terça-feira, 18 de junho de 2013
Passe Livre?
Dois líderes do Movimento Passe Livre estiveram no Programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 17 de junho de 2013 (um trecho do programa segue abaixo).
Este movimento seria o começo, o ponto de partida das manifestações que tomaram as ruas do país. Mas será que o Passe Livre é realmente um movimento amplo ou com um propósito restrito?
Um dos líderes do Movimento, Lucas Monteiro de Oliveira, afirma que o objetivo do movimento é a redução da tarifa de ônibus em São Paulo para R$ 3,00 e que a tarifa de ônibus deveria ser zero.
O site do MPL explana que o MPL "é um movimento social brasileiro que luta por um transporte público de verdade, fora da iniciativa privada. Uma das principais bandeiras do movimento é a migração do sistema de transporte privado para um sistema público, garantindo o acesso universal através do passe livre para todas as camadas da população." (fonte: MPL)
Há links para diversas seções, separadas por cidades. Na seção específica de São Paulo o conteúdo é melhor (veja aqui).
Em certo trecho do programa, Nina Cappello, líder do MPL, sustenta que o governo deveria deixar de gastar com a construção de presídios e direcionar os recursos para o transporte público.
A proposta do MPL é que o transporte público seja gratuito, não importando que outras áreas sejam afetadas ou tenham menos recursos disponíveis. Se a educação, a segurança e a saúde forem prejudicadas ou sofrerem redução de verbas, isto não é um tema que preocupa o MPL.
É possível que os ônibus sejam gratuitos? Claro que sim, mas para isto há um custo que deverá ser bancado por alguém e este alguém é você, meu caro leitor. O dinheiro virá dos tributos arrecadados pelos entes do Estado (União, Estados e Municípios). Reportagem da Folha de São Paulo demonstra que o IPTU teria que ser dobrado para bancar a catraca livre (leia aqui).
Há no Brasil apenas 2 cidades com trasnporte público gratuito: Agudos (SP) e Porto Real (RJ). E como elas conseguiram isto? Estas duas cidades têm um volume de repasse de ICMS decorrente de fábricas instaladas no município que garantem uma receita orçamentária muito maior do que os gastos da cidade. A matemática é simples. São municípios menores, com menos estruturas e menos serviços, e por isto, conseguem oferecer transporte público gratuito.
Interessante que os líderes insistem em afirmar que o movimento não tem lideranças, que são todos iguais, que a "estrutura é horizontal". Tentar dar o caráter espontâneo ao movimento, despido de uma figura única na liderança, é característica conhecida de movimentos anarquistas e semelhantes movimentos como o Occupy Wall Street. Todos estes movimentos e seus militantes cansaram, os protestos exauriram-se, pois não há causa a justificar a mobilização. O anarquismo não prospera no Estado Democrático de Direito.
Bem, neste caso há uma causa: a redução da passagem de ônibus. E se o MPL conseguir a redução, então o que virá? Nada. O movimento se exaure até o próximo aumento. A causa não tem visão de longo de prazo, não propõe alternativas, medidas, não utiliza dos caminhos legítimos para propagar suas ideias e defender seus interesses. Eis a grande fraqueza do MPL, que é um movimento legítimo: o MPL não sabe usar os meios previstos institucionalmente para buscar as mudanças que propala.
O MPL tem como objetivo alcançar algo que é totalmente discrepante da realidade e parte de premissas equivocadas, mas isto será objeto de outro post, onde traremos nossa opinião sobre este movimento.
As manifestações que se sucederam extrapolam a causa do MPL que está abismado com a mobilização geral de tantos brasileiros indignados. Mas, volto à pergunta, indignados com o quê? Dizer-se indignado com tudo é o mesmo que não se indignar com nada, ou seja, quem se propõe a mudar tudo, não muda nada. O povo pode estar na rua, mas é preciso saber por qual razão!
Este é o primeiro post de algumas reflexões sobre o que está ocorrendo no momento atual do Brasil.
domingo, 9 de junho de 2013
Crônica: Tabuleiro da Vida
Os dados são lançados. Um passo adiante é dado e assim a
casa das dezenas da idade é alterada no tabuleiro da vida. Quando se avança uma
casa, não se retrocede, não há mais volta. O tempo é inexorável e não permite
que o relógio seja reiniciado; o relógio corre, sempre, sem parar.
