quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Crônica: Passos no infinito


CRÔNICA: PASSOS NO INFINITO


Caminhava displicentemente no horário do almoço absorto em seus pensamentos, quando foi desperto pelo sorriso de uma bela moça que vinha em sentindo contrário na calçada. Esboçou um sorriso, mais por educação do que por interesse. Não olhou para trás. Aquele sorriso havia feito com que caísse em si e percebesse algo banal, mas com uma nova luz.

Pedro tinha destas coisas. Ficava remoendo algum pensamento, algum fato – a maioria deles banais -, até que tudo se clareava e as nuvens da dúvida se dissipavam. Geralmente eram coisas rotineiras, coisas simples, detalhes. Detalhes que não passavam despercebidos. Ela sempre prestava atenção nos detalhes e, numa singela e despropositada frase, soltava alguma coisa corriqueira e ele se encantava. Não era charme de Marcela, era o jeito dela. Atenciosa, cuidadosa, cirúrgica. Tinha o dom para sempre acertar no alvo e deixá-lo embevecido por alguns dias.

Outro dia ela havia dito que ele mal ficava no escritório. Aquilo o intrigou. Como ela sabia? Como se ela estava tão longe, em outra cidade, em outro estado a quilômetros de distância? Mas, ela notava. Sabia que ela se atentava para detalhes que muitos não atentavam. Ela sabia. Ela prestava atenção nele e não tinha nenhuma obrigação de fazer isto. Fazia porque gostava de Pedro. Era amizade no sentido puro da palavra, desinteressada, mas sempre preocupada com ele. Marcela lhe dava valor, lhe dava atenção. Algo que lhe faltava nos últimos tempos. E muito. E faltava de quem deveria ser apoio e suporte. Não nas últimas semanas, mas nos últimos meses, talvez dois anos. Pedro não conseguia precisar a data, mas isto não era importante.

Deu-se conta disto num dia banal, num momento rotineiro, mas com novas cores. A distância física era irrelevante. Marcela estava sempre nos seus pensamentos. O problema era a distância emocional de quem estava sempre do seu lado. Uma distância que a cada dia se tornava esmagadora, desgastante. Algo quase intransponível. A cada dia que passava, Pedro se convencia de que deveria tomar uma decisão logo, de que os caminhos haviam tomado rumos diferentes para não mais se cruzar no infinito. Seus passos não tinham mais horizonte.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Deixou de ser notícia


Dizem que brasileiro tem memória curta. Talvez a imprensa tenha sua parcela de culpa. Talvez todos nós tenhamos nossa parcela de culpa. Porém, no que me concerne, não vou deixar o assunto morrer e ficar esquecido. Vou falar de novo do caos aéreo. Não, meus caros, ele ainda não acabou e as coisas não se normalizaram. Apenas deixaram de ser notícia.


Semana passada fui à Brasília. Na 5a. feira, demorei exatos 55 minutos para conseguir fazer o check-in na Gol. Uma verdadeira confusão, uma fila gigantesca e muito pouca informação. Vôo saiu com 1 hora de atraso, o que parece razoável.


A volta tinha nos reservado a melhor parte da comédia. Chegamos no aeroporto às 17 horas, para fazer o check-in e embarcar no vôo 1209, às 19:25 com destino a Congonhas. Éramos 4 advogados cansados depois de um longo dia de seminário e palestras. Fomos informados que o vôo partiria às 20:30. Interessante que o vôo imediatamente depois do nosso para São Paulo foi embarcado antes do nosso.


Todos embarcados, começa o espetáculo. O comandante informa que devido ao "sequenciamento de vôos no espaço aéreo de São Paulo, somos a quarta aeronove na fila de decolagem, com previsão para saída em 10 minutos". Esta informação nos foi passada por volta das 21 horas, ou seja, já estávamos no avião há mais de 40 minutos.


Nova informação do comandante: "Somos a próxima aeronave no sequenciamento."


