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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Conto: Todo dia

 


foto: Renato Bueloni Ferreira



TODO DIA

Todo dia ela faz tudo sempre igual, seguindo a rotina cotidiana cantada por Chico Buarque. Entrou no elevador e atraída pela força magnética do enorme espelho no fundo daquela caixa metálica, pegou o celular na bolsa, arrumou o cabelo e ajustou o enquadramento para tirar mais uma fotografia. E depois outra e mais outra, afinal, uma foto apenas não é suficiente, pois é preciso escolher a melhor para postar nas redes sociais.

 

Todos os dias fazia o mesmo registro pela manhã ao sair de casa. Um registro diário que documentava o passar dos dias, das semanas, das estações e dos anos. As fotos sempre parecidas. As poses semelhantes. O sorriso contido e discreto, o rosto um pouco encoberto pelo aparelho celular era proposital. Queria dar um ar misterioso, fazer um charme com aqueles registros. Se montasse uma sequência em forma de filme, teria um documentário do envelhecimento sorrateiro e imperceptível.

 

Naquela manhã, parou diante do espelho e ficou a contemplar o que via. Não tirou a foto. Esqueceu de apertar o botão do térreo. Paralisada, mergulhou no espelho como se adentrasse um portal. Uma janela se descortinava diante dela e tudo ganhara novas cores. Notou as raízes brancas que surgiam e lembrou-se do comentário feito por um amigo um dia antes. Ele disse que era charmoso e lhe deixava ainda mais bonita. Achou graça, mas não gostou. Precisava marcar cabelereiro e pintar aqueles fios brancos. Mas de repente, viu-se arrebatada por uma sensação física de passagem do tempo. Não eram dores e nem sinais externos. Ela não tinha rugas aparentes e nem marcas na face, mas o espelho penetrava no seu coração e ela viu-se envelhecida, cansada, exaurida por uma rotina que lhe ditava os caminhos. Percebeu que deixara de ser protagonista de seus dias e passara a ser mera passageira, conduzida pela correnteza deste rio que chamamos de vida.

 

Quantos anos ela deixar passar sem que tomasse as rédeas de sua vida? Quanto tempo deixara transcorrer? Tentou se lembrar da última viagem que fizera por decisão própria. Iam-se lá uns dois ou três anos, pois nos períodos recentes, acompanhou amigas em viagens curtas, não definindo roteiros ou passeios. Ia a tiracolo, como mera acompanhante, sem voz ativa. Quando foi que ela se deixou apagar assim? Sentiu um vazio interior a lhe consumir, um aperto no coração e foi tomada de um senso de urgência, uma vontade que lhe ardia por dentro e de repente deixou sua face ruborizada. A chama estava viva dentro dela, apenas adormecida. Sorriu cheia de energia e apertou o botão do térreo com determinação renovada. Hoje seria o primeiro dia de algo novo. 



segunda-feira, 26 de maio de 2025

Conto: Quanto tempo?

 


Quanto tempo?


Ela tomou um longo e solene gole do café, num gesto quase ritualístico, e perguntou sem olhar nos olhos de seu amigo:

- Já imaginou se soubéssemos quanto tempo de vida ainda nos resta?

- Já, mas não me importo muito com isso. O fim chegará para todos e para cada um de nós no seu devido momento. – respondeu sem cerimônia, sem preocupação, sem esposar qualquer sentimento.

 Um resposta fria e objetiva que a deixou meio sem rumo para avançar no tema.

Ele sorriu e olhou para ela.

- Você tem medo que o futuro nos reserva?

- Não tenho medo do que o futuro nos reserva, mas se soubesse quando fosse morrer, talvez usaria meu tempo de forma diferente. Acho que daria mais valor ao tempo. Por exemplo, e se lhe restassem apenas doze horas de vida, o que faria agora?

Ele engoliu o café, olhou-a com um leve sorriso e disse:

- Eu te beijaria e prolongaria o beijo até que meu tempo expirasse.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Quarentena e confinamento: dicas de sobrevivência


Mãos na massa 


Ao redor do mundo, milhões de pessoas estão em quarentena e confinamento domiciliar. A pandemia do coronavírus impôs ao mundo a maior restrição circulatória desde a Segunda Guerra Mundial. De repente, nos vemos reclusos em casa, com tempo de sobra e tentando ocupá-lo. O que fazer? Vamos a algumas dicas e ideias para tentar tornar mais leve e produtivo este período de quarentena.

1. Estabeleça um horário - organize seu dia e crie uma nova rotina. Se você vai trabalhar em casa, fixe um horário para realizar as tarefas profissionais e procure focar no trabalho. No tempo livre, organize atividades que lhe tragam prazer e distração e que sejam diferentes do que você costuma fazer habitualmente.

2. Ouça música - aproveite para explorar novos estilos, bandas, cantores. Faça um teste, use letras aleatórias no sistema de busca de algum app de música (spotify, dever, iTunes) e veja o que aparece. Algo novo que pode lhe surpreender. Ou então, deixe-se embalar por suas músicas preferidas, crie uma playlist para servir de trilha sonora da quarentena, algo que lhe traga boas memórias.

3. Leia um livro (ou vários livros) - ler é uma viagem, uma experiência enriquecedora, que ativa a memória, enriquece o vocabulário e aumenta nosso conhecimento. Sempre haverá um livro sobre um assunto que lhe interessa. Novamente, tente sair da zona de conforto, leia algo diferente, um clássico, um livro de história sobre pandemias no passado, um romance sobre algo contemporâneo. O importante é usar o tempo com boa leitura.

4. Aprenda uma nova língua - há inúmeros apps que ensinam línguas estrangeiras de forma gratuita. Um exemplo é o duolingo. Uma nova língua expande horizontes e pode ser uma ótima ferramenta em sua próxima viagem internacional. Não vai viajar? Então aprimore o inglês ou o espanhol, competências muito úteis na vida profissional. Já fala estas duas línguas? Então mergulhe nos podcasts do TEDx en español ou o TEDx em inglês. São uma ótima forma de adquirir conhecimento e treinar a língua estrangeira.

5. Reze, medite, reflita sobre a vida - é preciso cuidar da alma neste período. Manter a esperança e refletir. Se você acredita em Deus, tire um tempo para rezar, ler um livro que trata de temas espirituais. Há diversas livrarias que fazem entregas e você pode comprar o livro online. Se você não pratica nenhuma religião, medite, pare uns minutos ao longo do dia para meditar e pensar sobre o que está acontecendo no mundo, na sua vida, com sua família. Este é um ótimo momento para crescimento espiritual.

