sexta-feira, 12 de abril de 2013

Conto: Meu medo


O grito, de Edvard Munch

MEU MEDO


Levantou-se da cama afastando o lençol e caminhou até a mesinha onde repousava o maço de cigarros dela. Estava nu, porém não se intimidara com o fato de que o corpo não guardava mais a firmeza da juventude. Lembrava mais uma gravura do Gustavo Rosa, do que o Davi de Michelangelo. Pegou o maço e fez um gesto silencioso pedindo-lhe autorização para subtrair o pequeno bastonete de tabaco de propriedade dela.  Ela não se espantou com o pedido, apesar dele não fumar. Sentou-se na cama, coberta pelo lençol, deixando apenas os ombros de fora, o que propiciou o rápido comentário dele.

- Está parecendo uma ninfa, minha querida!

Abriu a porta da sacada e deu uma longa tragada, totalmente indiferente ao fato de que estava nu. Era final de tarde e ainda havia luz suficiente para que um vizinho do hotel pudesse observá-lo.

- Não tem medo de que alguém te veja aí fora peladão? – perguntou a bela companheira com um ar cômico.

- Não....meu medo é outro.

E fez uma longa pausa, aguardando que ela interrompesse o silêncio com a pergunta.  Se ela aquiescesse ao silêncio, saberia que aquele encontro seria apenas um momento de luxúria perdido no tempo, numa tarde qualquer; se ela perguntasse, teria a certeza de que o que acontecera entre eles havia ultrapassado o meramente carnal.

Não tardou a que a doce voz dela soasse com a interrogação: qual é seu medo?


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Primeiro de Abril


Verdades que poderiam ser mentiras (notícias de hoje):

- Dilma cria o 39o. ministério no governo federal.

- Rendimento dos alunos de matemática piora entre o 5o. e o 9o. ano. MEC minimiza queda e afirma que as perspectivas são positivas.

- Rondônia supera Pará no número de mortes por disputas de terras.

- Inflação dos alimentos afeta mais a baixa renda.




Mentiras que poderiam ser verdades (manchetes de um sonhador):

- PEC que reduz número de deputados e senadores é aprovada no Congresso Nacional.

- ENEM deve ser extinto, após desempenho excelente dos alunos em redação.

- Paulo Maluf reconhece que dinheiro nas Ilhas Jersey é fruto de desvio de recursos durante suas gestões.

- Coreia do Norte destrói todos seus mísseis e assina tratado de paz com a Coreia do Sul.

- Inflação deve ficar abaixo do piso da meta pela primeira vez.


sábado, 30 de março de 2013

Quem é o autor?


Em tempos de redações desastrosas no ENEM, reveladoras da péssima qualidade de nossa educação fundamental, de erros - ou como prefere o MEC "desvios" - ortográficos graves, textos sem lógica e com argumentos repetitivos, além de receita de miojo e hinos de clubes de futebol, resolvi tratar uma simples questão deixa num comentário de um post deste blog de forma mais demorada.

Em 9 de junho de 2007, publiquei uma poesia que identificava ao final que era de minha autoria. Alma Iluminada é seu título. Outro dia veio o comentário e a pergunta: "Linda poesia, quem é o autor????" O comentário foi deixado de forma anônima. Respondi num comentário seguinte acusando-me como o autor daquele texto. 

Inicialmente, pensei que a pergunta comportava uma resposta óbvia: os textos deste blog são meus, do autor do blog, salvo quando há indicação clara e direta do autor do texto. E há muitas poesias, trechos de livros e textos diversos cujos autores são nominados e indicados. Quase todos os textos publicados de outros autors são transcritos por mim e oriundos de livros, sempre citando a fonte e cujos originais disponho. Desconfio de algumas fontes na internet e sou zeloso em dar crédito aos devidos autores. 

Superando a resposta que me parecia óbvia, sobreveio-me outra questão: será que as pessoas sabem procurar a fonte, o autor real e será que tem a visão crítica o suficiente para desconfiar de que um determinado texto não pertence a determinado autor? 

A resposta parece ser negativa. Por exemplo: se vou ao blog do Reinaldo Azevedo, sei que os textos serão dele, salvo quando indica outro autor - o que faz com frequência, pois transcreve muitos artigos de jornais. Se alguém visita este blog, deveria desconfiar que a maioria dos textos são de autoria do responsável pelo blog, aquele cara feio na fotinho do canto direito logo no início da página. 

