terça-feira, 22 de agosto de 2017
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Lavar louça
"Foi numa noite lavando louça, enquanto Alice dormia no sofá, que ele se deu conta da banalidade do amor."
(trecho de conto inédito by Renato Bueloni Ferreira)
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terça-feira, 2 de maio de 2017
Beatriz Bracher e a condição feminina
O que significa "condição feminina" para você?
"No meu livro mais recente, ao escrever, percebi que esse era um tema dos mais fortes. Quis que fosse assim, conscientemente. Nos outros livros não. Para mim é muito difícil lidar com estas expressões, seja "condição feminina"ou uma ideia contemporânea de que o feminismo é das mulheres e não dos humanos, sabe? Essa coisa de que as mulheres têm que falar, têm que ter espaço. Na minha cabeça, mulheres e homens têm que falar sempre, mas entendo e sei que não é um caminho "errado". Mas é diferente do meu caminho. Tenho um pensamento que talvez não seja tão estratégico. Por isso tenho medo de criticar. Acho que as feministas têm um pensamento muito estratégico e isso nem sempre reflete uma busca de verdade. Acho que reflete uma busca da justiça. E num país como o nosso, que tem tanta violência contra a mulher, acho que elas, as feministas estão certas. Acho que a luta é esta e tem que ser desta forma. Mas alguém que é uma ficcionista não pode seguir esse caminho. Tem que complicar as coisas. Tem que virar um pouco do avesso. Colocar o homem no meio. No livro, o que eu fui descobrindo, ao escrever, lendo Milton, pensando sobre Adão e Eva, é que a condição do machismo, a cultura machista que a gente vive, faz com que todos nós estejamos sujeitos a ela. É uma cultura em que a mulher oprimida sim, mas o fato de o homem ser o opressor não quer dizer que ele também não foi levado a esse caminho. Há uma forma de violência nisso. De você ter sido levado a ser opressor. É muito difícil reconhecer isso. Às vezes você tem atitudes que nitidamente revelam que o homem é mais "forte" que a mulher, o que faz parte de um sistema de crenças. Abrir a porta do carro para mulher entrar, por exemplo, é do nosso sistema de crenças, uma gentileza. Daí a você chamar uma pessoa que tem um gesto machista, de machista, eu acho inverídico, mentiroso. E a gente sabe que é mentiroso. Só que estrategicamente é muito interessante você radicalizar, ser muito agressivo em relação a essas coisas, mesmo que não sejam verdades, porque no jogo político você lida com inverdades. Condição feminina para mim é como as mulheres vivem hoje no mundo inteiro em todas as classes. E a condição é ruim porque tem muita opressão, sofrimento e injustiça. São muitas visões. Uma é a de quem está na luta política. A de uma ficcionista é outra."
(Vila Cultural, edição 156, abril 2017, p. 8-9)
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Renato
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quinta-feira, 16 de março de 2017
Armadas e perigosas
A manhã de verão é cinza e regada por uma chuva constante que abafa o
atrito dos carros nas ruas e o ronco dos ônibus acelerando. A chuva obriga
todos a sacarem sua mais perigosa e poderosa arma: o guarda-chuva.
Visto do alto de algum prédio em uma movimentada avenida, parecem
coreografados, em diversas cores e estampas, bolinhas, desenhos, marcas,
listras. Numa São Paulo de outrora, eram todos pretos, sisudos e carregados por
senhores usando chapéus. Na sampa moderna, o guarda-chuva ganhou cor, passou a
ser fabricado na China e surgem no mais impressionante fenômeno de geração
espontânea às portas do metrô com camelôs vendendo 1 por 10, 2 por 18 e 3 por
25. Basta começar a chover, que aparecem num passe de mágica.
![]() |
| Os guarda-chuvas, Renoir |
Mas toda a beleza e serenidade da dança dos guarda-chuvas na cidade
banhada pela chuva transmuda-se em aventura radical e perigosa. Se você, caro
leitor, tem pouco mais de 1,75m, com certeza irá se deparar com as perigosas
agentes armadas de uma arma letal: o guarda-chuva. Sim, ele pode ser usado para
lhe tirar a vida. Sejamos mais realistas, podem lhe cegar, causar alguns
hematomas, mas matar seria um exagero.
