sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De que são feitos os dias?


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encandeia
todas essas mudanças.

Dentro dele vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

(Cecília Meirelles, Canções, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 25-6).

Vagarosas saudades que nos acompanham ao longo da jornada, despontando em momentos de solidão, surgindo alegres em momentos de tristeza para nos animar e equilibrar - ou desequilibrar.

Tudo cabe num único dia. Para alguns, nada cabe num dia; para outros, um dia é tempo para mudar o mundo, para dividir um sorriso, para mudar a rotina, para olhar para o lado e descobrir, para abrir os olhos do coração e ver.

Os dias são feitos de vida e tudo que ela nos oferece.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Crônica: Pequeno Leitor

PEQUENO LEITOR

Entrei despercebido na sala e permaneci no corredor, apoiado no batente da porta, um observador silencioso e quase invisível. Ele estava sentado no sofá, pernas cruzadas sobre a almofada, o livro no colo, a cabeça curvada sobre aquele tesouro descoberto recentemente. Seus lábios moviam-se, titubeantes, e sussurravam as palavras.


Absorto por completo num mundo novo, tomado por algum dragão, diante de alguma aventura, num barco ou dentro de uma nave espacial, voando ou divertindo-se com alguma estripulia do personagem.

Permaneci alguns minutos a observá-lo, um leve sorriso esboçado, mas silencioso. As fotos, na prateleira sobre o sofá, denunciavam como ele tinha crescido. Crescera diante dos meus olhos, dia a dia. Dou-me conta deste crescimento em momentos como este, de comunicação silenciosa, entesourados na memória, guardados no coração, para serem recontados num almoço de família, num momento a sós, de intimidade entre pai e filho.

Com toda naturalidade, levantou a cabeça e lançou a pergunta:

- Pai, o que é devaneio?

Respondi prontamente, contendo a alegre coincidência, mas quase lhe dizendo que devaneio é um momento mágico em que você sonha acordado, como agora.

Criatividade e Sustentabilidade

"Se você está parado e não tem inspiração é porque estão lhe faltando dados. A criatividade é a arte de relacionar. Na vida aprendi outra coisa: a criatividade vem quando se corta um zero do orçamento, a sustentabilidade vem quando se cortam dois zeros e a solidariedade aparece quando você assume sua identidade respeitando a diversidade dos outros."

Jaime Lerner na seção À Mesa com o Valor, edição de 30,31 de julho e 1 de agosto de 2010.

A necessidade pode ser a mãe da criatividade e do empreendedorismo. Quantas empresas não nasceram da necessidade? E quantas boas medidas sustentáveis não nasceram desta aliança entre criatividade e necessidade?


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Uma personagem em Barcelona


“Os primeiros bondes começavam a cruzar a cidade, e o tilintar da campainha de um deles, abafado pela casa fechada, chegou até mim como naquele verão dos meus sete anos, quando da minha última visita aos meus avós. Imediatamente tive uma percepção nebulosa, mas vívida e fresca como o cheiro da fruta apanhada do pé, do que era Barcelona na minha lembrança: esse barulho dos primeiros bondes, quando a tia Angustias passava rente à minha caminha improvisada para fechar as persianas que já deixavam entrar muita luz. Ou de noite, quando o calor não me deixava dormir e a trepidação subia a ladeira da rua Aribau, enquanto a brisa trazia o cheiro dos plátanos, que abriam seus galhos verdes e poeirentos sob a sacada aberta. Barcelona era também umas calçadas largas molhadas de chuva, e muita gente bebendo refrescos num café... Tudo o mais, as grandes lojas iluminadas, os automóveis, a agitação e até o próprio passeio da estação no dia anterior, que eu já acrescentara à minha ideia da cidade, era pálido e falso, artificialmente construído, como as coisas que, de tão trabalhadas e manuseadas, perdem seu frescor original.”
(Nada, de Carmen Laforet. Rio de Janeiro : Objetiva, 2008, p. 23)


 
Os bondes não circulam mais por Barcelona, mas as calçadas permanecem largas e impecáveis, os cafés continuam lotados no verão e os plátanos revelam toda sua formosura com a bela folhagem verde.