O constante passar do tempo, comemorado a cada ano, a cada
aniversário, é motivo de celebração. Vencemos mais um ano, somos presenteados
com um novo capítulo em branco, a ser preenchido com memórias, a ser escrito
com decisões, emoções, alegrias, percalços, solavancos, saltos, conquistas,
sorrisos, abraços, beijos, desejos. Comemorar mais um ano é celebrar a vida, a
sobrevivência nesta selva moderna de tantas armadilhas.
Alguns se lamentam com a idade que avança; alguns se
deprimem com a percepção de que somos finitos nesta passagem terrena e os
quarenta anos são um indicativo de que já percorremos uma boa parte da jornada.
Não sou exceção e também senti o peso dos anos, mas percebi que este período
lança a luz da perspectiva sobre o passado e o futuro. Parece que subimos numa
alta colina, sem conseguir avistar muito adiante, mas com plena visão do que
ficou. E o que ficou é bom, muito bom.
Houve lágrimas, houve tristeza, houve momentos de desespero
e indignação. Seria possível seguir adiante? Por que a vida se revela tão cruel
comigo? As perguntas são respondidas pelo tempo, pelo nascer do novo dia, pela
perseverança e determinação. As lágrimas servem para regar a vontade forte que
brota de um coração gigante.
Amigos foram feitos, trazidos pelo acaso; filhos são gerados
e nos dão um sentimento de legado, de permanência, de tradição de uma história
pessoal; pais são valorizados e apreciados; os bens são relativizados e parece
que ganham seu devido lugar na hierarquia das coisas; o transcendental dá
sinais mais fortes, provocando-nos, sugerindo-nos de que a vida é efêmera e é
preciso cuidar da alma.
A idade não é cruel, não rouba a beleza e a juventude. Pelo
contrário, deixa a mulher mais plenamente bela, mais profunda, mais decidida,
mais interessante. O brilho no olhar, a paixão pela vida, o sorriso sedutor,
adentram o tabuleiro com força total, mais enérgicos, cativantes e
encantadores. O invólucro cede ao conteúdo.
É possível passar horas admirando uma mulher em sua maturidade
discorrer sobre qualquer tema. A beleza é sutil, discreta, natural. O encanto é
delicado. A voz é despida da estridência tão própria da juventude e ganha um
caráter aveludado, firme, compreensivo. Mentiria se dissesse que uma jovem
mulher é mais sedutora ou interessante. A
idade e o tempo são generosos com quem sabe dar importância ao que realmente é
importante. Sábia é a natureza, sábia é a vida, sábio é este jogo que jogamos
no tabuleiro da vida.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
A Jogadora de Xadrez
Fazia um bom tempo que não terminava um livro em pouco mais de uma semana, assim também há um bom tempo que não faço uma resenha para o blog de minhas leituras. Minhas últimas leituras recaíram sobre livros de não ficção (principalmente história do Brasil) e contos esparsos em revistas literárias e algumas coletâneas. Esta leitura variada não permite a unicidade da crítica. Mas o romance de estreia da alemã Bertina Henrichs, escrito em francês e com tradução de Bernardo Ajzenberg, obriga-me a trazer minhas impressões da obra.
A edição da Editora Record é de 2010 e o livro ganhou uma adaptação para o cinema estrelada por Sandrinne Bonnaire e Kevin Kline, com o título em português de O Xeque da Rainha.
O romance conta a estória de uma camareira de um hotel numa ilha grega. Eleni seguia sua rotina diária de trabalho e repara num casal de hóspedes franceses que jogavam xadrez no quarto. Interessa-se pelo jogo e mergulha no mundo fascinante do jogo dos reis, no universo das 64 casas que fascina grandes mentes ao redor do mundo.
A prosa é leve, ágil e a vida da ilha transcorre em traços mal acabados. Tem-se a impressão de Henrichs não gasta tempo em demasia com descrições inúteis e detalhes pouco úteis na composição das personagens e na construção do enredo. Assemelha-se a narrativa à um desenho cujos traços à lápis estão presentes, mas sem cor, sem acabamento, sem os retoques finais. Este estilo dá margem a certas dúvidas e incertezas, mas permite ao leitor preencher aparentes lacunas que surgem na estória.
