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terça-feira, 31 de março de 2020

Crônica do início de uma quarentena


A semana começou de forma estranha, um clima de apreensão no ar, uma expectativa que se confundia com ansiedade, as escolas e universidades tiveram suas aulas suspensas, o trânsito ficou mais leve, o fluxo de pessoas na São Paulo acelerada diminuiu, o rodízio foi suspenso, o som da cidade mudou. Sempre dei muita atenção para o som da cidade, seus ruídos, sua sinfonia urbana. Noto as mais sutis mudanças, deixo-me encantar pelos sons de pássaros, pela algazarra das maritacas no final de tarde. Caminhávamos tateando cada passo e no aguardo de uma diretriz, um grito de liderança que se mostraria mais tarde polifônico, dissonante.

Na quinta-feira, dia 19 de março, dia de São José, fui ao escritório pela manhã seguindo a rotina diária. Peguei o jornal e fui tomar café. Perguntei para a atendente sobre o movimento na loja e ela respondeu que havia caído e que amanhã fechariam, sem previsão para reabertura. O estado de emergência estava instalado pelo prefeito, pelo governador e pelo presidente da república. Tomei o café, li o jornal sem pressa e despedi-me da atendente desejando que se cuidasse.

Ao sair na rua, o céu estava cinza claro, nuvens baixas que se assemelhavam a uma bruma, um calor abafado e a ausência de carros e motos na rua era notável às nove da manhã. Ouvi então um barulho que vinha do alto e parecia de uma aeronave. Na hora, fui teletransportado para a Londres de 1940 e imaginei que veria no céu um avião da Luftwaffe prestes a lançar sua carga de bombas sobre a capital do império britânico. A palavra guerra, tão usada pelos nossos governantes, instalou-se no meu subconsciente e a imagem me deixou desnorteado. Olhei para o alto e passou um helicóptero.  Segui meu rumo com serenidade, mas o clima era de tristeza e medo. Algo de estranho pairava no ar.

O dia transcorreu sem que o telefone tocasse. As páginas de notícias de jornais, as estações de rádio só tratavam do coronavírus. A pandemia já estava entre nós e era preciso ficar em casa. O tempo todo e todo mundo. São Paulo seria o epicentro da contaminação, a cidade mais cosmopolita do Brasil.

O vírus microscópico não deixa estragos na paisagem, como uma tempestade, um vendaval, um furacão, um terremoto. O vírus é silencioso. Esta forma de agir é que deixa tudo estranho e confuso. Os dias de quarentena serão sábados – ou domingos ou feriados – que se repetirão sem data para terminar. Ficar em casa nos impedirá de experimentar a cidade fantasma em que São Paulo se transformará.

Naquela noite, as imagens de entrevistas coletivas revelavam um futuro de colapso do sistema de saúde, de caos na economia, de cadáveres se acumulando, de gente faminta, de ruas abandonadas e uma cidade paralisada.  Traçaram um cenário apocalíptico. Seria risível, exagerado e inverossímil se não houvesse notícias das mortes na Itália, Espanha e os primeiros casos nos EUA. 

Políticos cederam lugar a médicos infectologistas, pneumologistas, secretários de saúde, ministro da saúde. O inimigo é invisível, mas devastador, disseram de forma unânime. Lavem as mãos, usem álcool gel, não saiam de casa. O mantra se repetia em todos os canais de televisão, rádios, sites noticiosos na internet.  Pessoas esgotaram os estoques de álcool gel e máscaras cirúrgicas das farmácias e supermercados. O papel higiênico virou item de primeira necessidade nos estoques residenciais.  Um medo contido tomou conta da população, com exceção daqueles que acham que se trata de uma gripezinha.

Não houve histeria ou pânico generalizado, mas uma aflição coletiva. O abastecimento dos supermercados seguiu o ritmo normal. O mesmo se dá nas farmácias e postos de gasolina. Os serviços essenciais seguem funcionando, mas temos que ficar em casa.  Alguns sentem mais o medo, ou melhor, alguns deixam-se tomar pelo medo da incerteza, da ausência de horizonte. Quando isso tudo vai acabar? Ninguém sabe, ninguém tem a resposta e a incerteza amedronta, paralisa, tira-nos a racionalidade.

