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quinta-feira, 27 de março de 2025

Inspiração e exemplo

 

Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro - @rbueloni


Adentramos o mês de março e é impossível não lembrar do início da pandemia. Lá se vão 5 anos desde que fomos obrigados a manter o distanciamento social, ficamos trancados em casa, fomos impedidos de viajar e explorar o mundo. A vida se reduziu a espaços limitados. Todo ano relembro do início da pandemia e do mundo distópico que se materializou diante de nossos olhos. Muitos sucumbiram. Outros ignoraram. Outros ainda – acho que a maioria – saíram mais fortes, mais conscientes da nossa fragilidade, mais gratos pela vida.

 

Neste início de ano percebi um outro dado que tem me levado a uma reflexão mais profunda e a uma mudança de atitude. Percebi que a distância temporal entre a virada do século e o tempo provável que me resta de vida são equidistantes. 25 anos transcorreram desde o início do século e do bug do milênio (aquela catástrofe que não se concretizou) até o dia de hoje. E somando 25 anos à minha idade, provavelmente em 2050 estarei próximo da minha finitude. Isto me incomoda? Isto me assusta? Nem um pouco, apenas me fez refletir. O tempo é fugaz e há certas coisas que não vale a pena postergar, há certas atitudes que preciso mudar e há certos momentos em que não devo me calar, não devo deixar para depois, pois talvez não  haja um depois.

 

Se tudo parece-lhe confuso, calma que vou tentar me explicar e unir os dois parágrafos acima.

 

A pandemia deixou suas marcas e mudou alguns hábitos. O trabalho remoto passou a ser algo usual, a preocupação com a saúde deixou de ser algo a ser adiado, novas tecnologias foram incorporadas e as pessoas foram tomadas por um desejo constante de viajar e explorar e descobrir novos lugares. O dinheiro passou a ser utilizado de forma mais desapegada. Guardar para sempre? Não, gastemos um pouco, pois não se sabe quanto tempo teremos até a próxima pandemia.

 

O fato é que alguns dos nossos hábitos mudaram. O nosso mindset – para usar um termo moderninho – mudou. Tenho viajado muito mais. Prefiro viajar e adiar a troca de um veículo. Fiz um check up e confirmei o que já suspeitava: tenho pressão alta e o colesterol também. Vou começar a usar medicamento de uso contínuo. Sinal da idade. Passei a fazer caminhadas 3 vezes por semana e agora vou iniciar treinos de força, ou a boa e velha academia. Estudos demonstram que estes treinos ajudam a preservar a memória, além de garantir um envelhecimento de qualidade.

 

E o que isso tem a ver com inspiração e exemplo e pandemia e novos hábitos?

 

Dizem que as palavras movem e o exemplo arrasta. O exemplo arrasta e inspira novos hábitos. Muitas vezes estes novos hábitos são introduzidos por inspiração de pessoas que nos cercam. Algum amigo que faz exercício e te convida para ir à academia, por exemplo. Ou aquela amiga que posta todo dia um treino na academia. Estes exemplos me motivaram a começar com as caminhadas matinais. E ao invés de apenas seguir o exemplo, resolvi agradecer e contar para estas pessoas que o exemplo delas me motivou.

 

Enquanto pensava neste texto, lembrei-me de um exercício que fiz de escrita criativa numa oficina da Terapia da Palavra. A proposta do exercício era escrever uma carta para um chefe, um familiar, alguma pessoa que tenha sido importante influência em nossas vidas. Resolvi escrever a carta para meu primeiro chefe, Dr. Luiz Vergueiro, com quem aprendi muito sobre o trabalho do advogado e a postura profissional. Achei que ia ser difícil escrever, mas percebi que ao me debruçar sobre aqueles anos iniciais de estágio, muitos detalhes vieram à mente. A carta nunca foi enviada, mas sugeriram-me que a enviasse. Percebi como fui inspirado pelo exemplo e como aprendi com aquele sócio de um grande escritório de São Paulo.

 

E novas inspirações têm vindo neste começo de ano. Quem sabe planejar um período sabático em algum país distante? Quem sabe virar um nômade digital e perambular por países do leste europeu? Até brinquei com uma amiga que quero ser igual a ela quando crescer...ou melhor, quando envelhecer.

 

A mudança deste começo de ano foi que comecei a falar mais, a agradecer as pessoas, a compartilhar estas inspirações, a elogiar condutas. Parei de calar e passei a falar, ainda que possa parecer besteira ou que seja um elogio banal e corriqueiro, ainda que seja uma aparente coincidência ou fruto do acaso. Você nunca sabe quando um elogio ou uma palavra amiga pode mudar o dia – e quiçá a vida – e o ânimo de uma pessoa. Por que não olhar ao redor, observar e deixar-se levar por bons exemplos? O tempo é curto. A vida é curta. Sejamos pessoas que semeiam sorrisos e esperança. Afinal, a esperança caminha de mãos dadas com a alegria. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Reflexão

 


Nos encontros, sempre é mais feliz aquele que ama mais. Valorize os encontros. Valorize o tempo. Valorize o presente.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fantasma


www.emiliesugai.com.br - Cinema de Sombras


Não me tenhas como um fantasma do passado a assombrar teus dias, tuas tardes preguiçosas, tuas madrugadas insones, tuas noites solitárias, tuas manhãs de ressaca. Não sou eu a desfazer os espirais de fumaça que fluem de seus cigarros, assoprando as belas esculturas que se desenham no ar. Sei que está só e te observo de longe, em pensamentos e desejos, com a boca costurada pela censura que me impusestes. Não me procures mais, chega! O grito escrito num email saltou do fundo da garganta e me ensurdeceu. Calei-me como pediste por quase dois anos, mas uma serena vontade me consome e sou tomado pela impotência de não resistir. Quero te escrever, mas temo que seja tido como um fantasma, daqueles esqueletos do fundo do armário, esquecidos e que quando revelados assombram, causam taquicardia, suores, um forte aperto no coração.