6. Faça um curso online - diversas plataformas estão disponibilizando acesso gratuito aos seus cursos online. Procure algo que lhe interessa e fuja apenas dos cursos profissionais. Faça um curso sobre história da arte, um curso sobre literatura, culinária. Ache algo que lhe interessa mas que você nunca teve tempo para se dedicar.

7. Organize armários - faça uma limpeza em armários e na casa. Tire roupas velhas ou que não utiliza mais e aproveite para separá-las para doação. Há muita gente necessitada e o inverno se aproxima. Sua doação servirá para ajudar muitas pessoas em estado de necessidade.

8. Faça algo novo - monte sua árvore genealógica, escreva um livro com os filhos, faça um curta metragem, entre com contato com familiares que você não conversa há muito tempo, faça uma live da crianças com os avós, aprenda a cozinhar, cuide de plantas, organize um álbum de fotografias.

9. Aproveite a tecnologia para manter o contato social - utilize as redes sociais de forma cordial e de modo a reatar contatos ou construir novos contatos. Vamos deixar de lado as picuinhas e implicâncias políticas e tentar construir pontes. A hora não é para incrementar o ódio, mas para pacificar os ânimos. Há apps, como House Party, que permitem várias pessoas jogar um jogo por vídeo conferência. Aliás, a vídeo conferência está em alta nestes tempos, revelando que Skype já era e está em muito superado.

10. Cozinhe - o ato de cozinhar é um ato de amor e um ato de união familiar. Não tem ideia de como fazer arroz? Procure um vídeo ou site de receitas e aprenda. Saber cozinhar é uma questão de sobrevivência e uma tarefa manual que distrai e enche de prazer. Se alguém na sua casa sabe cozinhar, peça que lhe ensine. Os adolescentes podem ter muito proveito destas aulas caseiras.

O importante é saber ocupar o tempo de forma produtiva, aproveitar o ócio para criar, inovar, pensar e se reinventar. Quanto tempo vai durar a quarentena? Não tenho ideia, mas o importante é aproveitar o tempo e não enlouquecer.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Memória: Matriarcas



(c) rbueloni


Voltando de férias no Uruguai, dei-me conta que minhas avós sobreviveram aos meus avôs. Um morreu em 1977 e o outro em 1990, no dia 15 de março, dia da posse de Fernando Collor. Boa parte da minha pós adolescência foi de convívio com as matriarcas da família. Percebo que a história se repete e meus filhos deparam-se com semelhante realidade. O convívio com os avôs foi breve, mas deixou suas boas memórias. Agora aproveitam o tempo com as avós, um pouco debilitadas na locomoção, mas lúcidas, sozinhas e independentes.

Quantas mulheres não sobrevivem aos seus maridos? Ouso dizer que a maioria e se adaptam bem a uma nova realidade, uma nova fase de aprendizado e de superação do medo. De repente, tem que administrar as finanças da casa, lidar com trâmites burocráticos e jurídicos. Não estou aqui a dizer que estas tarefas são "coisa do homem da casa", mas ainda são costumeiramente realizadas pelos maridos. Navegar pelo internet banking pode ser um tormento, mas elas aprendem rápido, são curiosas e descobrem um mundo diferente.

Minha mãe está aprendendo a viver só e a lidar com um mundo tecnológico onde operações bancárias são feitas todas por aplicativos,  a pedir ajuda aos filhos e reconhecer que este pedido de ajuda não indica fraqueza ou debilidade, mas é antes de tudo um exercício de humildade. Para os filhos, é uma realidade onde deixamos de ser cuidados e passamos a cuidar. Esta realidade chega de repente e só percebemos isto ao acompanhar o pai ou mãe num leito de hospital.

Quando se percebe, o tempo passou e não corremos para o colo seguro do pai e da mãe, agora somos nós os responsáveis por carregá-los, apoiá-los, ajudá-los. De adultos fortes, a fragilidade toma conta dos pais e descortina o inevitável  ciclo da vida. O tempo é cruel e não espera. Se demorarmos a perceber esta mudança de fase da vida, o tempo acaba. Não é possível fazer uma pausa ou estancar o caminhar constante do tempo. O importante é ter a consciência dessa realidade e sorver o tempo, não deixando que uma oportunidade sequer passe sem que possamos dizer um "sim" a quem nos pede ajuda, ou apenas um pouco de tempo e atenção.




quarta-feira, 23 de maio de 2018

Conto: Aquário, câncer




CONTO:  AQUÁRIO, CÂNCER


Pouco depois das 7 e meia da manhã achei uma vaga no Starbucks do Itaim. Algo raro e imaginei encontrar a loja vazia, afinal ainda era cedo. Ao abrir a porta, uma fila razoável e dois motoboys de serviços de entrega de comida por aplicativo se enfileiravam diante do caixa. Pensei comigo, quem pede um Frapuccino via aplicativo às 7 e meia da manhã?, seria preguiça de sair de casa ou a realidade de eremitas que não desgrudam de seus aparelhinhos e preferem degustar sua bebida em casa, longe de olhares estranhos e do convívio social? Seriam estas imensas janelas, tão generosas na iluminação natural, a dar a sensação de um enorme aquário onde seres humanos substituem os mais diversos peixes ornamentais?

Uma certa irritação começou a me dominar, porém hoje era um dia daqueles em que as irritações do cotidiano seriam solenemente desprezadas. Tinha algo muito mais sério a dominar meus pensamentos. Pensei em ir embora, dar meia volta, mas respirei fundo e voltei a ser absorvido pela efemeridade de momentos corriqueiros. Distraí-me observando os que estavam na minha frente e tentando descobrir o que se passava naquelas mentes.

No caixa, uma adolescente com uniforme de escola inglesa, saia xadrez, camisa de gola e botões na parte dianteira e uma fina gravata listrada pendurada no pescoço sem qualquer cuidado com o nó. A senha do cartão não funcionou. Ela chamou a irmã. Nova tentativa no cartão. Sem êxito. A irmã tirou uma nota de cinquenta e pagou. A atendente se atrapalhou com o troco. Perguntou se o pão de queijo era normal ou integral. A simplicidade da vida agora era atacada por opções e variantes sobre o mesmo tema. O leite podia ser de soja, integral ou desnatado. O pão de queijo integral ou tradicional. O açúcar também tinha suas variações: mascavo, orgânico, cristal. Isto sem mencionar o adoçante em gotas ou em pó.