A invisibilidade do inimigo deveria nos deixar menos aflitos, mas depois de uma semana inteira de quarentena, as pessoas estão com as emoções à flor da pele. O medo corrói a coragem e nos drena. Precisamos de forças para caminhar um passo por vez.  Meu otimismo realista me leva a ter esperança e fé de que vamos superar esta batalha.

Em momentos como este, manter a serenidade, o equilíbrio é fundamental para a sanidade. Em tempos de pandemia, vale a pena desligar a televisão. Não se trata de apontar o dedo para o ministro da saúde e acusá-lo de atacar a imprensa. A imprensa faz o seu trabalho, mas o excesso de notícias sobre a pandemia faz mal para a saúde mental. Respire, deixe-se respirar, não se cobre tanto, como escreveu Mafê Probst.  Pare de contar os casos, deixe o tempo correr e siga um dia por vez.  Teremos mais capítulos pela frente.


A pandemia vai acabar e sairemos melhores e mais humanos desta batalha invisível.  

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Paulistânia invernal


foto: @rbueloni


Na São Paulo invernal, cidade de amplitudes térmicas, onde o dia começa quente e termina frio, onde frentes frias parecem ser escassas neste ano e o inverno seco brinca com nossa saúde respiratória, o roxo cede lugar no palco ao amarelo.

Sampa é uma cidade mais florida do que se imagina e o inverno é o palco dos ipês. Primeiro, os roxos. Lembram-nos de que já passamos pela metade da estação mais fria. Em seguida, surgem os amarelos, vivos, quentes, alegres, cheios de alegria, o prenúncio da primavera que se aproxima. Contrastam com o céu de azul profundo do inverno. Não é o céu do cerrado, mas é um céu que nos cativa nestes dias com pouca chuva. Amarelo e azul, uma variação das cores de nossa bandeira. Mas no meio do verde de árvores que não se despiram no inverno, o amarelo tinge a paisagem quando são contemplados do alto de prédios, seres dos mais habituais da metrópole.

A cidade não é mais tão cinza. A cidade se vestiu de flores. Há manacás e quaresmeiras no início do ano, mas agora o palco é dos ipês. Depois, para fechar o espetáculo anual, entrarão em cena os flamboyants. Basta reparar. Basta caminhar pela cidade e olhar e contemplar e tirar os olhos do celular.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Armadas e perigosas



A manhã de verão é cinza e regada por uma chuva constante que abafa o atrito dos carros nas ruas e o ronco dos ônibus acelerando. A chuva obriga todos a sacarem sua mais perigosa e poderosa arma: o guarda-chuva.

Visto do alto de algum prédio em uma movimentada avenida, parecem coreografados, em diversas cores e estampas, bolinhas, desenhos, marcas, listras. Numa São Paulo de outrora, eram todos pretos, sisudos e carregados por senhores usando chapéus. Na sampa moderna, o guarda-chuva ganhou cor, passou a ser fabricado na China e surgem no mais impressionante fenômeno de geração espontânea às portas do metrô com camelôs vendendo 1 por 10, 2 por 18 e 3 por 25. Basta começar a chover, que aparecem num passe de mágica.


Os guarda-chuvas, Renoir


Mas toda a beleza e serenidade da dança dos guarda-chuvas na cidade banhada pela chuva transmuda-se em aventura radical e perigosa. Se você, caro leitor, tem pouco mais de 1,75m, com certeza irá se deparar com as perigosas agentes armadas de uma arma letal: o guarda-chuva. Sim, ele pode ser usado para lhe tirar a vida. Sejamos mais realistas, podem lhe cegar, causar alguns hematomas, mas matar seria um exagero.

