sábado, 30 de junho de 2007

Poesia: FALTAM-ME PALAVRAS




FALTAM-ME PALAVRAS


Faltam-me palavras
Atônito
Paralisado diante das letras
Que saltam do papel aos meus olhos
E as letras dançam, ganham vida
Soam deliciosamente aos meus ouvidos
Perfumam o ar
Inebriam todo meu ser
Flutuo, levito
Torno-me um anjo
Um pássaro de grande envergadura
E alço vôo no céu anil
Despido de nuvens
Colorido pelo astro rei.
Coração a batucar
Em ritmo de samba, em ritmo de bateria
Em ritmo único e particular
Palavras simples que dizem tudo
Que sussurram com sotaque arrastado
Com malícia e jingado
Com jeito moleque
Coração dançarino
Ao som de nova melodia.

(RLBF - junho 2007)


sexta-feira, 29 de junho de 2007

Crônica: Só, na noite.


As crianças adormeceram e ele saiu do quarto silenciosamente. O silêncio reinava na casa. Havia uma paz de início de noite, sem ruídos. Estava sozinho pela primeira vez desde que os filhos nasceram. Marina havia viajado a trabalho e ausentava-se num dia de semana à noite.




Sentiu uma profunda liberdade, algo que não havia sentido há anos. Caminhou até a varanda e ficou a admirar a noite, degustando aqueles momentos de solidão, sozinho. O sentimento que mais temia, o sentimento que o levou a casar-se com Marina, agora era nutrido e enchia-o de satisfação. Não tinha que ficar conversando com ninguém. Podia conversar com seus pensamentos, conversar consigo mesmo, sem interrupções, sem brigas, sem discussões. Estava só em um ambiente que lhe era familiar. Tudo aquilo era novo, pois já estivera só em viagens, em quartos de hotel, caminhando no meio da rua ou num almoço. Algo de diferente havia naquela situação. Quando viajava, era um forasteiro, agora era um nativo no seu habitat natural. Estava tranquilo e sereno. Surpreendeu-se ao sentir-se confortável com a solidão.

O que mais temia na vida era ficar só, mas agora ansiava por momentos como este. Pensamentos confusos, sentimentos inexplicados rondavam sua cabeça. Não ficou admirado com o fato de não sentir ciúmes da mulher, de não querer saber onde estava ou com quem estava. Estava bem consigo mesmo, e isto era o que importava. Algo de sublime possuía sua alma, algo que não conseguia descrever ou entender. Afastou a lógica e a racionalidade e simplesmente degustou aquelas horas na noite adentro. Só, na noite.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Um encontro com o passado


O Mar é um primoroso romance de John Banville (foto ao lado), escritor e crítico irlandês. Este livro lhe rendeu o prestigioso Booker Prize em 2005, prêmio máximo da literatura inglesa.



Narrado em primeira pessoa, o enredo é um diálogo entre presente e passado, onde o protagonista revisita o seu passado para conseguir viver o presente. Em um trecho, a filha do protagonista afirma: "Você vive no passado!" e isto faz com que Marden mergulhe no seu passado para romper a inércia. Ele percebe que está preso ao passado, que vive o presente de forma melancólica e sem esperança.



A estória é um pouco densa, talvez pesada para alguns, num estilo de escrita que mais se assemelha a uma longa divagação interior. Ainda estou na metade do livro, mas a qualidade do texto é indiscutível. Não é um livro para ser lido na praia, mas combina bem com dias frios de inverno ou para dias chuvosos, o que pode facilitar ao leitor vislumbrar os nevoeiros e a garoa fina no litoral inglês. Um clima que ajuda a voltar ao passado, a sonhar, e renovar as forças para viver o tempo presente.