Se a pessoa não consegue identificar o autor, não tem condições de criticar suas ideias, não tem bagagem intelectual para discutir, debater e argumentar. E por consequência, qualquer dissertação será superficial, rasteira, sem argumentação sólida, ou seja, as redações do ENEM são um reflexo do (des)preparo dos nossos jovens. Eis o problema que surge de uma simples e banal questão. 

Faço uma ressalva -  e não vou me alongar - sobre a má-fé de alguns que claramente copiam e plagiam textos inteiros ou somente trechos de textos. O plágio é a cópia ilegal que viola o direito do autor, que rouba uma ideia produzida sem dar o devido crédito. O plágio é uma praga e um indicativo da preguiça mental de muitos que preferem utilizar a cópia à botar o cérebro para funcionar! O famoso "recorta e cola" é um lamentável atalho que mantém o indivíduo na ignorância.

É importante ensinar os jovens - e adultos também - a procurar sempre a fonte original, a aprender a pesquisar consultando várias e diversas fontes, sempre dando o devido crédito ao autor. Perguntar quem é o autor não é uma falha; a falha está em não conseguir identificar o autor que está indicado de forma clara e transparente. O plágio deve ser sempre rechaçado e repelido! Progresso intelectual dá trabalho e este trabalho deve ser recompensado com o devido crédito.

Não há caminho fácil para escrever bem: é preciso ler e treinar a escrita. A recompensa do esforço vale a pena!

Boa Páscoa a todos!

terça-feira, 19 de março de 2013

O primeiro dia frio


Tenho uma grande simpatia por Lygia Fagundes Telles e Tatiana Salem Levy. São duas escritoras que me agradam em demasia. Na edição de sexta-feira, dia 15 de março, a primeira foi a convidada da coluna À Mesa com Valor, que teve o encontro relatado por José Castello, cujos textos são um convite a sentar-se à mesa com o convidado. Há uma proximidade do entrevistado, uma intimidade recheada de notas e frases que permitem ao leitor penetrar um pouco no processo criativo do escritor (quando entrevistado é um escritor). A coluna pode ser lida aqui.

Destaco dois trechos do que foi dito por Lygia Fagundes Telles: "É preciso enxergar mais do que as coisas nos mostram, ou não vemos nada." E mais adiante afirma que "está tudo inscrito na realidade. A um escritor, basta ler. Não sei por que gostam de atacar a realidade."

Em certo trecho, Lygia narra como surgiu o conto Helga, de Antes do Baile Verde. De uma notícia de jornal, de uma sugestão do marido, o caso narrado transmuda-se em conto de ficção. A realidade é contada pelo escritor com novas cores, mas sem deixar de ser real. A realidade é fonte de inspiração, é o ponto de partida de escritor, na visão de Lygia. 

Descobri Lygia lendo Conspiração de Nuvens (2007). A memória é um elemento muito presente em suas crônicas, servindo-lhe de matéria prima para analisar a realidade que procura enxergar de esguelha, com outro viés daqueles que a olham somente como plana. Encantei-me com o livro, com os textos e com esta grande escritora. Apaixonei-me pela forma como ela trata de um tema que me é tão caro: a memória. 

E minha alegria aumentou quando no final do caderno de final de semana do Valor deparei-me com um ensaio de Tatiana Salem Levy sobre um livro de Sándor Márai, De Verdade (Companhia das Letras, 2008), em que ela discute a existência de múltiplas verdades (leia aqui). Tatiana lança a pergunta: existe amor de verdade? existe mulher de verdade?

A discussão acerca da existência de uma única verdade ou de múltiplas verdades é muito familiar para um advogado. No direito penal, busca-se a verdade material, que deveria ser a real, ou seja, aquela que retrata o que efetivamente aconteceu a ponto de se poder condenar aquele que praticou o delito. No direito civil, prevalece a verdade formal, aquela que está presente nos autos, aquela pela qual o magistrado é convencido a acreditar com base nas versões e provas apresentadas.

Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.

