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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Capela Rothko

Capela Rothko, Houston, Texas - foto @rbueloni


Toda vez que viajo, seja a trabalho ou a lazer, procuro incluir museus e atrações culturais nos meus roteiros. Sou daquelas pessoas que prefere passar horas num museu ao invés de bater perna num outlet. O que se ganha de capital cultural num museu – seja de que assunto for – é impagável e extremamente enriquecedor.

 

Fazia bastante tempo que não viajava sozinho. No início de maio estive em Houston, no Texas. Não conhecia a cidade e fiz uma rápida pesquisa antes da viagem buscando lugares de interesse. Deparei-me com a Capela Rothko.

 

A Capela Rothko é uma capela não-denominacional comissionada por John e Domique de Menil. Os colecionadores de arte mantêm um museu de arte no lado oposto de uma bela praça em que se situa a Capela Rothko. O MenilCollection é um museu gratuito e que tem uma coleção incrível de obras surrealistas de pintores como Max Ernst, Roberto Matta, René Magritte, Miró, Dalí, Alberto Giacometti, dentre outros.

 

Mas voltemos à Capela Rothko. O prédio é uma construção octogonal de tijolos à vista equivalente a uma altura de 2 ou 3 andares. Não é permitido fotografar no interior da capela, então tirei apenas algumas fotos do exterior e do espelho d’água que há na frente da capela (fotos do interior da capela e do projeto todo podem ser vistas aqui: site ). No exterior, não é uma obra que chama a atenção ou se destaca do ponto de vista arquitetônico. Pelo contrário, mescla muito bem com o entorno das casas térreas do distrito histórico de Houston.

 


Ao entrar, a funcionária pede se fale em voz baixa e mantenha o silêncio. A ideia é que a capela seja um ponto de reflexão sobre tolerância e os direitos humanos. O interior da capela é composto por paredes brancas e pinturas retangulares enormes feitas por Mark Rothko, um pintor abstrato americano do século 20. Suas pinturas são obras retangulares cuja paleta de cores retratam as emoções e os sentimentos humanos. Certa vez li que suas pinturas criam um sensação emocional e metafísica nas pessoas. Já vi algumas obras de Rothko em diversos museus, mas nenhuma delas me tocou ou emocionou. Sempre duvidei desta análise dos críticos de arte, dos curadores e historiadores da arte.

 

Então aconteceu o inusitado e inesperado. Adentrei a capela sem expectativas. As telas que cobrem as paredes da capela são de uma cor escura, em tom único, quase negras ou roxas bem escuras. Sentei-me num dos bancos diante de três telas escuras. Fui arrebatado por um sentimento de vazio, de ausência e brotou-me uma vontade de chorar compulsivamente. Olhava fixamente para a tela escura e notei que a cor não era preta, mas parecia um roxo muito escuro. Percebi a tinta escorrida na tela, como um esfumaçado, ou como se ele tivesse capturado nuvens pouco antes de uma tempestade. As linhas tênues pareciam ganhar movimento e dançar na tela trazendo-me calma e serenidade, fazendo desaparecer a vontade de chorar, o vazio, a solidão. Houve plenitude e beleza naquele local inundado de silêncio. Devo ter ficado ali uns 30 minutos. Nunca havia contemplado uma obra de arte por tanto tempo e nunca havia sentido uma tanta emoção diante de uma tela preta, de cor única. O que parecia triste e sem vida, trouxe-me a contemplação de uma beleza inesperada, um sentimento de serenidade e paz.


Aprendi a não duvidar dos críticos de arte, depois desta alegre e prazerosa experiência. A arte surpreende e a arte transcende, elevando nossa alma para um olhar mais profundo da realidade e da vida. Acho que agora entendi porque Rothko provoca uma experiência metafísica nos espectadores.


Quando viajar, visite museus, vá a concertos de música, mergulhe na cultura local!


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Conto: O sol de Montevideo

 


foto by @rbueloni 



O sol de Montevideo

O trajeto do aeroporto de Carrasco até o hotel demorava pouco menos de uma hora. Jordi aguardava por Eugênio na área de desembarque. Não havia necessidade de uma placa de identificação, pois Eugênio ia todo mês a Montevideo e por lá ficava alguns dias. O motorista da empresa estava sempre a postos e aguardava-o com paciência. Logo que Eugênio apareceu, saudou Jordi de forma cordial, perguntou se o Peñarol havia ganho o jogo do final de semana, ouvindo uma resposta negativa. Seguiram até o veículo e Eugênio foi no banco de trás, como de costume. Nas primeiras vezes que viera à cidade, preferia andar no banco da frente e apreciava o caminho, perguntando a Jordi sobre os pontos mais importantes. Aos poucos, a rotina foi matando o ar de novidade e curiosidade de Eugênio. Jordi, por sua vez, não cansava de admirar o estuário do Rio da Prata e as praias ao longo do caminho. Certa vez perguntou a Eugênio por que havia perdido o interesse pela cidade. A resposta veio quase que automática: tenho que aproveitar esta hora para trabalhar, há muito o que fazer. Jordi silenciou, mas não concordara com o chefe.

A luminosidade do final da manhã deixava as águas do rio da Prata ainda mais vivas e de um azul escuro mais profundo. Algumas pessoas seguiam de bicicleta pelo calçadão ao lado da longa rambla que os levaria ao hotel, localizado no centro velho da cidade. Outras corriam e faziam seus exercícios matinais. Era comum encontrar pessoas de mais idade caminhando, sentadas nos bancos apreciando o sol matinal de outubro ou lendo algum livro. Era possível identificar um ou outro pescador, ainda que fosse segunda-feira. O trânsito estava favorável e Eugênio não tirava os olhos do celular e de alguns relatórios que trazia consigo. O telefone tocou e ele não atendeu. Passaram pela praia de Pocitos e Jordi perguntou se gostaria que fizesse uma reserva para jantar no Zarzuela. A resposta foi um grunhido inaudível que mais parecia irritação com a interrupção desnecessária. Jordi entendeu que deveria ficar quieto, mas achou grosseira a forma como Eugênio retrucara.

Chegaram ao hotel NH Columbia, na Cidade Velha, bem diante do rio e da rambla. Eugênio gostava daquele hotel por ser diante das águas. Costumava correr na rambla pela manhã ou no final de tarde, contemplando o pôr do sol tão famoso da cidade. Aos poucos, trocou a corrida de rua pela esteira da academia do hotel. Faltava-lhe tempo, dizia. O trabalho consumia cada segundo, cada minuto de sua jornada. A trilha sonora de seus dias havia sido capturada da música dos Titãs e assim ele só se preocupava com o que pode dar certo, não tinha tempo a perder.

