domingo, 30 de setembro de 2007

Álvaro de Campos


"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito doutro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico,
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gsoto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De conversas que não chegou a haver.
Há gente que nunca é adulta mas prematura!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta - prematura -
E a que chega a ser adulta e prematura morre sem dar por isso.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo me nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loira débil, feliz porque não é inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena."

25 de janeiro de 1929
(Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 276-7).

Este poema de Álvaro de Campos não tem título. Destaco o seguinte trecho: "Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino." Fujo da temática do poema e pinço este verso, não o encontro casual de que trata o poeta, mas o encontro que muda um dia, ou aquele momento especial que muda o dia. O que o dia nos preparou, o que o destino nos reserva, não sabemos, mas sempre há momentos mágicos que evocam a alegria e a beleza do encontro, do sorriso, do recado simples que aquece a alma.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Vocação


Nessa época eu já falava em vocação, que vem a ser a vontade de fazer isto e não aquela outra coisa eventualmente mais proveitosa e até mais fácil: Vocare, aprendi nas aulas de latim. O chamado. Obedecer a esse chamado é uma destinação e não condenação, porque nesta entra o amargor que transforma o escritor numa esponja de fel. Obedecer à vocação seria simplesmente exercer o ofício da paixão, era o que me ocorria quando diante da pequena mesa abria o estojo com as canetas, escolhia pena preferida, molhava no tinteiro e começava a escrever minhas histórias. Mas tomando o cuidado para não sujar os dedos, esfregar o mata-borrão melhorava, mas cuidado com a blusa!

Vocação seria então apenas isto, atender ao chamado sem se preocupar com o resultado, cumprir o aprendizado da paciência e do amor.”
(Lygia Fagundes Telles. Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p. 128-9)

Todos nós temos uma vocação, um chamado, quer profissional, quer na vida de um modo geral. As palavras de Lygia Fagundes Telles fizeram-me pensar na minha vocação profissional que abracei com tanta paixão. Sou advogado e nutro um amor incondicional pelo Direito e pelo ofício que escolhi.

Nestes 14 anos como advogado – sempre como advogado -, nunca pensei em seguir uma carreira pública, nunca me passou pela cabeça tomar outro rumo na vida. Confesso que advogar não é tarefa fácil. É um ofício solitário, pois passamos horas e horas estudando, escrevendo, pensando. Por vezes, revela-se ingrato e cruel diante de situações injustas. A recompensa e a satisfação profissional decorrem do amor ao Direito. O cliente raramente reconhece a dedicação do profissional e muitas vezes não paga o valor previamente acordado dos honorários.

Advogar é uma constante indignação sadia, é não se conformar com a situação, é lutar incansavelmente pelo direito do cliente. É preciso lutar e perseverar, vencendo o desânimo que aparece quando se é derrotado. Isto exige buscar energias e renovar o ânimo constante de luta.


Tenho colegas, que cansados da labuta profissional, sonham em mudar de área, em partir para outra profissão ou abrir um negócio que não tenha nada a ver com o Direito. Não penso assim, porém tenho uma teoria de que muitos jovens advogados vão se desiludir com a profissão. Não há retorno rápido, não há sucesso fácil e não se fica rico da noite para o dia, pelo menos se o profissional atuar eticamente. Para se ter sucesso na profissão, é preciso abraçar a vocação sem se preocupar com o resultado, e seguir adiante com paciência e amor.


Post relacionado: Trabalho e Emprego

Tucanou?

Frase do dia do presidente Lula:

"Eu não faço barganha, faço acordo programado."

Acho que o Lula tucanou.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Dicas da Dani: Colbie Caillat


Primavera começou fria e cinza em São Paulo. Um pouco de música para embalar estes dias primaveris.



Colbie Caillat é uma jovem cantora americana de 22 anos, que canta músicas num estilo soul / folk. Boa música, segundo a cantora, deve aquecer sua alma, fazê-lo se sentir bem e levantar o astral. O álbum de estréia Coco contém músicas neste estilo. Ao ouvir as músicas, é impossível não se lembrar de Norah Jones e Jack Johnson.

"If you listen to an album like Fleetwood Mac's Rumours, every song has its place," diz ela. "If you took one away you'd spoil the balance of the entire record. That's the kind of album I wanted to make. It wouldn’t feel right to have my name on a record that was just a few good tracks and then lots of filler."

No site da cantora no My Space é possível ouvir a todas as músicas do álbum e fazer uma degustação. Bubbly é a primeira música do álbum a tocar em rádios brasileiras. As letras das músicas estão no blog de Colbie para quem quiser conferir.
Vale a pena dar uma conferida!


terça-feira, 25 de setembro de 2007

Blog Jurídico

Lançamos na semana o Blog - Informativo Legal.

Trata-se de um blog com conteúdo jurídico e cuja equipe de editores é composta por advogados em São Paulo e no Rio de Janeiro. A idéia é divulgar notícias jurídicas da área empresarial e informações jurídicas para o cidadão, bem como artigos técnicos.