Versões e pontos de vista é o que Márai traz para sua narrativa. Discordo de Tatiana de que há múltiplas verdades; há múltiplas versões da realidade, contadas pela ótica do observador e pelo critério do observador, geralmente tomados de parcialidade na sua análise. Mas Tatiana destaca que todos narram após os acontecimentos, ou seja, no passado, revivendo a memória do outro ou como o outro era visto no momento em que os fatos ocorreram. A memória pode ser traiçoeira, nebulosa!

A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.

Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.

Eis que me deparo com uma segunda-feira fria, garoenta, úmida. Um aparente típico dia de invernopaulistano! Mas calma, meu querido amigo, não se precipite, ainda estamos no verão, nos estertores do verão, ainda na estação do astro rei. Hoje foi o primeiro dia de frio do ano. Comentei com minha filha que o que é cinza e melancólico para alguns, pode ser poético para outros, basta ler a realidade. O primeiro dia frio do ano parece convidar ao aconchego do lar, a saborear memórias, a enclausurar-se no silêncio interior, a degustar uma taça de vinho, a preparar uma sopa quentinha, a enrolar-se no cobertor... O primeiro dia frio do ano não precisa ser negro, nem o presságio de uma estação terrível e pouco tolerável. Prefiro o calor, mas cada estação tem suas qualidades, sua inspiração, sua cor. Basta ler a realidade, como nos ensina Lygia Fagundes Telles.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Poesia: PALAVRAS ARISCAS



PALAVRAS ARISCAS


Palavras ariscas ciscam ao meu redor
Rodeiam-me
Provocam
Escapam-me.

Desobedientes
Irriquietas
Perturbam-me constantemente
E só me resta o vazio do nada dizer.

Flutuam como nuvens
Dão rasantes como aves de rapina
Cercam-me
Cutucam-me
E fogem faceiras e risonhas.

Despertam-me do sono
Atiçam-me
Tento cativá-las a se comportarem
A deitarem sobre o papel de forma ordeira
E elas insistem na desfaçatez da fuga
Do silêncio
Do absoluto silêncio.

Calo-me
E sucumbo.
A inspiração há de voltar
E as palavras hão de se comportar.

(c) RLBF

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Crônica: Segredos

Sombras, por Ana Luiza


SEGREDOS


Os maiores segredos nunca são compartilhados, contados, anotados. Permanecem guardados a sete chaves no silêncio interior, sem que alguém os tenha visto ou percebido. São segredos confidenciados em diálogos solitários com o próprio eu, naqueles momentos do meio-sono ou na tranquilidade do banho ou numa caminhada bucólica sem companhia humana. Não há sequer um diário que os tenha acolhido em suas páginas; talvez o fiel cachorro seja um bom confidente, sempre paciente e solícito a ouvir. Melhor que as paredes que permanecem imóveis e tomadas de impáfia, indiferentes a qualquer emoção ou sem revelar compreensão.

Com o tempo, os segredos parecem aumentar. Guardo em segredo as tantas vezes que sonhei com você – como na noite passada. Não haveria razão para guardá-los, mas penso que te canso ou que pareço obcecado, quase um psicopata a lhe perseguir. Mas na verdade, quem me persegue é você. Não, estou sendo injusto. Nunca me sentiria perseguido por você e a cada vez que vens me visitar nos sonhos, acordo tomado de uma alegria inebriante, que guardo em segredo – apesar de já ter lhe contado isto.

Guardo em segredo as palavras ditas na solidão, o sorriso espontâneo que brota ao admirar uma foto tua, dialogando sozinho e tentando entender a complexidade da vida e dos sentimentos deste indomável e surpreendente órgão denominado coração.

Guardo em segredo as palavras escritas em algum caderno ou email – nunca enviado -, nalgum diário largado no fundo da gaveta, quando as palavras sufocam e transbordam, sendo impossível contê-las e domá-las.

Guardo em segredo minhas orações por ti, diárias, constantes, permanentes, rogando a Deus que te proteja, que te abençoe e te permita sempre sorrir.

Guardo cada segredo como uma moedinha, como uma criança que cuidadosamente deposita sua preciosa moeda no cofrinho, crente de que se transformará num baú do tesouro. 