Fui até a Carrer D´Aribau, uma rua paralela das Ramblas e da Passeig de Gràcia. Esta última, uma rua movimentada, ampla, charmosa e com lojas de todas as grifes internacionais de luxo. Tinha ido à uma loja da Editora Marcial Pons, editora jurídica espanhola, que fica próxima à Passeig de Gràcia. Depois das compras, fui em sentido contrário à estação de metrô, esticando a caminhada na tarde quente até o cenário de Nada.

O livro foi escrito em 1944 e o tempo não tirou o charme da rua, dos prédios baixos, das sacadas que se debruçam sobre a rua. Viajar no tempo foi fácil. O cenário literário materializava-se diante dos meus olhos. Andrea, a protagonista, parecia ter passado a pouco por aquela rua. As palavras saltaram do objeto inerte chamado livro e ganharam uma nova dimensão, real, viva, vibrante. Como é gostoso visitar o cenário de um livro e notar a genialidade do escritor! E este primeiro encontro é permeado pelo frescor original que a personagem diluiu na sua rotina.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Olhares de Barcelona - II





Torre Agbar, à noite (acima) e durante o dia.

Concluída em 2005, o edifício projetado por Jean Nouvel destaca-se em Barcelona, uma cidade onde os prédios têm altura equivalente e quase uniforme, sinal do bom planejamento e organização. A expressão Agbar não é uma palavra em árabe mas a abreviatura da empresa Águas de Barcelona, responsável pelo saneamento básico e pelo fornecimento de água na cidade.

O edifício lembra um pepino gigante, ou um monolito de um filme de ficção científica. Durante o dia, sua aparência é árida, porém, à noite, com a iluminação especial, o prédio ganha vida de forma surpreendente.

O hotel em que estava hospedado era ao lado da Torre Agbar. Diariamente caminhava para a estação Glòries do metrô e passava ao lado do prédio. O que mais me impressionou era a quantidade de pessoas fotografando o edifício e diante do edifício, algumas naquelas tradicionais poses, muitas delas cômicas. A Torre Agbar parece ter um campo magnético capaz de atrair toda e qualquer máquina fotográfica.

Suspeito que algum dia, algum fotógrafo ainda fará uma série de fotos de pessoas fotografando a Torre Agbar, enquadrando as imagens nos sujeitos que fotografam e não no objeto fotografado. Nos últimos dias em que passava por ali, deixei de observar a Torre Agbar e fixei o olhar atento na infinidade de pessoas que paravam alguns minutos para levar consigo uma lembrança de mais um marco arquitetônico de Barcelona.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Barcelona cosmopolita


Mosaico de Antoni Gaudí na entrada do Parc Güell, em Barcelona.



Ao visitar uma cidade pela primeira vez, uma daquelas cidades que parecemos já conhecer pelos livros e fotos, mas não pessoalmente, criamos uma imagem mental do que iremos encontrar. Uma infinidade de peças visuais,  olfativas, gustativas que se organizam num grande mosaico, falho na maior parte das vezes. A realidade da visita corrige as falhas ou rejeita por completo a concepção criada de forma cerebrina.

Barcelona me surpreendeu. E muito! Talvez nunca tenha sido tão surpreendido por uma cidade como por Barcelona. Achava exagerado alguns comentários de amigos, mas estava enganado. A paisagem árida e as montanhas a oeste eram esperadas. A primeira visão casou com a imagem virtual projetada mentalmente. A surpresa veio com os primeiros passos pelas ruas, o contato com as pessoas, os aromas nos bares e restaurantes, o calor de dias ensolarados.