E agora, senhores leitores, o clímax do primeiro ato: "Recebemos informação da torre que devido ao excesso de aeronaves no espaço aéreo de São Paulo, todas as decolagens para São Paulo estão suspensas até ordem posterior. O espaço aéreo de São Paulo está fechado." Gritaria geral, celulares sendo sacados pelos passageiros e os comissários distribuindo copinhos de água, lembre-se estamos na Gol.


Por volta de 21:45 - ou seja, com a iminência do fechamento de Congonhas às 23 horas -, novo recado do comandante. "Informamos que a torre autorizou nossa decolagem, porém iremos para Guarulhos." Decolamos às 22 horas de Brasília e chegamos em Guarulhos às 23:30. Comentei com o passageiro do meu lado: "Agora mais 30 minutos para que o avião encontre uma posição de desembarque." Ele riu. Não foram 30 minutos, foram 45 minutos parados na pista esperando para o desembarque.


Só que o avião atracou na área de desembarque internacional, o que impedia que saíssemos pelo finger. Mais 20 minutos aguardando que a Infraero providenciasse uma escadinha para o desembarque. Em resumo, saímos do aeroporto por volta da meia-noite e trinta. Um tumulto de passageiros procurando um táxi ou um ônibus para deixar o aeroporto.


A moral da história é muito clara: o caos aéreo não acabou. As autoridades continuam perdidas e a imprensa já cansou de informar sobre assuntos repetidos. E tudo vai ficar como dantes, e tudo será esquecido. Triste país!

sábado, 27 de outubro de 2007

Seguro morreu de velho

Uma mesa na hora do almoço com aproximadamente 10 pessoas. Advogados, dirigentes do Sesi, do Senai e da CNI. Assunto em pauta: sucessão presidencial. Ouvi todos atentamente e soltei o verbo.

- Eu, pessoalmente, acho que vão tentar uma emenda constitucional para um terceiro mandato do Lula!

Acharam que eu estava louco, que isto não aconteceria no Brasil, que a democracia está madura.

Notícia no Uol, ontem à noite, que a Fabiola me passou: Aliados articulam proposta que abre brecha para 3º mandato de Lula .

Cada um tire suas próprias conclusões.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Notícia requentada

Slot é um blog especializado em aviação e notícias sobre as empresas aéreas editado por Marcelo Ambrósio. Como hoje vou a Brasília, já estou preparado para ter muita paciência e enfrentar o caos aéreo que continua. Não sou eu quem está dizendo, está tudo no Slot.

Esta semana a culpa pelos atrasos foi do tempo, da Fórmula 1 e blá, blá, blá. E agora o Ministro Nelson Jobim diz que a culpa é da ANAC.

Ué, então não mudou nada? Não vou me cansar nunca de me indignar diante da incompetência das autoridades brasileiras.

Comentários da Orquídea

Uma das coisas que mais intriga sobre a blogosfera e os textos que publicamos é a possibilidade de perceber que na nossa essência humana somos todos profundamente iguais.

Os comentários da Edna e da - blogs que leio sempre - mostram como realidades distintas confluem para a nossa humanidade. Preocupações, alegrias, angústias e aflições. Momentos da vida e experiências todas semelhantes, com personagens e cenários diferentes, mas tendo um pano de fundo igual: a vida.

Acho que esta unicidade, este ponto que nos une, que torna a literatura, a música, as artes plásticas tão importante no nosso processo de conhecimento próprio e amadurecimento.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Crônica : A Orquídea

(Foto do autor do blog)

Há cerca de 4 anos, ganhei uma orquídea branca. Bem, na verdade, não fui quem ganhei, mas ela veio morar aqui em casa, e aqui, quem cuida das plantas sou eu. Se não for eu, elas morrem – de sede ou afogadas. Uma bela orquídea branca. Passado algum tempo, as flores murcharam, enegreceram, perderam a vibração e caíram. Restou apenas um caule verde, que mais parecia um espeto curvado, tombado para um lado. Cheguei a achar que ela tinha morrido, mas impedi que fosse jogada fora. Deixei-a num canto da varanda, onde a regava e podia observá-la. As folhas continuavam vistosamente verdes, o que me incentivou nos cuidados.


