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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Epígrafe - VII

"A memória é grande aliada do escritor, mas não uma lembrança cristalizada, e sim 'algo do passado que, como dizia Manuel Bandeira, agita as águas do presente. É justamente essa memória nebulosa e inexata que forma o campo inventivo da literatura'."

"Dizer que personagem cria vida própria e se liberta do autor é uma frescura. Personagem não passa de uma figura de papel. Faz apenas o que eu quiser. Depende da concepção que tenho dele."

Entrevista de Milton Hatoum concedida a Adriana Abujamra, para o Valor Econômico, publicado no caderno Eu& fim de semana, de 21, 22 e 23 de janeiro de 2011, p. 12-5.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma provocação de Milton Hatoum


"Caminhou por Copacabana, parou para comer no bar do primeiro encontro com Lázaro, e passeou na beira da praia até o Forte, murmurando o nome de cada rua, reconhecendo um e outro boteco e restaurante. No caminho de volta foi abatida por uma tristeza atroz: não se lembrava de nenhum amigo. Depois pensou: desconheço a amizade."

(Milton Hatoum. "Barbara no inverno" in A Cidade Ilhada. São Paulo : Companhia das Letras, 2009, p. 87)


O conto de Milton Hatoum é trágico e carrega traços machadianos. O ciúme é retomado e foi o tema central de Dom Casmurro a permear todo o enredo. Pinço um trecho do final do conto, em que Bárbara retorna ao Rio de Janeiro depois de um período de exílio na França. Percebi que muita coisa pode ser extraído deste curto trecho.


Caminhar à beira do mar, mesmo numa orla movimentada, pode ser altamente contemplativo. É possível isolar-se de tudo que nos cerca. É um caminhar solitário e imerso no próprio "eu". A solidão não exige que estejamos fisicamente sozinhos, e talvez a solidão mais cruel é aquela que se manifesta quando estamos cercados de pessoas à nossa volta, mas nos tornamos invisíveis. Ninguém nos vê. Olham-nos, mas não nos veem, não conseguem penetrar no interior pessoal de cada um.


Contemplar não é olhar somente o exterior. A contemplação mais difícil é a interior, e para tanto, basta um cenário que nos convide a contemplação, que desperte aquela voz interior que é calada pelo burburinho exterior.


A amizade, desconhecida por Bárbara, muitas vezes nos surpreende. Na maior parte das vezes, é a amizade que nos proporciona os melhores e mais surpreendentes momentos da vida, que incendia a chama quase extinta, mas que volta a iluminar ao redor com novo vigor. Há poucas vezes – mais doloridas e marcantes – em que a amizade falha. Mas nestes casos, não era amizade, mas mera convivência que se reduz ao utilitarismo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Milton Hatoum e sua cidade ilhada


Quando comentei com uma querida amiga que havia abraçado a última obra de Milton Hatoum, ela torceu o nariz. A discordância é saudável em qualquer debate e gosto de ouvir critícas para poder avaliar melhor a realidade. Gosto do estilo de Milton Hatoum e seu último lançamento merece atenção.

A Cidade Ilhada (Cia. das Letras, 2009) é o mais recente livro de Milton Hatoum. Um livro de contos cujo cenário principal é a cidade de Manaus e seus arredores. Ainda que o autor rejeite o termo regionalismo, como declarou em entrevista à Folha de São Paulo, por entendê-lo como limitador e pequeno, parece-nos impossível ler suas obras sem ter uma clara relação com o ambiente que cerca os personagens.

Os contos, em sua maioria, já foram publicados anteriormente e agora estão reunidos num único volume. Há uma presença marcante de personagens estrangeiros em visita à floresta. Um ictiólogo suíço, um militar indiano, um pesquisador japonês. Facetas do mundo externo que mergulham no universo da floresta. Talvez neste ponto resida a discordância de Hatoum com referência ao termo regionalismo. Seus contos narram estórias universais, que poderiam ter ocorrido em qualquer outro lugar do mundo. O drama humano, os sentimentos e as emoções dos personagens se sobreporiam às situações específicas. De fato, o regionalismo parece ater-se apenas ao cenário, ao pano de fundo das narrativas.

Quando o personagem é o estrangeiro, surge a afirmação do protagonista de um dos contos: "Para onde eu vou, Manaus me persegue." A união do mundo regional com o mundo exterior encontra sua intersecção na maioria dos contos. O regionalismo funde-se no cruzamento dos caminhos, dando vazão a textos com características de personagens universais.