Desceu do carro e na recepção do hotel foi atendido por Milagros, que já o conhecia de visitas passadas. Seu quarto será o 702, seguindo suas recomendações. Ele agradeceu, pegou a chave e rumou para o elevador. O telefone tocou novamente. Era a quinta vez que sua secretária ligava. Como não havia mensagem de whatsapp, ignorou. Não devia ser nada urgente, pensou. Entrou no quarto, abriu as cortinas deixando a luz invadir o ambiente. Ele não reparou no céu azul, no navio de cruzeiro que se dirigia ao porto, nas crianças que caminhavam com seus uniformes de escola, no vendedor de pipoca que seguia pelo calçadão, nos carros que passavam pela larga avenida costeira.

O telefone tocou mais uma vez. Diga Beatriz, o que foi. Já pedi para me mandar recado quando for urgente ao invés de ficar ligando!, esbravejou. Ela, do outro lado da linha, com a voz hesitante disse que a secretária do Dr. Flávio havia ligado e precisava falar com urgência. Eugênio engoliu seco. Sentiu as pernas bambearem e o coração acelerar.

O médico era um amigo de longa data. Estudaram juntos no colégio. A secretária atendeu e logo transferiu a ligação. O médico foi objetivo e direto. O resultado da biópsia indicava que se tratava de um tumor maligno. Era preciso fazer uma cirurgia para retirada do câncer e depois dar início à quimioterapia. Não havia tempo a perder. A indicação atingiu Eugênio como um soco direto no queixo. Gaguejou para responder e disse que só voltaria para São Paulo no sábado. O médico repetiu o diagnóstico e alertou: acho que você não entendeu. Se eu fosse você, voltava para o aeroporto agora e pegava o próximo voo!

Um silêncio pesado inundou o quarto após a ligação. Eugênio apoiou as mãos na mesa de trabalho diante da janela, baixou a cabeça e começou a chorar. A vida lhe brindava com uma surpresa. Quando ergueu a cabeça e olhou pela janela, deparou-se com a imagem de Nossa Senhora no topo da residência das irmãs vincentinas ao lado do hotel. A imagem reluzia com o sol, brilhava de um jeito mais forte do que das outras vezes. O manto azul tinha estrelas desenhadas e o rosto maternal parecia brindar-lhe com um sorriso

 




quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Crônicas peruanas - Laguna Humantay

 

Laguna Humantay - @rbueloni



Cuzco,  22 de agosto de 2025

 

O despertador tocou alguns minutos depois das quatro da manhã. Era o último passeio que havíamos programado e talvez o mais exigente. Estava um pouco apreensivo, a começar pelo horário de acordar, mas resolvi juntar-me a minha filha e amiga na excursão até a Laguna Humantay.

O lobby do hotel estava escuro e havia apenas duas pessoas na recepção. O pátio central em estilo colonial espanhol trazia um ar medieval com a pouca luminosidade e a decoração que ressaltava a arte cusquenha. O atendente perguntou se havíamos pedido o café da manhã antecipado, mas esquecera de solicitar. É comum fornecerem um lanche para viagem, pois muitos passeios saem bem cedo, com o dia ainda escuro.

Pouco antes das cinco, a van de transporte chegou e o porteiro abriu a pesada porta de madeira. Brinquei com ele sobre ser o porteiro do castelo. Ele sorriu revelando o bom humor apesar da hora. Explicou-me que não fabricam mais portas de madeira maciça e com detalhes em metal. Hoje, tudo é mais leve e simples, disse-me.

Juntamo-nos ao grupo de turistas no veículo quase cheio. Logo em seguida, uma parada na Plaza de Armas, antigo centro do império Inca e ponto de encontro para os inúmeros passeios que partem de Cuzco. Algumas pessoas a mais entraram na van, que partiu lotada. Nosso guia, Fredy, deu instruções sobre o trajeto e o que iríamos encontrar. Alertou que havia oxigênio caso alguém necessitasse, afinal, a Laguna Humantay ficava a 4200 metros de altitude, ou seja, 800 metros a  mais do que Cuzco. Pensei comigo que isso seria desnecessário, pois já estava aclimatado à altitude. Fredy sugeriu que dormíssemos por duas horas antes da parada para o café da manhã. A van seguiu pela estrada sinuosa, deixando Cuzco para trás e percorrendo uma região de vale cultivado. Logo peguei no sono.

A parada para o café da manhã foi em Mollepata, um pequeno povoado e início de uma estrada de terra que nos levaria até a base da subida para a Laguna Humantay. O nosso grupo era composto por mexicanos, espanhóis e colombianos. Éramos os únicos brasileiros, o que deu um ar de comunidade latina muito divertida. Seguimos por uma hora por uma estrada de terra até o ponto de início de nossa subida, em Soraypampa, a 3800 metros de altitude. O minúsculo distrito tem dois pequenos hotéis e alguns casebres. O movimento é dado exclusivamente por turistas.

Equipados com bastão de apoio, demos início à caminhada. O dia estava cinza, um vento frio soprava e ao fundo se via o pico Salcantay, todo coberto de neve e cercado de nuvens esparsas. Nosso objetivo estava encoberto pelas nuvens e havia um prenúncio  de chuva. O silêncio era quebrado apenas por nossos passos e pelo vento. O esplendor dos Andes se descortinava diante de nós. Os picos cobertos de neve e envoltos por nuvens, alguns fios d’ água oriundos do degelo, os vales e passagens que indicavam caminhos trilhados.

No meio da cordilheira, a escalada era um desafio. A primeira parte da trilha era pouco íngreme, mas o ritmo era lento. O terreno pedregoso e de terra solta. Era preciso cuidado para não escorregar e percebia-se a falta de ar. Tinha para mim que uma caminhada de pouco mais de um quilômetro seria fácil, mesmo em se tratando de uma subida. O cansaço era presente e a cada punhado de metros parava para respirar e buscar o fôlego. Não estava ofegante ou sufocado, mas tinha-se uma clara impressão de que o ar não atendia às necessidades corpóreas.

Comecei a contar os passos e numa das pausas, fui surpreendido: “caballito?”, indagou uma senhora que seguia nosso grupo. Os turistas eram acompanhados por locais que subiam com cavalos prontos para carregar qualquer um que estivesse disposto a pagar. Recusei e segui. Novamente, vinha a tentação: caballito, caballito. Agradeci, mas neguei. Estava determinado a chegar ao final da caminhada sem desistir. Não estava fácil, mas insisti. Minha filha ficou preocupada achando que eu iria enfartar, mas segui o ritmo.

Perto do final, uma senhora que iniciava a descida me incentivou: si se puede! A frase era conhecida por mim, slogan cantado em jogos de futebol das seleções andinas. Sorri e respondi com a mesma frase. Estava próximo o fim. A parte final era muito mais íngreme, mas foi superada lentamente, com passos curtos e constantes. É preciso respeitar a montanha. Antes de chegar na Laguna, avistei uma pequena tenda de madeira coberta de lona, onde eram vendidos espetinhos de frango, assemelhando-se aos vendedores de sanduíche de pernil na porta do estádio do Morumbi.