Não quero ser um pesadelo, não quero tirar teu sono, nem tua paz - se é que em algum momento nos últimos tumultuados meses atingistes a paz de espírito. Do jeito que te conheço, ouso dizer, sem medo de errar, que teu interior inquieto e ansioso, extremamente analítico jamais lhe concedeu a paz interior.

O mundo é muito turbulento para ti. O mundo está em constante mutação, tanto o material como o espiritual e tentas captar tudo, usas do conhecimento para tentar atingir o impossível controle sobre o destino, sobre a razão e o mais utópico: sobre o coração e os sentimentos. Suas tentativas de negar e rejeitar o sentimento despertado, por mim confessado, foram em vão. Negaste de forma reiterada, acreditando que o silêncio me induziria ao erro. A negação se transformou em agressão verbal e escondida por detrás de um colete à prova de flechadas do cupido. Fingiu que estava intacta ao que fora despertado no seu âmago. Jamais acusaste o golpe e sei que és orgulhosa por demasia para reconhecer que se apaixonara por alguém que lhe faria fugir e correr e correr. A contradição posta lhe embaralhou o raciocínio e a filosofia foi escassa, insuficiente, não lhe dando os instrumentos para dissecar a sua própria alma e tomar de conselho a lição primordial: conhece-te a ti mesmo! 


Falhaste e me condenaste ao limbo das almas penadas, dos fantasmas do passado. Deixei de ser um sonho bom para me tornar um pesadelo dos mais traumáticos e inquietantes. Não sou um fantasma e não quero morrer como fantasma. Será que em algum momento do futuro, à luz do dia, o espectro se transformará de novo em um inofensivo amigo?

terça-feira, 6 de maio de 2014

O penico




Poderia ser um penico, daqueles de ágata branco e com borda preta, igual ao que existia na casa de minha avó e em tantas casas de avós e fazendas pelo interior do Brasil. Um penico que, depois que as crianças cresciam, era usado para brincar na banheira para o desespero de minha avó que achava inconcebível usar o penico como baldinho ou como pequena bacia para derramar água sobre os cabelos.  Penico que perdeu seu uso com o tempo e virou objeto de decoração, com tom nostálgico de um passado onde o tempo parecia ter outro ritmo, onde a interação das pessoas era feita de forma direta, sem o intermédio de aplicativos e pequenos aparelhos eletrônicos.

Poderia ser um penico só para você. Um penico para que você despeje tudo que quiser, jogue todo o lixo, todo desabafo, todo o choro, toda a raiva, todo e qualquer excremento que queira se livrar e lançar fora. Meus ouvidos poderiam ser um penico e quem sabe, de tanto lixo, seria capaz de perder a paciência com você, de me irritar e desencantar. Passaria a te evitar e você descobriria que o amigo não existia.


Mas há um sério risco em ser penico, há o outro lado da moeda. Lixo pode ser transformado em adubo e adubo pode servir para fertilizar jardins e terra estéril. E da terra improdutiva, após fertilizada, podem nascer flores e árvores para acolher pássaros a cantar. E o que era resíduo expurgado por você, posso transformá-lo em flores e sorrisos. Há o risco do penico se tornar belo e indispensável. E há riscos que vale a pena correr! 

*  *  *  *

NOTA: Quando escrevi este texto e fui procurar uma foto para ilustrá-lo, descobri que o google só retorna a busca para "pinico". Bem, fui ao dicionário com minha ortografia posta em xeque e confirmei que "pinico" não existe. A grafia certa é "penico". Então meu caro leitor, se passar por aqui, lembre-se que "pinico" não existe, ou melhor, só existe como uma forma forma popular de referir-se ao verbo "pinicar" (1. picar com o bico; 2. provocar comichão; 3. beliscar, cutucar).



sábado, 28 de dezembro de 2013

Poesia: VIRADA DE ANO



VIRADA DE ANO

Não me rasgue com suas fotografias
Não me derreta com suas joias
Não me destrua com suas cartas
Não me apague dos teus sorrisos

Mantenha-me
Preserve-me
Deposite-me
Guarde-me em algum canto do teu coração.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sentimento paradoxal


Nada é mais paradoxal do que o fogo que arde sem se ver, não queima, mas causa dor. A dor não deveria existir onde há amor, mas ela vem sorrateira, inesperada, como um ladrão na calada da noite e rouba-nos o sono tranquilo, presenteando-nos com a insônia, a inquietação, a impotência.