Para minha surpresa, notei no final do mês passado alguns brotos no caule. Os brotos ganharam volume e transformaram-se em pequenas esferas fechadas. Duas semanas se passaram até que as flores desabrocharam. A orquídea saiu da varanda e ganhou um recanto sobre uma mesinha ao lado do sofá. Estava surpreso com o "renascimento"da planta e das flores. Tudo simples e corriqueiro, tudo banal, como uma flor que nasce, assim como tantas outras.


Na quinta-feira, crianças dormindo, a casa silente, lia o jornal quando lembrei-me de algumas palavras que tinha ouvido pela manhã sobre a importância de ter calma, de ser paciente, de que tudo tem o seu tempo. Olhei para a orquídea e sorri.


Fico fascinado como certas coisas e certas pessoas, aparentemente vindas do acaso inexplicável e imprevisível, conseguem mostrar-nos verdades tão simples e ao mesmo tempo tão profundas. Um momento de inspiração, de lucidez. Naquele momento, percebi como a orquídea era um perfeito exemplo de paciência, de calma. Ela ficou dormente por vários anos, mas não a joguei fora. Cuidei dela, esperei por ela e agora ela me brindava com sua beleza e iluminava meu final de dia. As palavras escritas naquela manhã se materializavam à distância numa singela flor.


Alguém irá entender que ter calma, ter paciência não é fácil, ainda mais num mundo que funciona numa velocidade cada vez maior. Temos pressa. A orquídea pedia calma. E naquele momento, o acaso uniu palavras escritas a uma flor que não fala – pelo menos não com a boca, se bem que acho que flores falam muitas coisas. Basta perguntar a uma mulher que as ganha de presente!


Pode parecer tolo, mas há momentos em que é preciso dizer para aquela pessoa que tem paciência e sabe estender a mão, que sabe dar – e provocar - um sorriso, que sabe ouvir quando mais precisamos: Obrigado por você existir!


Este post é dedicado a todas aquelas pessoas com quem podemos contar sempre, que nos ajudam sempre, mesmo quando há distância física.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Uma propaganda do Mac

A Apple lançou uma série de propagandas nos EUA comparando o desempenho do Macintosh com os PCs. É uma antiga briga Apple vs. Microsoft.

Em alguns campos, como MP3, o iPod da Apple dá um baile no Zune da Microsoft. Nos computadores, ainda somos reféns da Microsoft.

A propaganda é divertida e um bom jeito de começar a 2a feira: rindo!


domingo, 21 de outubro de 2007

Dicas da Dani: Feist

Feist é uma cantora/compositora canadense e estará no Brasil para o Tim Festival 2007. No Rio ela se apresenta no dia 26 de outubro; em São Paulo, ela cantará no dia 27 de outubro, mas os ingressos já estão esgotados para as duas cidades. Traz o estilo Indie Rock para as paradas de sucesso e para o Tim Festival vem como uma das "Novas Divas".

O vídeo traz a música "1 2 3 4" do álbum The Reminder (2007) chegou a 8a. posição nos EUA na lista da Billboard. Vale destacar também "My moon, my man" do último álbum para quem quer uma dica de download.

sábado, 20 de outubro de 2007

Vinicius de Moraes : Suspensão

SUSPENSÃO

Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.

(As coisas do alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 103)

A música longínqua de uma valsa para embalar o sonho na noite em que a lua volta a despontar no céu claro, ainda tímida, ainda crescente, mas na noite quente, ela dá o ar da graça e leva consigo o beijo, o pensamento, o carinho. Distância? Não há distância para sentimentos puros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Juizados Especiais nos aeroportos

Não vou transcrever o longo artigo que postei hoje no Blog - Informativo Legal sobre a criação dos Juizados Especiais nos aeroportos brasileiros, mas apenas indicar a leitura para quem estiver interessado.