Mais alguns passos e cheguei ao destino. Sentei-me numa pedra e contemplei toda aquela beleza em diversos tons de cinza. A laguna tinha a água esverdeada e formara-se com o degelo da neve do pico Humantay. As nuvens estavam baixas e cobriam o cume. O vento frio trazia junto uma garoa gelada, mas a beleza da natureza crua era encantadora. Fiquei ali por alguns minutos, recuperando o ar e apenas contemplando as montanhas, enquanto os turistas se preocupavam em tirar fotos, fazer poses e registrar os melhores ângulos para postar em redes sociais.

 A jornada de regresso era mais tranquila, menos exigente, mas necessitava cuidado, pois as pedras soltas podiam levar a escorregões. A vista era incrível e o hotel em Soraypampa mais parecia uma pequena maquete. Na parte final da trilha, avistavam-se o cavalos que já retornavam para o merecido descanso. O ar não nos faltou no caminho de retorno e concluímos o trajeto sem intercorrências.

Subimos na van esfomeados e prontos para o almoço. Éramos dezenove pessoas e Fredy nos disse que foi a primeira vez nesta temporada que ninguém havia precisado de apoio de um cavalo para subir ou descer. O grupo fora guerreiro. A van partiu e poucos minutos depois comecei a suar frio, senti tontura e a vista ficou embaçada. Chamei o guia e alertei-o que iria desmaiar. Rapidamente fui socorrido e posto no oxigênio. Respirei fundo o ar puro por dois minutos e logo tudo voltou ao normal. Não desmaiei, mas descobri que o oxigênio que fora trazido na van era para mim.

A viagem de volta pareceu mais longa, pois nosso motorista dirigia em ritmo lento. Foi uma ótima oportunidade para conversar com meus colegas espanhóis e que já tinham feito outras quatro trilhas no Peru em duas semanas. Eram praticamente trekers profissionais. Aproveitei para apreciar a estrada e a paisagem de pequenas propriedades cultivadas no vale que passava por Limatambo e Anta, antes de chegar em Cuzco.

O sol já havia se posto quando chegamos na Plaza Regocijo. Cansados, mas acometidos de uma alegria perene fruto da bela jornada no meio da Cordilheira dos Andes.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - III : Torre de Babel



Gare de Lyon, Paris (c) visão ao longe


TORRE DE BABEL


Viajar me traz um senso de nossa pequenez, de nossa insignificância no mar de pessoas que habitam este planeta. Línguas diversas, estórias múltiplas a serem contadas - ou descobertas. Uma viagem à Europa é sempre instigante e desafiadora, ao menos para mim. Diferentemente dos Estados Unidos, onde sinto-me em casa com a língua e o estilo do americano, a Europa é um convite a explorar nossa história, nossa formação cultural, nossos ancestrais. A língua - ou línguas dependendo do país a ser visitado - também traz consigo um desafio, tira-me da zona de conforto. Até em Portugal é preciso estar atento às deliciosas variações do nosso idioma.

Resolvi mergulhar aos poucos, como se para evitar um choque com a transição linguística. Optei por viajar pela TAP e começar a jornada por Lisboa, mesmo sendo apenas uma conexão. No voo para Lisboa, pouco mais de 280 passageiros. Russos, belgas, brasileiros, um argelino, alemães. Muitos com ornamentos da Copa e cada um com um histórico particular. Será que existe algo realmente único a todos nós? O que será que define a humanidade? Como um escritor consegue ser universal na pletora de diferenças externas dos seres humanos? Como descobrir o que há de mais profundo no interior de cada um de nós? Comecei a jornada pensativo, ciente de que não tenho a resposta, mas certo de que há algo sim universal, valores universais, sentimentos universais a nos unir, por mais diferente que sejam nossas bagagens culturais.

A primeira fase foi tranquila, mas ao desembarcar em Paris, veio o choque. Até tentei estudar um pouco de francês para me comunicar, mas logo no táxi travei de uma forma que fiquei aliviado ao conseguir informar ao taxista o endereço do hotel. 

Paris é uma verdadeira Torre de Babel no verão, repleta de chineses por todos os lados, americanos - e outros falantes de língua inglesa -, russos, espanhóis, alemães, italianos, holandeses e pessoas oriundas do leste europeu. Não tenho a capacidade de diferenciar idiomas como húngaro, croata, eslovaco, tcheco, romeno ou sérvio. Consigo localizá-los no mapa, mas nada de comunicação. Sem falar nos japoneses, coreanos e outros asiáticos.

Paris é o destino que mais atrai turistas no mundo e esta diversidade é notada nas ruas. Além dos turistas, há muitos árabes, o que facilmente se percebe pelas vestimentas dos muçulmanos e pelo idioma. Um melting pot na expressão tão comum nos EUA, mas que não chega aos pés da verdadeira salada de culturas que Paris apresenta ao visitante. Talvez aí esteja riqueza escondida e discreta da cidade luz, esta multiplicidade de culturas que convivem em aparente estado pacífico. 

Por outro lado, vejo a importância de estarmos abertos a estudar novos idiomas, a descobrir novas palavras, a expandir os horizontes linguísticos. Meu esforço para me comunicar aos poucos foi recompensado. Não dei vexame e não passei apertos. Um francês macarrônico saiu e acabou por ser suficiente. Porém, voltei com uma vontade ainda maior de continuar a estudar o francês. Comprei livros e vou lê-los. Comprei cd's e vou ouvi-los para treinar o ouvido. Ler me parece mais fácil. Utilizando a bagagem que tenho de outros idiomas vou deduzindo o que está escrito sem efetuar a tradução. Percebi depois de alguns dias que não estava traduzindo o que ouvia e lia, mas compreendia  na língua original e aquilo me empolgou. 

Não há dúvida de que quanto mais idiomas se fala ou se conhece, mais fácil fica aprender um novo idioma. É assim com línguas pouco faladas, como o catalão. Consigo ler e compreender  o catalão usando exatamente o mix de línguas que conheço. Falar são outros quinhentos, mas ler é mais fácil.

Comecemos por valorizar a língua pátria, nosso português que anda tão mal tratado.  Depois ampliemos os nossos horizontes, incentivando as crianças a perceber a riqueza de outros idiomas e como isto nos abre portas e nos permite entender novas culturas.  É tão gostoso descobrir conexões entre as palavras de vários idiomas e suas origens, num trabalho prazeroso de genealogia semântica. Num mundo globalizado e de comunicação instantânea, quem se comunica melhor compreende melhor o complexo mundo à nossa volta.

sábado, 19 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - II : Onda Vermelha


Mona Lisa, no Museu do Louvre

Paris foi invadida por chineses. Bem, qual lugar do mundo não foi invadido pelos oriundos do país mais populoso do mundo? Talvez, nenhum. Mas, aqui eles estão por todos os lados, em grupos, em bandos, com guias turísticos, noivas posando diante da Torre Eiffel, de Notre Dame, na Pont des Arts. Nas Galerias Lafayette, compram e consomem com a ferocidade de uma nuvem de gafanhotos a atacar uma plantação verde e saborosa. Havia fila de chineses para aproveitar os descontos das bolsas Chanel, Prada, Bulgari, Louis Vuitton, Longchamp por mais de alguns milhares de euros. Em oferta.

