foto @rbueloni |
Perambulando por aí
Eu gosto de viajar. Cada viagem é repleta de observações,
descobertas, encantamentos, encontros, aprendizados. Por pior que seja o
destino, algo de bom sempre agrega. Sempre há algo novo, mesmo quando se trata
de uma viagem a trabalho, quando envolve alguma tensão por questões profissionais.
O destino não precisa ter charme e nem ser desejado por turistas. O que importa
ao viajar é apreciar a jornada, contemplar o local, enfrentar o novo e o
desconhecido com serenidade e sem medo, trazer na bagagem boas lembranças, boas
conversas e boas recordações.
Viajo bastante. Nesta altura da vida, viajo mais a passeio
do que a trabalho, se bem que sempre curti viajar a trabalho também. Aprendi
que a avaliação de uma viagem e de um local é sempre algo muito subjetivo.
Na última viagem, fui a Recife para descansar por uns dias. Fazia
tempo que queria voltar a Pernambuco, mas o preço alto da passagem impedia uma
viagem curta a passeio, mas isto é tema para outro artigo. Fiquemos no descano.
Foram dias de ritmo mais lento, sol a pino e muita cultura. Visitei a espetacular
Oficina de Cerâmica de Francisco Brennand e o museu do Instituto Ricardo
Brennand. Estes dois lugares já valem a ida até a Veneza Brasileira. Boa
comida, povo acolhedor, arquitetura colonial no Recife Antigo, modernidade em
Boa Viagem e no cais revitalizado.
Renovei as energias para enfrentar a reta final do ano.
Avião lotado e um voo tranquilo de pouco mais de 3 horas. Vim na janela a
contemplar a paisagem na decolagem e depois o por do sol. Gosto de aproveitar
este silêncio nas alturas e apenas deixar-me maravilhar pela explosão de cores
no céu. Tons de laranja, azul e amarelo se misturam, até ceder à primeira
estrela desponta no céu escuro. Vem a noite e mais um dia termina.
O avião saiu das nuvens sobre a Marginal Pinheiros, na
altura da ponte Cidade Jardim. Algo de
inesperado aconteceu. Avistei o trânsito na Marginal e fui tomado de um
sentimento cálido e acolhedor de voltar para casa. Era quase um abraço afetuoso,
como se uma cidade pudesse abraçar. Senti-me em casa, de volta ao lar e ao
mesmo tempo veio a saudade de não poder contar da viagem para minha mãe. Pode
parecer rídiculo que um homem de mais de 50 anos ainda pense assim quando volta
de viagem, ou quando come um prato que a mãe gostava. Tive vontade de
contar-lhe sobre a língua o molho madeira que comi no Restaurante do Leite,
sobre as igrejas barrocas preservadas, sobre a cerâmica trabalhada e desenhada
por Francisco Brennand. Não posso mais contar-lhe sobre minhas viagens. Ela
tinha paciência para me ouvir. Perguntava com atenção e sempre lhe trazi uma
lembrancinha. O bolo de rolo desta vez será consumido por mim.
Desta vez, contei-lhe sobre a viagem enquanto o avião pousava
e tocava a pista de Congonhas, os olhos marejados, mas feliz por ter tido você
na minha vida.