A cliente seguinte foi mais rápida, assim como o motoboy do aplicativo. Quando chegou minha vez, já havia desistido do pão de queijo e queria apenas um café espresso. Seu nome?, veio a pergunta habitual. E eu, como de costume, inventei um: Heitor. Sempre escolho um nome diferente e fora do comum só para me divertir com o atendente escrevendo o que ouviu no copo ou no papelzinho.

Passei para o canto da loja e continuei observando os que estavam na minha frente, como se fosse um espião ou agente secreto. Uma moça de pele clara, cabelos escorridos, unhas cortadas bem curtas e sem esmalte. Deveria ser engenheira ou da área de TI. Pelo jeito não era vaidosa e não trabalhava em uma empresa ou cargo que exigisse um pouco mais de cuidado pessoal. Não era desleixada, nem feia, mas pelo visto não prezava tanto a aparência. Talvez estivesse de férias. No antebraço uma discretíssima tatuagem, um risco fino e contínuo que contornava todo o braço, dando a impressão de que seu braço havia sido cortado por uma fina lâmina de metal. Ou poderia ser apenas um risco de caneta bem fina. Mayara era o nome dela. O nome não combinava com a pessoa.

Bruno, gritou a moça com um copo na mão e o motoboy se apresentou para retirar dois Frapuccinos, um de chocolate e outro de café. Pediu um suporte de papelão para segurar os copos. Soltou um valeu e partiu para seu destino. A menina da escola inglesa ainda aguardava seu pedido. Parecia impaciente. Atrás de mim três jovens de seus vinte e pouco anos, típicos representantes da geração millenials, no vestir-se e no falar, computador a tiracolo, insistiam em falar sobre a importância de ser agressivos nesse mercado – não sei qual – e em contar com um sujeito que manje muito de finanças. Falavam mais alto que os demais, a conversa animada, qualquer um diria que já haviam tomado uma jarra de café.

O mundo para um millenial ainda é pequeno, um início de caminhada, uma dimensão a ser explorada e conquistada com um aplicativo – ou vários aplicativos – que fosse disruptivo e transformasse a forma de fazer negócio, de se viver, de pedir um café pela manhã ou de saber quanto você gasta com gasolina no final do mês, tudo organizado numa planilha.

Não ri, mas senti um pouco de pena da ingenuidade destes jovens que desprezam o tempo com arrogância, como se fosse algo reutilizável, reciclável. O tempo se esvai rápido e depois que o segundo do relógio passa, ele não volta jamais. “Etor”, gritou a moça informando que meu café estava pronto, achando que era um nome inspirado em algum personagem da Marvel. Açúcar, uma rápida mexida e o café morno foi consumido. Sai da loja ainda me divertindo com o pequeno espetáculo e as pequenas preocupações daqueles personagens. Passei por eles como o homem invisível, sem ser notado. Não me importei. A única coisa que me importava naquela manhã era que haviam descoberto um novo câncer no estômago de meu pai. E a batalha pela vida recomeçava.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Finitude




Alguns dias eram ruins e outros péssimos. Os finais de semana eram os mais difíceis de aturar. Tornara-se um mestre em disfarçar seu estado de espírito, escondendo habilmente a dor que lhe martelava o coração. Estes dias arrastavam-se e não era usual conseguir momentos em que ficava solitário, perdido em seus pensamentos numa insistente tentativa de decifrar o enigma e ponderar de forma racional sobre o que futuro reservava. Prever o futuro é algo tão irracional e tão ilógico que qualquer esforço era em vão, mas seus cenários traçados e desenhados eram sempre pessimistas. A perda era considerada irreversível por maior esforço que fizesse e tentasse resgatar os bons momentos para lhe dar algum alívio e motivação sobre os dias vindouros. Não havia horizonte e calibrar a esperança era algo tão etéreo quanto à simples e ingênua questão sobre se ela ainda pensava nele, se algum carinho havia sobrevivido aos arroubos de raiva e agressividade que lhe deixaram feridas profundas e doloridas.

A vida tem suas contradições, quase um dicionário de antônimos. O pêndulo oscilara de ponto de afeto extremo, de sorrisos e longas conversas para o ponto da raiva, da mágoa, da despedida, do silêncio. Ele, sempre metódico, introvertido, ponderado, agora se via diante de uma vontade incontrolável de falar, de confidenciar, de explicar o que se passava dentro dele. Porém, havia sido emudecido, como se lhe tivessem arrancado a língua, cortado-lhe a palavra, lançado-o num calabouço, alienado do mundo. O tempo era seu único consolo, afinal guardara com carinho as memórias, pois estas não podiam ser bloqueadas, apagadas, queimadas, reprogramadas, reformatadas. Ainda bem que a mente as preserva intocadas, talvez com certo grau de subjetividade, mas plenas e vivas. Uma faísca e a brasa poderia ser reacendida. Fraquezas todos temos e     por vezes, sucumbimos. 

Curioso como iniciara um texto há pouco menos de 3 anos, um projeto a quatro mãos que fora arquivado por desistência da parceira, e que recentemente caminhara nos mesmos passos de seu personagem, vivenciado a dor que descrevera, com a exceção de que a morte não tornava definitiva a situação. A vida repetia a arte e suas palavras haviam sido proféticas e isto o incomodava.

A morte era algo que não experimentara recentemente. Deparara-se com ela há pouco tempo quando fora descoberto que seu pai tinha câncer. A morte outorga um senso de finitude, de transitoriedade, de que somos efêmeros. A morte nos urge a correr, a não desperdiçar o tempo, a cicatrizar as feridas em conjunto, conversando, dialogando e ouvindo, reatando e perdoando, reconstruindo pontes que foram implodidas no passado. A morte cala a voz e ele pressentia que os sentimentos seriam muito semelhantes, como espinhos a lhe furar pele, como a solidão irremediável e cuja solução inexiste.

Respeitava o desejo dela, mas não compreendia. Tateava no escuro sem saber como agir, perdido no caminho e nos sentimentos. Pensou que se vivesse num país com dias cinzas, frios e de longas noites, talvez abreviasse a dor, sucumbisse e desistisse de esperar. Sua alma estava gélida, inerte, afundada na angústia.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Conto: Passagem do Tempo



PASSAGEM DO TEMPO



Parou diante das amplas janelas de vidro do berçário, as mãos nos bolsos, a calmaria ainda reinava em mais uma manhã que começava no hospital maternidade. Julia, Sophia, Lucas, Vinicius, Rafaella, Augusto. Dormiam o sono dos justos os recém-nascidos que ignoravam o que o mundo lhes reservava. Tocado por aqueles pequenos seres, refletiu sobre o que a vida lhe brindara. Não experimentaria a paternidade de novo. Ao menos não na forma natural e com a atual esposa que já devia ter entrado no centro cirúrgico para uma histerectomia.