Vou revelar a identidade secreta destas agentes perigosas, que armadas vagueiam por dias chuvosos escondidas debaixo de seus guarda-chuvas. Refiro-me às senhoras idosas e a todo e qualquer cidadão com menos de 1,65m e que ande com o guarda-chuva praticamente colado na cabeça. Ao caminhar pela calçada, estas agentes não desviam – e também não te veem. É preciso ficar esperto para desviar dos pontiagudos ferros que seguram o plástico da camada protetora do pedestre. Estas agentes caminham em linha reta, obrigam-no a sair debaixo de marquises e lançam qualquer pedestre que vier em sentido contrário no meio da rua. E se você reclamar, é capaz de levar uma guarda-chuvada na cabeça ou no braço.

Repare, meu caro leitor, como o ato de caminhar por uma rua movimentada num dia de chuva pode ser uma perigosa aventura. Qualquer dia algum prefeito ainda vai inventar o rodízio de guarda-chuva definido por data de aniversário: dias ímpares para quem nasceu em dia ímpar e dia par para quem nasceu em dia par. E ai de quem reclamar!


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Parabéns São Paulo!

459 anos de história, de vida, de amor, de tristeza, de conquista, de luta, de intensidade! Uma cidade por vezes odiada, por vezes maltratada, por vezes abandonada, mas cuja beleza disfarçada está pronta para ser descoberta por um olhar atento e carinhoso, um olhar de retribuição por tudo que Sampa nos dá.


Masp



Igreja de Santo Agostinho
Faculdade de Direito do Largo São Francisco
Sala São Paulo
Paulista à noite
Av. Paulista


Igreja Nossa Senhora do Brasil



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Niemeyer se foi


Copan na garoa

O pavilhão paulista e suas listas ao vento, ondulada bandeira que se cristalizou num edifício de concreto no centro de São Paulo. O Copan foi projetado por Oscar Niemeyer. Edifício imponente na Av. Ipiranga, perto da Igreja Nossa Senhora da Consolação e da Praça Roosevelt, facilmente notado e pouco admirado. Muitos por ele passam; poucos o compreendem.

Nele habitam mais de 2000 pessoas distribuídas em 1.160 apartamentos. O Copan é um mundo, um microcosmo da cidade grande e de seus dilemas. O Copan é um pouco da obra inovadora de Niemeyer, que nesta semana descansou aos 104 anos.




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mais cultura ao alcance de todos


Escrevi o post Cultura ao alcance de todos no final da noite de sábado. A ideia era festejar o aniversário de São Paulo com uma abordagem diferente. Pois bem, uma querida amiga chamou-me a atenção para uma novidade que começa no final de janeiro: um passeio gratuito pelo Centro de São Paulo e que resgata  pontos importantes na vida de escritores. 

A notícia completa pode ser lida no portal G1 aqui.

Sem querer antecipar a pauta do G1 (a notícia foi ao ar na manhã do último domingo), esta iniciativa pelo Centro reforça ainda mais a minha tese: a cultura está ao alcance de todos, basta ter vontade e aproveitar os recursos disponíveis.

Aliás, o Centro de São Paulo tem ótimas atrações e todas podem ser percorridas a pé e com segurança. Da     Praça da Sé até o Centro Cultural Banco do Brasil são apenas 5 minutos de caminhada. Incluiria também o Centro Cultural CEF, o Pátio do Colégio, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), a Igreja de São Bento (talvez a mais bonita de São Paulo), a Bolsa de Valores, o Edifício do Banespa e o Mercado Municipal. Todos podem ser visitados a pé e de forma gratuita.

A ótima ideia bem que poderia ser seguida por outras cidades brasileiras. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderia criar vários roteiros e passeios com referências a escritores e personagens da nossa história. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Cultura ao alcance de todos


Faz algum tempo ouvi da boca de uma amiga - ex-paulistana que hoje mora fora do país - que São Paulo não tinha o que mostrar para visitantes, que não tinha o que fazer, que era uma cidade sem graça. Fiquei irritado ao ouvir a agressão gratuita à minha cidade e provoquei-lhe com a seguinte pergunta:

- Você já foi ao MASP? E a Pinacoteca, conhece?

O silêncio da resposta indicava que não conhecia.

Hoje poderia acrescentar o Museu da Língua Portuguesa, do Futebol, os parques, as lojas, a gastronomia etc. Há muito o que fazer em São Paulo, basta querer e estar atento. Vou me deter apenas na cultura, pois com mais um verão chuvoso nesta minha cidade, as alternativas para locais fechado ganham relevo.