No Louvre – e nos demais museus -, a coisa se torna mais grave e convida a um olhar crítico. Percorrem as salas do museu atrás das obras mais conhecidas. Param um instante para fotografar, filmar, fazer selfies, e seguem adiante. Não há contemplação, apreciação, reflexão, admiração. Tudo é digitalizado, instantâneo, como se a captação da imagem em máquina digital permitisse representar toda a experiência da contemplação de uma Mona Lisa, de uma Vênus de Milo, de uma Coroação de Napoleão.

Correm pelo museu, atropelando as pessoas, dando cotoveladas – e não pedem desculpas. Infelizmente, a falta de educação predomina. Não tem qualquer restrição a tocar na peças, nas esculturas e nos quadros. Furam filas e parecem viver numa estrutura social própria onde as regras parecem valer para os outros e não para eles que estão fora de seu país de origem e fingem não entender o que se passa.

Em um determinado momento, perdi a paciência. Andava pela galeria dos pintores italianos no Louvre, lotada, parecendo shopping no Brasil em época de Natal, e tentava apreciar as telas quando fui arrastado pela onda vermelha. Como a maioria deles eram mais baixos do que eu, interpus-me no meio da fila de uma excursão e passei a caminhar bem devagar, quase parando. Pressenti o pânico atrás de mim. Eram vários chineses tentando me ultrapassar e eu, como piloto numa prova de automobilismo oscilava da esquerda para a direita impedindo a passagem. No fim, eles me ultrapassaram, mas ficou claro que a ida ao museu fazia parte apenas de um passeio onde não se apreciava nada, apenas carimbavam o passaporte e poderiam dizer: “eu estive lá”, “eu vi a Mona Lisa”.

Na Torre Montparnasse, um edifício moderno com um terraço panorâmico no 56o. andar, há monitores com fotos da paisagem para que o visitante possa identificar os edifícios no entorno com um toque na tela. Ali presenciei outra cena bizarra. Um moço jovem fotograva a tela do computador ao invés da paisagem! Se ele queria uma foto do computador, devia ter feito o passeio pelo Google e não precisaria ir até Paris. Qual o sentido de se viajar para um lugar e apenas registrar tudo em fotos, como se o mundo fosse apenas uma realidade virtual?


Sinceramente, não consigo entender o objetivo destes viajantes. Visitam museus, marcos históricos e monumentos apenas para tirar fotos. Creio que as devem postar nas suas redes sociais e ostentar afluência numa ex-sociedade comunista. Será que levam consigo um pouco da sensibilidade humana da cultura ocidental? Será que algum deles compreende a razão da construção de catedrais e igrejas? Será que conseguem penetrar na beleza de uma tela impressionista ou na leveza de um Rembrandt com seu jogo de luz? Tenho minhas dúvidas. Mas, volto com a sensação de que andei no meio de uma nuvem de gafanhotos predadores.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Margens do Tejo

Luar no Tejo
instagram @rbueloni

Caía a tarde, sol adormecido, lua surgindo no oriente, refletida pelas águas crispadas do Tejo. Ah, o Tejo. Reencontro-o depois de quase dezoito anos em cenário inesquecível de começo de noite, lua cheia, céu limpo, calor ameno de verão lisboeta. Paro na margem e contemplo-o com a memória repleta de imagens. A Ponte Vasco da Gama iluminada e na outra margem avisto Montijo. O silêncio quebrado apenas pelas pequenas ondas do rio a baterem na murta de pedra que ladeia a margem. Respiro fundo e sinto o cheiro levemente salgado da maré que avança sobre o rio, o maior de todos os rios, mas não tão grande quanto o rio que passa na minha aldeia.

Os versos de Camões parecem se materializar no vasto rio. Poderia sentar-me num banco e dialogar com Fernando Pessoa e seus heterônimos, ouvindo cada um deles declamar poemas sobre a beleza do Tejo. A presença do poeta é palpável, quase física. E os versos se sucedem em minha mente. Como é belo o Tejo, cantaria! 

O Tejo é o símbolo maior de Portugal, a terrinha mãe, a pátria primeira. Talvez meu sangue português tenha entrado em ebulição ao notar o rio, aguçando o lado emocional e nostálgico, ainda que não tenha mais parentes além mar. 

Ali fiquei a admirar o Tejo transformado em tela impressionista do lindo luar, suas águas salpicadas de um  cinza iluminado, suas pequenas ondas tingidas com a luz da noite, seus ruídos a embalar o início da noite.

Em clima de saudade, despedi-me dele, trazendo na bagagem alguns fados como trilha sonora para acalentar a nostalgia e as boas lembranças do grande Portugal.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - I


Torre Eiffel

Um amigo - que me conhece muito bem - disse que eu iria adorar Paris. Ele tinha razão. Não me precipitaria em dizer que Paris roubou meu coração, este que ainda pertence a Barcelona, mas o charme da cidade me provoca a cada momento. A cidade flerta comigo, como só aquelas cidades com alma podem fazer. A cidade pulsa, provoca, desperta. 

Hoje o tempo mudou. Caminhei sozinho boa parte do dia e ao cruzar o Sena dei-me conta de que aquele momento era só meu, de alegria solitária, tomando chuva sem a menor preocupação numa Paris cinzenta e que me fazia transbordar num encanto silencioso. Afinal, a vida é feita de momentos e alguns deles se tornam memórias exclusivas, secretas. Outras estórias são compartilhadas, divididas, replicadas, multiplicadas e seguem na tradição oral, contadas e recontadas. Todos temos aqueles momentos que vão para os anais da família, que representaram discussões ou brigas e depois se manifestam em largas gargalhadas e gozações.

Gosto de descobrir os meus cantos, os meus lugares. Fujo do lugar comum, dos roteiros sugeridos por guias. Uso-os com parcimônia e cautela. Como diria um viajante americano, I like to wander, and wandering I find myself - or try to find myself.  Gosto de deixar meu olhar viajar sem pressa, como a imagem do homem lendo o jornal no ponto de ônibus, elegante e indo trabalhar, da mulher com sua baguete a caminho de casa, com os meninos sentados num café competindo para ver qual deles conseguia arrancar mais sinais de positivo dos passantes, do pequeno restaurante libanês onde o dono preparou-me um falafel fantástico  - lugar onde só consegui comer porque estava sozinho. 

O olhar do andarilho. Um olhar atento que ajuda a descobrir estórias, a imaginar estórias. Observar e andar. Acho que as pessoas subestimam a importância de andar, sem rumo, sem mapa, apenas andando e divagando. Andar ajuda-me a pensar, ajuda-me a descobrir, ajuda-me a ter inspiração. Por vezes a inspiração é desobediente, provoca o que não deveria, mas aquieto-a. Anoto as ideias para não desperdiçá-las e aos poucos vou deitando-as no papel. Fazia tempo que alguns dias não me despertavam tantas estórias. Paris está cheia delas prontas para serem salpicadas na folha branca de papel.

