terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Assim, sem nada feito e o por fazer, de Fernando Pessoa



ASSIM, SEM NADA FEITO E O POR FAZER

Assim, sem nada feito e o por fazer
Mal pensado, ou sonhado sem pensar,
Vejo os meus dias nulos decorrer,
E o cansaço de nada me aumentar.

Perdura, sim, como uma mocidade
Que a si mesma se sobrevive, a esperança,
Mas a mesma esperança o tédio invade,
E a mesma falsa mocidade cansa.

Tênua passar das horas sem proveito,
Leve correr dos dias sem ação,
Como a quem com saúde jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razão.

Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueço de querer,
E a tarde exterior seu tédio verte
Sobre quem nada fez e nada quer.

Inútil vida, posta a um canto e ida
Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,
Obra solenemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar!

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 52)

Vamos escrever?


Escrever, além de ser um exercício prazeroso e divertido, é comprovodamente uma das formas de exercitar o cerébro. Está comprovado que a constante atividade cerebral inibe o aparecimento de doenças como Alzheimer. A escrita traz este grande benefício mental, então, por que não se arriscar e deixar as palavras saltarem para o papel?

A nova Oficina começa dia 12 de fevereiro e ainda dá tempo!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Volta às aulas


by Ana Luiza

O despertador tocou pouco depois das seis da manhã e rapidamente alguns gritos de alegria irromperam no silêncio e na escuridão matinal. Os gritos eram de alegria, de júbilo pelo final das férias. Sim, meus filhos estavam ansiosos pelo começo das aulas e em poucos minutos estavam vestidos e prontos para iniciar um novo ano letivo. Minha filha resolveu registrar o dia que nascia ainda preguiçoso (foto acima). Começo das aulas e horário de verão ainda em vigor são sinônimos de acordar no escuro.

Após deixá-los na escola, fiz um exercício de memória e tentei lembrar-me dos meus primeiros dias de aula. Será que eu era tão emplgado assim? Não me lembro de tanta animação, mas lembro-me do reencontro com os amigos, da alegria de começar um caderno novo, novas matérias, novos livros, nova sala de aula, novos professores. Um ano adicional de escola é uma renovação de memórias, de descobertas, de aprendizado, de frustrações, de alegrias.

Faça o exercício e pergunte-se qual a sua memória mais remota da escola e do começo das aulas.

Muitas lembranças são esfumaçadas, fragmentadas, mas lembro-me do meu primeiro dia de aulas quando mudei para os Estados Unidos. Não havia euforia, havia apreensão, ansiedade, angústia, pois mal entendia a língua e não conseguia me comunicar direito. Minha primeira aula foi de matemática. Sentei-me no fundo como determinado num mapa de assentos organizado por ordem alfabética ao lado de um menino chamado Brett. Tudo era novo, mas causava enorme apreensão para um jovem de 12 anos. Enfim, dificuldades e novas experiências existem na vida para que as superemos e cresçamos, e assim foi. 

Na faculdade, o primeiro dia de aula foi de trotes, cabelo raspado, ovos, água, bagunça generalizada. No primeiro dia, conheci bons amigos que me acompanharam ao longo dos cinco anos da São Francisco. E no ano seguinte, fomos nós a receber os calouros com a mesma alegria e bagunça.

Gosto de ver as crianças empolgadas com o início dos estudos, gosto de vê-los felizes indo para escola. Gosto de perceber que o hábito do estudo, que o interesse pelo aprendizado vai sendo sedimentado ano após ano. Espero que guardem estas boas lembranças de mais um primeiro dia de aula. Afinal, há um tempo em que as memórias começam a evaporar, restando apenas o que de bom ficou.





domingo, 2 de fevereiro de 2014

Finitude




Alguns dias eram ruins e outros péssimos. Os finais de semana eram os mais difíceis de aturar. Tornara-se um mestre em disfarçar seu estado de espírito, escondendo habilmente a dor que lhe martelava o coração. Estes dias arrastavam-se e não era usual conseguir momentos em que ficava solitário, perdido em seus pensamentos numa insistente tentativa de decifrar o enigma e ponderar de forma racional sobre o que futuro reservava. Prever o futuro é algo tão irracional e tão ilógico que qualquer esforço era em vão, mas seus cenários traçados e desenhados eram sempre pessimistas. A perda era considerada irreversível por maior esforço que fizesse e tentasse resgatar os bons momentos para lhe dar algum alívio e motivação sobre os dias vindouros. Não havia horizonte e calibrar a esperança era algo tão etéreo quanto à simples e ingênua questão sobre se ela ainda pensava nele, se algum carinho havia sobrevivido aos arroubos de raiva e agressividade que lhe deixaram feridas profundas e doloridas.

