
O Mar é um primoroso romance de John Banville (foto ao lado), escritor e crítico irlandês. Este livro lhe rendeu o prestigioso Booker Prize em 2005, prêmio máximo da literatura inglesa.
Narrado em primeira pessoa, o enredo é um diálogo entre presente e passado, onde o protagonista revisita o seu passado para conseguir viver o presente. Em um trecho, a filha do protagonista afirma: "Você vive no passado!" e isto faz com que Marden mergulhe no seu passado para romper a inércia. Ele percebe que está preso ao passado, que vive o presente de forma melancólica e sem esperança.
A estória é um pouco densa, talvez pesada para alguns, num estilo de escrita que mais se assemelha a uma longa divagação interior. Ainda estou na metade do livro, mas a qualidade do texto é indiscutível. Não é um livro para ser lido na praia, mas combina bem com dias frios de inverno ou para dias chuvosos, o que pode facilitar ao leitor vislumbrar os nevoeiros e a garoa fina no litoral inglês. Um clima que ajuda a voltar ao passado, a sonhar, e renovar as forças para viver o tempo presente.
Transcrevo um trecho como degustação:
"Naquelas noites intermináveis de outubro, deitados ali, um ao lado do outro, no escuro, estátuas derrubadas de nós mesmos, buscávamos escapar de um presente insuportável indo para o único tempo possível, o passado, ou seja, o passado distante. Voltávamos aos nossos primeiros dias juntos, lembrando, emendando, ajudando-nos mutuamente, como dois velhinhos trôpegos, de braço dado, contornando as muralhas de uma cidade onde haviam morado muito tempo atrás."
(trad. Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, p. 86)