A vitrine de uma loja de máquinas fotográficas em Montmartre, a simpática portuguesa dona da boulangerie ao lado do hotel, cadeados dependurados nas pontes sobre o Sena, a infinidade de pagãos que fazem fila para visitar Notre Dame e Sacre Coeur, as poses ridículas de turistas ao redor da Torre Eiffel, as pessoas nos cafés e nos restaurantes, nos barcos deslizando pelo Sena, nos labirintos do metrô desta cidade que fala uma infinidade de línguas, uma Babel terrena.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Uma face do Brasil


Poucos minutos depois de chegar em Sobradinho, lembrei-me de Graciliano Ramos. O táxi passou por uma escola pública, fez o retorno e virou numa avenida que tinha a aparência de via principal. Algumas quadras adiante e cheguei ao fórum. Prédio de dois andares, com boa aparência, nada novo, mas com boa conservação. Lugares novos sempre trazem consigo uma curiosidade, uma expectativa. Entrei, fui dispensado de passar pela revista e pelo detector de metais, e caminhei pelo corredor central do fórum. E Graciliano Ramos me acompanhava.

Nas cadeiras, mães com crianças de colo, idosas, alguns poucos casais. Todos tinham algo em comum: buscavam algum direito ou batiam às portas da justiça para fazer valer sua cidadania. Uma vara exclusiva para tratar de violência doméstica. Não consigo presenciar tais cenas e permanecer indiferente.

Desde que comecei a escrever, percebi a importância de observar, de ficar atento ao drama humano que nos cerca, que poderia passar despercebido, afinal estava ali a trabalho e tantas e tantas vezes já fui em fóruns em diversos recantos do país. Sobradinho tinha uma aura triste, uma cidade refém, um pequeno distrito de periferia como tantas outras. Ser cidade satélite de Brasília parece ter relegado Sobradinho à sina de cidade dormitório, sem perspectivas, com pouca atividade, com poucos recursos. A ideia de cidades satélite parece ser uma forma de esconder a pobreza, algo que sempre vi como contraditório na concepção da Brasília de Oscar Niemeyer, um comunista que não conseguiu manifestar seu ideário nas suas obras e projetos. Por que esconder a pobreza?

Sentei-me numa das cadeiras e fiquei a observar rostos, ouvir conversas entrecortadas, xingamentos a companheiros que fugiram e deixaram de pagar pensão, crianças sem amparo, idosos esquecidos pelo Estado que lhes deveria garantir tratamento digno de saúde. Lembrei-me de Graciliano Ramos.

Graciliano Ramos foi um escritor brasileiro engajado, comprometido com a causa social. Ainda que não  compartilhe de sua visão política, admiro sua percepção do drama humano tão presente em suas narrativas, tais como Vidas Secas e São Bernardo. Li esta última obra pela primeira vez no ensino médio - e para variar -, discordei da maioria dos meus colegas que odiaram o livro. Gostei muito do estilo de Graciliano e da estória. O drama humano retratado sem cortes, com tons fortes e pinceladas precisas. 

Ninguém vai a Sobradinho para fazer turismo; ninguém vai a Sobradinho a passeio. Fiquei com a impressão de que seus moradores sonham em sair de Sobradinho um dia, para nunca mais voltar.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Navegar é preciso



Museu Nacional do Mar, São Francisco do Sul - SC (by RLBF)


Achei que faltava cor, que faltava imagem a este blog. O espaço estava árido e creio ser bom ilustrar as palavras e as sensações. No Museu Nacional do Mar, o visitante se depara com o famoso verso de Fernando Pessoa:

Navegar é preciso,
Viver não é preciso.

Navegar pelo novo ano que se inicia!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Anedotas de viagem

Embarque do voo da Gol para Caxias do Sul, hoje pela manhã no Aeroporto de Congonhas (SP). Passageiro na minha frente vai caminhando pelo finger quando percebe que o avião é da Varig. Para. Dá meia volta e diz em voz alta:

- Este deve ser o portão errado. Meu voo é da Gol.

Antes que ele me atropele, acalmo-o:

- É este o voo mesmo, não tem erro. É a mesma porcaria.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Orvalho matinal


Pouco antes das nove da manhã, havia passado por Atibaia e aproximava-me de Extrema, bem no sul de Minas Gerais, logo depois da divisa com São Paulo. A Fernão Dias serpenteava por entre morros verdes e o sol nascia preguiçosamente.

Viajar sozinho dá um senso de liberdade e convida ao diálogo interior. Cada vez mais me convenço que o Caminho de Santiago é na verdade um período de reflexão pessoal em que o indivíduo é presenteado com desafios, dor, frio, calor, cansaço. Todas estas mazelas humanas nos aproximam do divino, obrigam-nos a reconhecer nossa fraqueza e do auxílio de uma força superior para superá-las.

Costumeiramente viajo sozinho e invariavelmente converso sozinho em voz alta com interlocutors imaginários. Fazem-me companhia. Os “diálogos” me ocupam e são um exercício de reflexão; em alguns casos de recordação onde o pensamento voa para locais reais, mas distantes.

Mas voltemos ao caminho pelo sul de Minas com trilha sonora de Maria Gadú, que combinou perfeitamente neste início de viagem.

Entre subidas e descidas na parte serrana da estrada, avistavam-se laterais de morros com o fino orvalho a tingir o verde da vegetação e a refletir os raios solares matinais. Tudo estático, tudo gratuito, tudo pronto para ser observado. Um simples presente da natureza para quem quisesse observar e desfrutar daquela paisagem.

Notei então um homem, de chapéu de palha, a conduzir uma charrete. Pastagens, pequenas casas esparsas aqui e acolá, plantações, gado. Um mundo perfeitamente rural. Lembrei-me de Guimarães Rosa, que com sua genialidade conseguiu captar a alma do homem simples, uma escrita tão própria e adequada àquele cenário. Confesso minhas limitações em conseguir compreender o escritor – já tentei por diversas vezes -, mas o que ali se descortinava me remeteu ao Burrinho Pedrês, a Manuelzão e Miguilim e tantos outros.


Cidades como Nepomuceno, Natércia, Borda da Mata, Lambari, Carmo de Minas poderiam existir em outro lugar que não fosse Minas? Acredito que a resposta é negativa. Nepomuceno é um nome que parece materializar todo o universo de Guimarães Rosa.

Drummond, na sua fase inicial, capta também a simplicidade da vida em Itabira. Simplicidade não deve ser entedida como algo negativo, como o sujeito que é despido de qualidade e cuja rotina deixa de ser interessante. Simplicidade é qualidade daqueles que sabem valorizar o que é importante e se importam com o que vale a pena. Pessoas que não se distraem com o supérfluo, mas sabem da importância da palavra amiga, de um gesto de amizade, do valor do trabalho dedicado e bem feito – ainda que custe. Simplicidade se manifesta em personagens transparentes, cuja alma é transparente e refletem a luz divina.

