Mostrando postagens com marcador haruki murakami. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador haruki murakami. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um trecho de Murakami

A foto é do blog Fifties.


"Ela interrompe a leitura e volta-se para a janela, que, do segundo andar, permite observar o movimento lá embaixo. Apesar do horário, as ruas ainda estão bem iluminadas e é grande o número de pessoas que vêm e vão. Pessoas que têm para onde ir e as que não têm. Pessoas que têm objetivos e as que não têm. Pessoas que tentam parar o tempo e as que querem acelerá-lo. Ela observa por algum tempo a cidade sem nexo e procura concentrar-se em respirar com serenidade, para depois voltar novamente às páginas do livro."
(Haruki Murakami. Após o Anoitecer.  Tradução do japonês  Lica Hashimoto. Rio de Janeiro : Objetiva, 2009, p. 10)

Pessoas. Estamos cercados de pessoas. Cruzamos com dezenas, centenas ou milhares ao longo de um dia. No trânsito, no metrô, no ônibus ou caminhando pela rua. Rostos que sequer permitem o cruzamento de olhares. Pessoas que seguem suas vidas. Algumas com objetivos, outras sem qualquer rumo. A janela é uma perfeita metáfora para os olhos que inundam o interior com imagens, matéria-prima da produção de sentimentos. Olhos que, como a janela, são uma defesa do que guardamos no interior, que se fecham quando não se quer ver e que sabem esconder o que não queremos revelar.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma noite para Murakami



“- O que exatamente você quer dizer com criar alguma coisa de verdade?

- Como posso explicar... Quando a música que você interpreta consegue tocar lá no fundo do coração das pessoas, tanto o corpo de quem toca quanto o de quem ouve, com sutileza, se desloca fisicamente. É conseguir criar esse verdadeiro estado de comunhão. Acho que é isso.”
(Após o Anoitecer. Trad. Lica Hashimoto. Rio de Janeiro : Objetiva, 2009, p. 97)

Basta o período de uma noite para que o escritor japonês, Haruki Murakami, enverede pelo relacionamento entre duas irmãs. Após o Anoitecer é seu 11o. romance e foi lançado em 2009, publicado no Brasil pela Editora Obejtiva (Alfaguara).

O autor narra a estória de duas irmãs. Mari Asai é uma garota que se refugia na solidão em busca de solucionar um conflito interno e lidar com a preferência dos pais pela irmã. Eri Asai é uma modelo de revistas femininas, bonita, popular, bem sucedida. A competitividade do ambiente familiar,  ainda mais acerbada numa família japonesa, conduzem Mari ao ostracismo e a uma série de questionamentos que são precipitados com os personagens que cruzam seu caminho.

Takahashi é o principal deles. Conduz Mari pela noite, intrometendo-se na vida dela, como um anjo que invade sua vida sem ser convidado. O passado difícil de Takahashi e suas conclusões auxiliam Mari a indagar se Eri é realmente feliz por detrás da fama e das aparências de felicidade. 

O avançar dos ponteiros do relógio são um indicativo de que a noite é um período de reflexão e mudança, um período de escuridão na alma de Mari que aos poucos se dissipa com o surgimento da luz matinal.  

Murakami utiliza com maestria constantes referências musicais, principalmente do jazz, para adicionar relevo aos ambientes e criar um clima auditivo para o estado de espírito de seus personagens. Sua narrativa é ágil e sem excessos descritivos desnecessários, o que parece que o autor segue à risca a recomendação de não utilizar palavras desnecessárias no romance.

O resultado final é um romance que trata de relacionamentos humanos, da complexidade e da beleza destes relacionamentos e como o acaso é fundamental para descobrir aqueles recônditos escuros do nosso interior. Enfim, trata-se de leitura altamente recomendável.