A dor que rouba a voz, desorganiza as palavras, paralisa-nos diante do sonho que se desfaz. Só resta derramar as lágrimas que molham o travesseiro, lágrimas silenciosas, invisíveis, inaudíveis.

Os gritos não são ouvidos, as ideias dançam sem harmonia e não há argumento a restabelecer a racionalidade do erro, a rebobinar o relógio para o dia anterior, para a semana anterior, para antes daquele e-mail fatídico e fatal. 

O balão estourou e a dor se instalou. O pêndulo oscilou da alegria incontrolável para a tristeza extrema. Como pode ser o amor tão cruel, tão paradoxal? Como pode a vida ter-lhe roubado sem dar a chance da despedida? Como pode a vida deixar a injustiça prevalecer quando o amor atraía a ambos, pintava sorrisos e iluminava os dias? Como?

Tão paradoxal o amor! Um dia alegra, faz suspirar, faz sonhar, inspira, rejuvenesce. Noutro dia açoita, maltrata, enxota, abandona, castiga.

Somente a nós compete solucionar o paradoxo.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Conto: Final de Ano


FINAL DE ANO


Curioso como o medo se transforma com o tempo, ele costumava dizer e narrava sua própria história de vida para ilustrar sua tese.  Quando ele a conhecera, tinha medo, um verdadeiro pavor que lhe tirava o sono, de que não iria continuar a conversar com ela no dia seguinte. Era temeroso de que iria perdê-la, sem mais nem menos, a qualquer momento, de que ela iria se irritar com ele, iria se cansar dele, e de sopetão lhe dispensaria, diria com todas as letras que não queria mais compartilhar momentos com ele.

Aos poucos os dias viraram meses, os meses períodos mais longos, e estes períodos alguns poucos anos. Deu-se conta de que o medo que sentia, na verdade, era um sentimento possessivo e egoísta; queria ela só para ele e temia perder uma exclusividade da qual nunca gozara - nem poderia desfrutar da exclusividade. Estava tomado de uma paixão aprisionadora, apesar de jamais ter dividido com ela este impulso. Tinha ciúmes que lhe arrasavam, mas engolia silenciosamente toda paixão descontrolada. 

Seu egoísmo possessivo cedeu lugar a uma amizade que julgava mais verdadeira, sincera e desinteressada.  Continuava a maravilhar-se com o fato de sentir-se tão próximo de alguém que se encontrava a quilômetros de distância e com quem conversava pessoalmente apenas esporadicamente. Domou as paixões desenfreadas - sem deixar de admirá-la -, e deu vazão ao carinho acolhedor, ao abraço terno, ao colo consolador, às palavras energizadoras, ao sorriso deslumbrado, ao ouvido atento ao mais singelo sinal de preocupação ou aflição por parte dela. Bastava uma linha fora do lugar numa mensagem eletrônica que ele pressentia que algo lhe afligia. A sensibilidade se aguçara ao longo do tempo e o medo se converteu em amizade segura.

Pacientemente, apaziguou o medo e pôs-se escutá-la. Ela sabia como delicadamente acalmar o coração temeroso do pobre homem e ajudá-lo a superar a insegurança. Bastavam algumas poucas frases, algumas poucas palavras que brotavam do interior daquela mulher para a paz reinar.  Ele, por sua vez, nunca hesitou em lhe estender a mão e a manifestar com gestos e palavras a importância de sua presença em sua vida.

Ele aprendeu, como fez todos os finais de ano desde que a conhecera, a celebrar silenciosamente esta amizade fruto de respeito e admiração, fruto de carinho fraterno, fruto de uma sintonia que o universo presenteara a ambos. Repetirá neste ano que finda o brinde com um sorriso estampado no rosto e dirigirá a ela palavras carinhosas e o agradecimento por todas as memórias vividas e por mais um ano que se passou.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Quantos natais você ainda têm?


Estendo um afetuoso convite a você, meu querido leitor, para caminhar ao meu lado pelas linhas a seguir. Volte no tempo. Reative na memória os natais da infância, na casa da avó ou da tia, com toda a família reunida, a noite quente, os apertos na sua bochecha, os comentários repetidos de como você cresceu, como você está grande, como você está bonito, o olhar comprido lançado ao presente que o primo ganhou e que você julgou ser melhor que o seu presente, a cardápio repetido e aquele peru que nunca que lhe agradou - mesmo com molho, o refrigerante à vontade - afinal era noite de festa -, não ter que ir para a cama cedo e poder ficar brincando e correndo e jogando bola com os primos. 

Quando se consulta a memória sobre estes eventos, há uma avalanche de bons sentimentos e lembranças. Lembro dos meus natais quando era criança com enorme carinho e nostalgia. Não me refiro a uma nostalgia negativa e pejorativa, saudosa de tempos que não voltam; refiro-me a uma nostalgia boa, à lembrança daqueles que já partiram e não convivem mais conosco. 

Com o passar dos anos, a maturidade batendo à porta, costumo deixar o olhar varrer a sala na noite de Natal, olhar silencioso e atento, e lembrar dos meus avós, tios e parentes que acompanham a celebração junto do Menino Deus. A prece brota do coração, imperceptível aos presentes, mas vigorosa e eleva-se até os céus. 

