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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Poema VII, de Pablo Neruda


Poema 7



Inclinado en las tardes tiro mis tristes redes 
a tus ojos oceánicos. 

Allí se estira y arde en la más alta hoguera 
mi soledad que da vueltas los brazos como un náufrago. 

Hago rojas señales sobre tus ojos ausentes 
que olean como el mar a la orilla de un faro. 

Sólo guardas tinieblas, hembra distante y mía, 
de tu mirada emerge a veces la costa del espanto. 

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes 
a ese mar que sacude tus ojos oceánicos. 

Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas 
que centellean como mi alma cuando te amo. 

Galopa la noche en su yegua sombría 
desparramando espigas azules sobre el campo.


(Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Olhos oceânicos




Mergulhei nas profundezas de teus olhos oceânicos, naquela noite, enquanto contavas-me segredos escondidos e vertia lágrimas que enxugava com meus dedos, não deixando que elas percorressem seu rosto sem que lhe afagasse a face. Confortava-lhe, ouvia, condoía-me contigo. Percebi que há mais mistérios no mar além da superfície e que a superfície, aparentemente calma e impassível, escondia correntes, arrecifes, turbulências, tesouros, naufrágios, maremotos.

Seus olhos oceânicos disfarçavam bem o medo de nadar abaixo da superfície, do risco de ficar sem ar e sofrer de descompressão. 

Naquela noite entendi porque preferia o mar à montanha, a praia e o calor ao campo e à vida bucólica. O mar é revolto, inquieto, indomável; o campo é plácido, previsível, cíclico. O mar esconde-se por debaixo de sua superfície, com suas pequenas ondas e repiques que se manifestam com grandeza apenas nas praias e pedras do litoral. Assim era você. Assim é você. Um mar imenso a ser explorado, escondendo perguntas e respostas, muitas que sequer esperou para formular e outras tantas que não respondeu. Deixou-se levar pela corrente, sem tempo para pausas e devaneios e beijos,  sem paciência para esperar. 

Naquela noite percebi que seus olhos oceânicos não precisavam ser azuis para espelhar o mar sem fim. Bastava disfarçar o que guardas lá no fundo, onde a luz não alcança, onde não há oxigênio e a vida é escassa. Ali, naquele recanto de alguma fossa abissal, guardas o tesouro mais precioso que sua alma esconde. Sim, o mar tem alma e vida. Mas teus olhos oceânicos afastam intrusos e aventureiros, deixando apenas os experientes navegarem pelo teu mar, ainda que pereçam em alguma tempestade.

Qual canto da sereia, teus olhos oceânicos hipnotizam, seduzem e deixam os marujos inebriados com tua doçura, apenas para provar da ira e da dor do desterro. Não há desterro, porém, que traga arrependimento ao homem do mar. Aquele que prova dos teus olhos oceânicos, jamais te esquece.



PS: a referência a olhos oceânicos foi extraída de um poema de Pablo Neruda, que será publicado neste blog.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Poesia: La Reina, de Pablo Neruda



LA REINA

Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más altas.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, hay más bellas.
Pero tú eres la reina.


Cuando vas por las calles
nadie te reconoce.
Nadie ve tu corona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas donde pasas,
la alfombra que no existe.


Y cuando asomas
suenan todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas,
y un himno llena el mundo.


Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.

(Los versos del capitán. Barcelona : Random House Mondadori, 2003, p. 16)

O amor é temática recorrente em Neruda. Seus Vinte Poemas de Amor (15 e 20) são uma prova magistral da sensibilidade com que união de palavras resulta em algo novo e indescritível. La Reina (A Rainha) é um exemplo de como palavras simples, repetidas em tom melódico, descrevem o olhar apaixonado que é lançado sobre sua amada.