No fim, os segredos perecem, são esquecidos, perdem a importância; no fim, os segredos apodrecem, nutrindo o solo fértil das lembranças e das memórias ricas de saudade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Arriscando o velho


Foi um vazamento no depósito localizado na garagem do prédio que me convidou a uma viagem ao passado. Guardadas em caixas de plástico, que protegera os inúmeros papéis da água que jorrava de um cano rachado, as memórias corporificadas em uma coleção de caixas de fósforo - do tempo em que se fumava -, programas do Jockey Club, um diário, um mapa de Chicago e região, jornais de competições esportivas universitárias, uma placa da porta da sala do meu avô no cartório, cartas, recortes, enfim coisas guardadas como num baú do tesouro.

As cartas despertaram maior curiosidade. Quando meus pais moraram nos EUA, em 1992, minha mãe escrevia-me regularmente a cada quinze dias. Eu, filho preguiçoso, só respondia algumas. Mas, guardei todas as cartas que ele me escreveu. Meus filhos releram todas as cartas e foram buscar fotos para ilustrar aquelas narrativas. Passamos a tarde toda revirando aquele baú e contando como era, como foi e como isto os afetou. Um exercício de tradição oral, uma pequena aventura de pesquisa histórica. 

Sempre gostei de conversar e ouvir histórias da minha avó, das minhas tias avós e dos mais velhos. Mesmo criança, ficava horas a conversar com meu avô perguntando sobre a infância dele, sobre o passado, sobre os bisavós. A curiosidade do passado sempre me aguçou e gosto de poder compartilhar isto com as novas gerações.

Parece-me que estas novas gerações, em que tudo é automático e imediato, tudo é acessível via google ou celular, começam a perder o sentido e o valor da pesquisa, do esforço, da curiosidade. Sempre há algum app para resolver o problema! 

Você pergunta a uma pessoa como se faz para chegar a um determinado lugar e ela responde que não sabe, foi seguindo o GPS. E o se o GPS falhar? E se o GPS estiver errado? Você ainda leva um mapa? Eu sou antiquado, recorro sempre aos mapas ainda que o GPS sirva para me auxiliar. Saberei o caminho mesmo sem GPS, pois o bom e velho mapa estará presente.  E saberei explicar para qualquer um que me perguntar como se chega a determinado lugar.

O velho nem sempre é antiquado e inútil. Não estou aqui a apregoar a volta do uso da máquina de escrever, mas a valorização de determinadas ferramentas que são muito atuais. 

Quando surgiu o email, muitos apregoaram o fim das cartas. As cartas físicas podem ter acabado, mas a escrita, a comunicação entre as pessoas não. Sempre se recorre ao bom e velho diálogo, quer por escrito, quer falado, quer via algum mecanismo de vídeo conferência. 

As pessoas continuam a se reunir em bares e ao redor da mesa das refeições para conversar, ouvir e interagir. a boa e velha conversa de amigos! Mas aqui há um inimigo novo. Como li outro dia, a pior solidão é estar acompanhado de alguém que tem um iphone. Infelizmente, é comum ver pessoas - até casais namorados - em restaurante em completo silêncio, absortos pelas telas de seus iphones ou smartphones. Talvez estejam conversando pelo whatsapp, msn, facebook, skype ou o que seja, mas não se olham. Arrisque o velho e bom olhar, deixe seu celular desligado durante um almoço, mostre à pessoa que está com você que ela merece sua integral atenção. Ganha você e ganha seu amigo!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Parabéns São Paulo!

459 anos de história, de vida, de amor, de tristeza, de conquista, de luta, de intensidade! Uma cidade por vezes odiada, por vezes maltratada, por vezes abandonada, mas cuja beleza disfarçada está pronta para ser descoberta por um olhar atento e carinhoso, um olhar de retribuição por tudo que Sampa nos dá.


Masp



Igreja de Santo Agostinho
Faculdade de Direito do Largo São Francisco
Sala São Paulo
Paulista à noite
Av. Paulista


Igreja Nossa Senhora do Brasil



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Que tal aventurar-se na escrita?




Oficina de Escrita Criativa - Crônica e Texto Livre. Próxima turma com inscrições abertas. Garanta sua vaga! 

Data de início: 18/02/13.

Vamos colocar as emoções e as ideias pra fora? Nesse módulo, cada exercício foi pensado visando despertar o lado direito do seu cérebro para novas possibilidades.

Acesse nosso site e inscreva-se: http://www.terapiadapalavra.com.br/


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Duas linhas


DUAS LINHAS

Silenciemos as palavras.
Escrevamos o amor com nossos corpos.