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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro

 



Trechos de livros

 “O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”

(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad. Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)


Com o passar dos anos, o acaso se tornou um companheiro decifrável, uma peça do quebra cabeça da vida que se encaixa e faz sentido. Tantas pessoas cruzam nossos caminhos e poucas ficam, permanecem com sua presença indelével e indispensável. Por quê?

São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza. 

Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Apagaram os sorrisos






Veio a pandemia e decretaram uma longa quarentena. Era para ser por quinze dias, depois mais quinze, viraram 60, adicionaram mais um mês e o pico parecia inalcançável. Até hoje acho que ainda não chegamos lá, mas resolveram que já era hora de permitir um afrouxamento, um lento despertar da cidade adormecida.

O período de hibernação dos ursos deve ser assim, salta-se do carnaval para as férias de julho, sem Páscoa e sem festa junina, e adicione alguns feriados que foram devorados pelo vírus por decisões políticas. Transitar por São Paulo, após escurecer, é como caminhar por uma cidade semideserta, quase fantasma, com ar soturno, tristonho. O trânsito evaporou, não há carros, não há pessoas, não há ruídos. O silêncio impera e traz à memória uma cidade de interior, pacata, tranquila, silenciosa.

Aos poucos, há uma reabertura. Pessoas voltam a circular pelas ruas ao longo do dia, mas há algo de diferente. Apagaram os sorrisos. Olhe para a foto de um rosto e cubra a parte abaixo do nariz e o queixo. É praticamente impossível dizer se a pessoa está sorrindo, se a pessoa está triste, se a pessoa está nervosa. Perde-se a expressão quando escondem a nossa boca por detrás de uma máscara.

Não estou aqui a me revoltar contra as máscaras, apenas constato que os sorrisos deixaram de habitar a cidade. Continuam escondidos em quarentena dentro das casas e dos ambientes seguros. A partir de agora, não se pode mais cumprimentar o porteiro ou uma pessoa na rua com um singelo sorriso e um aceno de cabeça. O aceno de cabeça ficou capenga, órfão de um elemento fundamental que é a expressão labial. Vamos ter que aprender a ler olhares, a atentar para as pequenas oscilações do canto dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, da testa franzida. A percepção será outra, pois a boca se esconde.

Primeiro, o coronavírus roubou-nos o tempo e a liberdade. Agora, o coronavírus apaga os sorrisos de nossos rostos.


domingo, 10 de maio de 2020

Dom de gerar




A mulher ocupa posição privilegiada na obra da criação divina. Somente ela compartilha do ato de criar, algo único e exclusivo, capaz de gerar uma vida, acalentar e cuidar do pequeno ser gestado. 

Criar não é fazer, nem construir. Criar é erguer - a partir de um quase nada - um novo ser humano, único, irrepetível, irreplicável, com todos seus talentos, qualidades, dons. Um ser aberto a amar, um ser eternamente grato pela mãe que o gerou. Se não fosse ela contribuir com a criação, a vida não se realizaria. Ser mãe é abrigar - para sempre - no coração o filho querido. Ser mãe é participar da construção do universo. Ser mãe é levar adiante uma tarefa confiada por Deus, a tarefa da criação.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Humildade e Esperança: duas lições da pandemia







A Páscoa, para os católicos, é a celebração da ressurreição de Cristo, o triunfo da Vida sobre a Morte, um momento de renovação, um avivamento da esperança e da fé. A ressurreição de Cristo é ponto central da fé cristã, pois se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé (Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, v. 15).

A Páscoa, neste ano, caiu no meio de um período de quarentena e isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus. As celebrações foram remotas, feitas por transmissões online, as famílias se confraternizaram por vídeo conferência ou simples telefonemas e, apesar do lindo dia de sol em São Paulo, havia um ar de apreensão persistente no ar. Até quando vamos precisar levar adiante esta quarentena? Até quando não vamos poder trabalhar?

Tenho cá com meus botões que a imagem do Papa Francisco rezando sozinho na Praça de São Pedro, durante a quaresma num dia chuvoso e frio em Roma, ficará marcada por anos como a imagem que melhor refletirá esta pandemia: o isolamento, a solidão, a tristeza, a dor.