Adianto que achei esta medida muito demagógica. As razões podem ser lidas aqui.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Lembram do 3?


Encerrada a sequência de posts temáticos aproveitando o dia das crianças, volto com um tema menos agradável, mas muito necessário.


Lembram-se da Campanha do 3?


Pois é, ela sumiu. Curioso não?


Da coluna da Dora Kramer no Estadão (15 de outubro de 2007, p. A6):


"Ainda o 3


Antonio de Freitas, responsável pela campanha publicitária do Banco do Brasil que, por causa do slogan 'decida pelo 3' suscitou suspeita sobre propaganda subliminar para o teceiro mandato de Lula, rebate nota sobre o sumiço da prometida segunda fase da campanha, segundo ele baseada na soma dos algarimos 2 e 1 da Agenda 21 sobre a sustentabilidade do planeta.


Freitas informa que a segunda fase já está no ar e envia as peças da campanha para comprovar. Nelas não há uma referência sequer ao '3'. De acordo com ele, detalhes da campanha não podem ser revelados 'porque não podemos expor nossa estratégia e a nossa tática para a concorrência'.


Ah, bom, agora ficou claro!


Como não está fácil localizar posts antigos (vou ter que dar uma reorganizada no template agora que já tem bastante conteúdo), aqui vão os posts relacionados:


17 de agosto de 2007 - O misterioso 3

22 de agosto de 2007 - A campanha do 3


Não fui o único que notou a semelhança entre a campanha do Banco do Brasil e o logo do último congresso do PT, cuja imagem você confere acima. Depois alguém vai falar que fulano só se elegeu porque tinha a máquina administrativa por trás, que usou do poder econômico e blá, blá, blá. Eles aprendem rapidinho.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Conto: Semeadora de Sorrisos



SEMEADORA DE SORRISOS


A menininha de óculos vermelhos corria, pulava e sorria no tanque de areia do Bosque do Morumbi, sob o olhar atento do pai, tranquilamente sentado num banco sombreado pelas frondosas árvores do parque. Junto com ela, o irmão puxava um pequeno caminhão de plástico, enchendo a caçamba de areia e despejando em seguida para construir um castelo.

Uma manhã de sol tranqüila com o parque pululando de pequeninos, babás, pais e mães. O tempo corria lentamente e o pai não deixou de lembrar de sua época de criança. Bons tempos! Tudo se resumia a brincar, a inventar amigos imaginários e cenários para as brincadeiras. O tempo era medido pelas horas lúdicas, os dias pelos passeios e os fins de semana pelas visitas aos avós. Tudo era mais simples.

Aninha despertou-o do transe com uma pergunta:

- Pai, por que todo mundo ri para mim? Eles estão rindo dos meus óculos?

Com um olhar terno e cheio de confiança, o pai respondeu:

- Eles não estão rindo de você, estão sorrindo para você. Todo adulto, quando vê uma menininha linda e alegre sorri. As crianças trazem esta alegria para os adultos. As crianças fazem os adultos voltarem a ser criança, só que grandes. Vou te contar um segredinho. Quando nasce uma criança, o Papai do Céu lhe dá um poder mágico. O poder de semear sorrisos por onde a criança passa. E as sementes não acabam nunca. Elas só acabam se você quiser que elas acabem, se você deixar de ser criança, se você deixar de sorrir como criança. Se continuar sorrindo, as sementes vão sempre existir e todo mundo vai continuar sorrindo para você. Você, minha filha, será uma semeadora de sorrisos pelo mundo. Mas, agora, já é hora de ir embora. Vamos chamar seu irmão.

- Pai, quero colo! – pediu Aninha sorrindo.

- Mas uma meninona deste tamanho querendo colo! Tá bom, vai.

E ela pulou no colo do pai e abraçou-lhe bem forte.

- Quando eu for grande, você não vai mais conseguir me carregar no colo, então tenho que aproveitar. – e riu deliciosamente.