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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Capela Rothko

Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni


Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e extremamente enriquecedor.

 

Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela Rothko.

 

A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró, Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros.

 

Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas aqui: site ). No exterior, não é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico. Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito histórico de Houston.

 


Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte.

 

Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura, em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade, fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos. Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de serenidade e paz.


Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores.


Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música, mergulhe na cultura local!


segunda-feira, 22 de junho de 2015

A poesia que nos falta




Eu leio poesia. Eu compro poesia. Eu não sou um consumidor de poesia, pois poesia não se consome, desfruta-se. Penso que a poesia é um convite à contemplação, a ultrapassar a superfície das coisas, um mergulho nas profundezas do cotidiano e dos sentimentos, da vida e dos objetos, da realidade que nos cerca. A poesia me transporta para o mundo da reflexão, do devaneio, da tentativa de melhor compreender este mundo.

Creio que nos falta poesia no dia a dia. Talvez você, meu caro leitor, perguntará onde existe poesia num metrô lotado, num engarrafamento de final de dia quando se está cansado a caminho de casa, numa notícia de jornal que reproduz a violência e a barbárie de crimes cometidos. Onde está a poesia deste mundo cruel?

Quem sabe, se olhássemos o mundo com um olhar poético, contemplativo, poderíamos ultrapassar a casca que recobre a realidade e penetrar mais fundo no transcendental. 

Outro dia, um amigo criticou de forma ácida o grande sucesso do momento, os livros de colorir para adultos. Para adultos? Quer dizer que criança não pode colorir aqueles desenhos elaborados? Lógico que pode, mas são planejados para adultos lidarem com o estresse. 

Curioso como a atividade lúdica, como o contato com a arte, ainda que de forma primitiva, seja utilizada como elemento terapêutico. A escrita já é usada como terapia, assim como a leitura. Agora, é a vez dos livros de colorir. O adulto dá um primeiro passo para ter contato com a arte visual. Digo primeiro passo, pois poderia sentar-se num banco em uma das galerias do MASP e contemplar Rembrandt, Picasso, El Greco, Goya, Modigliani, Monet, Manet...

Contemplar é mais trabalhoso do que simplesmente pintar com canetinhas e lápis de cor. Contemplar exige que se silencie o interior, que nossos sentidos estejam focados no objeto. A poesia faz isto, transporta-nos para o mundo da contemplação. Falta-nos poesia no mundo de hoje, mas quem sabe alguns não descubram que a Arte não é restrita a livros de colorir para adultos.


sábado, 19 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - II : Onda Vermelha


Mona Lisa, no Museu do Louvre

Paris foi invadida por chineses. Bem, qual lugar do mundo não foi invadido pelos oriundos do país mais populoso do mundo? Talvez, nenhum. Mas, aqui eles estão por todos os lados, em grupos, em bandos, com guias turísticos, noivas posando diante da Torre Eiffel, de Notre Dame, na Pont des Arts. Nas Galerias Lafayette, compram e consomem com a ferocidade de uma nuvem de gafanhotos a atacar uma plantação verde e saborosa. Havia fila de chineses para aproveitar os descontos das bolsas Chanel, Prada, Bulgari, Louis Vuitton, Longchamp por mais de alguns milhares de euros. Em oferta.

No Louvre – e nos demais museus -, a coisa se torna mais grave e convida a um olhar crítico. Percorrem as salas do museu atrás das obras mais conhecidas. Param um instante para fotografar, filmar, fazer selfies, e seguem adiante. Não há contemplação, apreciação, reflexão, admiração. Tudo é digitalizado, instantâneo, como se a captação da imagem em máquina digital permitisse representar toda a experiência da contemplação de uma Mona Lisa, de uma Vênus de Milo, de uma Coroação de Napoleão.

Correm pelo museu, atropelando as pessoas, dando cotoveladas – e não pedem desculpas. Infelizmente, a falta de educação predomina. Não tem qualquer restrição a tocar na peças, nas esculturas e nos quadros. Furam filas e parecem viver numa estrutura social própria onde as regras parecem valer para os outros e não para eles que estão fora de seu país de origem e fingem não entender o que se passa.