A reclamação daquela cidadã é repetida por muitos paulistanos e por pessoas que vivem reclamando da falta de acesso à cultura. Pois discordo desta postura simplista; há muita cultura disponível em São Paulo e muita cultura disponível gratuitamente.

Além do MASP e da Pinacoteca, há o Centro Cultural Banco do Brasil, as diversas unidades do Sesc espalhadas pela capital, teatros, musicais, centro culturais. Basta procurar que se acha!

A crítica muitas vezes é ouvida em outras cidades brasileiras, mas a resposta será equivalente. As grandes cidades brasileiras têm muita programação cultural a oferecer. Esta semana estive no Rio e aproveitei para visitar o CCBB - Rio que tem uma excelente exposição sobre a Índia. Estava a trabalho, mas foi fácil me programara para aproveitar a oportunidade. Além de ser um belíssimo prédio ao lado da Candelária, a exposição é fascinante e consegue retratar traços de uma cultura tão diferente da nossa. E mais, a mostra é gratuita.

Museu Oscar Niemeyer, Curitiba


Neste mês também - agora gozando férias -, estive em Curitiba e conheci o Museu Oscar Niemeyer. Várias salas com mostras variadas e excelentes. Uma retrospectiva da pintora Anita Malfatti e uma extensa exposição da Coleção Brasiliana do Itaú com gravuras de Debret e Rugendas foram os pontos altos. Encantaram a mim e a meus filhos. Preço do ingresso: R$ 4,00. 

Apreciar arte e saber valorizar a cultura é algo que se incute nas crianças desde pequenos. Antes de dizer que não há nada para fazer, verifique o caderno de cultura do jornal, faça uma pesquisa na internet, pergunte a amigos. A cultura está ao alcance de todos, basta querer.  

São Paulo faz aniversário na quarta-feira e é feriado. Aproveite o dia e desfrute do que ela tem a lhe oferecer.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

São Paulo aérea


São Paulo é um mar de luzes que se descortina na noite plácida e fria da primavera. Pequenos pontos luminosos a reproduzir a galáxia de forma invertida. Não olho para cima, mas para baixo é que a cidade iluminada relembra uma noite estrelada no interior, daquelas noites em que não lua a ofuscar o brilho das estrelas.

A cidade é bela e o mar de luzes estende-se até o olhar alcança. O céu é meu ponto de vista da janela do avião  rumo a Congonhas. O espigão da Paulista com suas torres coloridas; as avenidas com carros alinhados e algumas tingidas de vermelho. Luzes que formam uma colcha de retalhos que acompanham as curvas suaves do morro que sobe até a paulista e desce rumo ao Centro. 

Aos poucos, o emaranhado de luzes perde sua fantasia e a imagem distorcida entra no foco. Surgem edifícios perfeitamente identificáveis e o devaneio de final de viagem se esvai, trazendo-me de volta à realidade com o solavanco dos pneus da aeronave e o barulho intenso dos motores. Estou de volta à minha cidade.

NOTA: Infelizmente estava sem uma máquina fotográfica para captar a imagem, mas a luminosidade da cidade ontem me pareceu diferente e cativante. Estava bela a minha São Paulo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Cena curiosa



O que faz um sujeito colar um adesivo da campanha de Barack Obama para a presidência dos EUA em 2008 no carro emplacado no Paraguai? Coincidência a placa do veículo trazer as letras CAN? Yes, we can!

A foto não foi tirada em Assunção, mas em São Paulo. Cenas curiosas da metrópole paulistana.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ainda o pedestre

Complementando o post abaixo, duas situações presenciadas por mim nesta semana.

Segunda-feira, pouco depois das 6 e meia da manhã, Av. Eng. Oscar Americano. Trecho em declive, perigoso e sinuoso, sem faixa de pedestre e sem semáforo. Uma mulher tenta atravessar a via e é atropelada por um carro que conseguiu evitar um acidente fatal.