Sentiu o peso dos anos, a passagem do tempo, o envelhecimento que presenteara com cabelos brancos visíveis, mas sem qualquer sinal de calvície.  A pequena Julia não se mexia. Dormia calma, tranquila, coberta por um cobertor rosa, cabelos espetados e bem escuros. O sorriso discreto e contido desenhou-se no seu rosto, sem esconder a melancolia, a frustração de não ter atingido muitos dos objetivos a que tinha se proposto. Cobrava-se por isto.

Lembrou-se da primeira vez que viu a filha no berçário, olhos abertos, atenta, desperta para o mundo e curiosa por tudo que a cercava. Chorou naquele momento em que a paternidade se descortinou. Chorou de uma maneira única e que lhe marcaria para sempre. As lágrimas derramadas naquela madrugada tiveram o dom de cavar sulcos profundos em seu coração, que parecia ser de granito.

Os ensaios haviam acabado e o momento da estreia havia chegado. Em cartaz, o pai.  Buscou na memória os bons e maus momentos em que se apresentara em cena. No geral, avaliou bem seu desempenho,  sem falsa modéstia. Era um bom pai. Tinha sido e continuava a ser. E pedia a Deus, todos os dias, que continuasse a ser. Disfarçava suas fraquezas, poupava os filhos e a esposa das dificuldades financeiras e das noites mal dormidas, omitia as vezes em que deixava de almoçar para economizar o dinheiro e destiná-lo para algum fim familiar.

O vazio inicial foi preenchido com a sensação de realização, de trabalho bem feito, do sacrifício valer a pena, de ter cumprido a missão que lhe fora confiada até o momento. Não experimentaria a paternidade de novo.  Vivia a paternidade diariamente e isto ninguém seria capaz de lhe tirar. Apesar dos pesares o que tinha era de uma riqueza incalculável.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um livro, dois momentos


"'Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'
'That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.
'I don't much care where - ' said Alice.
'Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat.
'- so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation."

(Lewis Carroll. Alice's Adventures in Wonderland. Penguin Books : London, 2008, p. 66-7)

Outro dia, percorrendo a esmo a seção de literatura estrangeira da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, deparei-me com uma coletânea de textos de Edgar Allan Poe, edição em inglês da Penguin Books, em brochura. Abri o livro e deparei-me com um conto que li na adolescência. The Fall of the House of Usher foi um daqueles textos que odiei ter que ler. A obrigação de lê-lo tirou a beleza e a relevância do texto, deixando-o sem compreensão suficiente. Seguiram-se The Raven, The Tell-tale Heart e alguns outros. 

Aos poucos fui encaixando Poe no contexto histórico do século XIX e seus textos passaram a fazer algum sentido. A obrigação transformou-se em leve prazer, mas a obrigação de ler os textos ainda pesava. Entendia que era necessário para minha formação e que era necessário conhecer os textos clássicos. Alguns deixaram suas marcas, outros meros riscos superficiais que imaginava terem sido apagados pelo tempo. Até outro dia...

O outro dia deu-se no meu reencontro com Poe. Comprei a coletânea e reli os mesmos contos da adolescência. Descortinou-se diante de mim um mundo novo, uma compreensão mais aguda dos complexos personagens criados e suas crises, manias, visões de mundo, aflições e angústia. Como os anos de vida nos concedem um entendimento maior da conduta humana! O mesmo texto e dois olhares completamente diferentes!

A nostalgia me conduziu ao livro - e entendo melhor como é importante ler os clássicos na juventude, ainda que por obrigação - e me deu enorme prazer na sua leitura. Da mesma forma que a epígrafe deste texto, dica do excelente Terapia da Palavra. Fui atrás do livro para deixar a citação mais precisa. Alice só pode escolher o caminho se sabe para onde QUER ir. E quantos de nós não sabem para onde caminham?

terça-feira, 24 de julho de 2012

O tempo e o sentimento de perda



O post anterior trouxe um trecho da escritora inglesa, Jennifer Egan, onde ela afirma que ao rever fotos dos filhos pequenos fica triste, pois nota a passagem do tempo e a passagem do tempo traz ímplicito o sentimento de perda.

Olho a foto acima e não sinto tristeza, nem sou acometido de um sentimento de perda de uma infância que ficou na memória. E na memória ela ficou e permanece viva, tendo contribuído na construção daquilo que hoje sou. Sim, a foto acima é minha e foi tirada por volta dos 2 anos de idade.

Li a frase, marquei-a e trouxe para o blog. Discordo dela, mas arriscaria dizer que as personagens de Jennifer Egan e seus romances devem trazer esta melacolia como pano de fundo. John Banville (O Mar e Os  Infinitos) e Ian McEwan (A Praia), ambos ingleses, tratam do tema com a mesma nostalgia e uma ponta de revolta diante da perda. 

Esta melancolia é um aspecto cultural de alguns povos e encontra-se inserida na postura das pessoas. O fado português é essencialmente um cantar de saudade, de tristeza, de perda. Os ingleses, com seu humor ácido, tendem a seguir esta mesma linha, tão bem sintetizada por Jennifer Egan. O passar do tempo é sinônimo de perda. Pessimismo este tão característico dos países do norte europeu.

O passar do tempo é inexorável. Unstoppable. Iniciada a vida, o cronômetro começa a correr e não há como pará-lo. Poder-se-ia dizer que cada início de dia é um dia a menos na vida, ou um dia mais perto da morte. Prefiro pensar que cada início de dia é um dia a mais que ganhamos e que temos para viver. 

As crianças não conhecem a morte, não compreendem o fim. A ideia de morte vai se imiscuindo no cotidiano de forma sorrateira. É comum terminarmos a faculdade - ou até o ensino médio - com um colega a menos, aquele cujo tempo se expirou e não completou a jornada universitária. Sempre pensei que este escolhido deixa-nos um recado, lembra-nos de nossa finitude e de que a vida é passageira. 

Aprendemos, então, a conviver com a perda. Na fase adulta, compartilhamos a alegria das novas vidas que nascem e a tristeza daqueles que se vão. Parece que tomamos consciência de nossa temporalidade nesta fase, valorizando o tempo com que desfrutamos com os mais velhos e rejuvenescemos diante do sorriso pueril dos pequeninos.