Transcrevo um trecho como degustação:


"Naquelas noites intermináveis de outubro, deitados ali, um ao lado do outro, no escuro, estátuas derrubadas de nós mesmos, buscávamos escapar de um presente insuportável indo para o único tempo possível, o passado, ou seja, o passado distante. Voltávamos aos nossos primeiros dias juntos, lembrando, emendando, ajudando-nos mutuamente, como dois velhinhos trôpegos, de braço dado, contornando as muralhas de uma cidade onde haviam morado muito tempo atrás."

(trad. Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, p. 86)







quarta-feira, 27 de junho de 2007

Nota Curta

Os 2 últimos posts geraram alguns bons comentários. Como prometi não me alongar no assunto, respondi aos comentários no post.

Apenas para manter a bola de cristal funcionando, notem que os jornais já estão falando de apagão em 2009. Acho que li algo parecido por aqui...
Amanhã volto com literatura e O Mar, de John Banville.

Dicas da Dani: Kings of Tomorrow

Mudando de estilo e animando o começo do inverno com uma versão remix de Finally. Para mudar de assunto e deixar a música falar por si só.


Antes de mudar de assunto

Não vou continuar a bater na mesma tecla e parecer ranzinza. Não vou afugentar os leitores, mas antes de mudar de assunto, e depois de ter lido todos os comentários, vou concluir o que comecei no último post.

O Brasil tem mais uma oportunidade para crescer e acelerar o desenvolvimento econômico. O modelo a ser seguido é o chileno, e não o venezuelano, boliviano ou argentino.

Aparelhar o Estado com o inchaço da máquina pública, criação de cargos de confiança e possibilidade de empregar companheiros só vai levar ao aumento do gasto do público pressionando a necessidade de maior receita. Traduzindo: aumento de carga tributária, a perenização da CPMF (que de provisória só tem o nome) e socialização dos custos previdenciários com aumento das contribuições.

O Brasil não precisa pensar em salvar o Mercosul, o Brasil tem que adotar uma política externa de seu interesse e não de interesse dos outros. Acordos bilaterais vão ajudar o país a crescer e a gerar riqueza. Só que os nossos líderes ainda olham para a área externa como se estivéssemos no século passado.

Prometo voltar - hoje ainda - com assuntos mais interessantes e menos indigestos.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Privacidade e Delinquência

Não sou adepto de teorias conspiratórias, nem tampouco sou partidário de visões apocalípticas, quando o assunto é política. Porém, não canso de me surpreender com a capacidade que o PT tem de insistir em tentar implementar um projeto de poder (e não programa de governo, pois estou convencido de que o projeto do PT não se exaure no 2º. Mandato do Presidente Lula, mas tentará se perpetuar no tempo no estilo Chávez).

O jornal Estado de São Paulo traz a seguinte manchete hoje: “Polícia Federal diz que delinqüente não tem direito a privacidade”.

Notem que agora a Polícia Federal decide quem é inocente ou culpado, esquecendo que existe um Poder Judiciário, uma Constituição Federal e que vivemos num Estado de Direito, pelo menos supostamente.

Outro exemplo é a postura do Ministro Marco Aurélio Garcia que voltou a defender o pagamento de dízimo ao PT mesmo depois que o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que o dízimo é ilegal. Vejam só: um Ministro de Estado defende uma conduta ilegal ou a desobediência à uma decisão judicial. Não seria ele um delinqüente na visão da Polícia Federal e, portanto, deveria ter seu direito fundamental à privacidade defenestrado?

Se um ministro defende de forma aberta o desrespeito à lei e às decisões judiciais, como pode o Estado exigir que o cidadão cumpra seus deveres e obrigações? Por que a Polícia Federal não investiga o Sr. Renan Calheiros e seu gado excepcional?

Preocupa-me, nesta estória toda, a forma como surge um estado policialesco de forma silenciosa e sem alarde – corporificado na Polícia Federal – e como há uma campanha de desmoralização de determinadas instituições no país, campanha esta que visa primordialmente o fortalecimento do presidente.

