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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Perambulando por aí

 


foto @rbueloni


Perambulando por aí


Eu gosto de viajar. Cada viagem é repleta de observações, descobertas, encantamentos, encontros, aprendizados. Por pior que seja o destino, algo de bom sempre agrega. Sempre há algo novo, mesmo quando se trata de uma viagem a trabalho, quando envolve alguma tensão por questões profissionais. O destino não precisa ter charme e nem ser desejado por turistas. O que importa ao viajar é apreciar a jornada, contemplar o local, enfrentar o novo e o desconhecido com serenidade e sem medo, trazer na bagagem boas lembranças, boas conversas e boas recordações.

Viajo bastante. Nesta altura da vida, viajo mais a passeio do que a trabalho, se bem que sempre curti viajar a trabalho também. Aprendi que a avaliação de uma viagem e de um local é sempre algo muito subjetivo.

Na última viagem, fui a Recife para descansar por uns dias. Fazia tempo que queria voltar a Pernambuco, mas o preço alto da passagem impedia uma viagem curta a passeio, mas isto é tema para outro artigo. Fiquemos no descano. Foram dias de ritmo mais lento, sol a pino e muita cultura. Visitei a espetacular Oficina de Cerâmica de Francisco Brennand e o museu do Instituto Ricardo Brennand. Estes dois lugares já valem a ida até a Veneza Brasileira. Boa comida, povo acolhedor, arquitetura colonial no Recife Antigo, modernidade em Boa Viagem e no cais revitalizado.

Renovei as energias para enfrentar a reta final do ano. Avião lotado e um voo tranquilo de pouco mais de 3 horas. Vim na janela a contemplar a paisagem na decolagem e depois o por do sol. Gosto de aproveitar este silêncio nas alturas e apenas deixar-me maravilhar pela explosão de cores no céu. Tons de laranja, azul e amarelo se misturam, até ceder à primeira estrela desponta no céu escuro. Vem a noite e mais um dia termina.

O avião saiu das nuvens sobre a Marginal Pinheiros, na altura da ponte Cidade Jardim.  Algo de inesperado aconteceu. Avistei o trânsito na Marginal e fui tomado de um sentimento cálido e acolhedor de voltar para casa. Era quase um abraço afetuoso, como se uma cidade pudesse abraçar. Senti-me em casa, de volta ao lar e ao mesmo tempo veio a saudade de não poder contar da viagem para minha mãe. Pode parecer rídiculo que um homem de mais de 50 anos ainda pense assim quando volta de viagem, ou quando come um prato que a mãe gostava. Tive vontade de contar-lhe sobre a língua o molho madeira que comi no Restaurante do Leite, sobre as igrejas barrocas preservadas, sobre a cerâmica trabalhada e desenhada por Francisco Brennand. Não posso mais contar-lhe sobre minhas viagens. Ela tinha paciência para me ouvir. Perguntava com atenção e sempre lhe trazi uma lembrancinha. O bolo de rolo desta vez será consumido por mim.

Desta vez, contei-lhe sobre a viagem enquanto o avião pousava e tocava a pista de Congonhas, os olhos marejados, mas feliz por ter tido você na minha vida.