Recentemente, dei-me conta que o número de pessoas pelas quais rezo devido a alguma enfermidade tem aumentado. A lista era pequena, mas foi crescendo, assim como foi crescendo o número de pessoas que conheci e que já morreram. Fulano descobriu um câncer, beltrano vai ser operado do coração, sicrano teve um AVC.

Na velhice, imagino que olharei para os dias passados e agradecerei o tempo que me foi dado. Cada dia, com suas alegrias, tristezas e contratempos. Espero ser grato o suficiente e poder gozar da misercórdia de Deus a perdoar todos os meus inúmeros erros.

O tempo é professor que ensina, ainda que a contragosto, com a realidade fria; aplaina o ego exaltado com a tomada de consciência de nossa condição e treina-nos na humildade; não aceita desaforos e desperdícios, cobrando a responsabilidade daqueles que o desprezam. O tempo foi criado de forma sábia para que os nossos olhos não fiquem grudados apenas no terreno, mas que aos poucos saibamos erguê-los para o sobrenatural. A vida tem seu tempo exato. Não nos cabe avaliar e julgar se vivemos pouco ou muito; vivemos o suficiente.

Não vejo o passar do tempo como perda; vejo o passar do tempo com alegria de poder crescer, aprender, vivenciar e até sofrer. A perspectiva da vida retratada em fotos e em memórias é uma prova de que a vida não é perda, é ganho, e o tempo um presente divino.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Epígrafe - XVI


"(...) Meus filhos são saudáveis, engraçados, e minha vida é muito mais fácil agora que eles cresceram. Ainda assim, sempre que vejo fotos de quando eles eram bebês, fico triste. Há sempre uma sensação de perda quando percebemos a passagem do tempo, mesmo quando nada foi perdido."

Jennifer Egan, em entrevista ao Valor Econômico, Eu& Fim de Semana, 13, 14 e 15 de julho de 2012, p. 26.

Discordo da visão melancólica e pessimista da escritora inglesa. E você, leitor, o que acha?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Conto: Tempo Vazio



TEMPO VAZIO


Sinto-me vazio, raso, despido de profundidade, um fino tecido esticado sobre o varal que balouça ao sabor do vento, desenhando formas abstratas e geometricamente volumosas, que perdem todo o seu conteúdo quando o vento cessa. Vento que disfarça a vida oca com seus sopros que me ocupam o dia, incomoda-me com tarefas e mais tarefas. Entediado, entrego-me a elas para não reparar no tempo que corre, nos cabelos brancos que tingem minha cabeça, nas rugas da testa e nos cantos dos olhos. Não reparo nos dias que se apresentam enfileirados aguardando que lhes abra a porta.

O silêncio me esvazia, tornando-me quase insuportável. Não me olho no espelho. Recuso o confronto do olhar próprio, fujo de todo objeto que possa refletir e revelar o que carrego na alma. O vazio é a ausência de vida. Um marionete que age sem vontade e desconhece quem me guia e ordena meus movimentos, quem - se há alguém - ordena a sequência de fatos que se sucedem no meu dia cinza. 


Todos meus dias se tornaram cinzas, frios, gélidos para ser mais preciso. O sorriso alçou voo e me abandonou. A solidão se instalou na minha cama e convive comigo todos os dias da semana. Não tira férias e não tira folga. Para ela, todos os dias são dias úteis, todas as horas são momentos para me atormentar. Ninguém me escuta - ou tem a paciência para me escutar; ninguém é caridoso e me dirige um olhar. Deslizo por este mundo como um fantasma esquecido. Não tenho mais amigos, não tenho família. Sou um solitário no meio das gentes, no meio do egoísmo que assola aqueles que se acotovelam e dividem comigo o espaço no metrô todos os dias, todas as manhãs, todas as tardes. 

Não sorrio. Não falo. Apenas assisto ao tempo passar. 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dias frios

Dias frios têm sido estes das recentes semanas que parecem até congelar a inspiração, escondida debaixo de cobertas bem quentinhas, sem querer sequer botar o nariz para fora. Não sei se é a inspiração que se esconde ou se são os dias mais curtos, o céu cinza, os rostos sisudos e quase cobertos por cachecóis, gorros e chapéus. Dias quase tétricos, onde a luz solar faz falta. Mas parece que este ano está mais frio. Ou o frio parece mais constante.

Parece. Sim, reforço a subjetividade da impressão, pois a memória em temas climáticos é falha e imediatista. 

Cheguei à conclusão que sou uma pessoa de clima tropical. Gosto do calor, gosto do sol, gosto dos dias longos. Gosto da luminosidade do inverno e do outono, mas prefiro o sol escaldante do verão e do conforto do ar condicionado. Prefiro as roupas mais vibrantes e coloridas ao tons neutros e soturno do inverno. Prefiro dormir com ventilador ligado a me enfiar embaixo de várias camadas de cobertores. Prefiro o frio só como destino de férias. E por curto espaço de tempo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Crônica: Senhor do Tempo



SENHOR DO TEMPO


Tudo começou quando avistou um fragmento de arco-íris no meio das nuvens, que mais lembravam gomos de algodão a salpicar o céu do nordeste brasileiro. Pela janela do avião, vislumbrou fiapos de um rios a cortar o mangue antes de desaguar na vastidão do oceano, como veias a irrigar uma mão, como dedos a rasgar a areia e que desenhavam sulcos do tempo.

O avião iniciava a descida para Salvador, era domingo de Páscoa, e Oscar passaria mais um domingo longe de casa, preparando-se para uma semana de reuniões na fábrica da empresa multinacional em que trabalhava. Projetos de expansão, orçamentos, apresentações, almoços com o seu chefe que chegaria dos Estados Unidos na segunda-feira, uma audiência com o governador para anunciar os novos investimentos e toda a bajulação típica destes eventos. A graça e o glamour haviam cedido espaço para a rotina entediante e amarga, para atuar como um ser robotizado e despido de emoções, um escravo moderno.

Oscar desembarcou e um motorista o aguardava com uma plaqueta na área externa do desembarque, auxiliando-o com a mala. Fez apenas duas perguntas ao motorista, cordiais e formais, e manteve-se calado no trajeto até o Rio Vermelho. O sol brilhava timidamente entre as nuvens, mas o mar refletia a luminosidade do início da tarde. Observava atentamente a paisagem, como se fosse uma despedida, como se olhasse os arredores pela última vez. Faltava algo.