Este período de isolamento impõe-nos o exercício – ou o crescimento – de duas virtudes essenciais para a manutenção de um espírito de alegria e bom humor: a humildade e a esperança. Duas virtudes – ou qualidades, se assim preferir – que são armas efetivas contra a tristeza que pode nos invadir nestes momentos.

A humildade, que para muitos é uma qualidade mal vista ou tida como algo prejudicial, é o reconhecimento de que nossas qualidades e dons e talentos não são decorrentes de mérito próprio, mas nos são dados, presentes divinos que devemos dar bom destino. A humildade é o reconhecimento de nossas fraquezas, de nossos defeitos, da nossa realidade nua e crua. Este reconhecimento nos conduz – ou deveria nos conduzir – a um estado de agradecimento constante pelo que temos, pelo que nos é dado, pelo simples fato de estarmos vivos. A vida é um presente e cada minuto vivido é uma dádiva.

Em tempos de Covid-19, basta olharmos ao nosso redor para percebermos motivos para sermos gratos. Se temos uma casa para morar, comida na mesa, uma cama para dormir, isto já nos coloca numa minoria da população mundial. Se tivermos a consciência de que isto não é resultado de mérito próprio, mas que nossa condição é um presente, seremos menos arrogantes e muito mais abertos ao outro, à prática de atos concretos de solidariedade. Doar alimentos, permitir que um funcionário fique em casa para evitar deslocamentos sem prejuízo  do pagamento dos salários, contribuir com causas que sejam confiáveis, estender a mão para um amigo que necessita de uma palavra ou de um ouvido atento – ainda que à distância. Tudo isto é consequência de uma consciência clara de nossa realidade que só a humildade pode nos revelar. Quando nos damos conta de nossa pequenez, olhamos para o outro com empatia e isso nos move a ajudar e agir.

A outra virtude é a esperança. Esperar é confiar de que isto passará, de que as coisas terrenas são transitórias.  Para quem acredita em Deus, é a certeza de que todas as coisas concorrem para o bem daquele que acredita em Deus. Não se trata de ser passivo, mas de agir com a confiança de que nosso esforço terá um resultado positivo. Isto pode significar passar por períodos difíceis, doloridos, até momentos em que parece não haver luz no fim do túnel. Tudo serve para um crescimento pessoal, uma nova forma de compreender a realidade e de dar valor para aquilo que temos no presente.

Ter esperança ajuda-nos a manter a moral elevada, o bom humor diante das dificuldades, abraçar o sacrifício do isolamento social com a alegria de saber que estamos contribuindo para a preservação de vidas – e talvez da nossa própria vida. A esperança é um elemento essencial para manter a sanidade, o equilíbrio, para dar propósito a esta fase de nossas vidas.

É possível ignorar tudo isto que escrevi acima, mas reflita um pouco e perceberá que este tempo de provação tem um sentido – um sentido diferente para cada um de nós –, um convite para o crescimento pessoal. Por que não aproveitar esta oportunidade? Por que não praticar um gesto concreto de solidariedade?



terça-feira, 31 de março de 2020

Crônica do início de uma quarentena


A semana começou de forma estranha, um clima de apreensão no ar, uma expectativa que se confundia com ansiedade, as escolas e universidades tiveram suas aulas suspensas, o trânsito ficou mais leve, o fluxo de pessoas na São Paulo acelerada diminuiu, o rodízio foi suspenso, o som da cidade mudou. Sempre dei muita atenção para o som da cidade, seus ruídos, sua sinfonia urbana. Noto as mais sutis mudanças, deixo-me encantar pelos sons de pássaros, pela algazarra das maritacas no final de tarde. Caminhávamos tateando cada passo e no aguardo de uma diretriz, um grito de liderança que se mostraria mais tarde polifônico, dissonante.

Na quinta-feira, dia 19 de março, dia de São José, fui ao escritório pela manhã seguindo a rotina diária. Peguei o jornal e fui tomar café. Perguntei para a atendente sobre o movimento na loja e ela respondeu que havia caído e que amanhã fechariam, sem previsão para reabertura. O estado de emergência estava instalado pelo prefeito, pelo governador e pelo presidente da república. Tomei o café, li o jornal sem pressa e despedi-me da atendente desejando que se cuidasse.

