o estilo, o despojo na escrita me cativaram. Virei fã e leitor fiel. 

Em seu novo livro, a escritora trata de temas sociais e volta a dialogar com a memória como forma de compreender quem somos. Tatiana parece indagar - através de seus personagens - sobre a importância do passado na formação do nosso caráter, na construção de uma personalidade que não é inovadora e inédita, mas um somatório de fatores familiares que são transportados de geração em geração ainda que de forma silenciosa e não deliberada.

Estou a digerir as impressões sobre a saga de Ana, protagonista de Paraíso. Parece-me que o novo livro é inferior aos dois anteriores, mas não tenho a certeza. Ana refugia-se num sítio em Nogueira, na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro em busca de paz para escrever um romance histórico e em busca de isolamento para lidar com o potencial contágio de AIDS, após uma noitada irresponsável. O título pode se revelar contraditório, pois a calmaria da serra não espanta os fantasmas interiores de Ana. E ela desfia-os ao longo do romance.

A prosa leve de Tatiana é envolvente e o livro, que como a boa literatura brasileira não se tornará um best seller, vale a leitura. E a discussão. A esta discussão retorno em outro post.

PS: clique no tag abaixo para ler mais sobre Tatiana Salem Levy.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Epígrafe - XXXII



instagram @rbueloni


"La vida es un enorme álbum donde ir construyendo un pasado instantáneo, de colores ruidosos y definitivos."

Alejandro Zambra. La vida privada de los árboles. 4a. ed. Barcelona : Editorial Anagrama, 2014, p. 69-70.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Barquinhos

instagram @missuniversoproprio

Buscou um banco que estivesse sombreado por uma ampla copa de árvore e sentou-se à beira-mar, num recuo onde barcos repousavam depois de uma madrugada de trabalho. Nunca fora bom pescador, nem de homens, nem de mulheres, e riu de si mesmo com a péssima piada. Lembrou de Santiago, o velho pescador cubano imortalizado por Hemingway e que ficou oitenta e cinco dias sem pegar um peixe.  Quando fisgou um enorme marlim-azul, este foi devorado por tubarões. Santiago chegou à praia depois de dois dias e duas noites, cansado, exausto e com apenas um esqueleto para comprovar seu feito. Azar? Ele não acreditava nestas coisas de azar, de sorte, de tarô, de horóscopo, de almas gêmeas. Talvez ele fosse incompatível com as mulheres que se aproximavam dele - ou das mulheres das quais se aproximava. 

Estava novamente só. A brisa cálida lhe acariciava o rosto, mas a escuridão lhe dominava. Nem a luz do meio da tarde era capaz de desamarrar a feição fechada e amuada. O silêncio era cortado apenas pelo leve balançar dos barquinhos e das pequenas ondas batendo na mureta que ladeava o calçadão naquele braço de mar, na entrada do porto dos pescadores. Seu interior ainda estava desarrumado, entristecido pelo silêncio agressivo dela. Viajara na vã tentativa de se desvencilhar de um breve passado que lhe incomodava. Sucumbira diante do fracasso do relacionamento. Mais uma vez não deu certo, repetia à exaustão ao longo dos dias. Os repetidos desastres lhe cansavam a ponto de lhe afetar fisicamente. Perdera três quilos desde que ela com secura e frieza lhe dispensara. O dilema se apresentava novamente e imaginara que a perseverança fosse uma prova de amor capaz de demovê-la da ideia, de tirá-la do isolamento, como se ele fosse despachado para uma ilha distante, um exílio imposto por ela, uma censura que mais se assemelhava a um campo de refugiado supervisionado pela ONU. 

Ela se recusara a atender suas ligações, recusara seus presentes, seus mimos, seus gestos carinhosos, seus pedidos de desculpas, sua ida em vão até o portão da casa dela na serra e da qual ela jamais soube, pois diante da campainha, ele recolheu a mão, enfiou a no bolso e recuou cabisbaixo. Mudou de ideia no dia seguinte. Resolveu escrever uma longa carta, certo de que ela a leria. Então por que perder tempo escrevendo?, perguntou-se várias vezes. Porém, insistente, escreveu a carta. Trazia consigo no bolso, dentro de um belo envelope bege, comprado especialmente e escolhido na melhor papelaria da cidade. Ela gostava de receber cartas escritas à mão. Custou-lhe escrever, teve que caprichar na letra, a mão doeu-lhe. Não estava mais acostumado a escrever à mão. Não escrevia longos textos à mão desde as provas do mestrado. O esforço vai ser recompensado, repetia silenciosamente em forma de mantra motivacional. Insistiria mais uma última vez. Era preciso. Era preciso debelar a escuridão que lhe acometia e lhe murchara. 

Tirou uma mariola do bolso e deu duas mordidas. Olhou fixamente o horizonte e suspirou, deixando o aroma do sal invadir-lhe as narinas. Os barquinhos permaneciam em suave dança com as ondas que lhes conduziam. A dança era cadenciada, ritmada, como a vida. No bolso de trás da calça estava a carta, num envelope agora amassado. Olhou para a caligrafia e o nome dela. De uma vez, sem hesitar, rasgou a carta ao meio. Levantou-se e lançou as duas metades na primeira lata de lixo que avistou.