Deixou as malas no quarto, desceu para o deck da piscina com vista para a Baía de Todos os Santos.  Sentou-se numa mesa na sombra e pediu uma salada, pois dispensara o sanduíche do avião durante o voo e sentia a ausência do almoço.

As ondas debatiam-se contra as rochas, incansáveis, constantes. Não se repetiam e a cada encontro com o paredão rochoso, desfaziam-se em espuma farta e branca, por vezes sobre as pedras, por vezes em altos jatos que lembravam a erupção de um vulcão. Oscar retornaria ao mesmo lugar e as ondas continuariam a se chocar com as rochas, fornecendo um espetáculo gratuito e sempre inédito. As ondas não se cansavam jamais e agiam de forma atemporal.

- Quero ser senhor do meu tempo! – exclamou em voz alta.

A decisão estava tomada. Comunicaria ao chefe que deixaria o cargo em trinta dias. Havia perdido muito tempo. Não vira as filhas crescerem. Agora, não abriria mão de ver – e conviver – com os netos, quando viessem. E mesmo que não viessem, queria ser senhor do seu tempo. Queria poder ficar horas a contemplar as ondas sem se preocupar com apresentações e horários; queria poder almoçar sem olhar no relógio; queria poder surpreender as filhas e ir ao cinema numa sessão das 17 horas numa sexta-feira, ou mais ousado, numa quarta-feira!

Oscar queria viver e, ao menos, dar direção ao uso que faria do tempo, enquanto Deus lhe desse tempo. Sabia que havia desperdiçado muito tempo. Não vira as filhas crescerem, mas ainda resgataria a juventude delas sendo mais presente. Assumiria seu tempo com fervor e passaria a ser o timoneiro do barco, não mais um mero passageiro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

E 3 anos se passaram



De forma implacável o tempo passa, sem pedir licença, sem aceitar pausas. No dia 15 de janeiro de 2007, o primeiro post veio à tona neste humilde blog. Surgido por culpa de alguém, que resolveu dar aquele empurrãozinho necessário para que as palavras saíssem do fundo da gaveta e ganhassem um espaço público. Confesso que havia uma timidez que me impedia de publicar o que escrevia. Ou talvez um medo de parecer ingênuo e ser sufocado pelas críticas. Mas isto não ocorreu.

Alguns textos talvez tenham provocado lágrimas e outros sorrisos. Talvez alguém tenha se identificado com algum personagem; talvez alguém tenha tido um momento de saudade. Quem sabe um leitor desavisado, que por aqui passou, sentiu-se provocado a ler um livro que aqui fora comentado. Quem sabe uma música despertou um sentimento adormecido, ou talvez permitiu um novo olhar sobre a realidade.

Não tinha grandes pretensões. Queria apenas escrever e deixar fluir a inspiração. A inspiração mantém-se viva, despertada pela musa. Colhi deste espaço reações que me deixaram por vezes sem graça, que me surpreenderam, mas que reveleram que há muita coisa boa para ser lida em blogs. Boas discussões surgiram. Longas conversas e novos interlocutores passaram a fazer parte deste pequeno canto, comentando ou simplesmente visitando. De todos os cantos do Brasil e de outros países, passaram leitores. Alguns deles escreveram emails narrando alguma reação a algum texto. É fascinante perceber que a palavra tem um poder mágico, um poder de mudar, de cativar, de transformar.

O propósito inicial do blog era ater-se à literatura. Em certos momentos, a política ganhou o palco principal. Sinto que neste ano a política será uma temática constante deste blog. Mas acima de tudo, descobri que o blog é livre para expressar a minha opinião. Acredito que o princípio fundamental que norteia os temas é a liberdade de expressão. Por mais tentem limitá-la, por mais que tentem tolher suas mais variadas formas, a liberdade de expressão não poderá ser cerceada na internet. Em ano de eleição, a voz deste blog não se calará.

Completo 3 anos escrevendo neste cantinho. Este blog não existiria sem um empurrãozinho providencial, provocado por alguém que ao acaso cruzou meu caminho. Agradeço a todos que por aqui passam, comentam, criticam ou simplesmente olham.

Voltem sempre!


terça-feira, 7 de abril de 2009

Crônica: Guloseimas



GULOSEIMAS

A mesa posta era uma efusão de cores vivas e quentes. Ao centro, um bolo de chocolate ostentava um personagem de desenho, que se multiplicava por vários cantos da mesa, como se a vigiar as guloseimas tentadoras. Brigadeiros, beijinhos, balas de goma, doce de leite e outras delícias aglomeravam-se entre balas de côco embrulhadas em papel vistoso. Os docinhos pareciam pessoas amontoadas num trem de metrô na hora do rush. Cores, sabores, aromas adocicados misturavam aos gritos, risadas, estrondos de bexigas estourando.

Pedro foi o primeiro a ficar ao lado da mesa quando se anunciou o parabéns, o momento mais esperado daquela tarde, afinal poderia atacar os docinhos. Seu queixo ficava pouco acima da borda da mesa, mas os olhos estavam irrequietos, agitados, percorrendo cada cantinho, mapeando o território, traçando uma estratégia para o ataque, ansioso pelo momento decisivo. Ele sabia, como todo general, que se houvesse indecisão, não lhe restaria mais do que um brigadeiro. Os bárbaros atacam sem piedade.




Olhou para os lados e pensou em esconder um brigadeiro por debaixo da mesa. Ia ser sorrateiro, discreto, um espião à espreita. Com toda aquela balbúrdia e confusão, quem iria perceber ou notar o desaparecimento de um mísero brigadeiro. A mesa era muito grande e nem todo mundo gostava de brigadeiro. Quando ergueu a mão sobre a mesa, Aninha o repreendeu. A irmã, do alto de seus 7 anos, foi rápida ao notar o ataque. O efeito surpresa estava desfeito. Levemente enrubescido, Pedro obedeceu, mas explicou:

- Só ia arrumar aquela bala de côco que está caída!

A irmã já conhecia estas artimanhas e somente balançou a cabeça. Pedro teria que aguardar por mais alguns minutos que pareceram uma eternidade. O tempo, nesta idade, tem ares de lentidão que desaparecem com o próprio tempo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Tatiana Salem Levy tem livro premiado.

Um dos livros que li neste ano que se encaminha para o final - e um dos que mais gostei - foi A Chave de Casa. Escrevi um post sobre a obra (Uma viagem pelo passado) em que teci meus comentários pessoais e minhas impressões sobre o livro.