Aquele cenário revelou-se como um portal de saída do mundo urbano e cosmopolita de São Paulo, para o mundo rural e de grande riqueza humana do interior. A mudança de paisagem é fácil de ser notada e talvez isto tenha contribuído para despertar minha reflexão.  Nem notei quando a música parou; estava tão imerso no diálogo com meus pensamentos que a viagem seguiu leve e prazerosa.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Lavras


Centro de Lavras, MG


Nunca foi minha intenção transformar este blog em um blog de viagens, mas o destino quis que nos últimos meses eu me transformasse em um turista jurídico. Tenho conhecido juizados especiais cíveis ao redor do Brasil e nenhum deles despertou-me o interesse suficiente para ganhar um post - ou que merecesse um post.  Por outro lado, as cidades sempre merecem uma atenção especial, ainda que de forma divertida, afinal, uma crônica nada mais é do que um relato do cotidiano sob a ótica do cronista.

Lavras fica no sul de Minas, a uma distância de 370 km de São Paulo e 300 km de Belo Horizonte. O caminho é belo e o café é muito bom. Uai, afinal aqui se produz muito café e laticínios. A visão do cafezal aguça o paladar e, ao chegar, logo procurei um lugar para tomar um café. Não me decepcionei.

A cidade, como tantas outras do interiorzão deste nosso Brasil, tem seu ritmo próprio. Achar um restaurante aberto numa segunda à noite não foi tarefa das mais fáceis. E às 22 horas, o comércio que ainda estava aberto, cerrou as portas.  

Pouco antes das 10 da noite o silêncio já imperava na rua, como se alta madrugada fosse. Eu trazia nas mãos um potinho de sorvete e caminhava pela praça central da cidade, numa noite quente e agradável, sem qualquer medo ou temor de ser assaltado. Alguns casais ainda namoravam nos bancos de madeira da praça.  Alguns hábitos só são possíveis em cidades especiais como Lavras.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pequenas delícias de um dia na estrada

Um dia na estrada, longe de São Paulo e longe do escritório. Não era passeio, mas quando se faz o que gosta, o trabalho deixa de ser um fardo. Neste final de dia, enquanto jantava só, fui repassando o dia e surgiu uma pequena lista com algumas imagens do dia. Imagens que serão traduzidas em poucas palavras.

1. Céu azul e sol.
2. Araucárias nas encostas dos morros.
3. Passar por lugares que nunca estive antes.
4. Rio Chapecó e vários riachos ao longo do caminho.
5. Casas de madeira típicas do sul.
6. Ouvir pila e guria o dia todo.
7. O simpático Jonas, taxista que me levou a Pato Branco, e seus causos.
8. Portais nas entradas de Coronel Freitas e Formosa do Sul.
9. Cidades com apenas uma rua e ritmo próprio.
10. As colinas verdes, o vale do rio Chapecó e mais Araucárias.
11. Ver a alegria nos olhos dos locais quando elogiei a beleza da região.
12. Cuca de goiabada numa padaria em Chapecó.
13. Caminhar pela cidade sem medo.
14. O pôr do sol do Oeste catarinense.
15. O bife de ancho que só se come no sul do país.
16. Jantar sozinho e ter a memória como companheira. E a memória sabe ser boa companheira num diálogo que passeia por fotos, palavras, conversas e sorrisos.
17. Calçadas sem buraco.
18. A lua quase quase cheia e o tapete de estrelas.

Ah, o trabalho, sim, o trabalho. O processo foi encerrado pois o Autor não compareceu na audiência. O trabalho virou passeio. 

Chapecó

Estou no oeste catarinense, na cidade de Chapecó.  E o que isto tem de especial? Nada, absolutamente nada. Há algumas cidades que parecem me perseguir. Cidades comuns que não atraem turistas e onde estive por motivos profissionais.  Inúmeras cidades médias e pequenas se espalham por este Brasil, com expressão estadual ou apenas regional, mas que movimentam a economia e irradiam desenvolvimento. Chapecó é uma destas cidades.

Na minha primeira passagem por aqui, há cerca de 6 anos, a cidade me pareceu menor. O crescimento é notado facilmente para quem faz parte da vida da cidade, mas passa silencioso para quem é de fora. Imaginando que a cidade seria pacata e demasiadamente tranquila, levei um susto quando fui efetivar a reserva do hotel. As duas primeiras opções estavam lotadas;  a terceira tinha apenas um quarto sobrando. Há um evento de suinocultores esta semana e a rede hoteleira está sobrecarregada, ou seja, quase fiquei sem hospedagem.

Impressiona-me como os pólos regionais geram um círculo virtuoso de atividade econômica, algo que passa despercebido para a maioria dos habitantes das capitais. Quando disse que vinha para cá, muitos não tinham a menor ideia onde ficava.

A cidade guarda este aspecto rural, apesar do desenvolvimento. Caminhando na rua, fui cumprimentado por dois senhores com um leve aceno da cabeça, como se fosse um habitante conhecido. O silêncio é notado quando não se escuta o barulho de veículos após às 22 horas. A cidade adormece cedo e deixa o céu estrelado e a lua quase cheia a contemplar as luzes das ruas. Mesmo neste horário, é bom poder caminhar pela rua sem a menor preocupação de ser assaltado. Algo que só uma cidade tranquila pode proporcionar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Barcelona dos cinco sentidos


Palau de la Música Catalana, Barcelona



Até um ano atrás a viagem exigia um escala com troca de aeronave, sendo que a primeira parte durava longas doze horas. Na parte final do voo, para coroar o longo trajeto, minha filha e algumas outras pessoas passaram mal gastando o estoque de saquinhos coletores de vômito do Airbus 340 da Lufthansa com destino a Munique. 

Em solo, o primeiro choque cultural. A passagem pela imigração foi tranquila e sem demoras. As instalações do moderno flughafen são amplas, com muita luz natural e arquitetura arrojada. A sensação de estarmos em outro mundo foi sentida de imediato, além da óbvia língua alemã com a qual não tenho a menor intimidade e cuja sonoridade lembra mais um longo desfiar de impropérios do que uma conversa amena.  No terminal de embarque exclusivo da Lufthansa, não faltavam cadeiras e conforto, nem houve aquela ridícula troca constante de portões de embarque patrocinada pela nossa Infraero em todos os aeroportos brasileiros. Havia jornais do dia distribuídos gratuitamente e uma máquina de café e chocolate quente sem que houvesse cobrança pelas bebidas. Tudo organizado, limpo, bem cuidado.

Desde pequeno, sou fascinado por voar. Adoro voar e adoro passar horas nos aeroportos, explorando, vendo os aviões, observando os passageiros. O trajeto até o destino é para mim uma experiência divertidíssima. Devo confessar, porém, que ultimamente viajar de avião deixou de ser prazeroso e se transformou num suplício, com as poltronas apertadas e pouco distantes, serviço de bordo sofrível e nenhum benefício adicional, como aqueles antigos kits de higiene pessoal que o passageiro recebia no voo internacional. Os tempos são outros e agora dê-se por satisfeito se o voo sair no horário.