Visitem, comentem, critiquem e façam sugestões.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Lula e o New York Times

O presidente Lula deu uma entrevista ao New York Times. Foi a primeira vez que falou ao jornal desde que Larry Rother escreveu que o nosso presidente tinha uma quedinha pela branquinha. Lula queria expulsar o jornalista do país, lembram-se?

Na entrevista, Lula disse que duvida que José Direceu seja condenado pelos crimes que está sendo acusado.

Agora pergunto: se Lula não sabia - e não sabe de nada -, como é que ele pode opinar sobre a eventual condenação de Zé Dirceu? Contraditório ou será que o presidente se entregou?

sábado, 22 de setembro de 2007

A Casa de Machado


Quase 2 dias no Rio de Janeiro e volto cada vez mais encantado pela cidade. Fui a trabalho, mas como ninguém é de ferro, aproveitei para conhecer um pouco mais do que ela nos oferece.


Ando pelo Centro do Rio sem medo, pois acho-o muito semelhante ao Centro de São Paulo em termos de quantidade de gente que circula. As ruas do Centro do Rio, porém, são mais estreitas e guardam um ar antigo mais presente, pois algumas ainda são de paralelepípedos. Cumprido o dever, caminhei pelas ruas do Centro em direção à Academia Brasileira de Letras.


Não estava nos meus planos passar por lá, mas seja por uma intuição divina ou por um sussurro do pensamento, uma daquelas idéias que surgem aparentemente de forma simples e que depois se revelam geniais, dirigi-me para a Casa de Machado e dos imortais. A ABL foi fundada na tarde de 20 de julho de 1897 e completa este ano 110 anos. Machado de Assis foi seu primeiro presidente.


"Tarde de sol de uma quinta-feira. Subo a velha escada de pedra da Academia e sigo na direção da estátua de Machado de Assis, gosto de ficar olhando para o bruxo sentado com sua bigodeira e o pince-nez ajustado ao nariz forte, a fronte espaçosa e pensativa. Ando um pouco em redor e acabo por me sentar num banco próximo, ainda é cedo para sessão." (Lygia Fagundes Telles. Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p. 33).


Talvez tenha sido este trecho de Lygia Fagundes Telles que me guiou até lá, movido pela curiosidade de ver e vivenciar o que ela descreveu em seu novo livro. Fiz o mesmo percurso. Subi as escadas numa quinta-feira, a lua já no céu do entardecer. Encontrei o Petit Trianon iluminado e repleto de imortais e mortais que se acomodavam para ouvir uma conferência sobre fotografia e a forma de olhar o Brasil. Os Acadêmicos acomodados nas cadeiras centrais da bela sala.


Parei diante de Machado de Assis sentado e observei-o por alguns instantes. Final de tarde e sentei-me num dos bancos diante do bruxo, como o fizera a imortal Lygia Fagundes Telles, e fiquei proseando. Ao terminar a conferência, ganhei um tour daquelas belas salas, de arquitetura clássica.


Um final de tarde agradabilíssimo e inesquecível em grande companhia.


* * * * * *


Vale informar que a ABL tem um serviço denominado ABL Responde que esclarece, de forma gratuita, dúvidas sobre ortografia. Tudo funciona por email. Há no site também acesso ao Vocabulário Ortográfico, que funciona para tirar dúvidas de ortografia de última hora e quando não se tem um dicionário à mão.




quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Poesia: REAL INTANGÍVEL



REAL INTANGÍVEL


O que sinto não compreendo

Seria dor?

Seria devaneio e ilusão?

Seria real, quando tudo parece intangível?

Sinto minhas entranhas doloridas

Amuado, meu espírito sucumbe

Prostrado no chão o corpo

Olhos fechados para te ver

E sua imagem projetar no sonho

Como posso amar o que não vejo?

Como seguir teus passos

Como beijar tua boca

Como ter-te em meus braços

Distância insuperável

Barreiras intransponíveis

Mas a alma te implora e deseja

O coração te anseia

Só me resta sonhar

E rezar...


(RLBF - nov 2006)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Bush tá com um medo...

Ler e ouvir as declarações do presidente Lula têm um conteúdo humorístico imbatível. Rio tanto das coisas que o Lula fala, quanto do que o José Simão escreve.

Na Espanha, o presidente Lula declarou em entrevista coletiva, que ele vai intimar o Presidente George Bush, num encontro no dia 24 próximo, para que ele resolva a crise financeira americana para que ela não afete o Brasil!!!!

O Bush deve estar morrendo de medo do lobo mau!!!

Se o que Lula falasse adiantasse alguma coisa, seus subalternos já teriam resolvido o problema do caos aéreo, da segurança pública, da saúde em estado de coma, da educação frágil....