O xadrez é o pano de fundo da estória, o fio condutor, mas não impede o leitor pouco familiarizado com o jogo de deixar de compreender, nem tampouco há descrições detalhadas do jogo que entediariam o leitor. Há algumas imprecisões (não sei se no original ou na tradução) que não passam despercebidas a um enxadrista, mas isto não tiro o brilho do livro e da beleza da estória.
São 160 páginas onde o leitor é conduzido pela vida pacata da ilha. Eleni se apaixona pelo jogo e esbarra na resistência - e nas fofocas - dos moradores da ilha em aceitar algo diferente. O súbito interesse de Eleni pelo xadrez é visto com desconfiança e estranheza, algo que abala seu casamento, levanta dúvidas sobre sua conduta e hábitos. O final, bem o final cabe ao leitor descobrir.
Não se trata de um clássico, mas sim de um livro delicioso, cativante e cuja estória encanta e convida o leitor a refletir. Há tantas situações cotidianas que são relevadas ou vistas com descaso, ou às quais atribuímos pouca importância e que revelam grandes avanços pessoais resultados de luta interior constante. A leveza da escrita e da narrativa transformam a leitura do livro em momentos de prazer, qual um período de férias na ilha grega de Naxos, onde se passa a narrativa.
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quarta-feira, 22 de maio de 2013
Epígrafe - XIX
“Pela primeira vez na vida, sentiu necessidade de um
horizonte mais amplo. A ilha pareceu-lhe, de repente, tão terrivelmente
pequena, que se sentiu quase oprimida. Nunca antes havia experimentado
fisicamente os limites de Naxos, um pequeno pedaço de terra cercado pelo mar. ‘Não
sei nem nadar’, pensou ela, como se isso pudesse alterar alguma coisa.”
(Bertina Henrichs, A jogadora de xadrez. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro : Record, 2010, p. 47 )
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quinta-feira, 9 de maio de 2013
Reflexões soltas
Às vezes a inspiração me foge, as palavras desobedecem,
comportam-se mal, não param quietas, algo semelhante a remontar um aparelho
eletrônico depois de desmontado, quando as peças não se encaixam e sempre
parece sobrar algum parafuso. Talvez fosse a ausência do silêncio; talvez a
falta de recolhimento; talvez a falta de leitura; talvez o excesso de trabalho;
talvez a sua falta.
Um texto e mais outro que não me agradaram, ficaram
disformes, sem fluidez, pedra bruta não lapidada e que ao tentar lapidar,
quebrava-se. As ideias confusas e a irritação aumentava. Inspiração parecia
ter-me abandonado para sempre. Frustrei-me. Deixei mais um texto de lado, pela
metade e segui o conselho de Ignácio Loyola Brandão: se a inspiração lhe
escapa, procura-a na rua. Lancei-me no caminho a observar. Sem sucesso. Sem
aviso, bastou-me avistar teu rosto que a inspiração pareceu jorrar água da mina
mais pura.
Josué Montello tinha por hábito iniciar sua jornada como
escritor com o dia ainda escuro. Sempre estranhei tal hábito, pois demorava um
pouco a despertar e a organizar as ideias. Com os anos de vida percorridos, as
horas frescas da manhã são as mais prolíferas. A mente limpa torna as ideias
mais cristalinas e precisas, os resquícios dos sonhos da noite anterior dão
pistas e sugestões para o dia que nasce, alimentam a inspiração, sugerem uma
conduta ou aventura a algum personagem. Basta vencer a preguiça que as palavras
se comportam igual às crianças com seus uniformes ainda limpos no início de uma
jornada escolar.
sábado, 20 de abril de 2013
Poesia: ABRAÇO
ABRAÇO
tem abraço que parece beijo
tem beijo que parece morte
tem morte que parece festa
tem festa que parece reunião
tem reunião que parece descaso
tem descaso que parece amor
tem amor que parece sofrimento
tem sofrimento que parece alegria
tem alegria que parece carência
tem carência que parece grito
tem grito que parece suspiro
tem suspiro que parece socorro
tem socorro que parece abraço
(c) RLBF
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Renato
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
Um livro, dois momentos
"'Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'
'That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.