Terça-feira, 20:30 horas, Rua Pamplona. Trecho com faixa de pedestre, porém sem semáforo. Um homem falando ao celular atravessa a via sobre a faixa sem olhar para os lados, sem dar a mínima atenção ao fluxo de veículos. Os carros param e o pedestre cruza a via.

Dois casos típicos de negligência do pedestre. No caso do atropelamento, provavelmente a culpa foi da vítima. No segundo caso, a culpa também seria da vítima, mas os motoristas estvam mais atentos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A ditadura do pedestre



A Prefeitura de São Paulo, capitaneada por Gilberto Kassab, decidiu que certos hábitos precisam ser impostos aos cidadãos da cidade e cabe à municipalidade educar de forma coercitiva uma parte dos cidadãos. Digo uma parte, porque todas as culpas sobre os males da cidade parecem recair sobre os motoristas de carros.

Tudo bem, confesso que sou um ponto fora da curva. Não buzino, dou passagem a carros, motos e pedestres, dou sinal ao mudar de faixa e procuro não me estressar durante o trânsito. Tento ser consciente e minha última multa foi por ter me atrasado 5 minutos após o início do rodízio e fui flagrado por uma câmera que fica a 100 metros do escritório e que não concede tolerância. Meu rodízio, por sinal, é de segunda-feira e chego ao escritório antes das 7 da manhã. Mas as máquinas não aceitam tolerância e o prefeito também não.

Primeiro, Kassab determinou à CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) que reduzisse a velocidade máxima nos principais corredores de avenidas em 10 km/h.  Segundo o prefeito, a redução da velocidade reduziria o número de acidentes. Mas aparentemente apenas os carros reduziram a velocidade, as motos não e motociclistas continuam a morrer em quedas cinematográficas que são proporcionais à falta de bom senso que os guia. Os carros passaram então a ser multados, pois muitos não estavam acostumados com o novo limite de velocidade.

Agora vem a estória do pedestre e da faixa de segurança. A campanha foi tão agressiva que motoristas estão começando a ter pânico de faixa de segurança e de pedestre. Segundo a campanha da prefeitura, o pedestre deve ter preferência sempre. E se ele atravessar fora da faixa? A preferência é do pedestre. E se ele não respeitar a sinalização? A preferência é do pedestre. E se o pedestre atravessar com o sinal fechado? O motorista que se vire para dar preferência ao pedestre.

Não estou propondo uma caça aos pedestres, mas que haja equilíbrio e exigência de que o pedestre também respeite o motorista. Um pedestre que atravessa fora da faixa e surge do meio dos carros é um risco para o pedestre e para os motoristas. Se houver um acidente, a culpa será do pedestre. E este é o ponto: dos atropelamentos em São Paulo, quantos ocorreram por culpa de pedestres e quantos por culpa de motoristas - e é preciso separar o tipo de motorista (carro, ônibus, moto e caminhão)?

Uma simples medida de proteção ao pedestre seria ajustar o tempo dos semáforos para permitir o cruzamento da via com mais calma. Outra medida seria garantira a manutenção dos semáforos para pedestres, como o da foto que ilustra este post.

Sinto que o motorista que paga impostos e circula conforme as leis de trânsito, que faz inspeção veicular - São Paulo é única cidade que impõe mais este imposto disfarçado - é cada vez mais destituído de seu direito de circular pela rua. É preciso dar espaço a faixas exclusivas de ônibus e de motos, ter cuidado com os ciclistas e desviar de pedestres.

A boa e velha lição das aulas de estudos sociais no primário sobre cidadania e a importância da faixa de pedestre parecem ter sido olvidadas por adultos que sentem-se tomados do um novo poder outorgado pelo prefeito. Bom senso e uma boa campanha educacional - para motoristas e pedestres - seriam suficientes para iniciar o processo de mudança. Mudança de hábito não se faz com decreto, prefeito!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Música no Museu

Neymar Dias e convidados no Música no Museu

Resolvi seguir minhas reflexões e partir do mundo das ideias para o mundo da prática. Domingo de manhã de sol e pela primeira vez fui a um concerto no Museu da Casa Brasileira. Localizado na Av. Brig. Faria Lima, 2705, numa área nobre de São Paulo, o museu está instalado no antigo Solar Fábio Prado. Há um enorme jardim no fundo da casa com espaço para as crianças correrem, apreciarem as árvores e algumas esculturas.