Em um determinado momento, perdi a paciência. Andava pela galeria dos pintores italianos no Louvre, lotada, parecendo shopping no Brasil em época de Natal, e tentava apreciar as telas quando fui arrastado pela onda vermelha. Como a maioria deles eram mais baixos do que eu, interpus-me no meio da fila de uma excursão e passei a caminhar bem devagar, quase parando. Pressenti o pânico atrás de mim. Eram vários chineses tentando me ultrapassar e eu, como piloto numa prova de automobilismo oscilava da esquerda para a direita impedindo a passagem. No fim, eles me ultrapassaram, mas ficou claro que a ida ao museu fazia parte apenas de um passeio onde não se apreciava nada, apenas carimbavam o passaporte e poderiam dizer: “eu estive lá”, “eu vi a Mona Lisa”.

Na Torre Montparnasse, um edifício moderno com um terraço panorâmico no 56o. andar, há monitores com fotos da paisagem para que o visitante possa identificar os edifícios no entorno com um toque na tela. Ali presenciei outra cena bizarra. Um moço jovem fotograva a tela do computador ao invés da paisagem! Se ele queria uma foto do computador, devia ter feito o passeio pelo Google e não precisaria ir até Paris. Qual o sentido de se viajar para um lugar e apenas registrar tudo em fotos, como se o mundo fosse apenas uma realidade virtual?


Sinceramente, não consigo entender o objetivo destes viajantes. Visitam museus, marcos históricos e monumentos apenas para tirar fotos. Creio que as devem postar nas suas redes sociais e ostentar afluência numa ex-sociedade comunista. Será que levam consigo um pouco da sensibilidade humana da cultura ocidental? Será que algum deles compreende a razão da construção de catedrais e igrejas? Será que conseguem penetrar na beleza de uma tela impressionista ou na leveza de um Rembrandt com seu jogo de luz? Tenho minhas dúvidas. Mas, volto com a sensação de que andei no meio de uma nuvem de gafanhotos predadores.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Museus em alta


A reportagem de Mariana Shirai foi publicada no Valor Econômico (edição de 12 de abril de 2012, p. D5) sob o título "O ano das exposições blockbusters no Brasil" e trouxe uma nota bastante interessante: "No fim do mês passado, a exposição de Escher no Rio foi apontada pela publicação britânica 'Art Newspaper' como a mais popular no mundo (maior média diária de visitantes), com 573.691 visitantes."

O número de visitantes é um indicador muito positivo de que há interesse por cultura no Brasil. Desde que as exposições sejam relevantes e bem montadas, o público comparecerá. Os cariocas deram um exemplo com a frequência avassaladora à mostra de Escher. Não me surpreendo, pois o Rio é mais do que "apenas" uma cidade maravilhosa de praias e paisagens indescritíveis. O Rio é uma cidade de cultura pulsante e viva e o CCBB-RJ é um dos lugares mais encantadores para se visitar.

Recentemente tive a oportunidade visitar a mostra sobre a Índia no CCBB-Rio e no CCBB-SP. A mostra de São Paulo - apesar de teoricamente igual - era mais acanhada por culpa do espaço menor, mais apertado, menos iluminado. Os cariocas são privilegiados de poder desfrutar deste grande espaço cultural.

Volto a insistir no que já discuti em posts anteriores: o brasileiro é ávido por cultura e acorrerá às grandes mostras. O Brasil tem excelentes espaços culturais, basta o cidadão ir atrás. E este ano ainda promete com exposições de Leonardo Da Vinci (1452-1519) e Caravaggio (1571-1610), além de uma grande mostra sobre o impressionismo, com obras de MOnet, Renoir, Van Gogh, Degas e Manet, diretamente do acervo do Museu D'Orsay, de Paris.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A obra monumental de Portinari


Guerra, Candido Portinari


"Entre 1952 e 1956, Candido Portinari realizou seus dois últimos e maiores murais, Guerra e Paz (14 x 10 m), encomendado pelo governo brasileiro para presentear a sede da ONU, em Nova York. 

Localizados no hall de entrada da Assembleia Geral, os monumentais painéis estão em local nobre porém de acesso restrito. Por esse motivo, o Projeto Portinari sempre sonhou em expor Guerra e Paz ao grande público."
(Trecho extraído do artigo publicado no livro 'Guerra e Paz - Portinari', editado no ano do cinquentenário da instalação dos painéis na sede da ONU, NY e transcrito no folheto da mostra no Memorial da América Latina, São Paulo).

