Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monteiro Lobato. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Novo ataque a Monteiro Lobato


O tempo passou, mas o assunto não foi embora. Um certo Instituto da Advocacia Racial e Ambiental (IARA) ajuizou Mandado de Segurança (MS 30952) no Supremo Tribunal Federal contra ato do Conselho Nacional de Educação (CNE) que deu parecer favorável ao uso do livro Caçadas de Pedrinho nas escolas brasileiras e afastou a alegação de racismo do livro de autoria de Monteiro Lobato.

Tratei do tema em post de novembro de 2010, intitulado Monteiro Lobato e preconceito. Reli o livro na época e sou da opinião de que a campanha engendrada contra a obra de Lobato revela má-fé e interesses secundários de grupos de interesse.

Quem é este Instituto que ajuizou o Mandado de Segurança?

Fui buscar informações no site - não vou fazer propaganda, pois não compactuo com o que está por detrás de aparentes intenções nobres - e descobri que defendem os afro-brasileiros, quilombolas e o meio ambiente.

Afirma o texto do site: "O Instituto de Advocacia Racial e Ambiental – IARA, criado em 2003, pessoa jurídica de direito privado, de fins não econômicos, é atuante nas áreas de Direito Racial e Ambiental, destacando suas ações e debates sobre a responsabilidade social-ambiental e o racismo, com foco na promoção e defesa dos direitos da população afro-brasileira; na defesa do meio-ambiente, através de ações jurídicas. Destaque nas ações jurídicas sobre as relações raciais em educação, mercado de trabalho e ações afirmativas, bem como sobre as comunidades remanescentes de quilombo, comunidades negras rurais, e comunidades carentes, afetadas por questões ambientais de poluição e falta de saneamento."

Confesso minha ignorância: desconhecia o ramo jurídico denominado Direito Racial. Isto soa-me como uma disciplina que talvez fosse estudada na África do Sul dos Boers e na época do apartheid, na Índia e algo relacionado com as suas castas, na Alemanha de Hitler. Mas no Brasil, nunca tinha ouvido falar de Direito Racial!

A lógica desta ONG de "fins não econômicos" é explorar pessoas com baixa instrução ou aproveitar-se de um momento histórico onde o Brasil importa uma política racialista do século passado nos EUA com o aparente verniz de modernidade e igualdade. O Governo, através de suas ações e políticas - incluindo as quotas - vem patrocinando uma divisão racial no Brasil, que se acirrou em grande parte por causa de políticas públicas.

Se há um direito racial, então por que não defendem os índios? Talvez porque não dê dinheiro. Por que não defendem os bolivianos, os haitianos e outros imigrantes que vivem em condições de semiescravidão e precisam de apoio? E mais, qual a relação entre afro-brasileiros com o meio ambiente? 

Em direito societário, costuma-se falar em abuso de forma ou abuso de personalidade. Trata-se da utlização de uma estrutura societária - a associação é uma forma de organização equivalente - de forma a desvirtuar seus fins. Em outras palavras, depreende-se do site que a ONG foi criada para captação de clientela - o que é vedado pelo Estatuto da OAB -, concorrência desleal com profissionais habilitados, redução de carga tributária e autopromoção de seus diretores (na verdade advogados que atuam nas causas do Instituto e cobram por isso). O desvio de finalidade é claríssimo e gritante.  Este Instituto é mais uma destas ONGs que busca interesses pessoais e não interesses mais elevados ou causas nobres.

Aliás, até a Cruz Vermelha brasileira teve as contas de seus diretores investigadas por desvio de verbas obtidas com doações para vítimas de desastres naturais.

Voltemos a Monteiro Lobato, finalmente. A causa, objeto de análise pelo Supremo, é absurda. O Instituto aproveitou-se do momento para tentar fazer autopromoção. Porém, revela uma preocupante tendência fruto do pernicioso politicamente correto. Imaginem se alguém tentasse proibir alguma obra de Nelson Rodrigues sob a alegação de incitação de violência contra mulheres e por violar a Lei Maria da Penha? Ou se alguém acusasse Jorge Amado de ser preconceituoso e rotular todo baiano de preguiçoso?

O Judiciário não pode dar amparo e acolher a tentativa de censurar a obra de qualquer escritor, ainda mais quando se trata de Monteiro Lobato que tanto contribuiu - e contribui - para a formação de novos leitores.

