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quinta-feira, 12 de março de 2026

Conto: Tarde de março

 

foto por @rbueloni


TARDE DE MARÇO


O primeiro dia útil de março foi de céu azul, uma esperada trégua depois de duas semanas de tardes cinzas e chuvosas, típicas do verão paulistano. Tardes sombrias cederam espaço ao frescor do azul anil. Ela tirou uma foto e mandou para a amiga em Goiânia que vivia postando fotos de entardeceres inigualáveis e imbatíveis. Pegou o último livro da Matilde Campilho e resolveu ir tomar um café perto do escritório. Uma pausa de final de tarde. Necessária. Queria interromper o ritmo de trabalho com um pouco de leitura.

O céu trazia algumas nuvens róseas, um esfumaçado leve, quase pintado delicadamente na imensa tela celeste. A tarde estava silenciosa, típica de segunda-feira. Ela notara que às segundas-feiras o ruído do trânsito soara diferente. Besteira sua, dizia uma colega de escritório, mas ela insistia e a cada dia se convencia mais de sua certeza.

Sentou-se, pediu um café e abriu o livro da escritora portuguesa. Deu-se conta, então, de que nas duas mesas ao seu redor havia pessoas falando com sotaque lusitano. A coincidência a fez sorrir e lembrar de quando estivera em Lisboa pela primeira vez no final dos anos noventa. Olhou ao redor e alguns casais de idosos ocupavam as outras mesas. A idade média deles deveria ser acima de setenta anos. Foi tomada então de uma certa melancolia. Observando aqueles casais que pareciam tão entrosados e conectados, sem celulares na mesa ou nas mãos, conversando calmamente, saboreando o tempo daquele final de tarde, ela sentiu que seu amor não parecia mais ter o mesmo viço.

Suspirou, tomou um gole de café e passou a examinar os últimos anos de sua vida. Não bastava sobrevoar os anos, era preciso escavar e avaliar com profundidade onde a distância havia se instalado de forma sorrateira, mas que agora se postara como confortável habitante da relação. Distância. Era isso que a rotina trouxera sem que percebessem. As viagens não tinham mais a novidade da descoberta, os beijos eram mecânicos, a intimidade seguia um roteiro decorado e ensaiado à exaustão. Não se olhavam mais, não arriscavam algo de novo, não faziam uma loucura qualquer, não se aventuravam. Estavam à deriva, sem leme, sem timoneiro, sem vela, sem rumo.

Ela pegou o celular e mandou-lhe uma mensagem: “achei um bolo de mirtilo e lembrei vc, meu amor. Vou levar para tomarmos com aquele vinho do Porto após o jantar. Bjs”.




quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro

 



Trechos de livros

 “O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”

(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad. Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)


Com o passar dos anos, o acaso se tornou um companheiro decifrável, uma peça do quebra cabeça da vida que se encaixa e faz sentido. Tantas pessoas cruzam nossos caminhos e poucas ficam, permanecem com sua presença indelével e indispensável. Por quê?

São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza. 

Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quem escolhe o livro?



Terminado Diário da Queda, saí em busca de algo novo para ler. Sempre tenho uma fila de espera, mas queria um romance mais longo, de um autor desconhecido, mas brasileiro. Estava na Saraiva quando fui atraído pela bela capa de azulejos portugueses a estampar a 2a. edição de Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (Alfaguara).

A contracapa informava que a obra fora laureada com o Prêmio José Saramago. Hum, obra premiada costuma ser leitura mais difícil e não frequenta a lista de best-sellers, o que me agrada bastante. Fui procurar a apresentação da autora, que se encontrava na primeira orelha, além de uma foto. Escritora carioca. Ponto positivo. Tenho um caso de amor com a Cidade Maravilhosa e encontrar estórias que se passem nela me agradam, é uma forma de amenizar saudade, de nutrir memórias, de evocar bons momentos. 

Minha análise foi interrompida por um conhecido que me chamou e o livro foi deixado de lado. Acabei saindo da Saraiva sem comprar nada.