Barcelona erupciona no verão. Ao andar nas ruas mais movimentadas – e turísticas -, praticamente não se ouve espanhol. Fala-se alemão, holandês, francês e uma infinidade de línguas do leste europeu que não me atrevo a diferenciar. Há coreanos e japoneses também. Os brasileiros somem no meio da grande mistura. O catalão é a língua oficial que está em todas as placas, na locução das estações do metrô, em canais de televisão e outdoors. Uma mistura de português, espanhol, francês e italiano, o catalão – falado – é mais facilmente compreensível do que o espanhol, lembrando por diversas vezes o português falado em Portugal.

A cidade é um grande centro de encontro de africanos e latino-americanos que deixaram seus países tentando ganhar a vida por aqui. Muitos deixaram-se levar pelo crime quando a crise assolou o território europeu. É fácil encontrar mulheres muçulmanas falando árabe; indianos e paquistaneses falando seus idiomas; africanos falando francês.

Barcelona é de um cosmopolitismo ímpar no verão, um caldeirão em ebulição, em movimento, uma cidade onde as culturas e povos se encontram. Alguns para lazer e descanso; outros para sobreviver.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ares de Barcelona


Plátanos carregados de folhas bem verdes desenharam a primeira imagem de Barcelona que me remontou aos livros. Carmen Laforet, em Nada, relaciona a passagem das estações à coloração das folhas dos plátanos. O exato período de um ano em que o romance transcorre, permite ao leitor imaginar a chegada do inverno com a variação da coloração das folhas. Barcelona está repleta destas árvores em todas as suas ruas.

A cidade foi planejada por um engenheiro e agrada-me muito mais do que as obras criadas por Oscar Niemeyer, que podem ser belas, mas cansam rapidamente. Barcelona relembra um pouco de Curitiba, mas as ruas de Curitiba são confusas e a tradicional bagunça brasileira permite construções de alturas diferentes, o causa uma certa desordem e quebra a harmonia da cidade.

Este planejamento racional e típico de um engenheiro foi o berço da falta de regras na arquitetura. Puig i Cadafalch e Gaudí lideraram o movimento modernista e presentearam a cidade com edifícios onde a curva predomina sobre a linha reta. O belo é o inesperado, o que rompe com a homogeneidade do passado. Não há nada de anarquista ou político na concepção de Gaudí, mas uma forma de externar o que ele concebe como belo do ponto de vista arquitetônico. Esta influência se propaga por toda a cidade, nas praças, bancos de jardim, novos edifícios, igrejas e tudo mais. Sempre há algo inusitado para um olhar atento.

Barcelona incorporou o espírito de Gaudí e isto a transformou num importante centro mundial de design e inovação.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Destino Barcelona


A cidade de Barcelona é palco de alguns bons livros. Centro pujante na área de design e cultura, com excelentes museus e arquitetura de vanguarda, sem deixar de preservar o passado. Nos últimos anos, li 3 bons livros que tinham como cenário Barcelona. Todos foram comentados neste blog. Em período de férias, deixo-os como dicas para quem procura boa leitura.

Erec e Enide, de Manual Vázquez Monalbán - Rio de Janeiro : Objetiva, 2007, editado pelo selo Alfaguara. Post relacionados: Presente em corpo, ausente em alma.

Nada, de Carmen Laforet - Rio de Janeiro : Objetiva, 2008, editado pelo selo Alfaguara. Post relacionados: Ainda sobre contrariedades.

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón - Rio de Janeiro : Objetiva, 2007, editado pelo selo Suma das Letras. Post relacionados: Barcelona enevoada e Solidão Dissipada.