Vou revelar a identidade secreta destas agentes perigosas, que armadas
vagueiam por dias chuvosos escondidas debaixo de seus guarda-chuvas. Refiro-me
às senhoras idosas e a todo e qualquer cidadão com menos de 1,65m e que ande
com o guarda-chuva praticamente colado na cabeça. Ao caminhar pela calçada,
estas agentes não desviam – e também não te veem. É preciso ficar esperto para
desviar dos pontiagudos ferros que seguram o plástico da camada protetora do
pedestre. Estas agentes caminham em linha reta, obrigam-no a sair debaixo de
marquises e lançam qualquer pedestre que vier em sentido contrário no meio da
rua. E se você reclamar, é capaz de levar uma guarda-chuvada na cabeça ou no
braço.
Repare, meu caro leitor, como o ato de caminhar por uma rua movimentada
num dia de chuva pode ser uma perigosa aventura. Qualquer dia algum prefeito
ainda vai inventar o rodízio de guarda-chuva definido por data de aniversário:
dias ímpares para quem nasceu em dia ímpar e dia par para quem nasceu em dia
par. E ai de quem reclamar!
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Renato
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
A sabedoria de Adélia Prado
O trecho é extraído do Valor Econômico, Caderno Eu&, de 3 de fevereiro de 2017, p. 23, em entrevista concedia por Adélia Prado à jornalista Andrea Jubé.
"(...) Pergunto o que ala acha das feministas. 'O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras.'
E prossegue: 'A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê mulheres se tornarem companheironas dos homens', critica. 'É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher.'"
Adélia Prado nos brinda com palavras de sabedoria, com uma simples reflexão que tem sido sufocada por bandeiras e agendas e palavras de ordem. No meio da gritaria, surge a voz da lucidez.
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Renato
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
O filhote da propina
Final de ano e a ladainha se repete. Uma infindável lista de
generosos e eficientes prestadores de serviço batem à sua porta com cartões
natalinos e pedidos de caixinha. Em qualquer padaria, cafeteria, lanchonete e
no comércio em geral, pequenas caixas vistosas proliferam nos balcões e ao lado
dos caixas. Os nomes podem variar. Alguns chamam de caixinha, livro de ouro,
lembrança de natal, bônus, presente...todos, não importa o rótulo que lhe seja
dado, são na verdade uma forma disfarçada de propina.
Sim, meus caros, não vou poupar nenhum deles com compaixão
ou condescendência. Digo de forma clara: eu não dou caixinha! Acho um absurdo,
um achaque, afinal você paga um valor adicional ao que você já pagou para que o
serviço seja prestado de forma adequada. É obrigação do funcionário prestar o
serviço para o empregador e prestá-lo bem! Se você deixar de pagar o
empregador, o funcionário pode perder o emprego e aí você fica livre da
caixinha.
A lógica é cruel, mas simples e verdadeira. Dar caixinha é
sinônimo de pagar duas vezes pelo mesmo serviço. Se você se revolta com as
operadoras de telefonia, com a banda larga que não entrega a velocidade
prometida, com o banco que cobra tarifas abusivas, você não deveria dar
caixinha.
Pensem um pouco: a caixinha é uma versão em escala micro do
caixa 2, da propina da Odebrecht, da Camargo Correa, da Braskem, da OAS...
Caixa 2 é toda aquela receita que a pessoa jurídica esconde para não pagar
imposto. O prestador de serviço que recebe a caixinha de natal também não vai
declarar ao fisco o recebimento, logo, haverá sonegação e você, meu amigo, pode
ser considerado cúmplice desta conduta.
