Depois de avançar lentamente pela última obra de Dostoiévski que li (
Gente Pobre), hesitei em continuar minhas andanças pela literatura russa. Porém, restava apenas um livro dos que havia comprado na excelente Coleção Leste, da Editora 34. As traduções são primorosas e há sempre notas e posfácio, o que em muito auxilia o leitor novato.
O livro derradeiro era
Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nikolai Leskov, com tradução de Paulo Bezerra (São Paulo : Editora 34, 2009, 90 pg). Li o livro em uma semana e surpreendi-me com a narrativa ágil de Leskov, apesar do tom pesado e sombrio que ronda os eventos.
Leskov revisita Shakespeare com um toque peculiar russo. No posfácio, Paulo Bezerra explica que "a literatura como arte é um imenso diálogo que se processa em escala universal, e nesse diálogo cada literatura nacional acrescenta peculiaridades de sua história e de sua cultura a temas já representados em literaturas de outros países e em outras épocas, às vezes bem distantes. Assim, ao trazer para universo da literatura russa o tema do famoso drama de Shakespeare, Leskov recria em Catierina Lvovna traços bem semelhantes aos de Lady Macbeth, fazendo-o, porém, à luz da violenta história da Rússia." (p. 86)
Publicado inicialmente em 1865, a obra aborda a vontade humana e a determinação por se atingir um objetivo específico, ou se conquistar determinada posição ou alcançar o poder, ultrapassando e desconsiderando qualquer reflexão de ordem moral acerca da correção de sua conduta. A temática pode ser trivial, mas na mão de um mestre da escrita, o trivial ganha traços de grande obra e ganha notas de atemporalidade.
Catierina Lvovna é esposa de um velho comerciante. A jovem, entendiada e sem filhos, transforma-se, com o passar da narrativa, de esposa submissa em uma fria assassina.
"Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau." (p.77)
A maldade cria suas raízes no campo fértil de uma jovem e frustrada mulher; as raízes se espalham e contaminam todo o ser, sufocando o bem e deixando emergir uma mulher transformada - e transtornada.O tema é universal e atual, e a leitura desta excelente obra é muito prazerosa.