Bom, se a entrevista coletiva foi depois do almoço, então aí tudo se explica. Devem ter servido sangria para acompanhar a refeição.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Capítulos

(Le Philosophe, de Herve Thibault)


A vida é feita de capítulos. Alguns recheados, outros mal redigidos, outros inacabados. Muitos redigidos com capricho e letra de caligrafia. Poucos com garranchos e hieróglifos ininteligíveis, que na verdade procuramos esquecer. Capítulos ainda por escrever sem sabermos ao certo quantos serão. Recebemos folhas avulsas, que vão sendo preenchidas e depois esperam para ser encadernadas numa bela capa.

O primeiro capítulo é o das memórias mais enevoadas. A infância passa rápido e mal recordamos da maioria das coisas. Tudo parece grande, tudo parece demorar – principalmente quando se quer um brinquedo. Brincadeiras e descobertas, e não raro, algumas cicatrizes físicas. O tombo da bicicleta, um braço quebrado, a queda da árvore, o joelho ralado. Estas lembranças ficam marcadas e podem sempre ser descritas em detalhes. O tempo não afeta nossa memória destas marcas.

Sucede-se, então, o capítulo da adolescência. Tumultos e revoltas, hormônios em ebulição. O sorriso daquela menina deixa de ser um mero sorriso, os pais passam a nos envergonhar, algumas discussões se tornam mais freqüentes. Tudo se resolve e tudo se amaina quando chega a faculdade. Nesta hora, a responsabilidade bate à nossa porta e inicia-se o capítulo mais longo, mais rico de memórias, de sentimentos, de lágrimas, de alegrias.

Estes capítulos formam toda uma enorme seção ou talvez alguns tomos de páginas. E sem dúvida, haverá páginas de perdão, páginas de tristeza, páginas de vitórias e alegrias, páginas esquecidas e outras apagadas. Estas páginas todas costuradas por um pano de fundo que permeia toda esta fase e nos acompanha sempre: os pais e os amigos.

Nunca falham e sempre haverá uma linha ou duas dedicadas a eles. Invisíveis? Por vezes, mas sempre presentes a um simples pedido de colo ou de carinho. Talvez não tenham um capítulo próprio, mas sem eles, não seríamos o que somos hoje.


Palavras de Flaubert

Gustave Flaubert é um dos maiores escritores franceses. São dele as palavras trazidas por Josué Montello em seu Diário da Noite Iluminada:

"Lição de Flaubert: 'Cada sonho acaba por encontrar a sua forma, já que há ondas para todas as sedes, assim como há amor para todos os corações.' E é dele, ainda, no mesmo texto epistolar: 'Já que não podemos deslocar o sol, ponhamos cortinas em nossas janelas e acendamos os lustres de nossos quartos.'" (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 446)

Desloquemos o sol para dentro de nós mesmos e irradiemos o brilho do sorriso, daquele sorriso que contagia e semeia novos sorrisos ao seu redor. Raras são as pessoas que conseguem fazer isto, mas a verdadeira amizade sempre semeia sorrisos.

domingo, 16 de setembro de 2007

Personagens e ficção


Esta semana escrevi um conto para um concurso literário organizado por uma editora carioca. O tema do conto era o medo. Não o medo comum de coisas corriqueiras como altura ou barata, mas dos medos mais profundos, do medo de se expor, do medo da vida, do medo da morte, do medo de errar. A primeira versão do conto não me agradou. Achei o final previsível e deixei o protagonista adormecer por uma semana. De repente, parece que o personagem do conto sussurrou-me seu destino e o final foi alterado.

Interessante como, depois de finalizado, ouvi de duas pessoas idéias muito semelhantes às que tinha colocado no conto, como um reflexo do medo sentido e enfrentado por Octavio, o protagonista.

O processo criativo e a formação de personagens têm me intrigado, pois resolvi abraçar a idéia de escrever um livro. Josué Montello escreveu que seus personagens tinham sempre um referencial de alguém conhecido, todos eles já existiram de alguma forma em alguma pessoa de seu convívio. Trilhas reais que ganham trilhas de ficção.

Lygia Fagundes Telles, na crônica “Bolas de Sabão” (Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p.17) retrata algumas conversas com leitores acerca de seus personagens. É curioso como alguns personagens ganham vida própria, deixam de ser meros produtos da ficção e são considerados como figuras históricas de um passado – recente ou não. Eles ganham vida própria como bolhas de sabão que se desprendem do criador e alçam vôo na atmosfera, até que estouram e desaparecem, como ocorre com o final de um livro. Alguns autores afirmam que depois que o livro é concluído, ganha vida própria, foge ao controle do escritor.

E Lygia Fagundes Telles termina assim sua crônica:

Aparetemente não pensei mais no assunto mas quando um dia me sentei para escrever A estrutura da bolha de sabão já tinha intuído que a imagem da bola era a imagem do amor. E a estrutura dessa bola? Calma, pensei, era preciso inventar um enredo que envolvesse essa imagem. E só lá adiante vou descobrir (ou não) como funciona essa tal de estrutura que deve ser assim como o próprio ser humano, indefinível, inacessível. E incontrolável.” (p. 23)


E este mistério humano continua a nos intrigar e cativar. E nos inspira a escrever!