Voltando à estrada principal após um pequeno – mas necessário – desvio, decolamos para Barcelona. Uma vista fantástica dos Alpes num dia ensolarado e de céu claro, com sol refletindo dos picos cobertos de neve, fez parte do trajeto. Um dos pequenos ficou maravilhado, enquanto a outra sofria ainda com os efeitos da náusea que lhe afligia.

Barcelona, capital da Catalunha, é uma cidade em constante transformação e ebulição. Disseram-me que vinte dias seria muito e que me cansaria, pois a cidade não oferece tanto assim. Discordo efusivamente e retornaria para mais vinte dias por lá sem pensar duas vezes, ou melhor, fugiria do inverno brasileiro para aproveitar o verão catalão.

Barcelona no verão é invadida por turistas de todos os cantos, principalmente europeus do leste em busca de praia e de um pedacinho do Mediterrâneo, que parece uma grande lagoa salgada, de águas calmas e quentes. A mistura de povos, visitantes e residentes, permite ao turista vivenciar e explorar a vida local naquele canto ao leste da Espanha sem destoar do cenário.

O calor é seco e não incomoda quem opta por caminhar a maior parte do dia. Gosto de explorar as cidades caminhando, observando, com liberdade para parar em lojas, livrarias, bares e restaurantes. Um guia de bolso é elemento indispensável em qualquer viagem, pois chama a atenção para locais que poderiam passar despercebidos. Um prédio histórico, uma praça onde determinado fato ocorreu, um restaurante onde Picasso costumava almoçar e encontrar com outros artistas, um mercado renovado e cujo telhado em formas curvas lembra um campo florido ao balançar do vento. Uma boa pesquisa do destino garante esta imersão completa. Sou daquelas pessoas que gosta de aproveitar o tempo degustando o local, extraindo de cada passeio elementos culturais que vão compor minha bagagem na volta, sorvendo o ambiente urbano que dá o tom característico e único de cada cidade, como uma marca d’água indelével.

A estética arquitetônica é instigante em Barcelona. O olhar fica irrequieto, varrendo o cenário sempre a se maravilhar com algo diferenciado e inovador, saltado da prancheta de um famoso arquiteto. A Igreja da Sagrada Família, os edifícios projetados por Gaudí, o Parque Güell, a Torre Agbar e tantos outros edifícios e construções que marcam Barcelona como um showroom vivo e concreto da arquitetura.

A visão, porém, não é o único sentido a ser agradado pela cidade. O paladar e o olfato também são muito bem tratados.  Nos pequenos bares e restaurantes, uma mistura de aroma de alho misturado com a fumaça de cigarro permeia o ar. Decidira que pararia de fumar nesta viagem e aquele cheiro de tabaco era um pequeno consolo para um – agora – ex-fumante. Os temperos e condimentos ressaltam o paladar dos produtos vindos do mar, verdadeiro banquete para quem gosta de pescados e frutos do mar. Servidos a la plancha, ou seja, cozidos na chapa com alho, cebola, sal e pimenta do reino, chegam fumegantes à mesa sem que o gosto seja mascarado pelos condimentos. E vale lembrar que os preços, com a crise na Europa, deixam qualquer boteco de São Paulo parecendo um roubo diante do preços praticados por lá. A Europa deixou de ter preços proibitivos e passou a ser um destino acessível.

Tapas podem ser encontradas em diversos locais da cidade e são um convite a pular de bar em bar. Saborosas, variadas e criativas, as tapas provocam novas sensações gustativas, brindando o paladar com uma explosão de sabores. Ciutat Comtal é um destes formidáveis lugares. Localizado na Rambla de Catalunya, 18, paralela da Passeig de Gràcia, charmosa avenida onde se localizam as lojas de grifes internacionais, o restaurante fica movimentado o dia todo até altas horas da noite, pois os catalães geralmente jantam após as 22 horas.

No Palau de la Música Catalana, a audição é o sentido premiado. Localizado no Bairro Gótico, próximo ao restaurante Els 4 Gats, frequentado por Picasso e pela classe artística de outrora, o grande templo musical foi construído entre 1905 e 1908 por Lluís Domènech i Montaner. No dia de minha visita, Paco de Lucía seria a estrela da noite. O mais renomado guitarrista espanhol, mestre do flamenco com sua batida peculiar que nos remete a imagens de castanholas e uma donzela a dançar com um vestido em negro e vermelho, faria a primeira de uma série de apresentações. Era a última noite em Barcelona e tive que me contentar com a aquisição de um CD duplo de um show que mais se assemelha a uma generosa antologia musical do artista.

A cidade espraia-se entre as montanhas e o mar e pode ser contemplada por inteira do alto de Montjuïc. Um forte utilizado com ponto de resistência durante a Guerra Civil Espanhola, agora convida o indivíduo a olhar pacificamente, a sonhar e a deixar a imaginação viajar. O vento que sopra acaricia o rosto como a pedir que o visitante não se vá, abraçando-o com afeto e convidando-o a voltar sempre. O tato é contemplado coroando o festival de sensações que uma verdadeira viagem deve proporcionar.

Seria Montjuïc o ponto final da viagem? Não, apenas uma pausa para sintetizar e arrumar na bagagem da memória tudo que foi descoberto e tudo que se enriqueceu nestes dias. Nestas linhas não coube tudo e nem poderia caber tudo. Os sentidos agraciados com a fantástica Barcelona nada mais são do que uma forma de enlevar o espírito e nutrir a memória com uma carga cultural renovadora e inolvidável.

(Convidado a escrever sobre viagens, nasceu este post sobre Barcelona, que visitei no ano passado. Mais sobre posts sobre o tema podem ser localizados nas tags Barcelona e viagem).

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Viagens e viagens

Centennial Olympic Park, Atlanta, EUA



Destinos de viagem são tema recorrente quando os meses de férias se aproximam. Numa conversa entre amigos, um deles afirmou com segurança que não existia viagem ruim ou destino ruim, pois a viagem por si só já é um evento inesquecível. Alguns discordaram, torceram o nariz, acharam o sujeito otimista demais.

Seguiu-se uma saraivada de locais inóspitos, bregas, pouco charmosos e pouco atraentes, verdadeiros “micos” ou “programas de índio”. Aquele local de praia onde só tem farofeiro; aquela região da serra onde as pousadas são improvisadas e a estrutura é precária e sem água quente; aquele passeio de barco para pescar onde os pernilongos e mutucas te devoram vivo; aquela cidadezinha remota que exige você andar 100km numa estrada de terra esburacada; o passeio de escuna em que todos enjoaram e foram privados de contemplar o mar azul…e assim os exemplos se sucediam e pareciam infinitos.

Ele não se alterou com os argumentos do povo ouriçado. Manteve-se calmo e frio. Ouviu todos pacientemente e pediu alguns esclarecimentos. Todos – sem exceção – tinham um evento de viagem curioso para contar, alguma anedota, algum caso surpreedente. E invariavelmente, todos riam e gargalhavam.