Tudo bem, ninguém vai te pegar, mas você já pensou que as
duas condutas são análogas? Por que será que condenamos aqueles simpáticos
senhores que estão passando uma temporada num aprazível presídio nos arredores
de Curitiba e não condenamos o porteiro, o zelador, o manobrista, o entregador
de jornal – aliás, profissão em extinção -, o gari, o entregador de água e a
lista não acaba nunca.
Talvez eu esteja meio revoltado, talvez esteja me faltando
espírito natalino, mas se o momento é de mudança no Brasil, devemos fazer nossa
parte. E de minha parte, não dou caixinha para ninguém!
Sugiro que cada pessoa, ao invés de dar caixinha, doe o
valor para uma instituição de caridade, uma ONG, uma entidade beneficente, um
grupo na igreja. Há várias entidades que precisam de recursos para doar cestas
básicas e itens básicos para famílias carentes que realmente precisam. Estes verdadeiramente
precisam de uma caixinha de Natal!
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Conto: Olhar Furtivo
OLHAR FURTIVO
Foi ela quem primeiro puxou papo. No mundo conectado por aplicativos, solitários vagam pelos corredores e vitrines do mundo virtual usando seus celulares como instrumentos de caça. Feito o match, ela não tardou a chamá-lo. Ele preferia esta virtualidade, que domava sua timidez sufocante. Se a encontrasse num café, lendo um livro, sozinha, não puxaria assunto. Ficaria com medo, desviaria o olhar constrangido. Poderia ser considerado assédio, abuso, uma conduta inapropriada, não saberia nem como começar a conversar. Um simples "oi" poderia ser tido como ofensivo, ainda mais se ela fosse uma feminista, empoderada, daquelas que luta contra a cultura do estupro, que grita aos quatro cantos "meu corpo, minhas regras", que vê golpe em cada decisão judicial que reafirma a Constituição, que proclama "Fora, Temer", mas no fundo da alma, sente um desejo enorme de não pensar assim.
Foi ela quem soltou o primeiro "oi" e ele respondeu. Ela logou alertou: "sou de esquerda!". Assustou-se, mas aqueles olhos castanhos sorriam-lhe. Engoliu seco e deixou a serenidade tomar-lhe a alma. Ela pensava de forma diametralmente oposta à dele, mas havia algo que aplainava as ideias tão discrepantes. Em meio à ebulição política dos tempos de impeachment, ele foi cauteloso com as palavras. Evitaria temas políticos e tentaria decifrá-la. Marcaram um primeiro encontro.
- Não gosto de italiano. Prefiro algo mais leve no almoço.
Versátil em termos gastronômicos, a culinária pouco lhe importava. Queria desvirtualizar a conversa e deixaria que ela escolhesse o lugar. A curiosidade, tão própria nas mulheres, estava aguçada e começara a montar, peça por peça, o perfil da bela mulher cujo caminho cruzava o dele.
Ela se atrasou. Ele tinha certeza que isto ocorreria. Errara o caminho, avisou pelo celular. A espera tem sempre o condão de aumentar a expectativa. Tentou manter-se calmo, composto, sereno, domando a ansiedade.
Quando ela chegou, apressada, desculpando-se pelo atraso, ele sorriu, "não tem problema, não tinha mesa, sentei faz pouco" - uma leve mentira para amenizar o atraso. Começou a narrar que havia subido a Consolação, ao invés de vir pela Campinas e que o trânsito na Santos estava horrível. Ele observava cada gesto, cada palavra, divertindo-se com as explicações dela como se ele fosse algum dignatário importante, mas para ele, quem fazia o favor de estar ali era ela a compartilhar com ele o almoço.