Aos 29 anos, Tatiana Salem Levy recebeu esta semana o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante. Prêmio merecido. Não li as obras dos outros concorrentes, mas a Tatiana utiliza de uma dinâmica narrativa diferente do usual. Seus capítulos são curtos e misturam a realidade com a memória. O leitor mergulha num universo que traz narrativas paralelas, de várias gerações, outorgando à estória um ritmo próprio, muito semelhante com a vida.

Poderia se comparar a forma escolhida pela autora com uma conversa com uma pessoa de idade avançada. Pensem numa tarde preguiçosa de prosa com sua avó. Ele comentará situações do presente, lembrará de coisas passadas e mencionará fatos de sua infância. Tudo se alternando ao longo da conversa, como se costurasse sua vida com a sobreposição temporal.

No post de 6 de fevereiro de 2008, conclui o texto com a seguinte frase: "Dificilmente o livro será um best-seller, mas é uma obra de grande qualidade literária." Acho que acertei. Transcrevo alguns trechos da obra. Trechos que grifei durante a leitura que me fizeram pensar.

"Vida melhor sempre se pode conseguir onde se está, mas fugir, não; para isso é preciso pegar um navio, ir para bem longe, principalmente se for de um grande amor, impossível de tão grande, como era o seu." (p. 35)

Sobre o passado, o imigrante decidido a vir ao Brasil se questiona e decide romper as amarras.

"Se ele quisesse, poderia conservar seu nome, sua origem. Preferiu criar outros, dar um novo nome e uma nova origem à vida que o aguardava. Sentia que para recomeçar precisava de outra identidade: se não deixasse para trás tudo o que havia sido seu até então, estaria para sempre amarrado ao passado." (p. 42)


E mais adiante, o passado a volta a ser questionado.


"O resto era passado, e o passado deve ser silenciado, adormecido entre os fios da memória." (p. 111)


Relendo estes trechos do livro, surgem novos comentários e divagações. Não vou me alongar. Talvez seja necessário retomar a temática do livro em outros posts.


Parabéns a Tatiana Salem Levy pelo prestigioso Prêmio e pelo reconhecimento. Aguardamos seus próximos livros.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Perspectiva e idade

Foi numa palestra sobre cinema e as emoções na educação dos filhos na escola de meus filhos, que revi uma cena sensacional do filme Sociedade dos Poetas Mortos. Robin Williams, que interpreta um professor de literatura, dá sua primeira aula em uma escola particular britânica. Pede que um aluno leia o início do livro texto. Enquanto a aluno lê o texto, o professor desenha um gráfico na lousa, uma representação matemática do que seria a poesia e de como interpretá-la. O professor escuta pacientemente a baboseira escrita por um PhD em literatura, que somente via fórmulas matemáticas nos textos poéticos. Racionalidade pura, onde impera o irracional, a paixão, as emoções, uma visão diferenciada.

O professor, então, calmamente, diz que tudo que acabaram de ler era lixo e ordena que os alunos arranquem aquelas páginas iniciais do livro. Os alunos, estupefatos, seguem a ordem temerariamente. Aflitos por quebrarem a ordem e a disciplina imposta, reticentes em seguirem o caminho pouco ortodoxo proposto por aquele docente. O professor quebra paradigmas, e mesmo diante de alunos desconfiados, conquista a confiança e a amizade dos alunos. O professor propõe que os alunos "olhem" a poesia sob outra perspectiva, com um outro olhar.

Em outra cena do filme, para exemplificar o que isto quer dizer, sugere que os alunos subam nas mesas, que fiquem mais altos, que de cima das mesas lancem seus olhares para o mundo, que parece ser reduzido, diminuído, alterado. Olhar de fora, de longe. Olhar com óculos especiais que permitem esta nova perspectiva.

Aonde quero chegar com esta divagação? A idade nos dá uma nova perspectiva. Quando fazemos aniversário, há dois sentimentos que se misturam, principalmente quando se ultrapassa os 30. Um sentimento de alegria e de sobrevivência, um sentimento de que seguimos firmes na jornada da vida. Ao mesmo tempo, e em muitos casos, um sentimento de perda, de fracasso, de desânimo. Sente-se o peso dos anos.

Este sentimento de desânimo, de perda de tempo, de fracasso, não nos pode impedir de renascer, de recomeçar, de rejuvenescer. Se um relacionamento se desgastou ou desmoronou, o tempo não foi perdido. O tempo foi de aprendizado. A vida parece nos revelar certas coisas somente com o passar dos anos. É o tempo, os anos nas costas, que nos conduz a relatar segredos, a desmascarar medos e angústias.

A juventude nos dá muita coragem, mas pouco juízo e muito pouca informação. O aprendizado vem com a vida, com a experiência. E isto vale para tudo: para a vida profissional, para a vida amorosa, para a maternidade/paternidade. Só com o tempo, com outra perspectiva ao lançarmos uma revisão sobre o passado, é que podemos entender muitas coisas. Não há erro naquilo que erramos por desconhecer. Ninguém tem bola de cristal. A vida ensina. A vida é reveladora e cheia surpresas. Culparmo-nos por erros ou porque aparentemente perdemos tempo é um equívoco. Todos erramos e sempre há tempo para corrigir os erros, para mudar o rumo, para fazer novas escolhas.

"Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima" diz a letra do samba. Para isso é que existem amigos e aquelas pessoas especiais que estão sempre ao nosso lado. Ainda que em outra cidade.
Para quem gostou do assunto, veja também o post Reflexão Pascal.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Uma viagem pelo passado



Tatiana Salem Levy é uma jovem escritora brasileira, considerada uma das revelações na nova literatura contemporânea brasileira. A Chave de Casa é seu romance de estréia e foi lançado pela Editora Record em 2007. O livro foi inicialmente publicado em Portugal pela Editora Cotovia, numa coleção dedicada à nova literatura brasileira contemporânea.


A narrativa não é linear e os capítulos curtos se sobrepõem em diversos planos para contar a história dos antepassados da narradora. Há poucos nomes nos livros e os personagens não são identificados e descritos em detalhes. Há um enevoado sobre os protagonistas que somente se desfaz - e não totalmente - depois de alguns capítulos. O estilo narrativo é denso e exige atenção do leitor, que demora um certo tempo a perceber que a história corre em planos paralelos, planos de tempo diversos, que convergem no final para o tempo atual.