Pensem apenas nas figuras que foram objeto de escândalos, eficientemente afogados, tais como Waldomiro Diniz, Marcos Valério, Zé Dirceu, Delubio Soares e tantos outros.

Os fatos vão surgindo e o projeto de poder do PT vai se revelando.

domingo, 24 de junho de 2007

Poesia: Vinicius de Moraes

EXTENSÃO

Eu busquei encontrar naextensão um caminho
Um caminho qualquer para qualquer lugar.
Eu segui ao sabor de todos os ventos
Mas somente a extensão.

Chorei. Prostrado na terra eu olhei para o céu
E pedi ao Senhor o caminho da fé.
Noites e noites foram-se em silêncio
E somente a extensão.

Quis morrer. Talvez a terra fosse o único caminho
E à terra me abracei esperando o meu fim
Porém tudo era terra e eu não quis mais a terra
Que era a grande extensão.

Quis viver. E em mim mesmo eu busquei o caminho
Na ansiedade de uma última esperança
Eu olhei - e volvi à extensão desesperado
Era tudo extensão.

Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo... ...são os Inconsoláveis

- Águias acorrentadas pelos pés.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 33)

Águias são seres que voam alto, um vôo suave, artístico. Certa vez tive a oportunidade de presenciar uma águia de cabeça branca, a famosa Bald Eagle, símbolo dos EUA, voando livremente na natureza. É um espetáculo único. Uma pintura de asas que desenha curvas e linhas no céu.

Somos como águias e devemos voar, não rastejar. Alçar vôos em busca de objetivos altos e nobres, objetivos e sonhos arrojados. Cortemos as correntes que nos amarram e voemos como águias.

sábado, 23 de junho de 2007

Mudanças e novos ciclos

(Noite Estrelada - Vincent Van Gogh - 1889)


No post Fim do Outono, a Simone fez um comentário sobre mudanças e novos ciclos. Respondo ao comentário por aqui, esticando o assunto e refletindo um pouco, pensando em forma escrita. Ando um turbilhão de idéias que revolvem e pressionam para erupcionar do pensamento para o papel, para a tela do computador e ocupar espaço no blog. A correria profissional tem tomado parte do meu tempo para pensar e escrever. Sinto falta de momentos tranquilos no final do dia, solitário e silencioso, quando o telefone pára de tocar no escritório. São momentos em que organizo minhas idéias. Ultimamente tenho feito isto no trânsito, com o rádio do carro desligado. São momentos para ouvir meus pensamentos.



Tudo isto tem coincidido com uma nova estação e algumas mudanças profissionais. Engraçado como somos temerosos das mudanças. Elas nos afligem, inquietam. Não sou diferente. Fiz tantas mudanças na vida, tomei tantas decisões difíceis e arriscadas, mas mesmo depois de decidir, é custoso cortar as amarras com a segurança e o conforto do passado e do presente.



O presente é familiar, o futuro é escuro. O presente é fruto do passado, o futuro é fruto do presente. O que fazemos hoje será o futuro, as decisões e escolhas que tomamos serão o futuro que planejamos. Nem sempre o que planejamos acontece, mas o futuro é um sonho que procuramos concretizar. Estas mudanças e este novo ciclo espero que sejam para melhor. Pelo menos é isto que está nos planos! Agora, é confiar no tempo e trabalhar.






sexta-feira, 22 de junho de 2007

Dicas da Dani: Gotan Project

Não vou deixar a 6a. feira ficar em clima de raiva. Depois do último post, onde descarreguei minha indignação, um pouco de música.

Aproveitando a passagem do Gotan Project pelo Brasil (São Paulo no dia 20 de junho e no Rio de Janeiro dia 21 de junho), trago esta mistura de tango com um tempero contemporâneo. O Caderno 2 do Estadão (página D-12, 20.06.07) disse que o Gotan "põe a batucada no tango."