Deixou-a falar, contando do trabalho, das pesquisas, das viagens. Com olhar furtivo, quando ela mirava pela ampla janela do restaurante, ele reparava nos seus cabelos, no sorriso contido, nas unhas pequenas, nas curvas do rosto, nos óculos que ajeitava com charme natural. Discreta, contida, mas vibrante. Cada palavra era dita com intensidade, uma vivacidade que ultrapassava a mera vibração das cordas vocais e preenchia o ambiente com fogo. A indignação não se media pela frustração com o que destino lhe oferecia, mas em como teria de lutar para mudar o presente e assim construir um futuro muito diverso do atual.
Ela não discursava, falava com fluência e segurança, sorrindo de forma esporádica, com um toque melancólico. Talvez cética fosse a palavra mais adequada a descrever o estado de espírito dela. Estava desacreditada do que acontecia no país. Esbravejou contra a professora que lhe roubara o projeto de pesquisa sem a menor cerimônia e ele notou o desgosto disfarçado pelo discurso de fatalidade.
- Coisas do mundo acadêmico! - desabafou.
Percebeu que sentia enorme prazer naquele diálogo, em ouvir cada narrativa, cada reclamação, cada crítica, cada comentário. Manteve-se receptivo, mas muito reservado. Deixava o olhar ser seu único instrumento invasivo. Quando ela ajeitou os cabelos longos, perdeu-se por alguns segundos contemplando o ombro esquerdo desnudo, quando a blusa escorregou e revelou um pouco mais da pele. Imaginou a textura, o cheiro, a temperatura, mas logo se recompôs do devaneio que claramente seria inadequado a este encontro. Ao menos no primeiro encontro, pensou.
Na despedida, na calçada movimentada, barulhenta, poluída da metrópole, olhou-o nos olhos e disse com firmeza:
- Não vai sumir!
E abraçou-o, delatando o grito silencioso de fragilidade, a súplica que tentara esconder, mas que a mão acariciando as costas dele denunciavam. O enlace dos braços lhe dava um confortante sentimento de segurança, carinho e afeto que ele deixara transparecer e agora confirmava com o demorado abraço. A solidão se esvaia e o vazio era preenchido.
- Não vou sumir. - respondeu acolhedor. E ela, depois daquele encontro, mudou-se para a França.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Quebrando barreiras
O vídeo é extramente ilustrativo e quebra barreiras do pensamento chapado que vem ganhando espaço em mentes obtusas.
terça-feira, 24 de maio de 2016
Águas passadas
Sonhei com você noutra noite. Sentada num canto de uma sala, sorria com um copo de vinho na mão. Mirava-me, silenciosa, mas transparecia uma alegria serena. De longe, olhei-te, sorri de volta, mas não acenei. Não iria tomar a iniciativa de abordar-te e romper teu desejo expresso no passado e de forma tão contundente. Tiveste força para me calar. Eu nunca calei tua voz dentro de mim. E vez por outra, como no acaso de um encontro casual, visitas-me com teu olhar distante e levemente melancólico, um olhar que sempre parecia gritar por socorro.
Não queimei os poucos retalhos que guardei, não formatei o HD. Na verdade, o HD se autodestruiu, uma daquelas panes inesperadas que levaram junto arquivos, contatos, fotos, textos, memórias. Curioso como uma máquina é capaz de simplesmente apagar anos de trabalho que ali estavam armazenados. Voltei a confiar no meu HD mental, na memória que agora armazena variantes de gambitos, sicilianas e Ruy Lopez. A criatividade se desenrola num tabuleiro, onde tenho um pouco mais de controle sobre o que se passa. Quando algo dá errado, a culpa é só minha e de algum erro de cálculo. A vida tem suas inesperadas mudanças.
Acordei sem sentir saudades. O tempo passou, as águas correram e o sentimento se desfez. Ou talvez esteja apenas adormecido na noite fria que avança.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Carlos Drummond de Andrade : Ontem
| Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni |
ONTEM
Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.
De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.
Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.
Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado
não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.
(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)
No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevam, dissipem e leiam poesia.
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Renato
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