Os próximos posts serão inspirados por esta cidade que me aguarda.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Microconto - IV

Deixo as palavras voarem soltas e o vento as levará para longe.
Pousarão sobre um galho de árvore do lado de fora de tua janela a te observar.
Pacientemente, elas aguardarão, até que seu olhar se volte a elas.
Então quiçá as receberá com um sorriso, e elas alcançarão seu destino.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Crônica: Viagem


VIAGEM


As duas malas grandes repousavam no hall do elevador como dois cães amestrados aguardando o dono. Ele voltou para dentro do apartamento, conferiu se as janelas estavam fechadas, os aparelhos eletrônicos desligados da tomada. Parou diante de um porta-retrato numa mesinha no canto da sala. O olhar fixou-se na foto. Sentiu um arrepio, o coração apertado. O tempo parecia congelar, o ruído da rua silenciou-se.


Pegou o porta-retrato com as mãos trêmulas. Duas lágrimas escorreram-lhe pelo rosto regando a barba levemente grisalha. Esboçou um sorriso aflito. “Por que ela tinha ido?”, perguntou-se.

A foto trazia duas pessoas sorrindo, vibrantes, celebrando a vida num momento único, repleto de sentido profundo, de algo intangível, mas dotado de uma força inexplicável. Ele nunca conseguiu entender o que aconteceu entre eles. Ela um pouco mais jovem; ele maduro, mas bem apessoado. Nunca foi capaz de descrever o que sentia. Tentou repetidas vezes conversar com seu terapeuta sobre ela, mas entrava em transe, tomado por um estado de espírito que o inebriava a ponto de impedir que o sentimento fosse descrito de forma clara e lógica, afinal sentimentos não são lógicos, argumentava ele. O aspecto físico era relegado a um segundo plano, pois sentia uma forte atração que superava apenas sua beleza e charme.

Desde que a conheceu, cicatrizes foram fechadas e curadas. Chegou a afirmar que conhecia o amor pela primeira vez na vida, depois dos 40 anos. Esquecera das traições, das mágoas, da solidão, da vergonha. Perdera o medo de falar, de olhar, de sorrir e de presentear. Seu mundo passara a ser nutrido por ela. Falavam-se todos os dias e viam-se em quase todos os finais de semana. Sempre que possível, encontrava uma forma de fugir para a cidade dela e retardava a volta para ali permanecer. Bastava-lhe estar com ela, conversar com ela. Tudo caminhava bem, até que um dia...

As lágrimas ficaram mais volumosas. A dor da lembrança da morte não havia sido superada. O corpo inerte, a tez pálida e fria sem viço, os olhos cerrados levaram para sempre um brilho que incendiava sua alma, o cabelo penteado, as mãos cruzadas com um anel que ele a presenteara.

Recolocou o porta-retrato na mesinha de canto. Estava com a barba por fazer, algumas rugas a mais e feridas reabertas. Foram dois anos e quatro meses. Ele contabilizava o tempo como uma fortuna que tratava com zelo e depositava diariamente no cofre. Cada dia, cada palavra, cada sorriso representava juros e rendimentos. Ela lhe proporcionara tudo. Ela se fora. Sentia uma necessidade de reviver o primeiro encontro, de reavivar a memória e sepultá-la de forma definitiva.


Fechou a porta do apartamento, abriu a porta do elevador, pegou as malas e partiu para o aeroporto.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cala boca Galvão!



Tudo começou como um trending topic no Twitter no dia da estreia do Brasil na Copa do Mundo. Ganhou o mundo e a curiosidade dos estrangeiros. Então, veio algum piadista que inventou uma estória, um post num blog, um vídeo no Youtube - que ilustra este post -, e pronto, "criou-se" uma verdade jornalística.

Inventaram um pássaro chamado Galvão e a brincadeira ganhou a capa da Veja e a imprensa mundial.

O brasileiro é mestre em fazer piada, costuma levar tudo na brincadeira e, muitas vezes, isto é negativo, revela um traço conformista e acomodado e pouco indignado de nosso povo. Mas o mais impressionante deste caso é analisar como as mídias sociais permitem disseminar informação de forma muito rápida e eficaz e com amplo alcance geográfico. Uma ferramenta poderosa, que pode ser usada para o bem e para o mal.