O crítico Lauro Lisboa Garcia comenta: "O que já era bom ficou melhor. Em vez de repetir a fórmula do primeiro álbum - em que o grupo promoveu um pioneiro e relevante equilíbrio entre os elementos fundamentais do universo tangueiro com programações eletrônicas e batidas de dance music -, Lunático envereda por uma trilha mais voltada para a estrutura orgânica do tango, com efeitos de dub, mas mantendo bem vivos quatro bandeneóns e muitas cordas em seu percurso, além da sensualidade."

Para quem não conhece - como eu não conhecia até esta semana -, escute antes de julgar. Seja um pouco eclético e abram suas cabeças musicais.

Lunático, o novo CD do Gotan Project, é uma referência ao nome do cavalo alazão de Carlos Gardel. Turfe e tango sempre andaram de mãos dadas, como se revela no famoso tango Por una cabeza, que narra a derrota de um cavalo numa corrida por apenas uma cabeça de diferença.

Antes que termine, e mudando de assunto, se alguém for a Buenos Aires e quiser assistir a um show de tango, fuja das casas para turistas. A melhor pedida é o tradicionalíssimo Café Tortoni, que fica perto da Casa Rosada. Tem mais de 100 anos e o tango ainda é puro, como os argentinos gostam.

Deixo-os com Mi Confesión e Diferente.



O Óbvio Ignorado

Ouvi no rádio agora de manhã um depoimento do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribuindo o caos aéreo à prosperidade do país. Prosperidade!? Crescimento!? Fiquei indignado, se bem que já deveria ter me acostumado a ouvir declarações óbvias e rídiculas de integrantes deste Governo. A afirmação de Mantega revela o óbvio e demonstra a cada declaração do Presidente Lula e de seus Ministros (não deveria colocar em maiúsculas, mas...) a incompetência acerca da gestão do país.

Então, Sr. Ministro, vou lhe dar uma explicadinha de como as coisas funcionam no setor privado. Setor Privado? Sim, Ministro, aquele setro do país que trabalha sem estabilidade de emprego, que não pode fazer greve de 90 dias, que tem que pagar uma carga tributária escorchante sem receber nada em troca, que levanta cedo e vai dormir tarde, que enfrenta a burocracia e a preguiça de um outro setor chamado público.

No setor privado, que gera riqueza para o país e paga o seu salário, prosperidade significa investimento, significa arriscar, significa planejar e agir. Agir, Ministro. Se ninguém no Governo é competente para resolver o problema do caos aéreo, contrate alguém que seja ao invés de chamar uma companheira que prefere relaxar.

O óbvio desta declaração é que o Governo não tem planejamento, não sabe para onde vai, apenas curte o gosto do poder e da autoridade.

O óbvio desta bagunça é que prosperidade gera gargalos e gargalos matam a prosperidade. Não se assustem com o apagão de energia que virá em poucos anos. O óbvio, Ministro, é que se não tivesse havido privatização - aquela que os Senhores tanto criticam - hoje não teríamos telefonia confiável.

O óbvio é que é preciso trabalhar para resolver o problema. Sim, trabalhar!!!! Eu sei que cansa, que é difícil, mas é isto que o setor privado faz no Brasil, ainda que o Governo atrapalhe.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Fim do outono

Hoje acaba o outono e começa o inverno. Uma estação que sucede a outra, o ciclo da vida, o tempo que marcha sem pausas, que parece se acelerar com os compromissos e a correria da vida moderna.

Acaba o outono com um belíssimo dia de sol e céu azul em São Paulo, com tardes ainda quentes e ar muito seco. O dia ficará mais longo e as noites se encurtarão até a chegada do verão.

Não há noite tão longa que não traga a luz no dia seguinte e não há inverno que se arraste eternamente. As estações acompanham os ciclos da vida, de mãos dadas, para valorizarmos as coisas simples e apreciarmos cada estação, cada momento, que é sempre único, ainda que de dor ou de tristeza. O inverno, por mais rigoroso e frio, sempre passa, e cede lugar à primavera, com seus aromas e sorrisos.