A vida tem suas contradições, quase um dicionário de antônimos. O pêndulo oscilara de ponto de afeto extremo, de sorrisos e longas conversas para o ponto da raiva, da mágoa, da despedida, do silêncio. Ele, sempre metódico, introvertido, ponderado, agora se via diante de uma vontade incontrolável de falar, de confidenciar, de explicar o que se passava dentro dele. Porém, havia sido emudecido, como se lhe tivessem arrancado a língua, cortado-lhe a palavra, lançado-o num calabouço, alienado do mundo. O tempo era seu único consolo, afinal guardara com carinho as memórias, pois estas não podiam ser bloqueadas, apagadas, queimadas, reprogramadas, reformatadas. Ainda bem que a mente as preserva intocadas, talvez com certo grau de subjetividade, mas plenas e vivas. Uma faísca e a brasa poderia ser reacendida. Fraquezas todos temos e     por vezes, sucumbimos. 

Curioso como iniciara um texto há pouco menos de 3 anos, um projeto a quatro mãos que fora arquivado por desistência da parceira, e que recentemente caminhara nos mesmos passos de seu personagem, vivenciado a dor que descrevera, com a exceção de que a morte não tornava definitiva a situação. A vida repetia a arte e suas palavras haviam sido proféticas e isto o incomodava.

A morte era algo que não experimentara recentemente. Deparara-se com ela há pouco tempo quando fora descoberto que seu pai tinha câncer. A morte outorga um senso de finitude, de transitoriedade, de que somos efêmeros. A morte nos urge a correr, a não desperdiçar o tempo, a cicatrizar as feridas em conjunto, conversando, dialogando e ouvindo, reatando e perdoando, reconstruindo pontes que foram implodidas no passado. A morte cala a voz e ele pressentia que os sentimentos seriam muito semelhantes, como espinhos a lhe furar pele, como a solidão irremediável e cuja solução inexiste.

Respeitava o desejo dela, mas não compreendia. Tateava no escuro sem saber como agir, perdido no caminho e nos sentimentos. Pensou que se vivesse num país com dias cinzas, frios e de longas noites, talvez abreviasse a dor, sucumbisse e desistisse de esperar. Sua alma estava gélida, inerte, afundada na angústia.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Microconto


Ela partiu com todas as respostas.
Ele ficou com todas as perguntas.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Epígrafe - XXIII


"De minha parte eu também não saberia explicar, se foi algo que ela disse durante nossa primeira conversa, se foi o perfume dela, a roupa, os cabelos, as mãos, o jeito como ela segurava o garfo, como limpava a boca antes de pegar o copo, como deixou que eu encostasse o meu joelho nela e em um único momento ao longo da noite me olhou mostrando que sabia que eu estava sentindo o calor da perna dela, e numa fração de segundo tanto eu quanto ela nos mantivemos firmes em vez de desviar o rosto ou afetar algum gesto de naturalidade ou distanciamento irônico relativo àquele contato, uma fração de segundo e o que você foi até ali vira passado, um estalo e o jantar e a conversa e os dias e anos seguintes viram outra coisa, e é muito rápido e muito delicado mas inconfundível porque em quatro décadas você nunca teve esse pressentimento."


(Michel Laub. Diário da Queda. São Paulo : Companhia das Letras, 2011, p. 149)

Em um único momento, o encontro se aperfeiçoa e a partir daquele único momento - que pode não ser notado, reparado ou percebido - a vida nunca mais é a mesma. O foco se direciona a um novo ser que causa frio na barriga, arrepios, sorrisos, alegria. 

Uma janela se abre e a luz inunda o quarto escuro da alma apagada e à deriva, vagando sem rumo, apenas esperando. Esperando o quê? Ele não sabia. Apenas esperava. E um dia, num único momento, no primeiro beijo a vida toma um novo rumo. Impossível negar, impossível rejeitar o que aconteceu. É fato e ainda que o silêncio substitua as longas conversas regadas a sorrisos, a carinho, a ternura, ao cuidado sempre dispensado de parte a parte, ele espera pacientemente. 

E como um cão à espera de seu dono, senta-se à porta e fica a esperar o dia em que o silêncio será quebrado.

Poesia: TROPEÇO


TROPEÇO


tropeço na ternura dos teus beijos
tropeço no brilho dos teus olhos
tropeço nas palavras engasgadas
qual jovem diante do primeiro amor.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Poesia: SORRISO FUGIDO


SORRISO FUGIDO

A moça levou o sorriso embora
ele se foi, não sei por quanto tempo.
Preferiu fugir com ela
e deixou-me.
Melhor assim
ao menos não foi a morte
que o levou
pois para ela não há remédio.
A moça, quem sabe,
um dia devolve o sorriso.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

7 anos



Há exatos 7 anos, este blog iniciava sua jornada. Sete anos que passaram rápido e que resultaram em 879 posts dos mais diversos temas, mas sempre tendo como pano de fundo reflexões sobre a vida, o cotidiano, a cultura, a literatura.