Monteiro Lobato tem obras com claro tom de crítica social e política, mas não é o caso de Caçadas de Pedrinho. Mas meu caro leitor não tome a minha palavra como verdade absoluta, faça a prova você mesmo: releia (ou leia - eis uma grande chance) o livro e tire sua própria conclusão. Afinal a leitura de Monteiro Lobato é sempre uma grande aventura.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Livro infantil: porta de entrada para um mundo mágico


Pipa


No dia 18 de abril comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil. A data escolhida foi instituída para homenagear Monteiro Lobato, talvez o mais marcante escritor infanto-juvenil brasileiro. Suas obras dialogam com o universo da criança e do adolescente. A homenagem é justa e a data muito relevante para passar em brancas nuvens. O Brasil ainda é um país de analfabetos e de poucos leitores. Refiro-me àquela pessoal que não escreve direito, que não compreende os textos e que lê pouco. Afinal, quem pouco lê, mal escreve. A consequência é direta. O remédio para adultos letrados e lidos é despertar o gosto pela leitura na criança.

Em abril de 2010, fiz um post com o título Criando Leitores. Afirmava que leitores são desenvolvidos, instigados, criados. Ninguém nasce lendo. Ninguém nasce virtuoso. A virtude é adquirida com a repetição de um determinado ato, até que a prática deste determinado ato transforma-se em hábito. O mesmo ocorre com a leitura. É preciso ler junto, ensinar a ler, ensinar a apreciar o livro e descobrir o livro com um grande companheiro em momentos de diálogo interno. O exemplo é fundamental para que isto ocorra. Se os pais não leem, os filhos não lerão.

Outro dia, um amigo deixou o seguinte comentário no Facebook: "Semana de provas e tenho que fazer meus filhos estudarem. Qual o melhor caminho: prêmio ou dinheiro?". Não sou psicólogo infantil, mas diria sem medo de errar que a metodologia está completamente errada. A resposta para mim é disciplina, é compreensão por parte da criança de que o estudo é sua profissão e o estudo é sua missão e tarefa. Em outras palavras, estudar é obrigação da criança. Não digo que é fácil - tenho minhas lutas com meus filhos neste campo também -, mas tenho a preocupação de demonstrar-lhes a importância deste momento e da relevância do estudo em suas vidas. 

O mesmo pode ser transposto para a leitura. Basta separar alguns minutos por dia, sentar-se com o filho e ler juntos. O exemplo arrasta! 

Cabe também uma breve ressalva: é preciso escolher o livro e ajudar a criança a ler bons livros. Há muita porcaria publicada e vendida por aí. Um livro ruim pode 'deseducar' e pode agravar problemas com ortografia e gramática. 

Se você não sabe por onde começar procure qualquer livro da Ruth Rocha, uma escritora brasileira que sabe contar uma excelente estória para as crianças. E para fazer-lhes companhia, por que não reler alguma obra de Monteiro Lobato? Sairá rejuvenescido com a volta à infância e com um vocabulário mais rico. Não perca tempo e lembre-se: o livro infantil é o ponto de partida para formação de bons leitores.

NOTA: Para ler outros posts sobre Monteiro Lobato e literatura infantil, clique nos tags abaixo.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Alfinetadas de Monteiro Lobato

"Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte, com um importante chefe geral do serviço, que ganhava tres contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um, afora grande numero de datilografas e "encostados". Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama de dona Benta os aborreceu bastante. Em todo caso, como outros telegramas recebidos de outros pontos do país haviam dado pistas falsas, tinham esperança de que o mesmo acontecesse com o telegrama de dona Benta. Por isso vieram. Se tivessem certeza de que o rinoceronte estava mesmo lá, não vê que vinham!"
(Monteiro Lobato. Caçadas de Pedrinho. 2a. ed. São Paulo : Brasiliense, 1950, p. 84. A transcrição respeitou a grafia original da edição consultada.)

Volto ao livro que queriam censurar. De fato este trecho traz um ranço preconceituoso, pois Monteiro Lobato não mede palavras para criticar o funcionário público "encostado", aquele que tradicionalmente pendurava o paletó na cadeira apenas para marcar presença, mas trabalhar que é bom...

A crítica é direta e atual. Basta olhar os jornais de hoje que tratam do fantasioso PAC, do Ministério da Pesca e sua futura titular, a Senadora - futura desempregada - Ideli Salvati (juntamente com Aloizio Mercadante), do dia de ontem, quando o Judiciário brasileiro parou para comemorar o dia da Justiça, e por aí seguimos.