Algumas palavras permeiam toda a história de uma família que emigra da Turquia para o Brasil, foge para Portugal durante a ditadura e retorna ao Brasil. Medo, silêncio e passado. O primeiro sentimento está presente em todos os momentos temporais do livro. O silêncio é correlacionado com o medo, um medo do futuro, um medo de não estar em paz com o passado.


Neste drama humano, há passagens de uma riqueza narrativa belíssima, com poucos detalhes, mas muito emoção e intensidade. Ainda que haja um personagem masculino, a narrativa se dá basicamente do ponto de vista feminino, em conversas entre mãe e filha, onde esta expõe seus medos, aflições, angústias e desejos.


A memória, esfumaçada, imprecisa, é elemento constante na história, o que pode causar um pouco de confusão no leitor, mas que é usada de forma hábil pela escritora. O ponto de vista, a versão da narradora é contraditada pela mãe falecida, com quem conversa em pensamento. Estes diálogoso conduzem o leitor a refletir sobre pontos de vista diversos, sobre a ótica e o olhar, sobre a forma de ver as coisas.


Há uma semelhança entre a narrativa e a vida da autora, nascida em Lisboa, e que se mudou para o Rio de Janeiro com apenas 9 meses de idade. O romance é ficcional, mas há características autobiográficas na obra. Dificilmente o livro será um best-seller, mas é uma obra de grande qualidade literária.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Crônica: Instante



INSTANTE


Ela saiu pisando duro. Ele aguardava-a, sereno, do lado de fora do prédio, pontual, como de hábito. Esboçou um sorriso ao vê-la caminhando em sua direção. Ela beijou-o no rosto, um beijo rápido, formal, displicente. Ele notou que algo lhe incomodava, que o dia havia sido difícil, que ela estava irritada. Ela desfiou uma ladainha de reclamações, xingou o chefe, xingou o computador, xingou o telefone que não parava de tocar, xingou o ar condicionado que estava muito gelado. Ele ouvia tudo em silêncio, atentamente, anotando mentalmente cada reclamação, cada detalhe negativo do dia dela. Ela soltou a voz e sabia que ele pacientemente ouviria cada resmungo, cada palavra indignada. Ele esperou e ela foi perdendo o fôlego.

Caminharam algumas poucas quadras, ele em mudo, atento a ouvi-la. Ela parou num ímpeto, olhou-o e perguntou meio envergonhada:

- Estou muito ranzinza hoje, né? Só reclamo!

- Você está linda! - respondeu sem hesitar, a voz firme e forte. Não foi um sussurro, mas uma afirmação, intensa, cheia de afeto e que poderia ser ouvida por qualquer um que passasse ao lado deles. Disse a frase sem receio de ser ouvido e isto a desmoronou. O sorriso meio tímido dele a aqueceu por dentro.

Ela, envergonhada, baixou o olhar e deixou sua mão procurar a dele. Ainda fria do ar condicionado, os dedos finos e delicados contrastavam com o calor da mão dele. Os dedos se entrelaçaram e de mão dadas continuaram a caminhar, sem palavras. Com a mão livre, ela tocou a ponta do nariz dele e disse:

- Só você tem o dom de me desmontar deste jeito!

Agora, era ele quem enrubescia e deixara escapar as palavras. Seu rosto brilhou com a mudança do humor dela, sentiu um leve arrepio e um júbilo interior quase incontrolável. Pensou que tudo aquilo era bom. Era bom andar de mão dadas com ela.

Ela percebeu, naquele instante, que o passado não importava. Uma hora, um dia, um mês, um ano, dois anos, muitos anos. O passado evaporara com o simples gesto das mãos unidas. O dia de amanhã, incerto também, deixou de lhe afligir. Viveu o presente, o instante, o momento. O ponteiro do relógio parecia mover-se em ritmo preguiçoso.

O instante era infinito. O instante - aquele instante - era um marco.


Um instante que lhe revelou que não estava sozinha, que alguém estava ali, por ela. Que as palavras dele eram sinceras, mesmo que ranzinza, mesmo que reclamona, mesmo que descabelada, mesmo com uma manchinha de molho de tomate que respingara do macarrão do almoço e que esquecera de disfarçar. O que importava, naquele instante para ele, era ela. Somente ela! E ele sempre a tratara assim.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Duas interpretações

Este post é continuação do anterior. A música Grand Hotel, do Kid Abelha, é conhecida da nossa geração e de fãs mais novos da banda.

A bela letra trata de um amor que se desgasta com o tempo. Um relacionamento que atropelado pela rotina perde sua vibração, sua intensidade, seu colorido. É o amor que se transforma em "bom dia." Um relato fiel da dura realidade ou um alerta? Seria o tempo um inimigo do amor, um inimigo que aos poucos vai esgarçando o tecido de algo íntimo?

Não sei a resposta. Sei que o tempo e a rotina tornam têm o poder de transformar qualidades em defeitos, de mudar gestos engraçados em motivos de implicância, de arrancar máscaras disfarçadas pelo torpor da paixão. O tempo pode ser um aliado para a solidificação de um relacionamento, mas também um inimigo silencioso. Como ondas que se chocam com um rochedo, até despedaçá-lo.

O tempo nos faz deixar de apreciar certas coisas, tomados pela rotina e a correria da vida. A música Epitáfio, dos Titãs, trata um pouco da pressa na vida, da pressa em fazer coisas demais, em querer tudo no nosso tempo e não no tempo das coisas.




"Queria ter aceitado as pessoas como elas são"

Talvez uma música possa puxar a outra e servir de pano de fundo desta divagação. As duas falam do tempo, da pressa e de não saber olhar para o outro. E é este não saber olhar para o outro que destrói o relacionamento. O tempo, por vezes, dá mais uma chance, uma oportunidade de se vencer a inércia que se instala no relacionamento. Mas é implacável quando se forma um abismo intransponível.

Fernanda Young, ao entrevistar Paula Toller em seu Irritando Fernanda Young (programa excelente), perguntou para a cantora se um amor que se transforma em bom dia não é algo bom. Nunca tinha olhado a música Grand Hotel desta forma, ou sequer tinha parado para pensar nesta frase como algo positivo.

Paula Toller respondeu que o amor transformado em bom dia é um amor cheio de respeito pelo parceiro, por quem está do seu lado. E respeito e admiração fazem com relacionamentos durem longos períodos de tempo. Para certas coisas, não é preciso pressa. Uma visão positiva, uma visão diferente daquela que usualmente temos da frase.