Os painéis são monumentais, impressionantes, repletos de detalhes que convidam à reflexão e uma olhar atento e demorado. Seus 14 metros de altura preenchem o Salão de Atos Tiradentes do Memorial da América Latina, em São Paulo até o dia 21 de abril, quando seguirão pelo Brasil e outros países, até seu retorno à ONU, em 2013. 

Portinari abraçou o projeto mesmo tendo sido proibido por seus médicos de continuar a pintar. Os médicos tentavam amainar o processo de envenenamento causado pelas tintas.  Ele seguiu adiante e completou sua obra, um legado para toda a humanidade, um retrato das angústias da guerra e da alegria da paz. 

Portinari morreu pela arte que lhe deu vida, pelas tintas que o imortalizaram. 

Além dos dois maravilhosos painéis, a mostra traz cerca de 100 estudos realizados pelo artista antes da elaboração dos painéis. 

Programa imperdível e que pode ser aproveitado com a cidade mais vazia durante o carnaval.

Guerra e Paz, de Portinari 
Exposição dos painéis pintados por Candido Portinari
Período: 7 de fevereiro a 21 de abril de 2012
Local: Fundação Memorial da América Latina,
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664,
nos seguintes espaços:
Salão de Atos, Galeria Marta Traba e Biblioteca Latino-americana Victor Civita.
Horário: terça a domingo, das 9h às 18h
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Guignard e o Oriente

Ouro Preto, 1951, do acervo do MAC USP

Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é um pintor brasileiro que revelou forte influência oriental em suas telas. Estes traços característicos da obra de Guignard podem ser percebidos em mostra que ocorre no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Guignard consultou obras sobre arte oriental na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Suas paisagens trazem aspectos semelhantes ao das paisagens orientais, tanto no formato das telas - alongadas e verticais -, como no estilo de suas obras. Suas pinturas estão ao lado de pinturas orientais facilitando a percepção destas semelhanças.

A mostra vai até o dia 29 de agosto de 2010, de terça a domingo, das 11 às 20 horas, no Instituto Tomie Ohtake, na Av. Brig. Faria Lima, 201.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Em defesa do silêncio



Um assunto puxa o outro e muitas vezes um comentário deixado por aqui leva a uma conexão com outro tema.

No sábado (1/05/2010), Miguel Reale Jr. publicou artigo no Estadão intitulado Haydn ou BlackBerry. Narrou seu espanto diante de um sujeito que passou o concerto inteiro dedilhando seu BlackBerry, ao invés de desfrutar da sonata de Haydn. Trocou alguns momentos únicos de silêncio e recolhimento musical para continuar plugado ao mundo. O artigo lança a questão, a qual foi tema de diversos posts neste blog: "E agora, como preservar a identidade do homem nesta nova coletivização dos espíritos? Sem jogar o BlackBerry pela janela, cumpre aprender com disciplina e resistência que o uso das ferramentas tecnológicas deve conviver com o silêncio, ao ouvir Haydn ou ao estar só, consigo mesmo. Cabe uma revolta do homem contra os dominadores insidiosos, para impedir a invasão constante de nossos domínios de exclusividade."


Em outras palavras, será que temos medo do silêncio? Será que a sociedade moderna tem ojeriza ao recolhimento interior, aos momentos de contemplação? Arrisco dizer que sim e vejo isto como algo negativo.

O silêncio permite o autoconhecimento, permite que ouçamos nosso interior, ensina-nos a ouvir e a refletir. Escritores, músicos e pintores encontram no silêncio o refúgio criativo. Qualquer escritor, ao discorrer sobre seu processo criativo afirma que o processo criativo é solitário, individual. A leitura é uma experiência silenciosa e individual. A discussão do livro pode ser coletiva, mas casa indivíduo tem uma expriência própria e peculiar ao ler determinada obra.

O silêncio é indispensável para criarmos leitores e indíviduos que saibam apreciar música, pintura e a arte como um todo.

No post Criando Leitores, mencionei como o incentivo para as crianças é fundamental para que tenhamos novos e profícuos leitores. Leitores que saibam ler com qualidade, não somente em quantidade. A leitura qualitativa enseja uma melhora no vocabulário e na ortografia, auxiliando no desenvolvimento da criança. Um lugar adequado e silencioso é importante para que a leitura se torne um hábito, cultivado pelo indíviduo. O silêncio se faz presente.

