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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Diário da dor - I

 




10 de agosto de 2026

Pneumonia 

Mamãe foi internada no Hospital São Luiz com pneumonia. Vai ficar na UTI até se recuperar. São 9 anos de luta e decaída e acho que ela está cansada.  Fui tomado por uma dor agora na hora do almoço, um sentimento profundo de perda e de que o tempo dela está se esvaindo. Espero estar errado, mas a última internação no ano passado durou 45 dias. E depois mais 20 dias.

Curioso pensar que você pode sair de casa um dia e nunca mais voltar para sua cama, sua cadeira, seus utensílios, sua televisão, no caso dela, seus bordados, seus livros, suas plantas, a conversa diária com a filha que mora nos Estados Unidos, a escolha do que quer comer para o almoço, da rotina dos remédios.

Um dia, você sai de casa conduzido pelos filhos e não sai mais do hospital. O tempo é fugaz. Não pensamos no fim, até ele se aproximar e bater à porta.

Depois da primeira noite, Pe. Carlos foi vê-la. Levou a comunhão e a unção dos enfermos. Confidenciou que não gostaria de esperar “até amanhã, pois poderia ser tarde”.

O quarto do hospital não tem relógio e as horas se misturam, perde-se a noção temporal, perde-se a noção de dia e de noite, perde-se a noção de quando chegará a hora de cada um.

Sento-me no sofá ao lado da cama e apenas espero o tempo passar, olhando para o monitor que de tempos em tempos apita um alarme. Um enfermeiro entra no quarto. Checa os sinais vitais e saí. A noite será longa.

 


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Trechos: Vá aonde seu coração mandar, Susanna Tamaro

 



Trechos de livros

 “O Acaso. Certa vez, o marido da senhora Morpurgo me contou que em hebraico essa palavra não existe. Para indicarem qualquer coisa relativa à casualidade, precisavam recorrer à palavra azar, que é árabe. Engraçado, não acha? Engraçado, mas também tranquilizador: onde há Deus, não há lugar para o acaso, nem mesmo para o humilde vocábulo que o representa. Tudo é ordenado, regulado de cima, tudo quanto nos aconteça acontecerá porque tem um sentido. Sempre tive muita inveja daqueles que aceitam essa visão de mundo sem hesitação, por sua leveza. No que me diz respeito, e com as melhores intenções da minha parte, jamais consegui fazê-la minha por mais de dois dias seguidos. Diante do horror, diante da injustiça, sempre voltei atrás; em vez de justificá-los com gratidão, sempre surgiu em mim um incontido sentido de revolta.”

(Vá aonde seu coração mandar. Susanna Tamaro, trad. Mario Fondelli, Rio de Janeiro : Versus, 2023, p.59-60)


Com o passar dos anos, o acaso se tornou um companheiro decifrável, uma peça do quebra cabeça da vida que se encaixa e faz sentido. Tantas pessoas cruzam nossos caminhos e poucas ficam, permanecem com sua presença indelével e indispensável. Por quê?

São estas pessoas que nos ajudam a ser quem somos, ajudam na jornada, acompanham na caminhada da vida, moldam-nos com seus exemplos, defeitos e virtudes, fazem-nos sorrir e acolhem-nos em seus braços nos momentos de dor e tristeza. 

Bendito seja o acaso! E por trás do acaso, há Alguém a zelar por nós todos.