Ao sair na rua, o céu estava cinza claro, nuvens baixas que se assemelhavam a uma bruma, um calor abafado e a ausência de carros e motos na rua era notável às nove da manhã. Ouvi então um barulho que vinha do alto e parecia de uma aeronave. Na hora, fui teletransportado para a Londres de 1940 e imaginei que veria no céu um avião da Luftwaffe prestes a lançar sua carga de bombas sobre a capital do império britânico. A palavra guerra, tão usada pelos nossos governantes, instalou-se no meu subconsciente e a imagem me deixou desnorteado. Olhei para o alto e passou um helicóptero.  Segui meu rumo com serenidade, mas o clima era de tristeza e medo. Algo de estranho pairava no ar.

O dia transcorreu sem que o telefone tocasse. As páginas de notícias de jornais, as estações de rádio só tratavam do coronavírus. A pandemia já estava entre nós e era preciso ficar em casa. O tempo todo e todo mundo. São Paulo seria o epicentro da contaminação, a cidade mais cosmopolita do Brasil.

O vírus microscópico não deixa estragos na paisagem, como uma tempestade, um vendaval, um furacão, um terremoto. O vírus é silencioso. Esta forma de agir é que deixa tudo estranho e confuso. Os dias de quarentena serão sábados – ou domingos ou feriados – que se repetirão sem data para terminar. Ficar em casa nos impedirá de experimentar a cidade fantasma em que São Paulo se transformará.

Naquela noite, as imagens de entrevistas coletivas revelavam um futuro de colapso do sistema de saúde, de caos na economia, de cadáveres se acumulando, de gente faminta, de ruas abandonadas e uma cidade paralisada.  Traçaram um cenário apocalíptico. Seria risível, exagerado e inverossímil se não houvesse notícias das mortes na Itália, Espanha e os primeiros casos nos EUA. 

Políticos cederam lugar a médicos infectologistas, pneumologistas, secretários de saúde, ministro da saúde. O inimigo é invisível, mas devastador, disseram de forma unânime. Lavem as mãos, usem álcool gel, não saiam de casa. O mantra se repetia em todos os canais de televisão, rádios, sites noticiosos na internet.  Pessoas esgotaram os estoques de álcool gel e máscaras cirúrgicas das farmácias e supermercados. O papel higiênico virou item de primeira necessidade nos estoques residenciais.  Um medo contido tomou conta da população, com exceção daqueles que acham que se trata de uma gripezinha.

Não houve histeria ou pânico generalizado, mas uma aflição coletiva. O abastecimento dos supermercados seguiu o ritmo normal. O mesmo se dá nas farmácias e postos de gasolina. Os serviços essenciais seguem funcionando, mas temos que ficar em casa.  Alguns sentem mais o medo, ou melhor, alguns deixam-se tomar pelo medo da incerteza, da ausência de horizonte. Quando isso tudo vai acabar? Ninguém sabe, ninguém tem a resposta e a incerteza amedronta, paralisa, tira-nos a racionalidade.

A invisibilidade do inimigo deveria nos deixar menos aflitos, mas depois de uma semana inteira de quarentena, as pessoas estão com as emoções à flor da pele. O medo corrói a coragem e nos drena. Precisamos de forças para caminhar um passo por vez.  Meu otimismo realista me leva a ter esperança e fé de que vamos superar esta batalha.

Em momentos como este, manter a serenidade, o equilíbrio é fundamental para a sanidade. Em tempos de pandemia, vale a pena desligar a televisão. Não se trata de apontar o dedo para o ministro da saúde e acusá-lo de atacar a imprensa. A imprensa faz o seu trabalho, mas o excesso de notícias sobre a pandemia faz mal para a saúde mental. Respire, deixe-se respirar, não se cobre tanto, como escreveu Mafê Probst.  Pare de contar os casos, deixe o tempo correr e siga um dia por vez.  Teremos mais capítulos pela frente.


A pandemia vai acabar e sairemos melhores e mais humanos desta batalha invisível.  