Não consigo imaginar a noite de Natal sem os familiares ao meu redor. Gosto do encontro, gosto dos reencontros e do momento. Gosto de congelar as imagens que permaneceram vivas na minha mente enquanto eu viver e que manterão vivos estes entes queridos. Fotos captadas pelo olhar e álbuns de fotos que são revistos por todos. Alguns podem deixar os olhos marejarem na deliciosa viagem pela memória, mas todos felizes ao rememorar um passado do qual fomos parte.

Não sei quantos natais terei ainda. Aos 40 anos, a vida deixa de parecer infinita, mas isto em nada desanima ou suga a seiva vital. Isto apenas traz consigo a serenidade de saber que sou uma criança caminhando ao encontro do Pai, ao encontro do pequeno menino que nasceu numa manjedoura numa noite como aquela. Em Belém, uma família estava reunida. Agora, somos nós que nos reunimos, cada um com os seus familiares.

Um gesto é mais eloquente do milhares de palavras. Aproveite a noite de Natal para dar aquele abraço, responder ao cartão de natal (ou os votos de feliz natal recebidos por email), enviar aquelas palavras de carinho, abrir um sorrisos todo especial ou rezar por aquela pessoa tão querida - ainda que ela não saiba ou tenha se esquecido de você. A noite de Natal é mágica e é capaz de transformar cada gesto singelo em um infinidade de bençãos e de alegria duradoura.

Um Feliz e Abençoado Natal a todos os amigos e leitores deste blog e a todos que nos fazem companhia nesta longa jornada!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sorrir para o mundo



"Não prives o mundo do teu sorriso. Se não consegues sorrir; se tudo ao teu redor lhe parece cinza, escuro, olhe para quem lhe sorri e deixe-se contagiar.”


A frase não foi extraída de algum cartão da Hallmark – aqueles cartões da companhia americana com belas frases e que devem ter saído de moda com a obsolescência das cartas físicas -, ou de algum livro do Gabriel Chalita com pensamentos filosóficos, ou de algum calendário messiânico. Tampouco veio dentro de um biscoito da sorte chinês, mas neste caso teríamos um ponto de partida para um excelente conto (que está no forno).

Inventei-a. Olhar fotos, deixar a memória varrer o arquivo mental de momentos bem guardados, têm este efeito. Acaba por produzir pensamentos em forma de frases que encontrarão um destino certeiro. Alguém precisará destas palavras. Ou pelo menos, servirão de inspiração para alguns textos.

Sorrir para o mundo é contagiante. E deixar o mundo sorrir para você também.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Rede Social




A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010) é um daqueles filmes que se assiste por causa das boas críticas ou porque você é um usuário do facebook e ficou curioso sobre a estória. É considerado um dos sérios favoritos ao Oscar deste ano, mas se você assistiu o filme, pode-se perguntar: o que este filme tem de tão especial?

Saí do cinema com a sensação de ter visto um "filminho", algo nada de especial. Minha vontade era escrever um post sobre o filme logo no dia em que o vi, porém não queria estragar a estória e resolvi rever minha primeira impressão. Fui ler as críticas e conversei com algumas pessoas que entendem de cinema. Todos foram unânimes ao elogiar o filme. Isto me fez pensar: o que não estou vendo neste enredo?

O que mais me marcou de inicio foram a primeira e a última cena do filme.

Num bar em Boston, Marc Zuckerberg (Jesse Eisenberg) conversa com a namorada Erica Albright (Rooney Mara). Ele é aluno de Harvard; ela é aluna de Boston University. Uma conversa em ritmo alucinante, um verdadeiro bombardeio por parte de Zuckerberg acaba por levar Erica a ir embora e terminar o namoro. Nota-se o egocentrismo de Zuckerberg, a sua arrogância, o sentimento de poder infinito, um semi-deus que despreza sentimentos e revela-se antissocial. Ao levar o famoso fora da namorada, ele se revolta e vai à vingança. Daí surge um site que evolui para a ideia do facebook.

Uma pequena divagação. Boston é uma cidade de elite, com várias universidades de primeira linha, tais como Harvard, MIT, Boston University e Boston College. A rivalidade é grande e os alunos de Harvard consideram-se superiores. Apesar do lindo campus e da qualidade do ensino, o ambiente é de competitividade extremada, uma verdadeira selva onde proliferam sujeitos arrogantes e individualistas, dispostos a qualquer coisa para superar o concorrente. Zuckerberg é o típico aluno, onde a ética vem em segundo plano.

Esta cena dá o tom do filme. Zuckerberg vai atrás do seu grande projeto e não percebe a oportunidade que perdeu ao dispensar Erica. Revisitei a cena e o enredo do filme. Ao longo de seu caminho, o gênio Zuckerberg tenta passar a perna nos irmãos Winklevoss e Divya Narendra, além de seu melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin.

Os diálogos revelam a frieza e a indiferença de Zuckerberg, isolado numa torre de marfim. A ironia está exatamente no fato de que Zuckerberg criou a maior rede social do mundo sendo totalmente avesso e inadequado ao convívio social. Seu egocentrismo e egoísmo o impedem de perceber que o mundo não orbita ao seu redor, que o ser humano é um animal social. 