'I don't much care where - ' said Alice.'Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat.
'- so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation."
(Lewis Carroll. Alice's Adventures in Wonderland. Penguin Books : London, 2008, p. 66-7)
Outro dia, percorrendo a esmo a seção de literatura estrangeira da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, deparei-me com uma coletânea de textos de Edgar Allan Poe, edição em inglês da Penguin Books, em brochura. Abri o livro e deparei-me com um conto que li na adolescência. The Fall of the House of Usher foi um daqueles textos que odiei ter que ler. A obrigação de lê-lo tirou a beleza e a relevância do texto, deixando-o sem compreensão suficiente. Seguiram-se The Raven, The Tell-tale Heart e alguns outros.
Aos poucos fui encaixando Poe no contexto histórico do século XIX e seus textos passaram a fazer algum sentido. A obrigação transformou-se em leve prazer, mas a obrigação de ler os textos ainda pesava. Entendia que era necessário para minha formação e que era necessário conhecer os textos clássicos. Alguns deixaram suas marcas, outros meros riscos superficiais que imaginava terem sido apagados pelo tempo. Até outro dia...
O outro dia deu-se no meu reencontro com Poe. Comprei a coletânea e reli os mesmos contos da adolescência. Descortinou-se diante de mim um mundo novo, uma compreensão mais aguda dos complexos personagens criados e suas crises, manias, visões de mundo, aflições e angústia. Como os anos de vida nos concedem um entendimento maior da conduta humana! O mesmo texto e dois olhares completamente diferentes!
A nostalgia me conduziu ao livro - e entendo melhor como é importante ler os clássicos na juventude, ainda que por obrigação - e me deu enorme prazer na sua leitura. Da mesma forma que a epígrafe deste texto, dica do excelente Terapia da Palavra. Fui atrás do livro para deixar a citação mais precisa. Alice só pode escolher o caminho se sabe para onde QUER ir. E quantos de nós não sabem para onde caminham?
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Conto: Meu medo
![]() |
| O grito, de Edvard Munch |
MEU MEDO
Levantou-se da cama afastando o lençol e caminhou até a
mesinha onde repousava o maço de cigarros dela. Estava nu, porém não se
intimidara com o fato de que o corpo não guardava mais a firmeza da juventude. Lembrava
mais uma gravura do Gustavo Rosa, do que o Davi de Michelangelo. Pegou o maço e
fez um gesto silencioso pedindo-lhe autorização para subtrair o pequeno
bastonete de tabaco de propriedade dela.
Ela não se espantou com o pedido, apesar dele não fumar. Sentou-se na
cama, coberta pelo lençol, deixando apenas os ombros de fora, o que propiciou o
rápido comentário dele.
- Está parecendo uma ninfa, minha querida!
Abriu a porta da sacada e deu uma longa tragada, totalmente
indiferente ao fato de que estava nu. Era final de tarde e ainda havia luz
suficiente para que um vizinho do hotel pudesse observá-lo.
- Não tem medo de que alguém te veja aí fora peladão? –
perguntou a bela companheira com um ar cômico.
- Não....meu medo é outro.
E fez uma longa pausa, aguardando que ela interrompesse o
silêncio com a pergunta. Se ela aquiescesse
ao silêncio, saberia que aquele encontro seria apenas um momento de luxúria
perdido no tempo, numa tarde qualquer; se ela perguntasse, teria a certeza de
que o que acontecera entre eles havia ultrapassado o meramente carnal.
Não tardou a que a doce voz dela soasse com a interrogação:
qual é seu medo?
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Primeiro de Abril
Verdades que poderiam ser mentiras (notícias de hoje):
- Dilma cria o 39o. ministério no governo federal.
- Rendimento dos alunos de matemática piora entre o 5o. e o 9o. ano. MEC minimiza queda e afirma que as perspectivas são positivas.
- Rondônia supera Pará no número de mortes por disputas de terras.
- Inflação dos alimentos afeta mais a baixa renda.
Mentiras que poderiam ser verdades (manchetes de um sonhador):
- PEC que reduz número de deputados e senadores é aprovada no Congresso Nacional.
