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sábado, 7 de março de 2015

Vinicius de Moraes : Senhor, Eu não sou digno






SENHOR, EU NÃO SOU DIGNO



Para que cantarei nas montanhas sem eco
As minhas louvações?
A tristeza de não poder atingir o infinito
Embargará de lágrimas a minha voz.
Para que entoarei o salmo harmonioso
Se tenho na alma um de-profundis?
Minha voz jamais será clara como a voz das crianças
Minha voz tem a inflexão dos brados de martírio
Minha voz enrouqueceu no desespero…
Para que cantarei
Se em vez de belos cânticos serenos
A solidão escutará gemidos?
Antes ir. Ir pelas montanhas sem eco
Pelas montanhas sem caminho
Onde a voz fraca não irá.
Antes ir – e abafar as louvações no peito
Ir vazio de cantos pela vida
Ir pelas montanhas sem eco e sem caminho, pelo silêncio
Como o silêncio que caminha…


(Vinicius de Moraes. As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 37)

 

terça-feira, 25 de março de 2014

Inatingível, de Vinicius de Moraes



INATINGÍVEL
Vinicius de Moraes

O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou vôo
E mergulhou no espaço.

Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.

Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.

Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.


domingo, 10 de novembro de 2013

Barcarola, de Vinicius de Moraes



BARCAROLA
Vinicius de Moraes 


Parti-me, trágico, ao meio
De mim mesmo, na paixão.
A amiga mostrou-me o seio
Como uma consolação.

Dormi-lhe no peito frio
De um sono sem sonhos, mas
A carne no desvario
Da manhã, roubou-me a paz.

Fugi, temeroso, ao gesto
Do seu receio modesto
E cálido; enfim, depois

Pensando a vida adiante
Vi o remorso distante
Desse crime de nós dois.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 113)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tarde, de Vinicius de Moraes



TARDE

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 47)



Pinço um único verso:

E te plasmou na visão da manhã e do dia

A visão da manhã espelha a tua beleza, plasmada na luminosidade nascente, na explosão de cores, num espetáculo diário. E gratuito. Há comparação mais bela do que esta do poeta?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Poesia Completa de Vinicius de Moraes



O Projeto Brasiliana USP disponibilizou a obra poética completa de Vincius de Moraes. As obras estão digitalizadas e acessíveis no site da biblioteca. Trata-se de mais uma etapa na digitalização de obras importantes para a cultura brasileira. Organizadas em ordem cronológica, a poesia de Vinicius fica acessível a pesquisadores e ao público em geral. Os arquivos estão em formato pdf e podem ser baixados e arquivados.

A Brasiliana USP é um projeto da Reitoria da USP e é depositária do fantástico acervo de José e Guita Mindlin, que dão nome à biblioteca física. A digitalização do acervo permite o acesso amplo a documentos e livros antigos, fonte inesgotável de pesquisa sobre a cultura brasileira.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Introspecção, de Vinicius de Moraes


 

INSTROSPECÇÃO

 
 

Nuvens lentas passavam

Quando eu olhei o céu.

Eu senti na minha alma a dor do céu

Que nunca poderá ser sempre calmo.

 
 

Quando eu olhei a árvore perdida

Não vi ninhos nem pássaros.

Eu senti na minha alma a dor da árvore

Esgalhada e sozinha

Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

 
 

Quando eu olhei minha alma

Vi a treva.

Eu senti no céu e na árvore perdida

A dor da treva que vive na minha alma.

 
 

(As Coisas do Alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 39)

sábado, 3 de novembro de 2007

Vinicius de Moraes : Revolta

REVOLTA

Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada.

Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.

De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 65)

sábado, 20 de outubro de 2007

Vinicius de Moraes : Suspensão

SUSPENSÃO

Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.

(As coisas do alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 103)

A música longínqua de uma valsa para embalar o sonho na noite em que a lua volta a despontar no céu claro, ainda tímida, ainda crescente, mas na noite quente, ela dá o ar da graça e leva consigo o beijo, o pensamento, o carinho. Distância? Não há distância para sentimentos puros.

sábado, 7 de julho de 2007

Vinicius de Moraes: Soneto de Inspiração

SONETO DE INSPIRAÇÃO

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar - soubesse eu ver

Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que é pura demais para sofrer.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993,p. 101)

As palavras de Vinicius indicam o caminho do verdadeiro e sincero amor, que poderia não ser apenas o amor romântico, mas também o amor fraterno da amizade: Amo-te pelo que és. Sei que estou sendo repetitivo, mas são variações sobre o mesmo tema. Variações que se deram de forma inadvertida...ou seriam meras coincidências?

domingo, 24 de junho de 2007

Poesia: Vinicius de Moraes

EXTENSÃO

Eu busquei encontrar naextensão um caminho
Um caminho qualquer para qualquer lugar.
Eu segui ao sabor de todos os ventos
Mas somente a extensão.