Na cena final, Zuckerberg adiciona Erica Albright como amiga no facebook. Encarando a tela do computador fixamente vai clicando "f5" para atualizar a tela na esperança de que Erica tenha aceito seu pedido. A cena pode parecer banal, mas tem a poesia dos tempos modernos, da interação via internet e dos sentimentos que afloram num sujeito aparentemente indiferente à realidade que o circunda. 

Vou ver o filme novamente, com um novo olhar. O filme não trata da criação do facebook, mas de relações humanas e do que realmente vale a pena.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Epígrafe - V

A foto veio daqui.


"O riso é o sol que expulsa o inverno da face humana."

Victor Hugo


Mais do que mil palavras, um sorriso sincero faz exatamente o que diz Victor Hugo. Quantas vezes, no meio de uma tarde de trabalho, um simples "oi", uma frase sincera, nos presenteiam com um sorriso largo e que reverbera na alma?

É curioso como num mundo tão corrido, tão atulhado de tarefas e compromissos, uma pequena pausa no meio da jornada tem o condão mágico de trazer consigo um sorriso capaz de mudar o humor. A face humana, ao sorrir, resplandece e irradia e contagia com energia positiva e viva.

Um cumprimento cordial acompanhado de um sorriso abre portas e deixa uma marca nas pessoas do nosso convívio. Pense nisso e sorria ao dar um "bom dia" ao colega de trabalho, ao porteiro do prédio, ao atendente da cafeteria, a alguém que está do seu lado.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Crônica: Palavras caladas


PALAVRAS CALADAS



Não sei o que dizer.

Há momentos em que não sei o que te dizer. As palavras ficam engasgadas, sem sentido, caladas, embaralhadas. Qualquer coisa que tente dizer fica parecendo piegas, como aquelas imagens de péssimo gosto, com cores exageradas e despidas de qualquer realidade. As palavras parecem ingênuas, tolas. E calo-me. Fecho-me como uma ostra a respeitar o teu silêncio.

Penso em te ligar, mas não sou muito bom ao telefone. Nunca fui. Tremo com medo de não saber o que dizer, de me perder e tropeçar, de engasgar.

Busco e insisto nas palavras numa tentativa de organizá-las para dizer como és importante, como vieste trazer algo que não tinha. Ainda que não te veja, ainda que não possa contemplar este teu olhar que me estremece, tenha a certeza de que a culpa é sua. Só sua.

Quero compartilhar esta alegria que borbulha no meu interior; mas não sei como. Sinto-me um invasor do teu espaço, do teu silêncio. E assim, permaneço calado, apenas pensando.

Eis que surge de surpresa, como a adivinhar meus pensamentos, como uma cigana a mirar fixamente numa bola de cristal. Nunca precisaste de um apetrecho destes para me decifrar. Sempre tivestes o dom da telepatia, a sensibilidade para saberes o que me aflige e o que me inquieta. Dei-te espaço no meu coração, na minha existência, e preencheste um vazio que imaginava condenado a sentir e a vivenciar.

Como a leve brisa que sopra do mar numa tarde quente e abafada, vieste refrescar minha pele delicadamente, com um toque único. Como o nascer do sol, numa manhã fria, vieste aquecer minha alma e alumiar minha face sisuda. Surgiste inesperadamente, mas permanecerá eternamente no lado esquerdo do peito.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ouro



Metal precioso. Ambicionado por conquistadores e desbravadores de novos continentes. Desejado por garimpeiros anônimos espalhados por veios de rio e minas nos mais diversos cantos do mundo. Encontrado, é derretido no cadinho, em altas temperaturas, para ser forjado delicadamente nas hábeis mãos de um ourives. Da natureza bruta, camuflado, enterrado, até a vitrine de uma imponente joalheria, o metal sempre reluz e preserva suas qualidades e valor.

Uma pequena pepita de ouro com a qual se depara ao acaso. Garimpada fruto da conjunção de fatores alheios à vontade; só compreensíveis com o passar do tempo. De repente, no meio de uma multidão de tantas e tantas pessoas, um olhar reluz mais do que ouro. Um olhar que é ouro puro. Ora, ouro amarelo, ora, ouro branco; mas sempre ouro, sempre valiosíssimo.

Ouro que reflete a luz do sol e dissipa-a para espalhar o calor e a claridade por todos os cantos. Atinge, com seu brilho, os recantos mais escuros, despertando no olhar um estado de encantamento pela beleza que irradia.

O ouro pode ser um vil metal, um simples metal precioso. Seu valor não se compara ao de uma pessoa que, com gestos desinteressados, irradia luz, calor, brilho e reflete sempre a luz do sol para iluminar e alegrar. Sempre para iluminar!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma provocação de Milton Hatoum


"Caminhou por Copacabana, parou para comer no bar do primeiro encontro com Lázaro, e passeou na beira da praia até o Forte, murmurando o nome de cada rua, reconhecendo um e outro boteco e restaurante. No caminho de volta foi abatida por uma tristeza atroz: não se lembrava de nenhum amigo. Depois pensou: desconheço a amizade."