- ENEM deve ser extinto, após desempenho excelente dos alunos em redação.
- Paulo Maluf reconhece que dinheiro nas Ilhas Jersey é fruto de desvio de recursos durante suas gestões.
- Coreia do Norte destrói todos seus mísseis e assina tratado de paz com a Coreia do Sul.
- Inflação deve ficar abaixo do piso da meta pela primeira vez.
sábado, 30 de março de 2013
Quem é o autor?
Em tempos de redações desastrosas no ENEM, reveladoras da péssima qualidade de nossa educação fundamental, de erros - ou como prefere o MEC "desvios" - ortográficos graves, textos sem lógica e com argumentos repetitivos, além de receita de miojo e hinos de clubes de futebol, resolvi tratar uma simples questão deixa num comentário de um post deste blog de forma mais demorada.
Em 9 de junho de 2007, publiquei uma poesia que identificava ao final que era de minha autoria. Alma Iluminada é seu título. Outro dia veio o comentário e a pergunta: "Linda poesia, quem é o autor????" O comentário foi deixado de forma anônima. Respondi num comentário seguinte acusando-me como o autor daquele texto.
Inicialmente, pensei que a pergunta comportava uma resposta óbvia: os textos deste blog são meus, do autor do blog, salvo quando há indicação clara e direta do autor do texto. E há muitas poesias, trechos de livros e textos diversos cujos autores são nominados e indicados. Quase todos os textos publicados de outros autors são transcritos por mim e oriundos de livros, sempre citando a fonte e cujos originais disponho. Desconfio de algumas fontes na internet e sou zeloso em dar crédito aos devidos autores.
Superando a resposta que me parecia óbvia, sobreveio-me outra questão: será que as pessoas sabem procurar a fonte, o autor real e será que tem a visão crítica o suficiente para desconfiar de que um determinado texto não pertence a determinado autor?
A resposta parece ser negativa. Por exemplo: se vou ao blog do Reinaldo Azevedo, sei que os textos serão dele, salvo quando indica outro autor - o que faz com frequência, pois transcreve muitos artigos de jornais. Se alguém visita este blog, deveria desconfiar que a maioria dos textos são de autoria do responsável pelo blog, aquele cara feio na fotinho do canto direito logo no início da página.
Se a pessoa não consegue identificar o autor, não tem condições de criticar suas ideias, não tem bagagem intelectual para discutir, debater e argumentar. E por consequência, qualquer dissertação será superficial, rasteira, sem argumentação sólida, ou seja, as redações do ENEM são um reflexo do (des)preparo dos nossos jovens. Eis o problema que surge de uma simples e banal questão.
Faço uma ressalva - e não vou me alongar - sobre a má-fé de alguns que claramente copiam e plagiam textos inteiros ou somente trechos de textos. O plágio é a cópia ilegal que viola o direito do autor, que rouba uma ideia produzida sem dar o devido crédito. O plágio é uma praga e um indicativo da preguiça mental de muitos que preferem utilizar a cópia à botar o cérebro para funcionar! O famoso "recorta e cola" é um lamentável atalho que mantém o indivíduo na ignorância.
É importante ensinar os jovens - e adultos também - a procurar sempre a fonte original, a aprender a pesquisar consultando várias e diversas fontes, sempre dando o devido crédito ao autor. Perguntar quem é o autor não é uma falha; a falha está em não conseguir identificar o autor que está indicado de forma clara e transparente. O plágio deve ser sempre rechaçado e repelido! Progresso intelectual dá trabalho e este trabalho deve ser recompensado com o devido crédito.
Não há caminho fácil para escrever bem: é preciso ler e treinar a escrita. A recompensa do esforço vale a pena!
Boa Páscoa a todos!
terça-feira, 19 de março de 2013
O primeiro dia frio
Tenho uma grande simpatia por Lygia Fagundes Telles e Tatiana Salem Levy. São duas escritoras que me agradam em demasia. Na edição de sexta-feira, dia 15 de março, a primeira foi a convidada da coluna À Mesa com Valor, que teve o encontro relatado por José Castello, cujos textos são um convite a sentar-se à mesa com o convidado. Há uma proximidade do entrevistado, uma intimidade recheada de notas e frases que permitem ao leitor penetrar um pouco no processo criativo do escritor (quando entrevistado é um escritor). A coluna pode ser lida aqui.