Aliás, acho que o Poder Judiciário não trabalha um mês do ano sem ter um feriado, uma folga ou um ponto facultativo. Janeiro ainda é recesso ou férias forenses; fevereiro ou março tem carnaval; abril tem Páscoa; maio traz o dia do trabalho; junho comemora-se o Corpus Christi; julho, no Estado de São Paulo, para no dia 9 para comemorar a Revolução Constitucionalista; setembro tem a Proclamação da Independência; outubro o dia da padroeira do Brasil; novembro tem finados, Proclamação da República e o dia da consciência negra; dezembro - ufa, cansado de tanto dia para descanso - traz o dia da justiça (8 de dezembro) e o início do recesso, Natal, Ano Novo etc.  E ainda tem o dia do funcionário público que não me lembro quando é. 

Só agosto escapa! O único mês do ano em que não há uma folguinha para juízes, promotores, cartorários e todos os outros com suas jornadas de trabalho de 6 horas, diferente de todos os outros mortais que trabalham 8 horas diárias.

E os juízes e promotores queriam 60 (SESSENTA!!!!) dias de férias por ano, como está sendo discutido no Congresso Nacional! 

Monteiro Lobato tinha razão: emprego público é uma beleza!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Monteiro Lobato e preconceito



O Conselho Nacional de Educação recomendou ao MEC que proíba o livro Caçadas de Pedrinho, de autoria de Monteiro Lobato. A trama começou com uma denúncia formulada por um aluno de mestrado da Universidade de Brasília à Secretaria de Promoção de Igualdade Racial, ligada à Presidência. O aluno entendeu que a obra era "racista". Esta Secretaria - que mais parece um dos ministérios engendrados pelo Grande Irmão de 1984 - submeteu a acusação ao crivo dos conselheiros do CNE, e estes sugeriram que o livro fosse retirado do acervo do Programa Nacional Biblioteca na Escola.

Fazer a denúncia é uma prerrogativa de interpretação de qualquer cidadão. Até aí, admito o equívoco. Mais grave, porém, está no fato do CNE ter considerado séria a denúncia e sugerido o banimento de Monteiro Lobato de nossas escolas. Fiquei indignado quando tomei conhecimento da notícia e resolvi fazer minha própria pesquisa. 

Li a maioria das obras de Monteiro Lobato na infância. Não sou racista, nem preconceituoso e jamais  imaginei que tais obras pudessem ser consideradas como ofensivas. Confesso que estas leituras só me trazem boas memórias, de um lugar cheio de fantasia e magia. Fui atrás do livro, por sinal, o mesmo exemplar que li quando criança, capa dura verde escura, com letras em baixo relevo e prateadas, uma primorosa edição da Brasiliense, de 1950, com a ortografia estranha e recheado com algumas ilustrações.

Reli o livro no feriado e redescobri grandes passagens. A leitura foi atenta, à caça de preconceito e termos "racistas". Fiquei frustrado. Fiz uma segunda leitura atrás do trecho específico que foi identificado na denúncia, e que transcrevo abaixo para que avaliem por conta própria:

"Sim, era o unico jeito -  e tia Nastacia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão, pelo mastro de S. Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros."(Caçadas de Pedrinho. São Paulo : Brasiliense, 1950, p. 55 - obs.: transcrito na ortografia original)

Há licença poética no texto. Não vejo racismo. Em outro trecho, Pedrinho exclama: "Avança, macacada!"(p. 12). Mais adiante, uma capivara reunida com o demais bichos da floresta reclama: "- Imbecil! resmungou a capivara, furiosa de tamanha asneira. Não é atôa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens." (p. 24). 

Estes exemplos revelam que o termo "macaco" não é utilizado no livro como termo pejorativo ou racista. 
Não tenho dúvidas, porém, de que o livro não passa pelo crivo do patrulhamento ideológico. Poderia ser denunciado por ambientalistas, afinal, Pedrinho e a turma do Sítio do Picapau Amarelo matam uma onça e depois domesticam um rinoceronte. O livro seria ambientalmente incorrento.

A questão que envolve a criação do Departamento de Caça ao Rinoceronte e a instalação da linha telefônica mais curta do mundo são uma crítica direta ao funcionalismo público, ao gasto público inútil e desnecessário, ao desperdício de dinheiro público. Não é à toa que o livro foi rotulado de comunista quando foi lançado. Era considerado subversivo por incitar a desobediência civil.