O comentário deixado no post já havia me incitado a retomar o assunto. O artigo do Prof. Miguel Reale Jr. foi a confirmação do que já suspeitava: o assunto merecia mais um post.

Cultivemos o silêncio e dialoguemos com nossos pensamentos. Há um fantástico mundo interior a ser descoberto.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

OSGEMEOS estão em mostra na FAAP



Luminescence


Uma caixa de madeira, de formato cúbico, com cada lado medindo aproximadamente 1,5m. Numa das faces deste cubo, um rosto desenhando com spray, no melhor estilo dos grafites coloridos e artísticos que podemos encontrar nas ruas da cidade grande. Esta cabeça apóia-se sobre outra cabeça e o observador é convidado a entrar na escultura. Abaixa-se e ingressa num universo de espelhos e luzes, com uma sensação de poder “ver” o infinito. Ou ficar maravilhado com singela, mas fascinante, representação do interior da cabeça humana. A instalação denomina-se Luminescence.


Esta instalação está disponível para visitação no Museu de Arte Brasileira da FAAP com a exposição Vertigem, que apresenta obras de Gustavo e Otávio Pandolfo, artistas brasileiros conhecidos como OSGEMEOS. Aberta em 25 de outubro, a mostra permanece até o dia 13 de dezembro de 2009.


Ana Carolina Ralston comenta que "a exposição Vertigem retrata um mergulho profundo no sentimentos desse universo criado pelos irmãos. Plasmando ideias cotidianas e criando cenas reconhecíveis através de uma mistura harmônica com o abstrato. As instalações, assim como todo o espaço criado pela dupla, sugerem uma divertida comunicação que explora os sentidos visuais, auditivos e táteis. A música, porta de entrada essencial para o mundo fantástico dos artistas, realiza uma interação individual e coletiva, colocando nas mãos de cada um o poder das palavras e dos sons. Tudo para que se possa entrar em uma viagem em busca de si mesmo, da luz e da sombra que existem dentro de cada um de nós. Uma experiência que nos faz submergir em todas as formas de um mundo mágico paralelo e condizente com a realidade."

Estive na mostra no último final de semana e fiquei agradavelmente surpreso com o que encontrei. Quem estiver passando por São Paulo, vale a pena. A entrada é franca.





quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ainda sobre um outro ângulo

Vik Muniz, The Bearer (Irma), 2008, reproduzido da Galeria Fortes Villaça.




Vou pegar o gancho do último post e aproveitar o feriado para recomendar a mostra de Vik Muniz no MASP. Quem estiver em São Paulo - ou passando pela cidade - vale a pena gastar um tempinho na retrospectiva de seus trabalhos.



Vik Muniz é um artista brasileiro que vive em Nova York. Juntamente com Beatriz Milhazes e Romero Brito, Vik é um artista contemporâneo de renome internacional. Seus trabalhos são releituras de obras conhecidas ou projetos artísticos que marcaram época. O artista usa materiais inusitados para formar suas imagens e obras.



Em outras palavras, aquilo que se vê é um punhado de arame retorcido ou uma torneira? Aquela imagem é um amontoado de lixo ou o retrato de um menino? Tudo dependo do ângulo e da forma como se olha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da escrita para o visual

Tabel, de Tomma Abts



Ert, de Tomma Abts


Escrever sobre arte moderna não é das tarefas mais fáceis. Descrever a forma como um artista moderno se expressa, então, parece muito mais complicado. Lendo Seven Days in the Art World, Sarah Thornton, consegue com êxito retratar no imaginário do leitor o que o artista cria.

Em um dos capítulos sobre o Turner Prize, concedido pelo Tate Museum da Inglaterra a um artista contemporâneo de destaque, Thornton conversa com Tomma Abts. A artista, nascida na Alemanha, pinta todos seus quadros em telas do mesmo tamanho. Todos seus quadros são intitulados com uma única palavra em alemão. Além de ganhar o Turner Prize, em 2006, ela já teve uma mostra no New Museum, em Nova York.


Talvez o mais interessante do livro seja conduzir o leitor ao mundo das artes, com todas as suas facetas e excentricidades. Ao longo do texto, a autora repete as perguntas: o que é arte? o que é ser artista? Múltiplas respostas, algumas diametralmente opostas, e que instigam no leitor um senso crítico. Arte pode ser tudo, desde o olhar seja lançado do ponto de vista certo.