Então, ele arrematou: “Estão vendo? Toda viagem é boa. Pode ter sido desagradável ou com problemas, mas serviu para que agora déssemos boas risadas. O que seria de uma viagem perfeita sem imprevistos? Não teria a menor graça.”

De fato, refletindo sobre esta sábia ponderação, cheguei à conclusão de que toda viagem é boa. Viajar traz uma carga enorme de novas informações para o cérebro que se vê estimulado diante de algo novo. Sinto-me como uma criança que abre os olhos maravilhada diante de alguma nova descoberta, algum brinquedo presenteado, algum objeto recém construído. Toda viagem traz consigo uma infinidade de novas experiências, que podem ser boas – ou não -, mas cuja avaliação é subjetiva. Se o sujeito abraça a jornada com o espírito aberto, o tempo longe de casa será renovador; se o indivíduo inicia a viagem emburrado e reclamando, pode ter certeza de que nem o melhor hotel do mundo lhe agradará.

A boa viagem é aquela que nos traz de volta ao lar com a bagagem lotada de novidades e de descobertas.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Mal acostumado

Aprendi – em casa e na vida – que tratar as pessoas com educação abre portas e torna o dia mais leve. Quando era estagiário de um grande escritório de advocacia em São Paulo, dando meus primeiros passos profissionais, costumava discutir com funcionários de cartórios do fórum, deixando transparecer um ar de arrogância e superioridade. Estava errado ao agir assim. Um dia percebi que tratar bem as pessoas, além de ser um sinal de respeito, facilitava o andamento dos processos e deixava as idas ao fórum muito mais agradáveis.

Domingo, depois de um voo que mais parecia um daqueles brinquedos de parques de diversões que chacoalham você para cima e para baixo até você ficar tonto e enjoado, cheguei a Porto Alegre. Era uma tarde agradável de sol e não ia ficar fechado no hotel. Saí caminhando pelas ruas, o que permite observar e descobrir a cidade. Devido aos solavancos do voo, não tinha almoçado e procurei um restaurante. Munido de uma revista, almocei tranquilamente.

Havia já terminado o café quando percebi que um grupo de quatro mulheres na faixa de 55 anos chegou e perguntou para a garçonete se havia mesa.  O café era um amplo quiosque no Shopping Moinhos de Vento e eu estava sentado bem ao lado da entrada, portanto ouvi a garçonete informar que só havia uma mesa disponível e que elas teriam que esperar.  Quando a garçonete terminou de passar a informação, chamei-a e disse que liberaria a mesa.  Uma das mulheres ouviu a conversa.  Peguei a conta e dirigi-me ao caixa para pagar.  Sinceramente, fiquei surpreso ao não ouvir um singelo obrigado.  Diria que um simples agradecimento seria um gesto de civilidade e cordialidade, nada mais. Uma delicadeza apenas. Mais nada.

Não costumo me irritar com indelicadezas ou grosserias. Nestas horas sou frio e impassível, mantendo o controle, mas não custaria nada àquele grupo agradecer. Bem que poderia deixar o grupo de pé esperando. Não agi assim. E não agiria novamente se a situação se repetisse. Estou mal acostumado a tratar as pessoas com gentileza, educação  e respeito. 

terça-feira, 22 de março de 2011

Avião não é ônibus!


Enquanto Barack Obama preparava sua rápida passagem pelo Brasil, eu fiz uma rápida passagem pela terra do Obama. Foram dez dias no sul dos Estados Unidos, uma região que não conhecia e que me surpreendeu, mas este será temo de outros posts, afinal viajar é sempre uma experiência enriquecedora. 

Sou da opinião de que os EUA começam a norte de Orlando, ou seja, quem conhece só Miami e Orlando não conhece os EUA.  Não me levem a mal e não me entendam errado, adoro Miami, a verdadeira capital da América Latina – com todas suas coisas boas e ruins -, mas Miami não é a cara dos EUA. A língua oficial é o espanhol e há um enxame cada vez maior de brasileiros arruaceiros, aqueles que estão fazendo a primeira viagem de avião na vida e resolvem que tem que comprar tudo nos outlets, inclusive geladeira.

Morei 6 anos nos EUA, sendo 2 em Miami e fui com muita freqüência à cidade. Não estou sendo preconceituoso, mas há um certo protocolo para determinadas atividades, assim como há regras para comer, para tratar uma autoridade, para se vestir para um jantar ou uma festa de casamento.  Avião não é ônibus!

Tudo bem, você dirá, a culpa é das companhias aéreas. Concordo que elas têm grande parcela de culpa ao aglutinar os passageiros em assentos que mais parecem feitos para sessões de tortura do que para viagens intercontinentais, ao servir uma comida borrachuda e sem gosto, e por aí vai.

Isto porém não justifica a falta de educação dos brazucas. Depois desta última viagem conclui que o melhor é evitar passar por Miami, salvo se a cidade for o destino final. Desta vez fui por Dallas e encontrei um aeroporto enorme e excelente, além de que o tempo de voo é suficiente para dormir um pouco mais. Os colegas passageiros também são mais simpáticos e menos desesperados por comprar tudo que veem pela frente ou reclinar o encosto do assento antes da decolagem.

A nova realidade de renda do brasileiro e o dólar barato incentivam as viagens internacionais, o que é muito positivo, mas obrigam os viajantes mais educados a exercitarem a virtude da paciência durante a viagem e na volta à pátria amada, por que afinal, nossos aeroportos estão mais parecidos é com rodoviárias. Pelo visto, para a Infraero e para o governo, avião é um ônibus voador.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Olhares de Barcelona - II





Torre Agbar, à noite (acima) e durante o dia.

Concluída em 2005, o edifício projetado por Jean Nouvel destaca-se em Barcelona, uma cidade onde os prédios têm altura equivalente e quase uniforme, sinal do bom planejamento e organização. A expressão Agbar não é uma palavra em árabe mas a abreviatura da empresa Águas de Barcelona, responsável pelo saneamento básico e pelo fornecimento de água na cidade.

O edifício lembra um pepino gigante, ou um monolito de um filme de ficção científica. Durante o dia, sua aparência é árida, porém, à noite, com a iluminação especial, o prédio ganha vida de forma surpreendente.

O hotel em que estava hospedado era ao lado da Torre Agbar. Diariamente caminhava para a estação Glòries do metrô e passava ao lado do prédio. O que mais me impressionou era a quantidade de pessoas fotografando o edifício e diante do edifício, algumas naquelas tradicionais poses, muitas delas cômicas. A Torre Agbar parece ter um campo magnético capaz de atrair toda e qualquer máquina fotográfica.

Suspeito que algum dia, algum fotógrafo ainda fará uma série de fotos de pessoas fotografando a Torre Agbar, enquadrando as imagens nos sujeitos que fotografam e não no objeto fotografado. Nos últimos dias em que passava por ali, deixei de observar a Torre Agbar e fixei o olhar atento na infinidade de pessoas que paravam alguns minutos para levar consigo uma lembrança de mais um marco arquitetônico de Barcelona.