Chorei. Prostrado na terra eu olhei para o céu
E pedi ao Senhor o caminho da fé.
Noites e noites foram-se em silêncio
E somente a extensão.

Quis morrer. Talvez a terra fosse o único caminho
E à terra me abracei esperando o meu fim
Porém tudo era terra e eu não quis mais a terra
Que era a grande extensão.

Quis viver. E em mim mesmo eu busquei o caminho
Na ansiedade de uma última esperança
Eu olhei - e volvi à extensão desesperado
Era tudo extensão.

Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo... ...são os Inconsoláveis

- Águias acorrentadas pelos pés.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 33)

Águias são seres que voam alto, um vôo suave, artístico. Certa vez tive a oportunidade de presenciar uma águia de cabeça branca, a famosa Bald Eagle, símbolo dos EUA, voando livremente na natureza. É um espetáculo único. Uma pintura de asas que desenha curvas e linhas no céu.

Somos como águias e devemos voar, não rastejar. Alçar vôos em busca de objetivos altos e nobres, objetivos e sonhos arrojados. Cortemos as correntes que nos amarram e voemos como águias.

domingo, 25 de março de 2007

Poesia: Vinicius de Moraes

Comentários não são necessários. Não sou poeta, mas sinto a dor. Não sou poeta, mas busco algo intangível que ainda não conquistei. Não sou poeta, mas mergulho no infinito, no profundo do eu, incansável à procura de algo.


O POETA

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado ao sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes

Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.

O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.

O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.


Vinicius de Moraes. (As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 63-4.)

domingo, 11 de março de 2007

Ouvindo o silêncio

O poeta é o ser humano capaz de congelar no papel a descrição de uma situação universal com precisão única. Definição assaz acadêmica, ou técnica. Mas trazendo para o chão de nós mortais, o poeta capta o sentimento e consegue descrever o que sentimos de forma irretocável.

Nesta tarde de domingo, que seguiu-se a uma linda manhã de sol, vieram as chuvas típicas: fortes e rápidas. Peguei uma obra de Vinicius de Moraes e passei a folheá-la. Procurava algo para o blog. Mas queria algo que me dissesse alguma coisa. E encontrei. Encontrei algo que disse o que jamais conseguiria dizer. Vasculho os poetas e sempre – por incrível que possa parecer – me deparo com um poema que retrata com beleza o sentimento ou o momento que quero comentar. É algo singelamente fascinante descobrir palavras para descrever algo.

Foi assim que cruzei com TARDE, que é muito adequado para uma tarde de domingo. Momento de depressão para alguns, momento de alegria para outros. Os três primeiros versos são simples e belos, mas marcantes. “Meu espírito te sentiu”. Ouvir pelo espírito a emoção silenciosa. Ouvir no silêncio a dor e o chamado, ouvir o pensamento. Com a palavra, Vinicius de Moraes.

TARDE

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.


(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 47)

Meu caro leitor, tenta ouvir no silêncio a inquietação de uma alma a quem se quer bem. Se conseguirdes, saberás que quem fala é teu coração.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Leitura de Carnaval

Comprei dois livros para me acompanhar neste carnaval. Minhas opções:

- Contos Fluminenses, de Machado de Assis. Uma bela edição da Martins Fontes (2006) que integra a Coleção Contistas e Cronistas do Brasil. Folheando o volume chamou-me atenção o conto "Confissões de uma viúva moça". Há uma excelente introdução e notas. Gosto destes extras que permitem ao leitor compreender melhor o autor, o contexto e a origem do texto. A leitura se torna muito mais enriquecedora.


- As Coisas do Alto, de Vinicius de Moraes. Poemas em edição da Companhia das Letras (2003). Leitura para ser degustada com calma e regar os lindos finais de tarde, ao por do sol. Deixo uma pitada de Vinicius.

INTROSPECÇÃO
Nuvens lentas passavam
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo.


Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi nem ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos.


Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida
A dor da treva que vive na minha alma.