Esperei chegar ao meio do livro para então contemplar os trabalhos descritos no livro. As descrições da autora são excelentes. Esperemos que a tradução em português seja fiel ao excelente trabalho da escritora.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Pinacoteca: estímulos visuais

Maria Bonomi, gravura de 1971


Fundada em 1905, a Pinacoteca do Estado de São Paulo é o museu de arte mais antigo da cidade e um dos mais importantes do país. Seu acervo tem cerca de oito mil obras com ênfase na arte brasileira dos séculos XIX e XX. Apresenta 40 exposições por ano sobre as mais variadas expressões das artes visuais de artistas nacionais e internacionais e oferece atividades aos mais diferentes diferentes perfis de público.

Adentrei na Pinacoteca pela primeira vez na minha vida no dia de ontem. Sim, demorei 37 anos para descobrir um tesouro de São Paulo. É vergonhoso? Muito, mas reparei o erro em tempo. Talvez seja tão grave quanto um carioca da gema que nunca tenha ido ao Pão de Açúcar. Muitas vezes desconhecemos as jóias de nossas cidades por simples esquecimento. Ontem, feriado por aqui, não posterguei a visita. Pinacoteca e Museu da Língua Portuguesa numa tacada só, com direito a um café parte externa da Pinacoteca no Parque da Luz.

A área está completamente restaurada e inclui a Estação da Luz, a Sala São Paulo e a Pinacoteca. Um museu maravilhoso, a começar pelo prédio restaurado e que é inundado pela luz natural, realçando os pátios internos e as obras que ali se encontram. Atualmente, há uma retrospectiva de Maria Bonomi denominada Gravura Passageira, uma mostra de fotografias em preto e branco de Voltaire Fraga (Abundante Cidade - Dessemelhante Bahia), mais obras de Eliseu Visconti, Julio Landman, Cristina Iglesias e Leonardo Raimo.

Tem-se uma sensação de constante estímulo visual e mental ao percorrer as salas e corredores da Pinacoteca. Visões diferentes, artistas que usam materiais variados e expressões artísticas ímpares. A cada sala e a cada mostra, algo de surpreendente é despertado. Não é à toa que há um sem número de pessoas que visitam a Pinacoteca de fora de São Paulo. É um passeio excelente que não poderia ser adiado mais. Eu tinha que ir. E adorei.

O ingresso custa R$ 4,00 para adultos. Crianças com menos de 12 anos não pagam. A mostra de Maria Bonomi fica até o dia 7 de dezembro.

Ah, a gravura de Maria Bonomi que ilustra este post não foi tirada na Pinacoteca.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Viajar







Um verbo com duplo significado. No sentido literal, viajar é o deslocamento físico de um lugar a outro. No sentido coloquial, sinônimo de devaneio e delírio, um transe que nos transporta para lugares distantes sem qualquer deslocamento físico. Dois significados quase opostos. O primeiro é material; o segundo espiritual ou talvez seja melhor usar mental ou metafísico.


Escrever é uma viagem neste segundo sentido. Eu viajo quando escrevo. Talvez seja este o maior prazer: viajar sem sair do lugar. Escrever é criar. Escrever permite fantasiar-se do personagem e viver vidas possíveis, mas que não sejam nossas. É um mergulho no universo de outrem, que deve ser realista, caso contrário, as pessoas não se identificarão com o drama e a situação da personagem.


Estou lendo A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, e num determinado momento, um dos personagens solta a seguinte frase: "os livros são um reflexo de nós mesmos." Um mesmo texto literário pode ter significados totalmente diferentes para os leitores, pois estes se identificarão com o que lhes é familiar. A leitura permite esta viagem, este mergulho no universo criado pelo autor, em um mundo aparentemente irreal, mas que nos conduz e nos auxilia a viver individualmente o momento real.


Quando escrevo, busco reproduzir a realidade, mas de forma ficcional. Nos comentários à última crônica que publiquei, alguns leitores sugeriram ser ela real. Recebi os comentários como elogio. Os textos devem parecer reais, críveis, convincentes, humanos, ou quem sabe até universais. Ao menos, é isto que almejo como humilde aprendiz do ofício de escrever.


A vida imita a arte. Ou seria a arte imitando a vida?