A proposta inicial ganhou novos contornos, pois o propósito primeiro era centrar as discussões na conjuntura brasileira, em política e economia. A literatura ganhou espaço e foi se apropriando do blog. Aos poucos surgiram crônicas, poesias e contos. E textos que repousavam no fundo da gaveta ganharam o palco e alçaram voo.

Esta mudança no conteúdo é facilmente explicável. Expor o que se escreve causa um certo medo inicial, há que vencer a vergonha de mostrar o que se escreve. No começo, tive pavor de publicar poesias, por exemplo. Mas a sabedoria do tempo parece nos ensinar que há momento para tudo e que havia chegado o momento de acreditar nos meus textos. Assim, eles ganharam o maior espaço do blog.

Claro que a inspiração foi generosa e veio me visitar habitualmente – ou talvez eu tenha aprendido a dar voz à inspiração mais presente e  antes não notada.  Assim a literatura e a escrita ganharam maior espaço neste blog e hoje predominam.

Nestes anos, este blog foi citado numa dissertação de mestrado na área de comunicação social, teve pedidos para uso de textos e poesias e firmou-se como um local para deixar a imaginação voar. Talvez tenha emocionado algum leitor, talvez tenha causado lágrimas de alegria, talvez tenha provocado sorrisos. Se despertou no leitor um pouco disto, atingimos nosso objetivo.

Quanto à escrita, devo registrar uma nota final. Quando percebi que os textos escritos por mim ganhavam mais espaço, aventurei-me numa oficina literária. Precisava entender melhor o processo criativo e precisava de crítica e aconselhamento  profissional. Depois de participar de 3 oficinas, posso dizer que o Terapia da Palavra ajudou muito minha escrita e o processo de criação. Recomendo a todos que querem escrever e aprimorar a forma de escrever fazer uma oficina literária. Arrisque-se que vale a pena. Agradeço a dedicação da equipe do Terapia da Palavra e a paciência comigo.

Agradeço a todos que por aqui passam, que por aqui comentam, ou que simplesmente dão uma olhadinha e saem em silêncio. Muito o obrigado a todos.




quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quem escolhe o livro?



Terminado Diário da Queda, saí em busca de algo novo para ler. Sempre tenho uma fila de espera, mas queria um romance mais longo, de um autor desconhecido, mas brasileiro. Estava na Saraiva quando fui atraído pela bela capa de azulejos portugueses a estampar a 2a. edição de Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (Alfaguara).

A contracapa informava que a obra fora laureada com o Prêmio José Saramago. Hum, obra premiada costuma ser leitura mais difícil e não frequenta a lista de best-sellers, o que me agrada bastante. Fui procurar a apresentação da autora, que se encontrava na primeira orelha, além de uma foto. Escritora carioca. Ponto positivo. Tenho um caso de amor com a Cidade Maravilhosa e encontrar estórias que se passem nela me agradam, é uma forma de amenizar saudade, de nutrir memórias, de evocar bons momentos. 

Minha análise foi interrompida por um conhecido que me chamou e o livro foi deixado de lado. Acabei saindo da Saraiva sem comprar nada.

No dia 26 de dezembro, fui à Livraria da Vila com um amigo. A Vila faz uma liquidação anual e todos os títulos estavam com 20% de desconto. Passei pelo livro novo de Rodrigo Lacerda, folheei Daniel Galera, me atrevi a sapecar algo de Fernanda Torres e Vanessa da Mata, quando Sinfonia em Branco pareceu me chamar: "Alô! Estou aqui! Aqui te esperando!"

Pode parecer besteira, loucura, mas tenho para mim que os livros parecem nos escolher, mais do que nós os escolhemos. Eles estão ali, aparentemente adormecidos e silentes nas prateleiras, mas "sussurram" e nos chamam. Aguardam para dar o bote e nos fisgar. Peguei o livro e comprei-o.

Ao chegar ao escritório, fui ler a contracapa e a orelha. A história tratava de um incesto. Torci o nariz. Fiquei levemente frustrado e decepcionado. Esperava algo diferente. Comecei a ler o livro naquela mesma noite. Terminei-o em uma semana e o livro caiu como uma luva para o meu momento atual. 

Pode ter sido obra do acaso - se é que algo acontece por acaso, se é que alguém de repente cruza teu caminho -, mas o fato é que a obra estabeleceu um intenso diálogo comigo. A força narrativa de Adriana Lisboa é incrível e a premiação da obra é mais do que justificada. 

PS.: Trataremos da obra num próximo post.