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pandemia - uma breve reflexão



Depois de 16 anos, este é o milésimo post deste blog.  Mil postagens. Sem dúvida, nos últimos anos, o ritmo diminuiu, o meio “blog” virou vintage, deixou de ser uma forma mais popular, sendo ultrapassado por podcasts, vídeos e afins. Mas o texto permanece e é atemporal. A poesia de Fernando Pessoa reina como o assunto mais pesquisado e lido neste blog.

Tinha várias ideias para celebrar este marco do blog, mas a realidade sempre nos surpreende e oferece a matéria prima de que necessitamos para refletir, pensar e trabalhar. Trabalhar a realidade, moldá-la para tentar entender este mundo contemporâneo, ou ao menos, fazer um esforço por compreendê-lo.

Eu, assim como todos os brasileiros, estou em quarentena. Um isolamento domiciliar que é compartilhado com milhões de pessoas ao redor do mundo em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus e a Covid-19, doença causada pelo vírus.

O ser humano é um animal essencialmente social, pontificou Aristóteles. E agora, vemo-nos obrigados à reclusão, a uma clausura não voluntária, mas imposta. A clausura é uma escolha de vida para religiosos e religiosas contemplativos católicos, que se afastam do mundo e vivem uma vida de oração e trabalho. Carmelitas e beneditinos são ordens religiosas que seguem este carisma.  A vida de oração contemplativa, quase sem falar, sem convívio com o mundo exterior do convento ou do mosteiro.

Hoje, somos obrigados a abraçar um estilo de vida de isolamento, temporário claro, mas um estilo de vida que não condiz com o cosmopolitismo das cidades e com a interação social tão cara ao povo brasileiro. Iniciamos neste período de quarentena a travessia de um deserto. Não sabemos por quanto tempo ficaremos reclusos, não sabemos o que nos espera ao final da travessia, não sabemos que intempéries serão enfrentadas. A incerteza pode gerar medo. É natural, mas precisamos buscar a serenidade e a esperança para realizar a travessia deste deserto com sucesso.

Em 1374, foi ordenada a quarentena de todos os cidadãos de Veneza para evitar o contágio com o “ar envenenado” pela Peste Negra, que dizimou metade da população europeia. Em 1569, a grande peste que atingiu Lisboa levou a uma fuga em massa da cidade. Narrativas daquela época relatam que havia um ar triste na cidade, abandonada e largada ao destino.

A realidade hoje é outra. Podemos fazer a quarentena com certo conforto, com acesso a informação e aos meios de comunicação, não falta comida e nem água e a ciência evoluiu muito desde então.

Vejo muitos reclamarem. Vejo muitos apontarem o dedo e incitarem o conflito. Penso que a hora é de reflexão pessoal, penso que nos é dado uma oportunidade de vivermos de forma contemplativa por algumas semanas, reclusos como se num retiro espiritual – chame de jornada se preferir. Não por acaso, tudo isto acontece durante o período da quaresma para os católicos. Um período de penitência, de exercício fraterno de caridade, de conversão de vida, de mudança. Um período que nos leva a olhar para a frente, com fé e esperança, pois uma nova fase se inicia com a Páscoa.

Não quero aqui tentar justificar esta pandemia, não é esta minha pretensão, mas quero provocar uma reflexão – já que temos tempo sobrando para fazê-la – sobre a transcendência do ser humano, da caridade, da solidariedade, da generosidade, da empatia. Penso que este momento é muito oportuno para exercitarmos estas virtudes, estas qualidades humanas (se assim preferirem).


Antes de reclamar, agradeça pelo que tem e pelo que lhe é dado. Antes de ter medo, olhe para frente com esperança e pense como mudar sua forma de agir após a sua saída da clausura. A travessia do deserto deve ser feita um dia por vez, serenamente, com fortaleza e resiliência. Aproveite o tempo que é dado, pois o tempo é um bem muito escasso e caro na contemporaneidade.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Memória: Cemitério





instagram: @rbueloni
Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019


MEMÓRIA: CEMITÉRIO



O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação artística.

Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas entre os túmulos.

Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.

Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados. Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido, muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.

Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando, refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da minha mãe, como do meu pai.

Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário. Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.

Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então, visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.

Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá de cima.

Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos. Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de Deus.

Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.

Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta, mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso, bondoso, afável.  Como diz a canção Trem Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo para junto de Deus.