Quando vais pelas ruas 
Ninguém te reconhece

mas o "eu" apaixonado te avista de longe e os sinos tocam, os rios borbulham e a música enche o mundo. Somente eu e você somos capazes de escutar isto tudo. O casal apaixonado, o homem apaixonado escolheu sua rainha.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Pablo Neruda : A Lua no Labirinto



A LUA NO LABIRINTO


Pouco a pouco e também muito a muito

me aconteceu a vida,

e que insignificante é este assunto:

estas veias levaram

sangue meu que poucas vezes vi,

respirei o ar de tantas regiões

sem guardar para mim uma amostra de nenhum

e afinal de contas já o sabem todos:

ninguém leva nada de seu

e a vida foi um empréstimo de ossos.

O belo foi aprender a não se saciar

da tristeza nem da alegria,

esperar o talvez de uma última gota,

pedir mais ao mel e às trevas.


Talvez fui castigado:

talvez fui condenado a ser feliz.

Fique afirmado aqui que ninguém

passou perto de mim sem me compartir.

E que meti a colher até o cotovelo

numa adversidade que não era minha,

no padecimento dos outros.

Não se tratou de palma ou de partido

mas de pouca coisa: não poder

viver nem respirar essa sombra,

com essa sombra de outros como torres,

como árvores amargas que o enterram,

como pancadas de pedra nos joelhos.


A tua própria ferida se cura com pranto,

a tua própria ferida se cura com canto,

mas a tua porta mesmo se dessangra

a viúva, o índio, o pobre, o pescado,

e o filho do mineiro não conhece

o seu pai entre tantas queimaduras.

Muito bem, mas o meu ofício

foi

a plenitude da alma:

um ai de gozo que te corta a respiração,

um suspiro de planta derrubada

ou o quantitativo da ação.


Eu gostava de crescer com a manhã,

embeber-me de sol, com pleno gozo

de sol, de sal, de luz marinha e onda,

e nesse avanço da espuma

fundou meu coração seu movimento:

crescer com profundo paroxismo

e morrer se derramando na areia.


(Antologia Poética. trad. Eliane Zagury. 14a. ed. Rio de Janeiro : José Olympio, 1996, p. 229-230)


quinta-feira, 17 de maio de 2007

Poesia: Pablo Neruda

Uma pausa na correria e deixo-os com Pablo Neruda. Mais um soneto dos Cem Sonetos de Amor, que tão bem retrata como se fala mesmo no silêncio.


15

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e a minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem voado de ti
E parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
Emerges das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com a minha alma,
E pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando te calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
Claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesse morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E estou alegre, alegre de que não seja verdade.

(Antologia Poética. 14a. ed. bilíngue, trad. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1996, p. 44-5).

sábado, 21 de abril de 2007

Poesia: Pablo Neruda


Pablo Neruda é um dos maiores poetas latino-americanos. Nascido em 12 de julho de 1904, em Parral, soube cantar poeticamente o Chile e as Américas. Em 1945 esteve no Brasil e foi recepcionado na Academia Brasileira de Letras por Manuel Bandeira. Entre seus poemas há uma Ode ao Rio de Janeiro. Faleceu em 23 de setembro de 1973.


Em abril de 2000, quando fui ao Chile, visitei a casa de Neruda em Santiago. Toda decorada com motivos marítimos para manter viva na memória o clima de Isla Negra, outra casa de Neruda às margens do Pacífico.


Publicou Los Veinte Poemas de Amor y Una Canción Deseperada em 1924. O poema que aqui trago é o de número 20.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: 'A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe'.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a amei, e às vezes ela também me amou.

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me amou, às vezes eu também a amava.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.



Como para aproximá-la o meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.


A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas quanto a amei.
Minha voz procurava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
a minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."




(Antologia Poética. Trad. Eliane Zagury. 14a. ed.
Rio de Janeiro : José Olympio, 1996, p. 45-7)

Este curto poema me fascina. Sei-o praticamente de cor. Quantas vezes, contemplando as estrelas, estes versos não me afloraram. "Minha alma não se contenta em tê-la perdido" e "é tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.". Companhia para momentos de desilusão ou de simples reflexão numa noite estrelada.