Destaco dois trechos do que foi dito por Lygia Fagundes Telles: "É preciso enxergar mais do que as coisas nos mostram, ou não vemos nada." E mais adiante afirma que "está tudo inscrito na realidade. A um escritor, basta ler. Não sei por que gostam de atacar a realidade."
Em certo trecho, Lygia narra como surgiu o conto Helga, de Antes do Baile Verde. De uma notícia de jornal, de uma sugestão do marido, o caso narrado transmuda-se em conto de ficção. A realidade é contada pelo escritor com novas cores, mas sem deixar de ser real. A realidade é fonte de inspiração, é o ponto de partida de escritor, na visão de Lygia.
Descobri Lygia lendo Conspiração de Nuvens (2007). A memória é um elemento muito presente em suas crônicas, servindo-lhe de matéria prima para analisar a realidade que procura enxergar de esguelha, com outro viés daqueles que a olham somente como plana. Encantei-me com o livro, com os textos e com esta grande escritora. Apaixonei-me pela forma como ela trata de um tema que me é tão caro: a memória.
E minha alegria aumentou quando no final do caderno de final de semana do Valor deparei-me com um ensaio de Tatiana Salem Levy sobre um livro de Sándor Márai, De Verdade (Companhia das Letras, 2008), em que ela discute a existência de múltiplas verdades (leia aqui). Tatiana lança a pergunta: existe amor de verdade? existe mulher de verdade?
A discussão acerca da existência de uma única verdade ou de múltiplas verdades é muito familiar para um advogado. No direito penal, busca-se a verdade material, que deveria ser a real, ou seja, aquela que retrata o que efetivamente aconteceu a ponto de se poder condenar aquele que praticou o delito. No direito civil, prevalece a verdade formal, aquela que está presente nos autos, aquela pela qual o magistrado é convencido a acreditar com base nas versões e provas apresentadas.
Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.
Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.
Versões e pontos de vista é o que Márai traz para sua narrativa. Discordo de Tatiana de que há múltiplas verdades; há múltiplas versões da realidade, contadas pela ótica do observador e pelo critério do observador, geralmente tomados de parcialidade na sua análise. Mas Tatiana destaca que todos narram após os acontecimentos, ou seja, no passado, revivendo a memória do outro ou como o outro era visto no momento em que os fatos ocorreram. A memória pode ser traiçoeira, nebulosa!
A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.
Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.
A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.
Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.
Eis que me deparo com uma segunda-feira fria, garoenta, úmida. Um aparente típico dia de invernopaulistano! Mas calma, meu querido amigo, não se precipite, ainda estamos no verão, nos estertores do verão, ainda na estação do astro rei. Hoje foi o primeiro dia de frio do ano. Comentei com minha filha que o que é cinza e melancólico para alguns, pode ser poético para outros, basta ler a realidade. O primeiro dia frio do ano parece convidar ao aconchego do lar, a saborear memórias, a enclausurar-se no silêncio interior, a degustar uma taça de vinho, a preparar uma sopa quentinha, a enrolar-se no cobertor... O primeiro dia frio do ano não precisa ser negro, nem o presságio de uma estação terrível e pouco tolerável. Prefiro o calor, mas cada estação tem suas qualidades, sua inspiração, sua cor. Basta ler a realidade, como nos ensina Lygia Fagundes Telles.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Poesia: PALAVRAS ARISCAS
PALAVRAS ARISCAS
Palavras ariscas ciscam ao meu redor
Rodeiam-me
Provocam
Escapam-me.
Desobedientes
Irriquietas
Perturbam-me constantemente
E só me resta o vazio do nada dizer.
Flutuam como nuvens
Dão rasantes como aves de rapina
Cercam-me
Cutucam-me
E fogem faceiras e risonhas.
Despertam-me do sono
Atiçam-me
Tento cativá-las a se comportarem
A deitarem sobre o papel de forma ordeira
E elas insistem na desfaçatez da fuga
Do silêncio
Do absoluto silêncio.
Calo-me
E sucumbo.
A inspiração há de voltar
E as palavras hão de se comportar.
(c) RLBF
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Renato
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