Hatoum escreve de forma fluida, como as águas caudalosas dos rios. As falas dos personagens não são antecididas de travessões ou aspas. A evolução do texto dá-se de forma única, desprezando-se estes sinais de pontuação. O texto flui como o rio flui, como a vida flui. Hatoum descarta estes entraves manifestando algo peculiar e próprio no seu estilo de escrever.


Outros posts sobre Milton Hatoum: O olhar e as palavras na visão de Milton Hatoum e Fechando o círculo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Fechando o círculo



Os últimos posts acabaram sendo temáticos. Não há mensagem subliminar, mas um exercício criativo inspirado pelo livro do Milton Hatoum que estou lendo. Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 2008) lida muito com o silêncio e o olhar, levando o leitor a suspeitar que Dinaura, amada por Armindo, não passa de alucinação ou de uma lenda das águas do rio.


Estes trechos ilustram um pouco a questão:


"A gente quer entender uma pessoa, só encontra silêncio." (p. 47)


"E me acostumei com o silêncio, com a voz que eu só ouvia nos sonhos." (p. 41)


"Foi um namoro silencioso. Às vezes, eu escutava a voz de Dinaura nos sonhos. Uma voz mansa e um pouco cantada, que falava de um mundo melhor no fundo do rio. De repente ela ficava muda, assombrada com alguma coisa que o sonho não revelava." (p. 41)


"Esperava com ânsia o sábado seguinte, e me rendia ao olhar de um rosto calado."


O silêncio parece ser algo reprovável no mundo moderno. Há um temor generalizado da ausência de ruído, mas é no silêncio que conseguimos ouvir nossos sentimentos e pensamentos mais íntimos. O silêncio é a porta para o mundo interior, para um mundo de auto-conhecimento. Aprendi a valorizar o silêncio, aprendi a ouvir o silêncio.


Vinicius de Moraes, no poema A TARDE, expressa isto de forma típica de um grande poeta: Meu espírito te sentiu. Só no silêncio podemos sentir o outro, apreciar o outro, prestar atenção no outro.


Com este post fecho o círculo temático, mas não tenho dúvida de que vez por outra, o tema voltará a frequentar este blog.

domingo, 30 de março de 2008

O olhar e palavras na visão de Milton Hatoum

Trechos de Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum (Cia. das Letras, 2008):

"Não lembrava com nitidez do rosto; dos olhos, sim, do olhar. Rever o que foi apagado pela memória é uma felicidade. Tudo voltou: o sorriso, o olhar vivo no rosto anguloso, olhos mais puxados que os meus." (p. 31)

"O olhar de Dinaura era o que mais me atraía. Às vezes um olhar tem a força do desejo." (p. 31)


"Olhei desconfiado para Florita, e esperei outras palavras sobre o sonho, mas ela saiu em silêncio. Os sonhos e o acaso me levavam para um caminho em que Dinaura sempre aparecia." (p. 33)


"Ela escapava sem dizer palavra. Não sei se escapava: era o silêncio que dava impressão de fuga." (p. 37)


Separei estes trechos após escrever o post anterior sobre as palavras e o silêncio. O acaso sempre tem um papel importante no encadeamento das idéias, na inspiração, na forma de decifrar os mistérios da vida. Parece que o acaso se torna algo incrivelmente presente, bastando que nos atentemos para os fatos.


No post anterior, procurava mostrar o silêncio decorrente da alegria, da felicidade que nos deixa sem palavras. A falta de palavras é uma manifestação tão doce, tão sincera quando nos deparamos com um fato que simplesmente não conseguimos traduzir em palavras. Realidade cantada em prosa e verso. Quantas músicas descrevem o estado de transe, o estado sublime pelo qual somos tomados diante de uma surpresa ou de um simples gesto que nos toca profundamente? E quantas vezes nos faltam palavras?


Milton Hatoum, em seu mais novo livro, cria uma ilusão com a palavra, o olhar e o silêncio. Isto é notável depois de um terço do livro. Dinaura, a mulher amada por Arminto, comunica-se com o olhar e raras palavras. Quase não há diálogo. Há gestos, olhares, toques. É perceptível como o escritor utiliza estes três aspectos para instigar o leitor. E como falava eu de palavras - ou a falta delas -, dou mais um passo com o olhar e as palavras, socorrendo-me da obra de Milton Hatoum.


Ele fala do silêncio também e acho que o próximo tema já está dado. Tenho mais 2 posts prontos, mas não vou fugir da linha de raciocínio. Os comentários ao último post instigaram-me a continuar nesta linha. Sobre o silêncio, falemos amanhã.