(Milton Hatoum. "Barbara no inverno" in A Cidade Ilhada. São Paulo : Companhia das Letras, 2009, p. 87)


O conto de Milton Hatoum é trágico e carrega traços machadianos. O ciúme é retomado e foi o tema central de Dom Casmurro a permear todo o enredo. Pinço um trecho do final do conto, em que Bárbara retorna ao Rio de Janeiro depois de um período de exílio na França. Percebi que muita coisa pode ser extraído deste curto trecho.


Caminhar à beira do mar, mesmo numa orla movimentada, pode ser altamente contemplativo. É possível isolar-se de tudo que nos cerca. É um caminhar solitário e imerso no próprio "eu". A solidão não exige que estejamos fisicamente sozinhos, e talvez a solidão mais cruel é aquela que se manifesta quando estamos cercados de pessoas à nossa volta, mas nos tornamos invisíveis. Ninguém nos vê. Olham-nos, mas não nos veem, não conseguem penetrar no interior pessoal de cada um.


Contemplar não é olhar somente o exterior. A contemplação mais difícil é a interior, e para tanto, basta um cenário que nos convide a contemplação, que desperte aquela voz interior que é calada pelo burburinho exterior.


A amizade, desconhecida por Bárbara, muitas vezes nos surpreende. Na maior parte das vezes, é a amizade que nos proporciona os melhores e mais surpreendentes momentos da vida, que incendia a chama quase extinta, mas que volta a iluminar ao redor com novo vigor. Há poucas vezes – mais doloridas e marcantes – em que a amizade falha. Mas nestes casos, não era amizade, mas mera convivência que se reduz ao utilitarismo.

sábado, 16 de maio de 2009

Crônica: Ela, em prosa

ELA, EM PROSA

Há algo nela que não consigo descrever. Não consigo expressar em palavras o que é. Horas e horas gastei na tentativa de externalizar o que ela provoca em mim. Foi em vão. Pensei no jeito dela falar, pensei no jeito de andar, pensei no estilo despojado, mas nada chega ao fundo da questão. Escapa da minha compreensão o que é este algo que há nela.

Há algo nela que me arrabatou, que me entorpeceu e fez despertar para uma nova dimensão que não imaginava existir. Ela é poesia corporificada, prosa poética, música materializada. Ela é fruto dos meus sonhos, porém deles nunca desperto. Sonhos são irreais e ela é tão verdadeira, tão real, tão dona de si que me apequeno diante dela.

Há algo nela de brilhante, descortinado pelos olhos castanhos, pelo olhar incisivo que parece ler minha alma. Olhar que me estremece e bambeia as pernas, que revira meu estômago, que provoca arrepios por todo o corpo, que aquece a minha pele. Olhar que despertou de um sono profundo meu pobre coração.

Há algo nela que dominou este pobre coitado e adormecido coração. Não há cabresto capaz de segurar a disparada do coração, este órgão que não obedece à razão, que rejeita ordens e segue seu caminho, aprontando e conduzindo o corpo por caminhos impensados e repletos de sentimentos sublimes que só ele é capaz de proporcionar. Coração saltitante que se move num ritmo acelerado e no batuque dos melhores sambas. Ela laçou meu coração indomável.

Há algo nela de poderoso que me cativou. Um campo magnético de poder fantástico capaz de atrair o mesmo pólo. Ela é puro pólo positivo. Não seria capaz de listar um ponto negativo, talvez porque inebriado pela tua beleza. Talvez porque mergulhado na tua imagem, tudo é luz. Teus longos cabelos escorrendo pelos ombros, jogados de lado, ou soltos, enquadram o rosto de sorriso alvo e iluminado.

Há algo nela que mexeu comigo de forma inesperada. Flutuei e voei. Levitei e gritei. Cantei e delirei. Ela é a culpada por todos estes momentos de profunda alegria, de sentimentos juvenis que podem causar um infarto num homem de idade avançada. Enfim, quando desacreditava no amor, na beleza, na amizade, na vida, ela surgiu. Retirou a carapaça que se formara ao redor do congelado coração. O veneno, que corria nas veias, foi imunizado. O sol nasceu novamente e a culpa é dela.

Posso escrever linhas e linhas e tentar descrever o impossível. Seriam rodeios inúteis. Sentimentos escapam e não cabem em palavras. Estas linhas são dela, para ela. Há algo nela que não consigo descrever. Magia é mistério. Ela é um mistério. Só sei, que o sentimento me fez renascer. Há algo nela que me faz renascer a cada dia.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Mude o ângulo





Olha para o céu num dia com nuvens brancas a pontilhar aquela imensidão anil. Olhe para o tronco de uma árvore, bem de perto, e repare nos detalhes. Olhe para o chão e note os padrões de uma pedra de granito ou da calçada. Olhe para uma noite estrelada e tente ver as constelações que se desenham.



Olhe para a foto acima. Pode ser uma tiara divertida ou alguma invenção inútil e barata que o fará ficar com cara de bobo. Ou então poderá ver duas pessoas sorrindo caminhando de mãos dadas na beira da praia. Não viu? Basta imaginar.


Há uma infinidade de situações estéticas que podem ser vistas como são, ou como suponhamos que sejam. O olhar criativo, que muda o ângulo de visão, que muda a luz, que muda a cor, que muda o tom, permite vislumbrar desenhos e formas escondidas na transmutação da realidade. Tudo depende do ângulo com que se olha.