No dia 26 de dezembro, fui à Livraria da Vila com um amigo. A Vila faz uma liquidação anual e todos os títulos estavam com 20% de desconto. Passei pelo livro novo de Rodrigo Lacerda, folheei Daniel Galera, me atrevi a sapecar algo de Fernanda Torres e Vanessa da Mata, quando Sinfonia em Branco pareceu me chamar: "Alô! Estou aqui! Aqui te esperando!"

Pode parecer besteira, loucura, mas tenho para mim que os livros parecem nos escolher, mais do que nós os escolhemos. Eles estão ali, aparentemente adormecidos e silentes nas prateleiras, mas "sussurram" e nos chamam. Aguardam para dar o bote e nos fisgar. Peguei o livro e comprei-o.

Ao chegar ao escritório, fui ler a contracapa e a orelha. A história tratava de um incesto. Torci o nariz. Fiquei levemente frustrado e decepcionado. Esperava algo diferente. Comecei a ler o livro naquela mesma noite. Terminei-o em uma semana e o livro caiu como uma luva para o meu momento atual. 

Pode ter sido obra do acaso - se é que algo acontece por acaso, se é que alguém de repente cruza teu caminho -, mas o fato é que a obra estabeleceu um intenso diálogo comigo. A força narrativa de Adriana Lisboa é incrível e a premiação da obra é mais do que justificada. 

PS.: Trataremos da obra num próximo post.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Tempero do Acaso



Tenho uma leve suspeita de que se alguém se aventurasse a estudar o papel do acaso na literatura, produziria uma ótima tese acadêmica. Faz algum tempo que grifo, nos livros que leio, todas as passagens em que o acaso desempenha papel importante; outras vezes têm papel fundamental no enredo.


Ontem, ao assistir o discurso de posse da Profa. Cleonice Berardinelli na Academia Brasileira de Letras, veio-me à mente a ideia para este post. No final do discurso, a nova imortal, contou uma petite histoire, como ela mesma a denominou.

Uma meninha de 8 anos passava suas férias em São Lourenço, Minas Gerais. Como havia pouco a fazer no local, a chegada dos novos hóspedes no hotel era um evento que despertava a curiosidade de todos. Naquela tarde, agruparam-se na varanda da casa da fazenda para aguardar os novos hóspedes. Chegava um senhor distinto, de cabeleira branca e farto bigode preto. Curiosas, as meninas incitaram a menorzinha a acorrer à bagagem e descobrir quem era aquele senhor. Ela foi e contou a todas que se tratava de Alberto de Oliveira. Acostumada a declamara poesias, a pequena tinha consciência de que se tratava do grande poeta.

Após o jantar, o poeta sentou-se num canto da varanda, menos iluminado e mais discreto. Novamente, foi a menina convidar o poeta a juntar-se ao grupo maior. Iniciaram uma longa conversa e ela pôs-se a declamar poesias. Uma. E mais outra. E mais outra. Até que pediu que o poeta também participasse. Como se fazia tarde e já era hora de se recolher, a menina pediu ao poeta que escrevesse uns versinhos para ela. Porém, como retornaria a São Paulo no dia seguinte, e o poeta estaria em São Paulo dentro de alguns dias, combinaram novo encontro na capital paulista, quando então o poeta entregaria o caderno à pequena menina.

Encontraram-se como combinado e ela guarda até hoje os versinhos escritos pelo poeta. No início, a dedicatória: “À Cleonice...”

Esta versão livre da história narrada ontem, traz consigo o tempero do acaso. 74 anos depois daquele evento, Cleonice Berardinelli assumiu a Cadeira número 8 da ABL. E quem é o fundador da cadeira? O poeta Alberto de Oliveira.

Fico a pensar se Alguém lá em cima não deve ter dado um largo sorriso ao ver o acaso de um evento corriqueiro ter seu desenlace explicado 74 anos depois. No reino dos mortais, tenho a certeza de que muitos se emocionaram com a bela narrativa da professora.


Obs.: Assim que o texto do discurso estiver disponível, prometo atualizar o post com um link para o texto, para fazer justiça à história narrada, que foi pobremente aqui reproduzida.