O projeto denominado Música no Museu é o prato chefe nos domingos às 11 horas. São espetáculos musicais sob a coordenação de Carmelita Rodrigues de Moraes que "buscam traduzir a diversidade musical". O programa está no site e no mês de julho privilegiam a música instrumental brasileira, mas aspectos regionais. Neste último domingo, houve apresentação de Neymar Dias e convidados, tocando viola caipira. Os eventos são gratuitos e não é preciso reservar lugar, nem pegar senha.

Dizem que a capacidade de surpreender-se diante de coisas novas é sinal de uma alma jovem. Pois bem, fiquei encantado com o espaço, a música e as pessoas que ali estavam. São Paul tem este lado mágico de oferecer incontáveis opções culturais, basta procurar. 

Sou um curioso e gosto de degustar coisas novas. Gosto de agregar com novas experiências, sejam elas musicais, literárias, visuais ou gastronômicas. No fundo, tudo contribui para o aumento do arsenal para escrever, mas também abre novos horizontes. A música tem o condão dar asas a imaginação, de incrementar a memória com associações e imagens mentais. 

Ao escrever o último post, percebi que precisa ouvir algo novo e mostrar aos pequenos - meus filhos - que há muita diversidade musical e que a cultura enriquece o ser humano. Eles reclamaram no início, mas no final gostaram no programa diferente.

Fica a dica e trata-se de um programa para todas as idades, não só para adultos. 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Minha São Paulo


A cidade de São Paulo completou 457 anos no dia 25 de janeiro. Ao pensar no que escrever, percebi uma cidade múltipla. Uma São Paulo da minha infância, uma cidade na adolescência, uma cidade nos anos das Arcadas, um cidade profissional, uma pauliceia atual. Uma linha do tempo pessoal revelaria esta multiplicidade. Seria, porém, pouco.

Cada habitante tem a sua São Paulo, vista de forma subjetiva, dissecada do todo, parte de uma realidade complexa e múltipla. Há múltiplos bairros, cada qual com suas peculiaridades e aspectos característicos. O sotaque da Moóca, o frenesi da moda nos Jardins, o luxo das mansões o Jardim Europa e do Morumbi, a natureza do extremo da Zona Norte e de Parelheiros, o concreto do Centro. 

Há muito que escrever e não caberia num único post. Pensei na minha São Paulo, aquela cidade que me acolheu poucos dias depois de comemorar seu aniversário, na Pró Matre, maternidade localizada na Al. Joaquim Eugênio de Lima. Naquela época, as crianças nasciam na Pró Matre ou na Maternidade São Paulo, que desapareceu há alguns anos. Um ponto de partida próximo da Av. Paulista que percorre o topo de um morro. Plana e com pouco mais de 2,5 km, permite caminhar tranquilamente com suas calçadas reformadas.

A Av. Paulista é um microcosmo, uma amostra da paulistanidade, uma mistura de rostos e estórias. Há prédios residenciais e comerciais; hospitais, museus, parques, restaurantes e livrarias. Há modernidade e memória viva.

Memória que me incita a escrever mais e mais, e quem sabe, estes textos de uma São Paulo de outrora não pipocam por aqui ao longo do ano, mas por ora, vou me conter.

Mas a minha São Paulo não poderia ser descrita por objetos inanimados e construções, por mais belas que sejam. A minha São Paulo é uma cidade milhões de pessoas. É a São Paulo do Isaías, porteiro do prédio onde moro; é a cidade da Mari e do Luís, donos do restaurante onde almoço com frequência; é a morada do Severino, que todo dia pela manhã me saúda ao chegar ao escritório; é a São Paulo de conhecidos e anônimos que diariamente fazem desta uma grande cidade.

São Paulo não é feita de concreto e prédios, São Paulo é feita de gente, de pessoas acolhidas por uma cidade que sabe ser mãe: rigorosa e dura por vezes, mas sempre acolhedora.