Claro que faço esta leitura com um olhar adulto e crítico, e esta releitura me certificou ainda mais da atualidade e importância de Monteiro Lobato. A denúncia é ridícula, preconceituosa, torta, mas um alerta para uma política estatal que busca criar divisões de classes e categorias de brasileiros, ao invés de propagar a igualdade de todos os brasileiros.

Por fim, perguntei à minha filha de 9 anos o que tinha achado do livro, pois o lera no primeiro semestre. Ela havia gostado e me contou a estória. Não houve um traço de preconceito ou aparente racismo nas palavras dela. Leu com os olhos de uma criança e ficou fascinada e divertiu-se como pretendia o escritor.    Quem vê racismo nas obras de Monteiro Lobato, não faz jus ao título de mestre em nenhuma universidade séria deste país. E um Conselho de Educação que rejeita o patrimônio literário nacional, precisa rever seus conceitos - ou as pessoas que são indicadas para o CNE. 

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Respondendo sobre Monteiro Lobato



A leitora Larissa deixou o seguinte comentário:


"Olá, acabo de me inteirar de seu blog e gostaria de saber mais sobre essa sua visão em relacionar Monteiro Lobato e sua obra à questão ambiental... há mais onde eu possa pesquisar sobre este assunto? Muito bom trabalho... gostei mesmo! "


Agradeço os elogios que são sempre um incentivo a continuar.

O comentário foi feito no post Monteiro Lobato e Meio Ambiente, de 1o. de junho de 2007. Graças às ferramentas de pesquisa, estes artigos podem ser resgatados no tempo, já que muitos dos textos sobre literatura neste blog são atemporais. Mas, vamos à questão feita pela leitora.

Monteiro Lobato é mais conhecido por sua literatura infanto-juvenil, mas sua contribuição como editor e intelectual também se fez sentida. Lembraram-se dele quando Barack Obama foi eleito presidente dos EUA, pois escrevera O Presidente Negro, livro cujo título original era "O Choque de Raças" e que foi publicado em partes no jornal A Manhã, onde colaborava.

Reeditado em 1948 quando a Brasiliense lançou sua obra completa, O Presidente Negro foi reunido com A Onda Verde, que trata do avanço dos cafezais na agricultura.

Infelizmente, não tenho muito mais informações para lhe dar, apenas indicações de sites para procurar. Há o Google Books e o Google Acadêmico. O primeiro traz informações sobre as edições do livro e referência de artigos. O segundo, ainda pouco conhecida ferramenta do Google, traz artigos acadêmicos, teses e monografias sobre o tema. Algumas bibliotecas já dispõem de teses e artigos em arquivos PDF que pode ser baixados para leitura. Tudo vai depender de quanto você quer se aprofundar no tema.


Ficam estas linhas de incentivo e siga adiante na sua pesquisa. Se quiser compartilhar conosco suas descobertas, este espaço estará sempre aberto a boas discussões literárias.


sexta-feira, 1 de junho de 2007

Monteiro Lobato e Meio Ambiente



Lendo o Diário da Noite Iluminada, de Josué Montello (o livro tem 546 páginas), achei a transcrição de uma carta encaminhada por Monteiro Lobato no jornal Estado de São Paulo em 1914.


Transcrevo o texto abaixo. Monteiro Lobato era um homem com visão ao longe e escreveu a carta a quase 100 anos atrás.


"Lobato, em 1914, fazendeiro em Buquira, na serra da Mantiqueira, mando ao Estado de São Paulo, para a seção 'Queixas e reclamações', um protesto contra as queimadas, e esse protesto, que seria o ponto de partida de uma grande obra literária, parece uma advertência atual, ajustada à preocupação ecológica de nossos dias: 'Preocupa a nossa gente o conhecer em quanto fica por dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda ordem, provindos de uma assombrosa queima destas árvores. As velhas camadas de húmus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal da terra paralisado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para pior do clima, pela agravação crescente das secas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado pela falta de pasto; as mil e uma particularidades que dizem respeito a esta ou àquela zona, e, dentro dela, a esta ou àquela situação agrícola." (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 309)


Não poderia esta carta ter sido escrita hoje? Isto é o que torna um escritor universal e de grande vulto.