O artista é um ser humano com a capacidade de olhar para uma tela branca e projetar mentalmente o que quer atingir com o pincel e as cores das tintas. O escultor é capaz de olhar para um tronco, um bloco de pedra, um pedaço de metal, e criar algo agradável aos olhos e compreensível ao nosso cérebro.


Estas afirmações são válidas também para um empresário que faz acontecer, para um líder que influencia positivamente a comunidade em que vive, para uma mãe que sabe sempre despertar o melhor do filho, para um amigo que sabe olhar e ver aquilo que temos de mais importante.

Mude o ângulo do olhar e verás algo que talvez ninguém veja, só você. Se descobrir este algo novo, este algo inédito sobre o amigo, não guarde para si; divida o que há de bom e que descobriste.

Às vezes, vemos qualidades que ninguém mais vê, que ninguém observa, que ninguém repara. Qualidades que nem por isso deixam de ser reais ou verdadeiras. Talvez elas só sejam reveladas quando olhamos com o coração.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pedaços pelo caminho

24 de setembro de 1983.

Boa conversa com Carlos Drummond de Andrade, pelo telefone. O poeta ainda se sente alquebrado com a operação a que se submeteu, há poucos dias, para ablação da próstata.

E ele me diz, na sua voz quase apagada:

- Para viver, depois de certa idade, temos de ir deixando os pedaços de nós mesmos pelo caminho
.”
(MONTELLO, Josué. Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 419)

Deixar pedaços de nós mesmos pelo caminho. O poeta, com sua simplicidade mineira, fazia referência ao sentido físico da expressão. Ou talvez não!

No convívio diário, deixamos pedaços. Sementes lançadas ao vento, ou derramadas cuidadosamente no solo fértil para florescer. Sementes que brotam em forma de sorrisos, de uma palavra amiga, de um olhar carinhoso, de um abraço singelo, de um ouvido atento.

Pedaços íntimos da alma que o poeta desvenda em seus versos e rimas. Pedaços humanos nascidos de uma epifania única que se prolonga no tempo para os leitores.

Pedaços que um escritor utiliza para construir suas personagens, que hão de ser absorvidos por alguém em algum tempo em algum lugar. Não há data certa para que aquele ser fictício imaginado pelo autor venha a inspirar, a dar coragem, a mexer com um jovem – ou adulto, ou velho – que folheie o livro.

Pedaços todos nós deixamos ao longo da vida. Que estes pedaços sejam sempre bons e férteis!

Ontem fez 3 anos que Josué Montello faleceu. Ele deixou seus pedaços pelo caminho. Pedaços valiosos. Pedaços que tornam um momento rotineiro em momentos de descobertas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Crônica: Mosaico

Mosaico de Tomie Ohtake na Escola Maria Imaculada, em São Paulo.


Faz pouco mais de três, ou algo assim, ele ganhou um presente. Dentro de uma bela caixa de cor azul-marinho, um diário com capa de couro escuro, levemente avermelhado, e páginas em branco de papel de boa qualidade. Não deu muita atenção ao diário, demorando-se apenas no cartão singelo e com poucas palavras de lembrança de seu aniversário. Deixou-o num canto da mesa. O tempo passou e a caixa foi se perdendo entre papéis, bilhetes, pastas, relatórios. A mesa de trabalho parecia engolir aquela lembrança que descansava silenciosa e que de tempos em tempos atraía seu olhar.

Ganhara de uma pessoa ainda pouco conhecida. Agradeceu o presente com um email, pois vinha de longe, e afinal era um gesto gentil de uma conhecida. Porém, a cada dia as conversas entre os dois tornavam-se mais frequentes. Brotava, daquele relacionamento nascido de um encontro casual, algo mais tangível, mais palpável. Pensou em abrir aquele diário e anotar alguns diálogos, algumas coincidências, algumas estórias e deixar registrados os bons momentos. A preguiça o impedia de fazê-lo, ainda que mergulhasse em devaneios sorridentes após uma lembrança dela. O diário captava seu olhar e era como se escrevesse nele com o pensamento, como se os monólogos mentais fossem transcritos com a força do pensamento naquelas páginas.

Ela, de forma atenciosa, tinha a paciência para ouvi-lo. Ele, timidamente, descobria naquelas conversas um mundo novo de sentimentos estranhos. Ela, corajosa, despia seus temores emocionais e aflições diante daquele homem que não estava mais distante. Ele, alegremente, tratava de revelar as qualidades raras daquela amiga e brincava como criança nas conversas que estendiam por tardes a fio. Ela, sorridente, contagiava-o com suas estórias divertidas. Ele aprendia o que era uma amizade verdadeira.

