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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Capela Rothko

Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni


Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e extremamente enriquecedor.

 

Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela Rothko.

 

A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró, Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros.

 

Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas aqui: site ). No exterior, não é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico. Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito histórico de Houston.

 


Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte.

 

Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura, em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade, fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos. Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de serenidade e paz.


Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores.


Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música, mergulhe na cultura local!


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

OSGEMEOS estão em mostra na FAAP



Luminescence


Uma caixa de madeira, de formato cúbico, com cada lado medindo aproximadamente 1,5m. Numa das faces deste cubo, um rosto desenhando com spray, no melhor estilo dos grafites coloridos e artísticos que podemos encontrar nas ruas da cidade grande. Esta cabeça apóia-se sobre outra cabeça e o observador é convidado a entrar na escultura. Abaixa-se e ingressa num universo de espelhos e luzes, com uma sensação de poder “ver” o infinito. Ou ficar maravilhado com singela, mas fascinante, representação do interior da cabeça humana. A instalação denomina-se Luminescence.


Esta instalação está disponível para visitação no Museu de Arte Brasileira da FAAP com a exposição Vertigem, que apresenta obras de Gustavo e Otávio Pandolfo, artistas brasileiros conhecidos como OSGEMEOS. Aberta em 25 de outubro, a mostra permanece até o dia 13 de dezembro de 2009.


Ana Carolina Ralston comenta que "a exposição Vertigem retrata um mergulho profundo no sentimentos desse universo criado pelos irmãos. Plasmando ideias cotidianas e criando cenas reconhecíveis através de uma mistura harmônica com o abstrato. As instalações, assim como todo o espaço criado pela dupla, sugerem uma divertida comunicação que explora os sentidos visuais, auditivos e táteis. A música, porta de entrada essencial para o mundo fantástico dos artistas, realiza uma interação individual e coletiva, colocando nas mãos de cada um o poder das palavras e dos sons. Tudo para que se possa entrar em uma viagem em busca de si mesmo, da luz e da sombra que existem dentro de cada um de nós. Uma experiência que nos faz submergir em todas as formas de um mundo mágico paralelo e condizente com a realidade."

Estive na mostra no último final de semana e fiquei agradavelmente surpreso com o que encontrei. Quem estiver passando por São Paulo, vale a pena. A entrada é franca.





quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ainda sobre um outro ângulo

Vik Muniz, The Bearer (Irma), 2008, reproduzido da Galeria Fortes Villaça.




Vou pegar o gancho do último post e aproveitar o feriado para recomendar a mostra de Vik Muniz no MASP. Quem estiver em São Paulo - ou passando pela cidade - vale a pena gastar um tempinho na retrospectiva de seus trabalhos.



Vik Muniz é um artista brasileiro que vive em Nova York. Juntamente com Beatriz Milhazes e Romero Brito, Vik é um artista contemporâneo de renome internacional. Seus trabalhos são releituras de obras conhecidas ou projetos artísticos que marcaram época. O artista usa materiais inusitados para formar suas imagens e obras.



Em outras palavras, aquilo que se vê é um punhado de arame retorcido ou uma torneira? Aquela imagem é um amontoado de lixo ou o retrato de um menino? Tudo dependo do ângulo e da forma como se olha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da escrita para o visual

Tabel, de Tomma Abts



Ert, de Tomma Abts


Escrever sobre arte moderna não é das tarefas mais fáceis. Descrever a forma como um artista moderno se expressa, então, parece muito mais complicado. Lendo Seven Days in the Art World, Sarah Thornton, consegue com êxito retratar no imaginário do leitor o que o artista cria.

Em um dos capítulos sobre o Turner Prize, concedido pelo Tate Museum da Inglaterra a um artista contemporâneo de destaque, Thornton conversa com Tomma Abts. A artista, nascida na Alemanha, pinta todos seus quadros em telas do mesmo tamanho. Todos seus quadros são intitulados com uma única palavra em alemão. Além de ganhar o Turner Prize, em 2006, ela já teve uma mostra no New Museum, em Nova York.


Talvez o mais interessante do livro seja conduzir o leitor ao mundo das artes, com todas as suas facetas e excentricidades. Ao longo do texto, a autora repete as perguntas: o que é arte? o que é ser artista? Múltiplas respostas, algumas diametralmente opostas, e que instigam no leitor um senso crítico. Arte pode ser tudo, desde o olhar seja lançado do ponto de vista certo.

Esperei chegar ao meio do livro para então contemplar os trabalhos descritos no livro. As descrições da autora são excelentes. Esperemos que a tradução em português seja fiel ao excelente trabalho da escritora.