Num final de tarde qualquer, pouco antes de terminar o expediente, notou que a luz do sol que adentrava por uma fresta da cortina repousava sobre a caixa azul contendo o diário. Uma luz forte e amarelada destacava da bagunçada mesa aquela caixa submersa e quase afogada por jornais não lidos. A atração foi irresistível. Tirou a caixa debaixo dos papéis e abriu o diário com a determinação de escrever. Não tinha reparado que havia algo escrito por ela, aguardando pacientemente que ele descobrisse. Palavras prontas para despertar de um sono profundo. Na primeira página do diário, uma frase escrita em bela caligrafia feminina: "A amizade é um enorme mosaico composto de fragmentos unidos por lágrimas e sorrisos e um constante querer estar próximo." Ele não conteve as lágrimas silenciosas que deixou escorrer e molhar o papel.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Uma estrela no horizonte


Cada ser humano tem seu brilho próprio. Por vezes escondido, oculto por trás de aparências que enganam. Pode parecer frio, indiferente, metido, bravo, tímido. Muitos poderiam ser os adjetivos a caracterizar tantas pessoas que achamos conhecer. É preciso um olhar atento – ou então ouvir e deixar a pessoa se mostrar -, é preciso paciência para conhecer e descobrir. Qual não será nossa surpresa ao se deparar com o brilho daquela alma que está ao nosso lado.

Uma jóia reluz depois de lapidada. Em estado bruto, na natureza, passa despercebida, é descartada, ignorada. O garimpeiro, que vai em busca da pedra preciosa, tem olhar clínico para desvendar os mistérios da rocha e do solo. Igual a cada ser humano.

Olhe em volta. Lance um olhar na rua àquela pessoa que caminha na sua direção, ou que senta ao seu lado no ônibus ou no metrô, ou que está diante de ti na fila do banco, do cinema, do restaurante, da loja. Cada um tem seu brilho, suas qualidades, seus dons, sua beleza.

Encontrar o brilho daquela pessoa especial, daquele amigo - ou amiga -, é uma dádiva, um presente celestial. Claro, que há pessoas que nos cativam com um brilho intenso e se tornam mais do que especiais. Moram no lado esquerdo do peito. Basta vê-las, ou ouvi-las ao telefone, ou simplesmente lembrar-se delas para que o sorriso desabroche e a felicidade tome conta de todo nosso ser.

Nestas festas de final de ano, erga seu olhar ao firmamento e aviste a estrela no horizonte. Estrela que caiu na Terra e caminha do nosso lado na forma de uma pessoa querida. Agradeça por esta estrela, agradeça pelo brilho que ela traz nas nossas vidas. Agradeça sempre por esta pessoa existir e lhe presentear com um sorriso.

Um Feliz Natal a todos os amigos e leitores deste blog! E que 2009 seja um ano repleto de grandes conquistas!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Crônica: Espinhos

Foto by Visão ao Longe


Começaste com uma agulha. Vencido o tempo do idílio e do conto de fadas, vieram as pontadas nos dedos. Usaste o instrumento de costura para provocar pequenas feridas. Bolinhas vermelhas a tingir meus dedos. Não tinha dedal e qual mão de costureira e apareceram as primeiras marcas.

Descobriste os espinhos, meio mais eficaz para rasgar a carne e tatuar o corpo com cicatrizes póstumas ao sangue jorrado da carne dilacerada. Não me coroaste com espinhos, mas as feridas eram tão profundas e doloridas que quase sucumbi. Calos nas mãos e nos pés, defesa natural do corpo agredido, do coração esmagado. A carapaça nasceu naturalmente fruto do instinto de sobrevivência e da esperança de que um dia a flor voltaria a desabrochar. Um cactus sem flor, mas coberto de espinhos defensivos. Carapaça intransponível que criara um mundo aparte oriundo de boas lembranças e sonhos.

O arsenal foi todo testado. Dardos, flechas, zarabatanas, lanças. Talvez até uma bala não ultrapassasse o escudo formado pelos momentos de descaso. Blindado estava eu e a distância era uma proteção eficaz. Distância que permitia desviar com malabarismos dos ataques constantes e mais freqüentes. Saltos, cambalhotas, piruetas. Artimanhas aprendidas com a vida. Dolorosas para um corpo pouco flexível e desanimado.

O solo tornou-se estéril. Deserto arenoso do coração. Desterro solitário, delirando na ilusão de que a nova estação traria chuvas. Chão árido onde o cactus não dava flor e murchava com a ausência total de água e da seiva da vida. Relegado ao relento, ao frio da noite e ao sol escaldante do meio-dia. Ignorado, desprezado, imóvel. Restava aguardar abraçado ao tempo.

De forma improvável, trouxeste as primeiras gotas a regar o chão duro e rachado. Suguei o líquido vindo dos céus com um sorriso tímido. Mandaste mais chuva e adubo para o solo. Enrugado que estava pela secura, voltei a sentir a pele mais tenra. Os calos pareciam diminuir e o sangue circulava com mais vigor, levemente palpitante a irrigar todos os órgãos deste corpo. Cuidaste de mim. Podaste as folhas mortas. Inesperada chuva que aliviou a dor. E quando faltou a chuva, regaste-me com palavras.

Não estava morto. Apenas hibernara sem data para despertar. Descobri esta verdade apenas quando surgiste. O coração desfalecido, quebradiço, fragilizado, recuperava-se agora.

Incrédulo, dei me conta de que trazia boas novas. Incrédulo, recobrei o brilho no olhar. Incrédulo, voltei a notar que o solo se recobria de verde e de brotos. Incrédulo, transformaste os espinhos em um campo de flores. A noite que sucedeu era estrelada e com uma lua magnífica. As flores voltaram rejuvenescidas e trazidas como fruto de inúmeras palavras. Sempre mágicas.